Se perdeu a primeira parte, Ivo Neuman descreveu seu primeiro contato com as raves e como aprendeu a passar a psicodelia adiante. Agora ele continua o relato sugerindo um manual de sobrevivência e deixando uma reflexão final desse estilo de vida.
Uma das características mais marcantes das realizações open air de primeira linha é a escolha de um local isolado, que proporcione um belo visual, contato com a natureza – e colateralmente torne o acesso à festa uma verdadeira epopeia.
Rolos, caronas, horários de ônibus, passagens, estrada de chão e horas de viagem exigem sempre uma boa recompensa e multiplicam a expectativa por qualquer coisa que se apresente.
Quem pretende curtir o line (lista de apresentações dos DJs) do início ao fim deve estar preparado para horas de festa e um cansaço físico proporcional ao seu empenho moral na pista. Numa circunstância em que muitas pessoas se valem de drogas sintéticas para se manterem em pé, recomendo muita água, energético e guaraná em pó.
É preciso estar atento também à alimentação, o que pode ser um verdadeiro desafio ante às poucas e más opções usualmente disponíveis nos bares dos eventos a preços estratosféricos. O mesmo vale para cigarros, para quem se alimenta deles.

O trio israelense Sesto Sento agita uma porção de fritos na Tribe 8 anos em Itu (SP) (pessoal)
A estrutura física das grandes festas geralmente proporciona alguns locais interessantes pra galera sentar, deixar as bolsas e apetrechos, estender a canga (ou armar a cadeira) e até mesmo tirar uma pestana.
Os chamados chillouts são áreas especiais para relaxamento dos “foliões”, geralmente com esteiras, almofadas e uma música de procedência ainda mais alternativa que a do palco principal. Não obstante, já houve situações em que esses lugares eram os únicos cobertos de uma festa inundada por São Pedro e a moçada teve de passar a noite espremida debaixo das tendas esperando uma trégua.
Com um pouco de perspicácia talvez você poderá notar a ação de traficantes (e policiais), e o meu conselho é se manter tão longe quanto possível de ambos. A maioria absoluta das substâncias ilícitas vendidas numa festa dessas, em forma de cápsulas (ecstasy) ou cartelas de papel (LSD), tem uma procedência tão ou mais duvidosa que a do conteúdo do banheiro químico que ficou entupido no final da festa.
Se quiser brincar de roleta russa, uma única dose de qualquer droga sintética pode causar efeitos dos mais imprevisíveis, desde vômitos até uma parada cardiorrespiratória – no futebol, e no Instituto Médico Legal, chamam isto de “morte súbita”. Os efeitos podem ser ainda mais perigosos se misturados com álcool, e fatalmente catastróficos se misturados com o volante.
Tudo é uma questão de enxergar mais cores ao seu redor. (pessoal)
Não obstante, a rave é o lugar mais apropriado para tolerar os excessos alheios, enxergar um comportamento incompreensível como um extravasamento, uma válvula de escape. Não é preciso estar doidão para se sentir convidado a se comportar de forma mais descontraída; mesmo os mais tímidos, temerosos de chamar atenção, conseguem se sentir tranquilos com tanta competição visual.
Um aspecto muito importante e que confunde muitas pessoas que se aventuram em suas primeiras raves é a questão da disponibilidade da mulherada a uma abordagem masculina mal intencionada. Já ouvi que as mulheres não querem saber de pegação em raves e também que, ao contrário, estariam todas intimamente desejando a mais avassaladora experiência sexual de suas vidas.
Não tenho a menor dúvida em afirmar que existem mulheres de ambos os segmentos desfilando suas botinas e cartucheiras em requebros sensuais coreografados (vulgarmente apelidado de rebolation). A grande sacada, como em qualquer outra situação, é saber avaliar tamanhas possibilidades.
Vai por mim, elas são muitas.

“Respect the dancefloor” ou simplesmente “dance conforme a música”. (pessoal)
Ainda que consideremos os aspectos mais negativos das aglomerações humanas entorpecidas, o lifestyle proposto por esse modelo de entretenimento pode ser uma nova e interessante proposta para pessoas acostumadas ao óbvio.
Por isso, apresentei o universo das festas aos meus melhores amigos e curiosos de bom coração, mesmo sabendo que eventualmente ali não seria a praia deles.
Não é preciso ser adepto da loucura para aprender com ela, porém a experiência não tem qualquer razão de ser se não houver um envolvimento sincero por parte da cobaia. Depois que você se acostuma ao batidão frenético e constante das caixas, as coisas e as pessoas começam a ficar menos hostis – na medida em que você o permite.
Não sei se cumpri o meu objetivo de tentar despir de preconceitos o que na verdade não passa de uma simples modalidade festiva tão significativa e efêmera quanto qualquer outra, mas estou certo de que sempre vale a pena hastear a bandeira da liberdade de culto em tempos de intolerância religiosa.
A salvação é por sua conta.
Para quem se interessou, indico o blog Psicodelia.org.
Mas e você? Suas experiências com raves foram positivas ou você sempre voltou cheio de críticas?
Ivo Neuman, jovem carioca de 26 anos, é fundador da TRETA Corporation, adotou o Espírito Santo como segunda pátria e o Trance Psicodélico como religião. Formado em Direito pela UFES, nas horas vagas gosta de ficar sóbrio e fazer planos para dominar o mundo pela Internet.
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