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em às | Cabana no PdH, Ciência e tecnologia, Debates, Mente e atitude
Trabalhamos, trabalhamos e agora veio a recompensa: um feriadão, quatro dias, uma viagem, aquela coisa. Mas será que sabemos aproveitar?
Você sabe, a dopamina é aquela molécula que atua como um neurotransmissor responsável por boa parte da vida humana: prazer, motivação, ânimo, sono, memória, movimento, concentração. Quando estamos viciados em jogo, trabalho, esporte, poder, droga ou sexo, na verdade estamos viciados em dopamina, na sensação que surge como uma recompensa.
Tal explicação esperta, no entanto, talvez não seja precisa. Robert Sapolsky, professor de biologia e neurologia de Stanford, ao comparar o funcionamento do corpo de macacos e humanos, descobriu que a dopamina não é exatamente relacionada ao prazer, mas à expectativa de sentir prazer, à incerteza da recompensa, o “talvez”.
↬ Caos Ordenado | Link YouTube (palestra completa) | Robert Sapolsky sobre a ciência do prazer
A teoria de Sapolsky explicaria nossa constante insatisfação (dukkha), antecipação, ansiedade, inquietude, experiência cíclica. Queremos muito o diploma, mas assim que o obtemos, já estamos com olho num emprego. Quando conseguimos o emprego, sua felicidade dura pouco, não conseguimos repousar ali, contentes, enfim. Quando estamos solteiros, queremos namorar. Quando estamos casados, às vezes sonhamos com a vida de solteiro.
A insatisfação se flagra até nas dinâmicas mais concretas, sempre presentes, como a respiração: precisamos muito puxar o ar, mas logo que inspiramos já surge a necessidade de soltar, o que imediatamente já nos obriga a inspirar novamente…
Mais do que o prazer, somos apegados, viciados em sua eterna busca, no esforço, na incerteza, na tentativa, na esperança de se satisfazer no próximo minuto. Daí nossa fascinação por cassinos, relacionamentos complicados, esportes, trabalhos diários exaustivos com férias anuais e até religiões, afinal criamos narrativas que nos fazem manter esforços por décadas, esperando por uma recompensa que talvez venha somente após a morte.
Será que estamos condenados a esse funcionamento da dopamina? Será que não há outro modo de viver? De acordo com pesquisas sobre neuroplasticidade, toda essa química cerebral pode mudar.
Minha aposta é simples. Enquanto trabalhamos e nos entupimos de tarefas para ganhar os joguinhos nos quais nos metemos (faculdade, trabalho, relações), que processos mentais estamos exercitando, que movimentos do corpo estão sendo treinados? É essa mente, esse corpo que vamos usar durante as experiências do feriadão.
Se nossos pés passam 10 horas diárias inquietos, frenéticos, tremendo debaixo da mesa, é burrice esperar que esses mesmos pés consigam relaxar na praia. Se nossa mente passa 48 horas semanais distraída e ansiosa, como esperar que ela se alegre subitamente após algumas horas de viagem?
Ironicamente, muitos de nós trabalham de um modo que produz hábitos mentais e corporais bastante inadequados às experiências que sonhamos viver numa viagem de feriadão. Quem vive apenas de fim de semana não consegue sequer viver bem nos fins de semana.

160 horas de preocupação com o planejamento para 6 horas de preocupação com a execução (e muitas fotos de felicidade relaxada, claro)
Há alguns meses, disse pelo Facebook:
“O sexo é uma casa estranha: a maioria das pessoas faz fila para entrar e, quando consegue, se apressa em sair. Poucos sentam e tomam um chá.”
É como se as filas nas quais entramos na vida (trabalhar para ganhar dinheiro é uma) durassem demais, tempo suficiente para criarmos hábitos que vão limitar nossa experiência dentro da casa. Talvez a descoberta de Sapolsky explique também nossa mania de criar e entrar em filas sem sentido, como as de aeroporto.
Como não aprendemos a repousar na satisfação obtida, logo somos levados a buscar por mais e mais. Não sabemos bem como ser feliz antes da felicidade esperada chegar. Pior: quando a satisfação chega, nosso corpo fica desajeitado, nossa mente não faz ideia de como aproveitá-la. Não estamos acostumados a não precisar de mais nada.
Talvez agora seja o momento de usar as filas de espera para começar o que só faríamos quando chegasse a nossa vez.
Talvez o melhor modo de aproveitar os feriados seja trabalhar de modo a dispensá-los.
Professor de TaKeTiNa, autor do Não2Não1, colunista da revista Vida Simples e coordenador dO LUGAR (ex-Cabana). Interessado na transformação causada pelo ritmo e pelo silêncio. | www.gustavogitti.com
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