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	<title>Papo de Homem &#187; Crônicas e contos</title>
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	<lastBuildDate>Thu, 24 May 2012 17:00:13 +0000</lastBuildDate>
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		<title>A Primeira Imagem que Vazou</title>
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		<pubDate>Sat, 12 May 2012 03:06:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rob Gordon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>
		<category><![CDATA[Humor]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>— Senhor? — Adão na linha oito. — Pode passar. — Pronto. — Alô? — Deus? — Mais ou menos. — O que houve? — Eu gostaria de saber se o Senhor pode me ajudar com um processo. — Processo? — Isso. Eu vou processar os macacos aqui do Paraíso. — Mas por quê? — Porque eles ficam espalhando imagens minhas por aí. — Que imagens? — Imagens&#8230; Bem&#8230; Imagens [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>— Senhor?</p>
<p>— Adão na linha oito.</p>
<p>— Pode passar.</p>
<p>— Pronto.</p>
<p>— Alô?</p>
<p>— Deus?<span id="more-58034"></span></p>
<div id="attachment_58041" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><a href="http://papodehomem.com.br/a-primeira-imagem-que-vazou/dudephone3/" rel="attachment wp-att-58041"><img class="size-full wp-image-58041" title="the-dude-phone" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/05/dudephone3.jpg?95884c" alt="A primeira imagem que Vazou" width="620" height="506" /></a><p class="wp-caption-text">— Oi, Adão... Tudo em paz?</p></div>
<p>— Mais ou menos.</p>
<p>— O que houve?</p>
<p>— Eu gostaria de saber se o Senhor pode me ajudar com um processo.</p>
<p>— Processo?</p>
<p>— Isso. Eu vou processar os macacos aqui do Paraíso.</p>
<p>— Mas por quê?</p>
<p>— Porque eles ficam espalhando imagens minhas por aí.</p>
<p>— Que imagens?</p>
<p>— Imagens&#8230; Bem&#8230; Imagens íntimas.</p>
<p>— Adão, você pode explicar melhor? Contando desde o começo?</p>
<p>— É o seguinte: os macacos entraram na minha caverna semana passada. Em uma das paredes tinha uns desenhos que a Eva e eu fizemos e que mostravam&#8230; Bem&#8230;</p>
<p>— Eu imagino.</p>
<p>— Então, é isso mesmo que o Senhor imaginou. O que os macacos fizeram? Eles arrancaram aquele pedaço da caverna, com o desenho. E agora ficam copiando tudo em folhas de bananeira e espalhando por aí!</p>
<p>— Para os outros animais?</p>
<p>— Isso! E sem a minha autorização! Eu vou processar todo mundo!</p>
<p>— Mas as imagens são tão comprometedoras assim? Afinal, são apenas desenhos&#8230;</p>
<p>— Não importa! Eu estou pelado em algumas delas!</p>
<p>— O que não quer dizer muito, certo?</p>
<p>— Como assim?</p>
<p>— Bem, você passa o dia andando para lá e para cá usando somente uma folha de parreira. Vamos ser sinceros aqui, Adão. Você fica praticamente pelado o tempo todo!</p>
<p>— Sim, mas aí que está! Há uma folha de parreira! Eu não ando pelado por aí! Nem autorizei as pessoas a espalharem imagens minhas pelado!</p>
<p>— Agora, você quem fez os desenhos&#8230; Você quem deixou os macacos entrarem na sua caverna. Você deveria tomar mais cuidado.</p>
<p>— Vem cá, o Senhor está do lado de quem?</p>
<p>— De lado algum. Eu não vou me meter nisso, Adão. Vocês aí embaixo que resolvam.</p>
<p>— Bem, estou ligando a pedido do meu advogado. Ele quer saber se o Senhor não pode testemunhar a meu favor?</p>
<p>— Testemunhar?</p>
<p>— Sim. Afirmar no tribunal que eu não tenho o hábito de andar pelado por aí. Segundo ele, como eu uso uma folha de parreira, espalhar imagens minhas pelado pelo Paraíso caracteriza invasão de privacidade.</p>
<p>— Adão, eu não vou me envolver com isso.</p>
<p>— Bem, ele disse que o Senhor gostaria de testemunhar. Além de todo aquele lance da justiça, parece que isso iria inaugurar o termo Jeová por Testemunha.</p>
<p>— Jeová por Testemunha?</p>
<p>— Jeová por Testemunha, Testemunha de Jeová, algo assim. Não lembro ao certo.</p>
<p>— Não, isso é outra coisa. Aliás, isso nem existe ainda.</p>
<p>— Bem, foi o que o meu advogado falou. De acordo com ele, se eu ganhar o processo, eu posso ficar com uma indenização não apenas dos macacos, mas de todos os outros animais que espalharam as imagens.</p>
<p>— Espere. Deixe-Me ver se entendi. Você vai ser indenizado pelos animais que mostraram aos outros os desenhos que você mesmo fez de você pelado?</p>
<p>— Isso mesmo! Estou pensando em cobrar tudo em cocos!</p>
<p>— Quem é o seu advogado?</p>
<p>— É uma cobra que está sempre andando por aí. E ela falou que os honorários dela são bem pequenos, basta apenas uma maçã ou algo assim. Vai sair de graça.</p>
<p>— Cobra? Maçã?</p>
<p>— Isso. Eu tenho o cartão dele aqui. Está aqui. Advogado do Diabo. Mas não tem telefone, ele disse que vai entrar em contato comigo.</p>
<p>— Adão, eu não quero ver você falando com esta cobra!</p>
<p>— Mas eu não tenho alternativa! Todo mundo está rindo de mim por que&#8230; Bem&#8230; Eu disse a Eva que não queria ser desenhado naquela noite! Estava frio e eu tinha acabado de sair do lago. Então, eu estava&#8230; Minha anatomia&#8230; Bem&#8230; Enfim, agora, eu sou motivo de piada no Paraíso inteiro! Vou processar todo mundo!</p>
<p>— Adão, não fale mais com esta cobra! É uma ordem! E não chegue perto das macieiras!</p>
<p>— Mas como eu vou pagar o advogado?</p>
<p>— Vamos fazer assim. Esquece o processo. Eu resolvo isso.</p>
<p>— Como?</p>
<p>— Não importa.</p>
<p>— Claro que importa. Não adianta nada o Senhor castigar os macacos! As folhas de bananeira ainda estão por aí!</p>
<p>— Adão?</p>
<p>— Sim?</p>
<p>— Eu resolvo. Mas não fale mais com a serpente.</p>
<p>— Isso é o tal testemunha de Jeová?</p>
<p>— Não. Esquece este termo. Até o final do dia e estará tudo resolvido.</p>
<p>— Bem, se o Senhor diz&#8230;</p>
<p>— Confie em mim.</p>
<p>— Certo.</p>
<div id="attachment_58045" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><a href="http://papodehomem.com.br/a-primeira-imagem-que-vazou/battle-of-evermore_angels/" rel="attachment wp-att-58045"><img class="size-full wp-image-58045" title="guerra-anjos" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/05/battle-of-evermore_angels.jpg?95884c" alt="A primeira imagem que vazou" width="620" height="370" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;A casa caiu, macacada! Todo mundo pro chão. Pro chão!&quot;</p></div>
<p>Logo depois do almoço, um grupo de anjos armados com espadas de fogo desceu até o Paraíso e começou a interrogar os animais. Diversos macacos foram expulsos do paraíso, junto com um leopardo que se recusava a entregar a folha de bananeira que mostrava Adão pelado.</p>
<p>Mas a investigação aconteceu de forma tranquila, exceto no momento de interrogar as hienas, que apenas davam risada sempre que eram questionadas pelos anjos – até hoje, ninguém sabe se elas estavam rindo de Adão ou se estavam apenas fazendo aquilo que as hienas fazem. Mas aparentemente, elas não tinham nenhuma folha de bananeira com elas.</p>
<p>Assim, todas as imagens foram queimadas pelos anjos, e a Adão voltou a curtir sua privacidade.</p>
<p>Claro que a serpente não devolveu a folha de bananeira que estava em seu poder, pois algo lhe dizia que aquilo ainda lhe seria útil.</p>
<p>Afinal, o mundo já havia sido criado há dias. Já estava mais do que na hora de alguém inventar a chantagem.</p>
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<p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Troll e o legado da miséria de espírito</title>
		<link>http://papodehomem.com.br/troll/</link>
		<comments>http://papodehomem.com.br/troll/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 09 May 2012 02:21:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rodolfo Viana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>
		<category><![CDATA[PdH Shots]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>No futuro, quando arqueólogos e escafandristas procurarem vestígios da nossa civilização – nossos filhos já não estarão aqui, assim como os filhos deles e os frutos destes –, serão encontrados mais do que ossos e pedaços de pano puído, placas-mãe enferrujadas e resquícios de smartphones. Acharão, no meio do nosso legado de bytes brutalmente construído [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No futuro, quando arqueólogos e escafandristas procurarem vestígios da nossa civilização – nossos filhos já não estarão aqui, assim como os filhos deles e os frutos destes –, serão encontrados mais do que ossos e pedaços de pano puído, placas-mãe enferrujadas e resquícios de smartphones. <span id="more-57947"></span>Acharão, no meio do nosso legado de bytes brutalmente construído neste começo de século, os comentários que deixamos por aí quando vestidos das armas do troll.</p>
<p>No <a href="http://www.youtube.com/watch?v=UAaEw_EB7Ws" target="_blank">vídeo do garoto de 17 anos que descobre ter pouco tempo de vida</a> e deseja apenas se despedir dos entes amados, lerão “cale a boca e se mate”. Naquele dos <a href="http://www.youtube.com/watch?v=CQo2FJPLeQk" target="_blank">quadrigêmeos que riem de maneira deliciosa</a>, verão os 149 dislikes. No <a href="http://www.youtube.com/watch?v=8lUcbN0_Nhg" target="_blank">vídeo dos irmãos negros que cantam música gospel</a> e desafinam e gritam e riem e se divertem, reconhecerão todo o preconceito ainda em voga na frase “quem acha que o garoto parece um macaco dá joinha”.</p>
<p>Os tais arqueólogos e escafandristas irão sorrir. Estarão satisfeitos com a extinção da nossa civilização.</p>
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<p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>É o outono que eu quero esquecer</title>
		<link>http://papodehomem.com.br/e-o-outono-que-eu-quero-esquecer/</link>
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		<pubDate>Wed, 02 May 2012 03:02:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jader Pires</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Lá se foi mais um verão. O calor terminou, acabaram-se os lindos diminutivos femininos. Agora, começou a pior época do ano, pelo menos pra mim, nascido e criado em São Paulo. Digo isso porque há lugares nesse Brasil de meu deus em que, ou chove, ou tá chovendo. Não existe, em alguns outros estados brasileiros, [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lá se foi mais um verão. O calor terminou, acabaram-se os lindos <a href="http://www.portalhomem.com.br/artigos/ah-o-verao" target="_blank">diminutivos femininos</a>. Agora, começou a pior época do ano, pelo menos pra mim, nascido e criado em São Paulo.<span id="more-57002"></span></p>
<p>Digo isso porque há lugares nesse Brasil de meu deus em que, ou chove, ou tá chovendo. Não existe, em alguns outros estados brasileiros, essa época fatídica de inconstância climática, esse maldito outono. Nessa estação do ano, tudo vira de cabeça pra baixo e as condicões são as mais problemáticas. Para sair na rua, há que haver, nos braços, nas costas ou nas mãos, alguma bolsa ou mochila grande, bem grande, pra poder levar todos os equipamentos para não se dar mal. Explico.</p>
<div id="attachment_57078" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><a href="http://papodehomem.com.br/e-o-outono-que-eu-quero-esquecer/tom_waits_monochrome_iggy_pop_coffee_and_cigarettes_desktop_1754x1262_wallpaper-278305/" rel="attachment wp-att-57078"><img class="size-large wp-image-57078" title="É o outono que eu quero esquecer" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/04/tom_waits_monochrome_iggy_pop_coffee_and_cigarettes_desktop_1754x1262_wallpaper-278305-620x446.jpg?95884c" alt="" width="620" height="446" /></a><p class="wp-caption-text">Outono é aquele mala da mesa de bar que você quer ver ir embora logo, que solta fumaça na cara e deixa o &quot;silêncio desconfortável&quot; no ar</p></div>
<p>Por essas bandas de cá, o dia começa com um sol lindo, mas mentiroso. Da janela, dá pra pensar que vai ser mais um dia lindo, mas o sol tinge o céu, mas tem preguiça demais pra trabalhar no aquecimento das horas. No outono, não se engane e saia de casa só usando aquela camiseta marota com alguma frase de efeito. Se faz necessária uma blusa, uma jaqueta, enfim, algum vestuário que vai lhe proteger bravamente do vento gelado que chega correndo, todo desavisado. Se faz sol pela manhã, logo no almoço a casa vai cair, digo, a temperatura. Mas tenha certeza de que, se vestir o casaco, vai passar calor. É o tal do outono, esse palhaço.</p>
<p>Aposto tudo o que tenho que, quando o Caetano Veloso escreveu o nosso &#8220;hino&#8221;, a canção &#8220;<a href="http://youtu.be/btn7E8yYvaM" target="_blank">Sampa</a>&#8220;, ele tava de passagem aqui em São Paulo numa época de outono. Só isso pra explicar a tal &#8220;deselegância discreta de suas meninas&#8221;. <strong>Caralho, Caetano, o outono é foda!</strong> Tem que levar isso em consideração. As coitadinhas, trabalhadoras ou herdeiras, precisam sair na rua com trajes de verão e inverno, tudo ao mesmo tempo e agora. Não é fácil pra ninguém não.</p>
<p>No delicioso verão, fica facinho admirar todas aquelas peles de fora, tomando ar, suando delicadamente. Já no poético inverno, Todo mundo toma precauções no dia anterior para não se atrasar e, logo de manhã, todas as combinacões já estão separadas e lá vamos nós, todos elegantes para onde quer que o dia nos leve. No outono, não. O outono gosta de ver a galera se fodendo.</p>
<p>Gosta tanto que usa justamente o choque de clima quente com vento frio e faz chover. Maldito.</p>
<p>Mas não é uma chuva boa, uma chuva gostosa. No calor, a chuva cai abundante, refresca e, apesar do percalço, todo mundo leva <a href="http://www.youtube.com/watch?v=cEWfd1oDTiA" target="_blank">numa relax, numa tranquila, numa boa</a>. No inverno, a garoa corta sem dó, mas todos já estão preparados pra isso. No inverno, a garoa é a mais frustrada. <strong>A chuva de outono não, essa gosta de ver, por mais paradoxal que possa parecer, o circo pegar fogo</strong>. Imagina que você tá lá, no mundão, pensando lá na frente quando, sem mais nem menos, a chuva fode os teus planos. Ela cai quando você não tá de blusa, quando não tá perto de casa ou do trabalho, independente de quem você seja. Vendo por esse lado, se há algum jeito de redimir todas as atrocidades do outono, é que as peripércias dessa estação não distingue rico de pobre, empresário ou metalúrgico. Todo mundo se dá mal junto.</p>
<div id="attachment_57099" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><a href="http://papodehomem.com.br/e-o-outono-que-eu-quero-esquecer/garoa/" rel="attachment wp-att-57099"><img class="size-full wp-image-57099" title="É o outono que eu quero esquecer" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/04/garoa.jpg?95884c" alt="" width="620" height="395" /></a><p class="wp-caption-text">Chuvisco de outono, com a consistência de um cocô de neném, que não encharca: só te deixa puto</p></div>
<p>Até as plantinhas, que por aqui já não é lá algo tão abundante, arregam pro outono e deixam suas folhas caírem, suas flores murcharem, esperam o inverno chegar pra gritarem por primavera. Aliás, essa sim é uma estação boa, gostosa. Não deixa de ser uma época de espera pelo <em>gran verão</em>, aquele lindo. Na primavera, o calorzinho é maneirado e é a estação perfeita para dar belas trapadas. Juro. <a href="http://www.askmen.com/dating/news/9_female-sex-drive.html" target="_blank">Tem até base científica que diz</a> que, na primavera, <strong>a luminosidade é maior e isso faz com que as mulheres fiquem mais excitadas</strong>. Se não confere a aifrmação, me digam vocês, minhas delicinhas.</p>
<p>Agora, pense comigo, amigo cortador de árvores. Passamos uma estação elegante, de frio e contemplação, esperamos o calor fodendo de todas as maneiras possíveis e imagináveis (obrigado, meninas), ficamos loucos nos meses de verão, de alegria desenfreada, de luxúria, metamorfose e carnaval pra, depois de tanta coisa boa, aturarmos quatro meses de idade média, de Inglaterra do século XVIII, de lama no chão, de depressão na cabeça. Outono sacana, outono vagabundo, de dias inúteis.</p>
<p>Outono só serve mesmo pra escrever crônicas. Das mais ralés.</p>
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<p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></content:encoded>
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		<title>O obituarista não usa adjetivos</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Apr 2012 03:01:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rodolfo Viana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Depois de morto, todos viram santos. Exceto para um certo obituarista, que não usava adjetivo algum. Era uma escrita crua: introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora. Simples assim. Tinha isso como uma regra pessoal que o isentava do erro de transformar monstros em homens dignos e vice-versa. Não quebrou sua [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de morto, todos viram santos. Exceto para um certo obituarista, que não usava adjetivo algum.<span id="more-56682"></span></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-56686" title="O obituarista não usa adjetivos" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/04/don.worka_.jpg?95884c" alt="" width="620" height="438" /></p>
<p>Era uma escrita crua: introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora. Simples assim. Tinha isso como uma regra pessoal que o isentava do erro de transformar monstros em homens dignos e vice-versa. Não quebrou sua regra nem na ocasião do registro do falecimento da menina Dolores que, havia algum tempo, lhe inspirava sonhos devassos, quando não noites insones.</p>
<p>Não que a menina cheirasse a sexo. Ao contrário, mal tinha peitinhos. Não tinha um pingo de lascividade. E era tão graciosa quanto um azulejo português. Mas seu nome era Dolores e isso bastava para que o obituarista visse naquela menina de 16 anos a Lolita de Humbert Humbert.</p>
<blockquote><p>Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.</p></blockquote>
<p>Enfim, era apenas um nome. E era o bastante para aquele homem.</p>
<p>Dolores e o obituarista não eram íntimos. Davam-se &#8220;bons dias&#8221; de vez em quando e só. A menina, claro, nunca soube do calor que arrebatava o peito e as partes daquele homem toda vez que ela passava vestida com o collant do balé em frente de sua casa. Ela nem imaginava que a vontade do obituarista era arrastá-la para dentro de casa e devorá-la. &#8220;Entra menina e sai mulher&#8221;, pensava o obituarista. E ele não era o único a salivar diante da menina. Dolores foi estuprada e morta por um tio-avô na antevéspera de Natal. O obituarista lamentou e entendeu o que se passava na cabeça daquele assassino. E não usou adjetivo algum ao escrever o obituário da menina, apesar de desejar de toda a alma fazê-lo.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Quando o pai faleceu, coube-lhe a tarefa de inscrever nas páginas do jornal sua morte. Foi então que a mão coçou mais uma vez para adjetivar aquele crápula. Usaria os piores verbetes encontrados na língua portuguesa, e não duvidaria se inventasse outros piores. Daria capa, foto, legenda, se possível fosse. Narraria em tom vívido aquela quarta-feira em que o pai saiu de casa para comprar leite e sumiu. E o telegrama na terça-feira seguinte dizendo que estava bem e que não voltaria. E a foto no jornal dois anos depois que estampava o canalha ao lado de uma jovem morena, sua sobrinha. E a legenda da imagem que berrava ao mundo a felicidade do casal prestes a se casar.</p>
<p>&#8220;O filho da puta matou minha mãe. De desgosto&#8221;, me disse uma vez o obituarista.</p>
<p>Na verdade, ela morreu de câncer algum tempo depois. E sua morte causou no obituarista imensa dor. Quando teve de colocar no jornal o falecimento da mãe, ele tremia ao grafar o nome da mulher, e foi inevitável aquela lágrima que caiu nas costas da mão enquanto digitava a hora do velório. Ainda assim, preservou os leitores de palavras mais subjetivas. Queria esconder nas entrelinhas que aquela mulher sofrera em vida e que, ainda assim, lhe legara muito amor. Não o fez.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>A única vez que o obituarista fugiu à regra e usou um adjetivo foi quando decidiu se matar. Antes de estourar os miolos, deixou pronto o obituário do dia seguinte. Usou para se referir a si mesmo o termo “desgraçado” sem imaginar que, durante o fechamento da edição, o editor cortaria o adjetivo. Introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora. Sempre. Introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora.</p>
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<p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Ezequiel, o homem que matou Jesus</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Apr 2012 03:01:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rodolfo Viana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>“Daqui, ele parece mais alto”, pensou o soldado Ezequiel ao encarar aquele homem, aquilo que certa vez foi homem e que agora não passava de um corpo abjeto, humilhado, coroado e crucificado. Sob a cruz que trazia em hebraico, latim e grego a inscrição “rei dos judeus” na extremidade superior, o chão de Gólgota, à [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Daqui, ele parece mais alto”, pensou o soldado Ezequiel ao encarar aquele homem, aquilo que certa vez foi homem e que agora não passava de um corpo abjeto, humilhado, coroado e crucificado. Sob a cruz que trazia em hebraico, latim e grego a inscrição “rei dos judeus” na extremidade superior, o chão de Gólgota, à esquerda da Porta de Efraim, no lado sudoeste de Jerusalém, era uma massa em terra, pedra, pranto e sangue, sem que fosse possível apontar onde começava um e terminava outro. <span id="more-55613"></span>Sobre a cabeça daquele soldado e dos outros homens, mulheres e dos três corpos quase sem vida, o céu, até então testemunha silenciosa do flagelo e da crucificação, agora se fazia ouvir em trovões. Tornou-se turvo à hora sexta, e assim se manteve até aquela hora, chamada de nona, hora esta em que Javé, como último ato em vida, perguntou, não se sabe se por mera curiosidade ou em tom de cobrança, “Eli, Eli, lamma sabactáni?”, que é para nós “meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, sem obter intervenção ou ao menos um sopro divino.</p>
<div id="attachment_55909" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><img class="size-full wp-image-55909" title="Ezequiel, o homem que matou Jesus" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/04/crossProfileBlkMed-733187.jpg?95884c" alt="" width="620" height="494" /><p class="wp-caption-text">&quot;So much&quot;, desenho de Derek Flood, autor do site The Rebel God (therebelgod.com)</p></div>
<p>Temos o soldado Ezequiel sob os pés do Javé, lança em riste, pálpebra trêmula, suor a molhar o colete de couro e metal que trazia estampada no centro a insígnia romana. O soldado olha para cima, e vê aquele cadáver de braços abertos. Sim, parecia-lhe maior à primeira vista. Pareceu-lhe piscar em certo momento. De fundo, o negro céu fechava-se em sons estrondosos e relâmpagos. Logo, o firmamento desabaria em água. O dever daquele militar, um rapaz de não mais de vinte e cinco anos, era lancetar o dorso, na altura do fígado, do autoproclamado Cristo, e atestar seu óbito. Foi então que Ezequiel sentiu, pela primeira vez – e cria ele que por reflexo fisiológico ou compaixão – uma dor no lado esquerdo de seu tronco. Tal indisposição voltaria, de forma intermitente, a lhe tomar o corpo, ora leve como um sopro de vento, ora aguda como os cravos nas mãos de Javé.</p>
<p>A lei de Moisés rogava que os cadáveres deveriam ser sepultados antes do por-do-sol do sábado de Páscoa. Por isso, a este Ezequiel que aqui temos, vulgar soldado do prefeito Pilatos, foi ordenado que quebrasse as pernas dos dois ladrões que figuravam à esquerda e à direita, tanto para facilitar a remoção dos corpos presos aos paus por cravos como para exibir aos presentes a morte certa. O mesmo seria feito a Javé, crucificado entre os dois comparsas de má fortuna.</p>
<p>O rapaz e outros tomaram o mesmo martelo com que cravaram as mãos do filho de José na madeira e o desferiram contra as pernas dos ladrões. Neste instante, mais por reflexo do que por lógica, exemplo da prevalência do instinto diante do raciocínio, algumas das muitas mulheres fecharam os olhos e esperaram um grito que não existiu. Javé, que se dizia Cristo e, por isso, uma ameaça à ortodoxia judaica de então, não seria retirado da cruz. Ordem de Pilatos.</p>
<p>Ezequiel, aos pés do homem, depois de ter quebrado as pernas dos outros dois, apenas fazia olhar Javé. Suor e medo tomaram o rosto do soldado. “E se ele realmente for Cristo, meu Deus? E se for o Seu filho?”, pensou o militar. De certo, morto já estava o homem, e em nada Ezequiel podia ser amaldiçoado por isso. Era um mero soldado, como tantos outros milhares. Cumpria ordens, apenas. Subiu o Gólgota mais para conter a multidão do que para rasgar um corpo sem vida – na cruz pregado, Javé cuidaria de rasgar a si mesmo.</p>
<p>Enquanto as mãos de Ezequiel empunhavam a lança, os lábios sussurravam uma oração. Pedia que a alma daquele pobre louco que se dizia Cristo fosse guardada. Pedia perdão por lhe rasgar as fibras de carne. Em devoção, pedia que o Senhor explicasse por que deixara morrer Seu Filho redentor, se é que redentor ou filho de Deus o era. E seus lábios, sujos de poeira e saliva, seguiam a oração, sem que seus superiores militares pudessem ver ou ouvir.</p>
<p>A primeira estocada necessitava de cautela redobrada. O metal penetrou a carne do Cristo, e encontrou o fígado. Ezequiel, hábil no manejo da lança, de aptidão demonstrada nas inúmeras mortes e torturas que trazia nas costas, sabia disso. Tão bem quanto sabia que, ao retirar a lança, escorreria um pouco de sangue. Somente um pouco, de certo, pois um jorro rubro, considerando a posição do corpo na hora da morte, far-se-ia presente num esguicho longo em duração e distância. Foi o que houve: sangue e água jorraram a certos metros quando a lança foi retirada. Nessa hora, Ezequiel terminou sua oração, e balbuciou um “Deus seja louvado”.</p>
<p>Cristo rangeu os dentes. E, enfim, morreu.</p>
<p>O papel de militar de Ezequiel estava cumprido, pois a outros caberia a empreitada de retirar os corpos da vertical – papel este de homem que honra seus compromissos, sejam eles militares ou de qualquer outro ofício ou natureza. Estava, pois, pleno, tácito na gama de incumbências que a um homem são designadas. Poderia descansar o sono dos justos daqui algum tempo, depois de retirados os cadáveres, envolvidos os mortos em pano de linho, transportados para onde quer que a família determinasse – tarefa esta sempre executada pelos próprios familiares.</p>
<p>Não viu o tempo voar. O negrume do céu fez as horas iguais, desde a crucificação até o chegar em casa, já tarde da noite. Como se massa amorfa e homogênea, o horizonte não se via entrançar os reinos de Deus e dos homens. Era uma coisa só, espessa e negra. Exceto por uns raros e belos momentos em que nuvem nenhuma se punha entre os olhos de quem vê e a lua, e um claro luminoso destoasse de todo o redor.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-55917" title="Ezequiel, o homem que matou Jesus" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/04/The_Betrayal.jpg?95884c" alt="" width="620" height="356" /></p>
<p>E foi num destes breves clarões que Ezequiel, no rumo reto de casa, viu o que, à distância, era apenas vulto de árvore, depois vulto de homem e árvore, e então, poucos metros do vulto, árvore e enforcado. Um homem dependurado, já sem vida, de um grosso galho. Não sabia Ezequiel que aquele homem havia delatado Javé, o que lhe custara, além da vida tomada em culpa, um beijo e lhe rendera quase cento e cinquenta gramas de prata divididos em trinta moedas, o que lhe pouparia um mês de trabalho, não fosse o fato de que aquele homem havia desistido do montante. Enfim, não sabia que aquele fora em vida Judas Iscariotes, fiel discípulo de Javé até sua traição, e que agora, morto, nada mais era que a extensão inanimada, ao balouçar dos ventos, de uma árvore que certamente gozava de mais vida que o pobre sujeito.</p>
<p>Aproximou-se do corpo. Era o quarto cadáver daquele dia, e cada um era-lhe diferente, com tons de pele que variavam e odores mais ou menos acentuados. Cada morto causava ao jovem militar uma curiosidade quase pueril, quase científica. Certamente, o centurião, aquele dito superior ao soldado Ezequiel, e outros soldados com mais tempo de armas, haviam perdido aquela curiosidade, como se todo morto morto fosse, iguais e ordinários. A eles, em dias de mortalha, o sono era mais pesado, pois que repousavam naquilo que tinham por nobreza de ofício. A Ezequiel, um corpo dependurado de uma árvore não causava tamanha comoção, haja vista e reconhecida a frieza de todo e qualquer soldado de Pôncio Pilatos. Os corpos despertavam em Ezequiel as indagações tão pouco recorrentes aos soldados que, apesar do notório conhecimento em questões bélicas, são por natureza chucros a ponto de serem ordenados por centuriões tão ignorantes quanto eles próprios, como uma manada em que o líder é um búfalo cego.</p>
<p>Ezequiel, à parte todo o negrume, olhava nos olhos opacos do homem defunto que morrera sem tempo para cerrá-los e pensava em quem era aquele cadáver.</p>
<p>— Tu és o princípio e o fim de todas as coisas – disse uma voz grave. O som veio acompanhado de um hálito quente, tão perto de Ezequiel estava.</p>
<p>O soldado arregalou os olhos em pavor. Até então, estivera sozinho com um corpo morto; agora, tinha os pensamentos lidos em voz alta. Sua nuca sentia o bafo, o que lhe causou o torpor do medo. Doeu-lhe o tronco. Mais uma vez, e agora mais forte. Seu coração galopava. Voltou-se sem muito pensar, e viu um sujeito esfarrapado sentado numa grande pedra, a lhe encarar e sorrir.</p>
<p>— Quem és tu? – perguntou em voz trêmula, quase que desejo a negar qualquer resposta que aquele homem pudesse dar.</p>
<p>— Creio que tu queiras saber quem tu és, e não quem eu sou – o homem levantou-se da rocha e achegou-se. — Sabes esta dor que sentes e esta curiosidade que flameja dos teus olhos? Sabes este homem enforcado e aquele outro crucificado? Sabes o que tu és e o que queres?</p>
<p>A voz do homem anônimo soava à certeza, como se há muito Ezequiel fosse-lhe conhecido. De fato, o era. Depois de ludibriar o soldado com uma amplidão de perguntas e uma retórica impecável, falou sobre a ciência do bem e do mal e a razão para a morte do Cristo.</p>
<p>— Em tempos remotos, o homem tomou para si, pelas mãos da mulher criada a partir de sua costela e sob o nome de Hava, o fruto da perdição.</p>
<p>Ezequiel pensava em como tal homem, ainda imberbe e com traços pueris, sabia de tudo aquilo sucedido em “tempos remotos”, se é que realmente sucedera algo então.</p>
<p>— Eu estava lá – respondeu o esfarrapado, novamente a ler pensamentos. – Foi-lhes dito que seus olhos se abririam e eles seriam como deuses, conhecedores do bem e do mal. É o que queres tu, não? Duvidaste dos mistérios do teu Senhor quando pediste que Ele expusesse-lhe razões para a morte do Cristo.</p>
<p>O rapaz mantinha os olhos flamejantes de curiosidade e terror. Pensou em retorquir, em retroceder, em nunca querer saber as razões de Deus, pois que tão grave pecado poderia ser a ciência. Aquele homem esfarrapado quiçá fosse o demônio tão falado por Javé, e estava ali, a fitar Ezequiel, a ler sua mente e a decifrar sua alma.</p>
<p>— De fato, tu és um homem iluminado, e essa luz se faz viva em cada corpo morto com que tu te deparas, quando teus olhos se tornam brasas. Vês este homem? – pergunta o sem-nome, apontando o homem enforcado. – Ele conhecia aquele outro, o crucificado, o que lancetaste ainda hoje. Este homem traiu o Filho de Deus, aqui neste mundo tido pelo nome de Javé. O homem que humilhaste com o aço da tua lança era o Cristo, se ainda te restam dúvidas. Mas não te culpe, posto queestava escrito, como escrito está o destino de toda a humanidade.</p>
<p>Sem muito refletir, Ezequiel perguntou por que aquele homem, agora reconhecido Crito, o Filho redentor, teve de morrer.</p>
<p>— Javé morreu, e não o Cristo. Ele sempre há de viver, tanto no Céu, como na terra. Mas seu corpo teve de morrer pelas mãos dos homens. Ninguém, exceto tu, deveria expor-lhe à humilhação. Ninguém, afora tu.</p>
<p>— E por que eu?</p>
<p>— Porque tu és quem tu és. De Seu jardim, teu Senhor outrora expulsou o primeiro homem, que hoje ainda vive, e a primeira mulher, sem ouvir seus clamores de perdão. Teu Senhor fora impiedoso para com Suas criaturas forjadas a sua imagem e semelhança. Assim, estava em dívida para com a humanidade. Os homens, igualmente impiedosos, crucificaram Seu Filho com as mesmas mãos que tomaram o fruto do pecado original que os desgraçou. Teu Deus fora cruel para com Sua criação. E há de sempre o ser.</p>
<p>O homem esfarrapado fez uma pausa. Nenhum dos três disse sequer uma única palavra. Apenas se entreolhavam. Os três, pois que o morto de olhos abertos morrera.</p>
<p>— Devo partir. Levo comigo este negrume que nos cerca. Antes disso, devo pedir perdão.</p>
<p>— Perdão, pelo quê? Somente conversaste comigo…</p>
<p>— Sê piedoso e perdoa-me!</p>
<p>Ezequiel perdoaria, de fato, mesmo sem saber a razão, pois se aquele fosse realmente o demônio, não faria questão de rogar ao pobre soldado algo tão nobre e divino quanto o perdão. Portanto, demônio não sendo, perdoaria, fosse ele quem quer que fosse.</p>
<p>— Perdôo-te. Agora, tu podes partir em paz.</p>
<p>O homem esfarrapado sumiu no negrume, levando-o consigo. Antes de se dissipar junto à massa negra, disse “Abençoado sejas tu, meu filho. Abençoado sejas”. E foi-se, deixando para trás um corpo morto e Ezequiel, que ainda sofria da dor causada pela perda de uma das costelas em outra vida.</p>
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<p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></content:encoded>
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		<pubDate>Sun, 18 Mar 2012 03:02:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A descoberta não era assombrosa: seu filho, Síndrome de Down, míope. Nada assustador. O pior fora saber, em um exame de rotina, no final da gravidez, que o filho nasceria com o “problema de saúde”. Nada a ver com circunstâncias inesperadas. O casamento devido a uma paixão fulminante com o primo de primeiro grau, de [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
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<p>Nada a ver com circunstâncias inesperadas. O casamento devido a uma paixão fulminante com o primo de primeiro grau, de matizes quase estritamente sexuais. Descobriu depois que o casamento fora uma loteria, e que ela ganhou a Mega Sena. O marido, também culto, sensível, devotado ao corpo, ao erotismo, ateu, com predileção por literaturas complicadas, de autores como Kafka, Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov, Machado de Assis, Graciliano Ramos <em>et caterva</em>, era tudo e mais, além de bom de cama – o que já sabia por experiência anteriores. Um assombro.</p>
<p><strong>Divertiam-se. Ouviam música, dançavam, trepavam. Eram os melhores amigos e amantes.</strong> O mundo não estava, mesmo assim, à revelia. O casamento, aberto. Sexo à vontade. Interesses múltiplos. Sem censuras e julgamentos. Muito por isso, raramente aventuravam em outros territórios. Viviam, sentimentalmente, um para o outro. Não sabiam o que fazer, e como fazer, diferente.</p>
<p>Não pensaram muito. Teorias não são práticas, enquanto as últimas fundavam teorias no momento preciso em que se realizavam.</p>
<p>Veio o filho. Uma alegria temperada de mútua preocupação. Seria perfeito? Afinal, eram primos. De primeiro grau, repita-se. Aconteceu o pior. O filho com pré-diagnóstico: Síndrome de Down.</p>
<p>Encarar, sobreviver, entender tudo como entendiam a própria loteria do amor. A barra não deixava de pesar por causa disso.</p>
<p>Agora, sete anos depois, mais essa. O filho, com uma enorme dificuldade de locomoção e de fala, ainda era míope. Os óculos, essenciais. A visão, disse o médico, colaboraria, e muito, na percepção do mundo e das coisas, na construção da memória, ainda que deficiente, consideradas as circunstâncias. Não me fale delas, pensou a mãe; delas, não escapo.</p>
<p>Depois de um custoso exame no oftalmologista, onde as letras tinham que ser substituídas por outros sinais, e o médico era obrigado a recorrer a mil subterfúgios para obter um parecer, ainda que inconclusivo, das dificuldades de visão do paciente, chegou-se a conclusão que o menino era míope (grande novidade), cinco graus no olho esquerdo, cinco graus e meio no direito. Pelo menos o ganho da especificação. Adiante, as lentes, a armação.</p>
<p>Dias depois a mãe se dirigiu à ótica. O menino em uma cadeira de rodas, ainda com fraldas, <strong>a mãe temendo evacuações, cheiros, a vergonha&#8230;</strong></p>
<p>Amor não é tudo. O que é amor? O filho, recebido quando do nascimento como um encargo benfazejo, com o tempo transformara-se em outra coisa: um estorvo não declarável, doído. Principalmente para o pai, que o olhava com ares de enjoo. A mãe guardava, em um lugar sabido, só dela, um encanto por aquela criatura no mais das vezes impassível, sempre capaz, ao revés, de receber seu carinho, como um ser feito só para isso – receber carinho.</p>
<p><a href="http://papodehomem.com.br/um-par-de-oculos-com-armacao-verde/tumblr_lxkpxgfvz91qdh7g0o1_1280/" rel="attachment wp-att-54785"><img class="alignnone size-full wp-image-54785" title="Um par de óculos (com armação) verde" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/03/tumblr_lxkpxgfvz91qdh7g0o1_1280.jpg?95884c" alt="" width="600" height="750" /></a></p>
<p>Menos mal, as relações íntimas prevaleceram. Sem obrigação de gerar mais filhos, o casal distinguia-se dos demais pela perfeita saúde sexual. Não mencionado o rebento, a alegria permeava seus olhares como uma lembrança musical de cantata bachiana.</p>
<p>O menino, quase sempre, é completamente absorto. Quando não é, incomoda. Suas manifestações são intermitentes, às vezes violentas, e poucos, além da mãe, são capazes de acalmá-lo.</p>
<p>Pelo calçadão da praça, vai ele, a enxergar pouco mais que manchas diante de si. A se lembrar pouco mais do que do último segundo e, às vezes, brutas recordações de espasmos de alegria ou de dor, sem qualquer sentido, sequer para si mesmo.</p>
<p>Estão na ótica. A mãe pede uma armação simples. O menino, como se vê&#8230; O funcionário compreende, pesaroso, piedoso, compungido, repleto de bons sentimentos que refletem o grau de distância que ele quer ter do garoto. Vai que essa coisa é contagiosa&#8230;</p>
<p>O menino, em um repente, fixa-se em uma armação de resina verde. Feia, grande, chamativa, absurda. Ah, não, essa não, tenta demovê-lo a mãe, sem poder dizer a ele “pense bem” (como pedir isso?). Não, filho. Vê essa outra, fininha&#8230; O escândalo que faz elimina qualquer argumento. Afinal, ele terá a armação verde. O par de óculos verde.</p>
<p>Na semana seguinte, a mãe retorna com ele à ótica. Mais uma vez, repentinamente, o menino, ao ver a armação verde, anima-se. A mãe sorri; o atendente também, piedoso, e com muita, muita pressa.</p>
<p><strong>Ao por os óculos no rosto, o menino embasbaca-se.</strong> Aturdido, parece o mesmo de sempre. À sua frente, o mundo mudou. Antes, era um conjunto indistinto de manchas verdes, negras e cinzas. Gostava das manchas verdes. Agora as manchas foram eliminadas. O mundo era uma confusão de formas e cores bem distintas. Uma miríade de tons diferentes, ainda que com a predominância do verde das árvores. Uma coisa linda. Animou-se por inteiro, sem expressar essa animação. Em sua mente conturbada, a alegria era silêncio.</p>
<p>A mãe ficou triste. Pena. Pensara que o filho, depois de usar as lentes, ficaria mais perceptivo, capaz de corresponder às demandas exteriores, além de sua imaginação inerme. Não, nada mudou. Ela guardou, mais uma vez, a amargura em algum lugar dentro dela, que não sabia onde era, mas um lugar onde nem marido nem parentes penetravam, onde se mesclava a esperança, a dor e outras sensações não verdes, mas de ternura.Vermelhas?</p>
<p>Saíram da ótica, ela empurrando a cadeira de rodas, mais uma vez preocupada com as evacuações dele. Ele, maravilhado, alterou seu comportamento. Ao invés de mover a cabeça de um lado para outro, a esmo, concentrou sua visão no mundo inédito que se apresentava à sua frente, repleto de contornos e volumes antes insuspeitados.</p>
<p><a href="http://papodehomem.com.br/um-par-de-oculos-com-armacao-verde/tumblr_lxa1p8h3eh1qj38pco1_1280-2/" rel="attachment wp-att-54790"><img class="alignnone size-large wp-image-54790" title="Um par de óculos (com armação) verde" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/03/tumblr_lxa1p8h3eh1qj38pco1_1280-620x491.jpg?95884c" alt="" width="620" height="491" /></a></p>
<p>Pararam em um sinal de trânsito. Diante do menino, do outro lado da rua, uma mulher. Cabelos castanhos claros, compridos, imensos, envolvendo um rosto de linhas quase simétricas, perfeitas, com sobrancelhas grossas, lábios rosados, nariz proeminente, mas perfeito, sob os olhos grandes e negros.</p>
<p>Um corpo certamente irretocável sob o vestido de seda vistoso, estampado com pequenas flores vermelhas sobre o fundo azul do céu, misturado a folhas de árvore e manchas amarelas que representavam o sol e a luz. Com o vento, o vestido envolvia o corpo como se ele fosse feito de mármore;  uma escultura de Michelangelo, divina e sensual.</p>
<p>O sinal abre. A mulher se aproxima. Vê o menino na cadeira de rodas. Sorri, só por casa da armação verde dos óculos que se sobrepõe ao seu olhar siderado, fixo. Antes que ela se distancie, é capaz de ouvi-lo falar, bestificado:</p>
<blockquote><p>“Bela, bela, belíssima!”</p></blockquote>
<p>Ela sorri; a mãe, encantada, também; ele, nem se fala &#8211;  mais ainda.</p>
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<p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Não dá pra ser feliz dormindo de conchinha&#8221;, pensou</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Mar 2012 14:58:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Erico Verissimo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>
		<category><![CDATA[PdH Shots]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Acordou. Em parte. O braço esquerdo continuava adormecido, e só com algum esforço foi capaz de retirá-lo de debaixo do travesseiro onde a esposa repousava a cabeça, ressonando levemente. Sim, &#8220;ressonando&#8221;. Coisa de amador. Quem roncava ali era ele, um pouco mais a cada ano, a cada quilo, a cada taça de vinho, em episódios [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acordou. Em parte. O braço esquerdo continuava adormecido, e só com algum esforço foi capaz de retirá-lo de debaixo do travesseiro onde a esposa repousava a cabeça, ressonando levemente.<span id="more-54741"></span></p>
<p>Sim, &#8220;ressonando&#8221;. Coisa de amador. Quem roncava ali era ele, um pouco mais a cada ano, a cada quilo, a cada taça de vinho, em episódios cada vez menos esporádicos de sinfonia noturna para uma orquestra de serrotes. Tortura para ouvidos sensíveis e sonos leves.</p>
<p>Desta vez, ao menos, havia acordado sozinho. Desnecessário o cotovelaço habitual, evitada mais uma rodada de constrangedoras discussões sobre as dificuldades inerentes à convivência conjugal sob a gestão de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Morfeu">Morfeu</a>.</p>
<p>Pensou, esfregando o braço que dolorosamente formigava, lentamente recuperando a circulação e retornando à vida: não entendia como um casal casado podia chegar ao ponto de admitir dormir em camas separadas. Daí a banheiros, quartos e casas separadas um passo, questão apenas de saber o valor que cada um dava a espaço, privacidade, mantendo intacta uma &#8220;zona de conforto&#8221; individual em detrimento de uma intimidade a tão duras penas compartilhada, na alegria, na tristeza, nas fortuitas emissões gasosas, no mau hálito matinal, na apnéia do sono.</p>
<div id="attachment_54748" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><img class="size-full wp-image-54748" title="&quot;Não dá pra ser feliz dormindo de conchinha&quot;, pensou" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/03/nacama.jpg?95884c" alt="" width="620" height="450" /><p class="wp-caption-text">Precisamos conversar sobre nossos modos na cama</p></div>
<p>Afastou-se aos poucos, o corpo nu como o da companheira de casa, cama e casamento. Raríssimo consenso: ele costumeiramente com calor, ela quase sempre com frio, justificando o constante roubo de lençóis e cobertores, dificuldade adicional quanto ao convívio horizontal.</p>
<p>Camas separadas, refletiu enquanto procurava pelo chão a cueca samba-canção. Talvez proporcionassem ao casal um sono de melhor qualidade; repouso assegurado, garantia de um funcionamento melhor no cotidiano. Sonho de consumo. Mas valeria à pena abrir mão das possibilidades implícitas no &#8220;dividir o colchão com a pessoa amada&#8221;? Não apenas o sexo, o pré-sexo, o pós-sexo: rituais de sedução em vigor por mais de década, cessar-fogo negociados após prazerosa batalha (ou duas, ou três), doces palavras ditas ao pé do ouvido em meio a lençóis meticulosamente desgrenhados, sem obrigatoriedade de nesse momento um ou outro dirigir-se ao próprio leito.</p>
<p>Dirigiu-se à cozinha pensando em quão rapidamente haviam caído os dois no sono desta vez, cansados, suados, satisfeitos. Serviu-se de um generoso copo d&#8217;água. Na mente, a certeza de que dividir representava nesse contexto somar. Individualidade e cumplicidade, meio-termo a ser buscado entre concessões, descobertas e aprendizado. Sorriu, feliz com a perspectiva de retornar à cama que enxergava como palco de uma união já tão bem entrosada, em tantos níveis. Seria diferente por que na hora de dormir?</p>
<p>Aconchegava-se, minutos depois, no sofá da sala, seu lugar na cama ocupado pela filha do meio, em migração noturna pós-pesadelo. Conchinha? Sonharia com isso. No exílio.</p>
<!-- NADA -->
<p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Quando a gringa sobe um morro carioca</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Mar 2012 03:02:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julia Michaels</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Numa tarde chuvosa de janeiro 2012, subi o morro do Cantagalo para assistir a uma apresentação musical. Adultos tocaram música big band, crianças percussionistas se desdobraram em coreografias complexas e um jovem casal sambou de tirar meu fôlego. Na quadra de teto furado, debaixo de chuva, eu não sabia se mexia o corpo para acompanhar [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa tarde chuvosa de janeiro 2012, subi o morro do Cantagalo para assistir a uma apresentação musical. Adultos tocaram música <em>big band</em>, crianças percussionistas se desdobraram em coreografias complexas <strong>e um jovem casal sambou de tirar meu fôlego</strong>. Na quadra de teto furado, debaixo de chuva, eu não sabia se mexia o corpo para acompanhar os ritmos ou se aplaudia junto com as famílias dos artistas.<span id="more-54595"></span></p>
<div id="attachment_54599" class="wp-caption alignnone" style="width: 539px"><a href="http://papodehomem.com.br/quando-a-gringa-sobe-um-morro-carioca/wf_musico_cartola_04/" rel="attachment wp-att-54599"><img class="size-large wp-image-54599" title="Numa tarde chuvosa" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/03/wf_musico_cartola_04-529x800.jpg?95884c" alt="" width="529" height="800" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;O samba, lá no morro, que beleza&quot;. O Cartola podia ter escrito isso</p></div>
<p>A subida já fora emocionante, a bordo de uma mototaxi, ziguezagueando na viela acidentada de chão molhado. Agarrei-me nos ombros do piloto anônimo, meu capacete boiando em volta à cabeça. Aqui, vale a pena notar que fizera 57 anos no mês anterior.</p>
<p>A maior parte dos quais não andei em favela. Sim, como jornalista nos anos 80 em São Paulo, pisava hesitante em lama, praticamente de mãos dadas com padres de teologia da libertação. Eram escudos e eu os escutava. Nos barracos, tomava cafés de fontes desconhecidas como se fosse uma tarefa hercúlea. Ferver era tudo.</p>
<p>Em casa, familiares e amigos novos avisavam: &#8220;trate mal a empregada. É o que ela espera. Pague mal, trate mal&#8221;.</p>
<p>Mudamos para o Rio de Janeiro nos anos 90.</p>
<p>Aos poucos, sem reparar, fui assimilando atitudes e preconceitos. Aprendi a disassociar. Não perguntei onde morava a manicure. Mesmo que tivesse perguntado, a resposta não teria se alojado no meu mapa mental. Nele, todas as favelas da Zona Norte se aglomeravam num “complexo” só, de onde saiam balas voando até a Tijuca, <em>terra non grata</em>.</p>
<p>As favelas da Zona Sul informavam minhas peripécias como se fossem temporal: para ir à minha aula de tênis no Hotel Intercontinental, eu desafiava tiros na Rocinha a bordo de um carro blindado. E simplesmente evitava o fim da rua Nascimento Silva.</p>
<p>Pouco antes do ano 2000, bem que tentei superar alguma coisa. Confesso que subi na Rocinha várias vezes na tentativa de resolver o problema do lixo dos moradores, que sujava minha praia, de São Conrado.</p>
<p>Mas o problema do lixo, como tanta outra coisa relacionada à pobreza no Brasil, era insolúvel. Quem juntava recicláveis era cria do governador da época; quem tinha espaço para guardá-los era cria do prefeito. Não se falavam. Dei de ombros.</p>
<p>Entre outras pilastras, um relacionamento se sustenta em perguntas não posadas. Meu caso de amor com o Brasil se baseava na leal e teimosa falta de querer saber como um povo tão divertido e carinhoso podia permitir a existência de favelas. Ou seja, criá-las.</p>
<p>O divórcio abriu meus olhos. Há seis anos, parti da mansão de São Conrado e comecei a descobrir a cidade. <strong>Sambei na Lapa</strong>.</p>
<p><iframe src="http://www.youtube.com/embed/vARzrVK3vwY" frameborder="0" width="620" height="345"></iframe><br />
<em><a href="http://youtu.be/vARzrVK3vwY" target="_blank">Link YouTube</a> | Quem nunca sambou lá, não sabe de nada</em></p>
<p>Criei um blog sobre a transformação da cidade em 2010 e reportei em detalhe a invasão do Complexo do Alemão, sem adentrá-lo. Apenas no fim do ano passado virei frequentadora de favela, graças ao Marcus Faustini, furador dos planos mais perfeitos e idealizador da Agência Redes Para Juventude.</p>
<p>Foi pela Agência que subi o Cantagalo, para fazer uma reportagem sobre a inauguração do projeto <em><a href="http://www.facebook.com/pages/Projeto-Bela-Arte-Jazz/205638376196467" target="_blank">Bela Arte Jazz</a></em>, uma escola de música criada pelo jovem saxofonista Leonardo Januário. Como bolsista da Agência, Leonardo desenvolveu a ideia dele, apresentou-a diante de uma banca e foi selecionado para receber R$10 mil para concretizá-la. O dinheiro vem da Petrobras.</p>
<p>Pela Agência, nos últimos quatro meses, já fui à Cidade de Deus, ao Borel, Chapéu-Mangueira, Pavão-Pavãozinho, e ao Batan, além do Cantagalo. Sem a Agência, já fui aos Complexos da Maré e do Alemão. Já andei de metrô, van, ônibus, e de Miguelzinho, além de moto-táxi. Falta trem, mas já passei por cima da Avenida Brasil na passarela. Lembra Foz de Iguaçu: você para no meio, percebendo que o piso é apenas madeira, e vê aquele fluxo indomável&#8230;</p>
<p>Num dia ensolarado no Batan, durante uma festa na rua, me dei conta de que o subúrbio de Boston de minha infância não foi tão diferente de uma favela. A gente levava pratos de comida para os enfermos e enlutados; limpava a neve das entradas de casa dos velhinhos. Fazíamos piquenique no Dia da Independência.</p>
<p>Aí posei mais uma daquelas perguntas inconvenientes: porque será que, no Brasil, o espírito comunitário com o qual eu fui educada existe mais na favela do que no asfalto?</p>
<p>Talvez tenha a ver com a igualdade. Pode ser que o nivelamento social na favela contribua para amenizar a desconfiança que reina no resto da sociedade brasileira. E pode ser que o crescimento da classe média e a diminuição da desigualdade no Brasil comecem a mexer no quadro. Preparem-se.</p>
<p>Muitos jovens da Agência têm uma aparência que levam senhoras de 57 anos a atravessar a rua num passo apressado. São negros, fortes, de penteados estilosos.</p>
<p>Sonhadores, criativos, apegados às suas comunidades, muitos deles são agora meus amigos e amigas no Facebook. Dançam o passinho e sentem falta do Gambá, o “Rei do Passinho” de 23 anos que teve a coragem de se mexer como mulher, mas foi brutalmente assassinado em Bonsucesso no Ano Novo.</p>
<p>Numa pousada do Chapéu Mangueira, comemorei meu aniversário em dezembro último com uma feijoada e pagode. Vários convidados cariocas até então desconheciam a favela. Alguns me telefonaram no meio do caminho, achando-se perdidos, pedindo ajuda.</p>
<p>Nos anos 70, as favelas do Rio de Janeiro eram manchas brancas nos mapas da cidade.</p>
<div id="attachment_54606" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><a href="http://papodehomem.com.br/quando-a-gringa-sobe-um-morro-carioca/aterro/" rel="attachment wp-att-54606"><img class="size-large wp-image-54606" title="Numa tarde chuvosa" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/03/aterro-620x367.jpg?95884c" alt="" width="620" height="367" /></a><p class="wp-caption-text">O Rio daquela época era outro Rio</p></div>
<p>Na tarde da inauguração do <em>Bela Arte Jazz</em>, subi de mototáxi mas desci à pé, já de noite, junto com alguns amigos. Não chovia mais. No escuro, passamos pelas portas de casas e de comércio, desviamos o passo de cocô de cachorro (andam soltos, como na minha infância) cumprimentamos moradores, e sentimos o cheiro de esgoto. Chegamos numa estação de plano inclinado cuja existência eu desconhecia. “Estava quebrado, mas consertaram”, uma moradora comentou. Continuamos a descida a pé, por estarmos pertinho do asfalto.</p>
<p>Já em Copacabana, cada um tomou seu rumo. Eu, a caminho de meu apartamento em Ipanema, dei uma boa respirada funda, como fizera muitas vezes após uma sessão de psicanálise particularmente profunda.</p>
<p>Nunca me senti tão inteira.</p>
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		<title>João e Maria na cama</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Mar 2012 03:01:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rodolfo Viana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ela esqueceu os brincos aqui em casa. Duas argolas. Talvez fosse a tensão da nossa primeira noite – a eletricidade sexual que causa arrepios na pele também leva o cérebro a curto-circuito. Quando se apercebeu, já estava longe, e sem o par de argolas. Eu encontrei os brincos no tapete do quarto, enquanto recolhia minhas roupas [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela esqueceu os brincos aqui em casa. Duas argolas.</p>
<p>Talvez fosse a tensão da nossa primeira noite – a eletricidade sexual que causa arrepios na pele também leva o cérebro a curto-circuito. Quando se apercebeu, já estava longe, e sem o par de argolas. Eu encontrei os brincos no tapete do quarto, enquanto recolhia minhas roupas do chão.<span id="more-53812"></span></p>
<p>Doze dias depois, na tarde modorrenta daquele domingo, liguei para a dona das argolas.</p>
<p>— Encontrei seus brincos.</p>
<p>— Puxa, achei que nunca mais os veria. Me custaram os olhos da cara.</p>
<p>— Passa aqui em casa para eu devolver.</p>
<p>Ela era uma mulher nascida para o sexo. Despida das roupas e do pudor, beijava minha boca fervorosamente. Para mim, ela era uma espécie de religião.</p>
<p>Trepamos até não sabermos mais de quem era qual mão, qual braço, qual pé. Mas havia algo além disso.</p>
<p>Foi a primeira vez que pensei em esquecer minhas outras mulheres.</p>
<p>Foi a primeira vez que pensei em casamento.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Naquela noite de domingo, novamente encontrei brincos no chão. Um par de corações feitos de opala. Foi então que tive uma epifania:</p>
<p>— Estamos brincando de João e Maria.</p>
<p>Ela deixava migalhas em forma de brincos no chão para encontrar o caminho de volta. Mas nessa nossa versão particular e luxuriosa da história, um devoraria o outro. Sem carochinha.</p>
<p>Quinze dias se passaram, tempo suficiente para minha Maria imaginar que eu pudesse não ligar mais. No jogo da sedução, o suspense é uma arma – o frio na barriga instiga ainda mais o quente do sangue. Saí com outras duas mulheres – uma delas, a morena índia esculpida e talhada à luxúria que trabalha no escritório em frente ao meu. Ia sair com uma terceira, mas minha Maria ligou.</p>
<p>— Acho que esqueci meus brincos na sua casa. Que cabeça a minha&#8230; Posso passar aí para apanhá-los?</p>
<p>Ela passou.</p>
<p>A noite passou.</p>
<p>A manhã passou.</p>
<p>Nós não passamos. Ficamos ali, na cama de lençol amarrotado por um dia inteiro, remoendo um desejo sem fim. Saíamos apenas para ir ao banheiro e á cozinha comer qualquer coisa, e logo voltávamos para o colchão.</p>
<p>No dia seguinte, meus pés pisaram duas plumas. Doeu a tarraxa fincando na sola. Era um novo par de brincos.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>— Oi. O que vai fazer hoje?</p>
<p>— Nada.</p>
<p>— Vem em casa.</p>
<p>Ela chegou com fome, com fúria. Me apertava ainda no hall do prédio. Mordia. Machucava. Marcava. Cravava as unhas nas minhas costas. No quarto, berrava palavrões, me xingava de puto, me dava tapas. Mesmo esgotado, eu a desejava com cada fibra de músculo do meu corpo. Corpo este marcado pelas unhas de Maria, que me rasgara a carne e me roubara a alma.</p>
<p>Estávamos exaustos, mas nunca saciados. Aquela mulher deitada ao meu lado e divertindo-se com nossos corpos cansados haveria de ser minha.</p>
<p>— Estive pensando.</p>
<p>— Em quê? – ela perguntou, fechando sua pequena mão na minha</p>
<p>— Nisso. Em como nossas mãos se encaixam.</p>
<p>— Bobo. A gente se encaixa em tudo.</p>
<p>— Casa comigo?</p>
<p>Ela sorriu um sorriso redondo. Disse &#8220;sim&#8221; com um beijo.</p>
<p>O primeiro beijo como minha futura mulher.</p>
<p>O último também.</p>
<p>Quando entreguei o par de brincos de plumas a ela, Maria fechou a cara, apenas disse &#8220;não são meus&#8221; e bateu a porta na saída. Nunca mais retornou. Deve ter perdido o caminho de volta.</p>
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<p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></content:encoded>
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		<title>Essa vontade incontrolável de reclamar</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Feb 2012 02:35:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Renato Vechiatto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas e contos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Decisões diferentes. Mesmo roteiro. Mesma essência. Tenho que estar às oito e meia da matina no escritório em Alphaville. O celular desperta às sete. Coloco no modo “soneca” que se torna “sono profundo” e acordo às dez. Puta que pariu, perdi o horário. Link Vimeo &#124; Música pra quem acordou atrasado e puto Vou pro [...]</p><p><br /><hr /><p>Curadoria do PdH com as mais deliciosas mulheres da web, selecionadas a dedo: <a href="http://apimentadas.papodehomem.com.br">www.apimentadas.com.br</a></p></p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Decisões diferentes. Mesmo roteiro. Mesma essência.</p>
<p align="justify">Tenho que estar às oito e meia da matina no escritório em Alphaville. O celular desperta às sete. Coloco no modo “soneca” que se torna “sono profundo” e acordo às dez. <strong>Puta que pariu, perdi o horário</strong>.<span id="more-53817"></span></p>
<p><iframe src="http://player.vimeo.com/video/26604683?title=0&amp;byline=0&amp;portrait=0" frameborder="0" width="620" height="345"></iframe><br />
<em><a href="http://vimeo.com/26604683" target="_blank">Link Vimeo</a> | Música pra quem acordou atrasado e puto</em></p>
<p>Vou pro banheiro e, justo que que cago bem, travei. &#8220;Vai me dar uma puta vontade no meio do caminho, quer apostar quanto?&#8221;. Foda. Vou tomar um banho. E não é que o maldito do sabonete acabou e eu me esqueci de comprar? Lá vou eu tomar banho de condicionador de novo! Hoje o dia promete! Cazzo!</p>
<p align="justify">Não quero tomar café da manhã em casa. Vou parar naquela conveniência no meio do caminho e pego um pão de queijo recheado com cheddar pra destruir logo cedo!</p>
<p align="justify">Desço pra garagem, o corno do vizinho parou o carro colado no meu de novo. Filho de uma puta. Vou mandar a ré no para-choque desse carro de veado pra ver se ele se toca. Bora pro trampo!</p>
<p align="justify">Ah! Adivinha se o trânsito não tá um caralho? <strong>Não é possível!</strong> Duas horas de diferença que eu traço a mesma rota e parece que o mundo todinho resolveu sair no mesmo horário que eu. E esses putos que ficam na faixa da esquerda da Av. Paulista embaçando o trânsito. É hoje que eu chego no trabalho meio dia. Foda vai ser aquele mala do meu chefe com aquele bico olhando com cara feia pra mim, como se eu tivesse comido a mulher dele.</p>
<p align="justify">Aí, não falei! Já estou com dor de barriga. Se eu peidar, cago.</p>
<p align="justify">Paro para abastecer o carro&#8230; R$2,09 o etanol. Porra, quer me foder me faz um cafuné antes! Sempre abasteço no mesmo lugar e eis o que ganho com a fidelidade! Deixa eu pegar meu pão de queijo que eu ganho mais.</p>
<blockquote>
<p align="justify">Senhor, acabou o Cheddar, pode ser de doce de leite?.</p>
</blockquote>
<p align="justify">Ahã. É quase igual.</p>
<p align="justify">Chego ao trabalho onze e meia. Mais um pouco já dava pra emendar o almoço. Tô de saco cheio! Não vou fazer merda nenhuma por hoje! Vou ficar no Facebook, aproveitar para organizar as pastas dos &#8220;Meus Documentos&#8221;, excluir alguns e-mails antigos e baixar umas músicas.</p>
<p align="justify">Caralho, hoje vai dar meia noite, mas não dá seis horas.</p>
<p align="justify">Dez pras seis. Vou começar a arrumar as coisas. Cinco pras seis &#8211; já estou na porta conversando com a secretária esperando dar a hora pra ir embora. Seis horas. Fui.</p>
<div id="attachment_53820" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><a href="http://papodehomem.com.br/essa-vontade-incontrolavel-de-reclamar/dsc00006_saopaulo_av23maio_congestionamento_reduzido/" rel="attachment wp-att-53820"><img class="size-large wp-image-53820" title="Essa vontade incontrolável de reclamar" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/02/DSC00006_SaoPaulo_Av23Maio_Congestionamento_reduzido-620x465.jpg?95884c" alt="" width="620" height="465" /></a><p class="wp-caption-text">Fuck fuck fuck fuck!</p></div>
<p align="justify"><strong>Trânsito pra variar</strong>. E esse tempinho de merda, vai cair o mundo daqui a pouco. Meu carro limpinho! Foda.</p>
<p align="justify">Chego em casa. Peço uma pizza, tomo quatro cervejas e resolvo assistir a trilogia d&#8217;<em>O Poderoso Chefão</em> pela quinta vez. Vou coçar meu saco e dormir às três da matina. Boa noite.</p>
<p style="text-align: center;" align="justify">&#8230;</p>
<div>
<p align="justify">Tenho que estar às oito e meia da matina no escritório em Alphaville. O celular desperta às sete. Coloco no modo “soneca” que se torna “sono profundo” e acordo às dez. Sei lá, às vezes é bom se permitir um pouco. <strong>Eu estava precisando desse sono extra, me deu um gás!</strong></p>
<p><iframe src="http://www.youtube.com/embed/6CHs4x2uqcQ" frameborder="0" width="620" height="345"></iframe><br />
<em><a href="http://youtu.be/6CHs4x2uqcQ" target="_blank">Link YouTube</a> | Música pra quem acordou atrasado, mas tá de boa</em></p>
</div>
<p align="justify">Vou ao banheiro, e meu intestino que funciona perfeitamente, travou. Vou ler a VIP desse mês enquanto a vontade não vem. Ok, vou tomar um banho. Putz, esqueci de comprar sabonete. Vai de condicionador de novo. Vou aproveitar e passar no mercado mais tarde, e já compro também umas brejas e chamo os amigos em casa depois.</p>
<p align="justify">Não quero tomar café da manhã em casa. Vou parar naquela padoca louca que abriu perto do posto e comer algo.</p>
<p align="justify">Desço pra garagem e o novo vizinho parou o carro colado no meu de novo. Toco o interfone do apartamento dele, peço pra ele descer e arrumar o carro. Já aproveito e dou um toque pra ele parar de outra forma que dê pra eu sair sem incomodá-lo.</p>
<p align="justify">Trânsito na Paulista. Ligo pro meu chefe, peço desculpas pelo atraso e aviso que estou na Paulista, com tudo parado, e que vou passar em um cliente top no Jardins pra fazer uma visita. <strong>Reverti o atraso em marketing, boa sacada.</strong></p>
<p align="justify">Paro para abastecer o carro&#8230; R$2,09 o etanol? Poutz, vou parar de abastecer aqui. O lá perto de casa tá R$1,89&#8230; Bom, bora pra padoca. Duas canoas na chapa e um pingado. Cem gramas de pão de queijo e uma bomba de chocolate pra viagem. Vamo que vamo!</p>
<p align="justify">Chego ao trabalho onze e meia. Lá pela uma hora eu como meu pão de queijo e minha bomba de chocolate e não faço horário de almoço, pra compensar o atraso.  Tirei a tarde pra resolver algumas pendências e alinhar a programação do mês com o patrão.</p>
<p align="justify">Seis horas. A tarde passou voando. Vou ao supermercado comprar umas coisas. Pego um Prima Donna, uns pães, alguns nuts, várias brejas e ligo pros caras chamando pra ir lá pro recanto. Não me esqueci do sabonete.</p>
<div id="attachment_53826" class="wp-caption alignnone" style="width: 630px"><a href="http://papodehomem.com.br/essa-vontade-incontrolavel-de-reclamar/5445980971_943d003e7d_o-2/" rel="attachment wp-att-53826"><img class="size-full wp-image-53826" title="Essa vontade incontrolável de reclamar" src="http://papodehomem.com.br/wp-content/uploads/2012/02/5445980971_943d003e7d_o1.jpg?95884c" alt="" width="620" height="413" /></a><p class="wp-caption-text">Fudeu</p></div>
<p align="justify">Puta chuva. Vou remarcar a breja pra amanhã, deve estar tudo travado no caminho de casa. Vou aproveitar pra tomar um scotch, ouvir Miles e dormir mais cedo hoje. Assim amanhã não acordo com aquele sono. Abraço.</p>
<p align="justify">&#8230;</p>
<p align="justify"><strong>Puta que o pariu! Onde a vaca da empregada colocou o meu box do Miles Davis?</strong></p>
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