A maior paixão da minha vida é observar as pessoas, entendê-las, entrar dentro delas, saber porque fazem o que fazem. A maioria das pessoas não é muito difícil de entender.
Por exemplo, Claudinha é linda, inteligente, talentosa. Passou por vários namorados. Todos homens interessantes que a idolatravam. Um belo dia, conheceu Paulo, que nos dias bons a tratava como se fosse mais uma, nos dias ruins, como se fosse cocô. Casaram em menos de um ano, estão juntos até hoje, dois filhos. Apesar de ser uma mulher independente, forte e liberada, formada e pós-graduada nas melhores universidades (etc, etc), largou dois excelentes empregos para segui-lo daqui pra lá, no melhor estilo mulherzinha.
A Claudinha é a garota dos sonhos de muito marmanjo
E eu acho graça porque os amigos entendem mas fingem que não entendem. É assim: “Ai, Alex! O João era lindo, rico, tratava a Claudinha como uma deusa. O Antonio era o homem mais interessante da cidade e beijava o chão por onde ela andava. E ela largou todos eles pra ficar com o Paulo que parece que só não dá na cara dela porque não vale a pena o trabalho!” E, depois de demonstrar que entendeu a Claudinha perfeitamente, a amiga suspira e fala: “Não entendo a Claudinha!” Ué, como não entende? Acabou de explicar tudo.
Em História, a gente tem um mantra: a história, por definição, nunca é paradoxal; você é que não entendeu alguma coisa.
A Claudinha finalmente ter caído na mão do Paulo não tem nada de paradoxal. Afinal, aconteceu, não é? Para os atores do drama, tudo faz o mais perfeito sentido. Se pra você, que está de fora, a relação parece paradoxal, é porque você não entendeu quem eles eram, quais eram seus anseios, o que estavam buscando, etc.
Eu tento sempre fazer o caminho oposto. Eu parto do princípio que, com raras e honrosas exceções, as pessoas acabam sempre vivendo a vida que escolheram viver, mesmo que (quase sempre) não saibam disso.
Por definição, a Claudinha passar pelas mãos de vários homens e só sossegar o facho nas mãos no Paulo não é paradoxal. Claramente, sua relação com o Paulo lhe dá algo que ela precisa e que os outros não davam. Isso é tão patentemente óbvio que me espanta não ser o senso-comum - mas não é.
Cada relação tem suas regras, e pode apostar que os dois concordam
Mais difícil é descobrir o quê afinal ela vê no tal Paulo. O desafio aqui é julgar não do ponto de vista dos seus próprios preconceitos, mas dos anseios e expectativas do outro. Tem gente que acha levar bofetada uma coisa ruim, tem gente que não vive sem. Conheço até quem goste de lamber pé sujo. Quanto mais você aplicar suas opiniões e valores na tentativa de compreensão do outro, mais você não entenderá nada e mais achará tudo “paradoxal”.
Eu adoro a Claudinha. Já passei uns dias em sua casa e, confesso, foi constragedor o esforço dele em não dar patadas nela em minha presença e dela, em fingir que ele era o maridão perfeito e amoroso. Tentarei não me hospedar mais na casa deles. Mas, nesse caso, a maior convivência tirou minhas últimas dúvidas: não é que Claudinha seja sexualmente submissa, como tantas mulheres fortes e independentes que conheço.
De certo modo, o tesão dela está na caça. Os seus outros homens já chegavam nela pré-conquistados, babando, idolatrando-a. Já Paulo ela precisa reconquistar todo dia, mantê-lo sempre interessado, agradá-lo. E cada feedback positivo, por menor que seja, é uma grande vitória que compensa tudo.
Quase posso imaginar os dois daqui a quinze anos, ele finalmente se acalmando, ficando mais calmo e amoroso, e ela tendo uma daquelas crises da idade da loba, precisando sair e dar pra todo mundo, porque ele simplesmente não responde mais aos seus anseios, porque ele não lhe dá mais a chance de reconquistá-lo. E o pobre do homem não vai entender nada quando ela finalmente sair porta à fora nos braços de um canalha de vinte.
Alex Castro é autor convidado da PapodeHomem e dono do blog Liberal-Libertário-Libertino, que é bom pra caralho. Esse texto é inédito e está sendo publicado aqui em primeira mão. =D
Alex Castro é ilustre autor convidado na PdH e também escreve no excelente Liberal, Libertário, Libertino.
Outros artigos escritos por Alex Castro







Adorei o Texto, muito bem elaborado e interessante, dá vontade de continuar lendo, lendo, lendo ehehheheheh. Parabéns!
pô, tava lendo o texto via bloglines e jurava que esse post era do LLL. xD
ter chamado o Alex de Castro pra escrever aqui no Papo de Homem foi realmente uma idéia genial. valeu, dr. love!
Muito interessante. Alex colocou direitinho o que muita gente por aí custa a entender. Parabéns
queria ser um paulo.
Sensacional!
[...] E depois de catar o link, fui ler mais um pouco do blog e descobri que temos o mesmo vício, Papo de Homem. Só não sabia que o Alê também era colaborador. Muito legal este texto aqui, fala de relações parodoxais, é sobre uma mulher, mas vale para mulheres e homens, eu acho. [...]
Bacana aqui
abrc!
Tenho lido o Papo de Homem tem uns dias e adorando.
E esse texto do Alex Castro é ótimo (acompanho o blog do Alex tem bastante tempo).
Tipo, mostra realmente quão complicado são os relacionamentos.
Vai entender pq sempre nos apaixonamos por quem não nos dá valor ou por quem é comprometido?
Uma boa abordagem do Alex.
E tô leitor assíduo daqui.
Se quiserem viro até colaborador com meus textos, he he he
(modéstia, afffff)
Abraço
Alex,
Realmente esse texto reflete bem o espírito do PdH, onde a maioria dos leitores querem ser como o Paulo.
Abraço e sucesso.
Putz, amei o post, já conheço o Alex Castro da internet, já li umas entrevistas, ele é ótimo!
O texto é perfeito, lúcido. Sempre pensei assim. Não adiante querer entender o outro pela nossa ótica pessoal, vamos dar com os burros n’água.
E lendo sobre um pouca da estória dessa moça, me vi ali, não no mesmo roteiro, masem algo assim, que até eu às vezes não entendo por que me atraio tanto por ele, porque logo ele com tantos e tantos defeitos que as vezes abomino faz tanto minha cabeça. Mas no fim qdo me acalmo e fico comigo mesma eu sei porque.
bjs
Hehehe. Perfeito!
“Muito interessante. Alex colocou direitinho o que muita gente por aí custa a entender.”
Concordo.
Abraços
Fantástico, o texto.
Realmente me lembrou aulas de antropologia na parte de “quanto mais você tenta aplicar seu ponto de vista, mais você não entende nada”.
Muito bem elaborado e articulado.
Realmente, nota 10.
Ótemo.
Esse texto deixa provado que algumas mulheres gostão mesmo de homens savados e cafagestes, mas que no intimo do casal seja super amável.
simplesmente sensacional!!
Isso aí! Temos que recuperar o orgulho macho!
Excelente artigo!!!
As pessoas foram criadas para seguirem o padrão que a sociedade impõe… por isso, o que aparece como sendo contrário ao senso comum é mal entendido pelas pessoas… como foi colocado pelo autor, ” as coisas acontecem…”, portanto, não adianta tentar explicar os porquês, como foi colocado pelo autor, “Claudinha inconscientemente queria aquilo pra ela”! Isto basta… pois, se ela preferiu ficar com um canalha pode ser que os “certinhos” que passaram pela sua vida não eram o tipo de homem para ela. Nem tudo é como a gente imagina!
Genial!
eu também sou meio que assim..
não é porque é gostosa é aquilo, eu vou fica idolatrando.
quer ótimo, não quer FODA-SE.
eh isso ae
Um artigo mais do que realista!! Sem muito o que comentar, você simplesmente definiu a essência humana nos relacionamentos. Estamos sempre procurando no outro um complemento, o que satisfaça nosso desejo, seja ele de que tipo for, desejo de ser maltratado, de ser idolatrado… seja ele consciente ou não!!
Já conheço o blog apesar de não ser leitora assídua, de vez em quando passo por lá!!
Parabéns!! Beijos!!
[...] revirando meus arquivos aqui e lembrei de um artigo que tinha lido no Blog Papo de Homem falando um pouco a respeito desse comportamento de motivos [...]
[...] temos o mesmo vício, Papo de Homem. Só não sabia que o Alê também era colaborador. Muito legal este texto aqui, fala de relações parodoxais, é sobre uma mulher, mas vale para mulheres e homens, eu acho. [...]
[...] complementar o tema acima, bom reler o ótimo, e atemporal, texto do Alex Castro ao PdH, Não Entendo a Claudinha, [...]