Sapassado taveu na cuzinha tomando uma picumel e cuzinhando um kidicarne com mastumate pra fazê uma macarronada com galinhassada. Quascaí de susto, quando ouvi um barui de dendoforno, pareceno um tidiguerra. A receita mandopô midipipoca dentro da galinha prassá.
U forno isquentô, u mistorô e o fiofó da galinha ispludiu!! Nossinhora! fiquei branco quinein um lidileite. Foi um trem doidimais! Quascaí dendapia! Fiquei sensabê doncovinha, proncoía, oncotava. Óiprocevê quelucura! Grazadeus ninguém simaxucô!
Se você ainda não entendeu nada, está na hora de conhecer o nosso Guia para Mineirês, um regionalismo bem pitoresco.
Esse artigo foi inspirado no convite feito pelo Grande Becher para a Papo de Homem, em seu post-meme Regionalismos e Mal-Entendidos. Lá ele conversa sobre as gírias de Florianópolis.
Aqui, como mineiro da gema nascido em Belzonte, o assunto é o Mineirês.
Caso se encontre perdido na gloriosa capital mineira algum dia, com 4 palavras básicas você vai conseguir sair dessa. Observe:
“Oncotô?”
Significa: Onde é que eu estou?
“Proncovô?”
Significa: Prá onde eu vou?
“Pron nóisvai?”
Significa: Prá onde nós vamos?
“Bãodimáisdaconta”
Significa: Muito obrigado, você é gente fina demais.
Para conhecer mais à fundo sobre o Mineirês, você deve ler o melhor texto já escrito sobre o assunto. Separe uns cinco minutos para sua leitura, vale cada segundo. E se estiver com pressa, pode descer até o final, para ler a tradução do trecho no início desse artigo.
Mineirês - Autoria Desconhecida
Ouvi dizer que o sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom em um desses horríveis efeitos colaterais, como é que falar das mineiras ficou de fora? Porque, Deus, que sotaque!
Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um Contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?
Assino achando que ela me faz um favor. Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.
Mas, se o sotaque desarma, as expressões são capítulos à parte. Não vou exagerar, dizendo que a gente não se entende… Mas que é algo delicioso descobrir, aos poucos, as expressões daqui, ah isso é…
Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: “pó parar”. Não dizem: onde eu estou? Dizem: “ôncôtô?”). Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho. Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.
Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é “bom de serviço”. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço. Faz sentido.
Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem.
Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: “cê tá boa?” Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela está boa, é como perguntar a um peixe se ele sabe nadar. Desnecessário.
Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: - Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc). O verbo “mexer”, para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar.
Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício. Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você “não dá conta”. Siôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:
- Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.
Esse “aqui” é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.
Mineiras não dizem “apaixonado por”. Dizem, sabe-se lá por que, “apaixonado com”. Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora:
“Ah, eu apaixonei com ele…”. Ou: “sou doida com ele” (ele, no caso, Pode ser você, um carro, um cachorro).
Elas vivem apaixonadas COM alguma coisa.
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: “E aí, vão?”. Traduzo: “E aí, vamos?”. Não caia na besteira de esperar um “vamos” completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.
Na verdade, o mineiro é o baiano lingüístico. A preguiça chegou aqui e armou rede. O mineiro não pronuncia uma palavra completa nem com uma arma apontada para a cabeça. Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, mineirês. Nada pessoal.
Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: - Eu preciso de ir. Onde os mineiros arrumaram esse “de”, aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório.
Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam… Você não precisa ir, você “precisa de ir”. Você não precisa viajar, você “precisa de viajar”. Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:- Ah, mãe, eu preciso de ir? No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra “um tanto de coisa”. O supermercado não estará lotado, ele terá “um tanto de gente”.
Se a fila do caixa não anda, é porque está “agarrando lá na frente”. Entendeu? Deus, tenho que explicar tudo. Não vou ficar procurando sinônimo, que diabo. E não digo mais nada, leitor, você está agarrando meu texto. Agarrar é agarrar, ora! se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: “- Ai, gente, que dó”.
É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Eu aviso que vá se apaixonar na China, que lá está sobrando gente. E não vem caçar confusão pro meu lado. Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro “caça confusão”.
Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele “vive caçando confusão”.
Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom (acho que dá na mesma), ela, se for jovem, vai gritar: “- Ôu, é sem noção”.
Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o “Ôu” no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?
Ouço a leitora chiar: “- Capaz…” Vocês já ouviram esse “capaz”? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer “tá fácil que eu faça isso”, com algumas toneladas de ironia. Gente, ando um péssimo tradutor. Se você propõe a sua namorada um sexo a três (com as amigas dela), provavelmente ouvirá um “capaz…” como resposta.
Se, em vingança contra a recusa, você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: ” ô dó dôcê “. Entendeu agora? Não? Deixa para lá. É parecido com o “nem…”. Já ouviu o “nem…”? Completo ele fica: “- Ah, neeeeem…”
O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: “Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?”. Resposta: neeeem…” Ainda não entendeu?
Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
A propósito, um mineiro não pergunta: “você não vai?”. A pergunta, mineiramente falando, seria: “cê não anima de ir”? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. “É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem…”. Ei, leitor, pára de babar. Que coisa feia. Olha o teclado todo molhado. Vai dar curto circuito! Chega, não conto mais nada. Está bem, está bem, mas se comporte.
Falando em “ei…”. As mineiras falam assim, usando,curiosamente, o “ei” no lugar do “oi”.
Você liga, e elas atendem lindamente:
“- Eiiii!!!”, com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade… Tem tantos outros…
O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar: - Ah, fui lá comprar umas coisas… “-Que’ s coisa?” - ela retrucará. Acreditam? O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que. Ouvi de uma menina culta um ” pelas metade “, no lugar de “pela metade”. E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará: - Ele pôs a culpa “ni mim”.
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas… Ontem, uma senhora docemente me consolou: “preocupa não, bobo!”. E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: “não se preocupe”, ou algo assim.
A fórmula mineira é sintética e diz tudo.
Até o tchau. em Minas. é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: ” tchau pro cê “, ” tchau pro cês “. É útil deixar claro o destinatário do tchau.
O tchau, meu filho, é prôcê, não é pra outro, tendeu?
Tradução do Trecho Inicial
“Sapassado taveu na cuzinha tomando uma picumel e cuzinhando um kidicarne com mastumate pra fazê uma macarronada com galinhassada. Quascaí de susto, quando ouvi um barui de dendoforno, pareceno um tidiguerra. A receita mandopô midipipoca dentro da galinha prassá.
U forno isquentô, u mistorô e o fiofó da galinha ispludiu!! Nossinhora! fiquei branco quinein um lidileite. Foi um trem doidimais! Quascaí dendapia! Fiquei sensabê doncovinha, proncoía, oncotava. Óiprocevê quelucura! Grazadeus ninguém simaxucô!”
Sábado passado eu estava na cozinha tomando uma pinguinha e preparando um quilo de carne com extrato de tomate para fazer um macarrão com galinha assada. Quase caí de susto quando ouvi um ruído que vinha de dentro do forno, parecendo artilharia de guerra.
A receita dizia que era para pôr milho de pipoca dentro da galinha para assar. O forno esquentou, o milho estourou e a ânus da galinha explodiu. Nossa Senhora! Fiquei branco como leite. Foi algo muito estranho. Quase caí dentro da pia. Fiquei sem saber de onde vinha, para onde ia ou onde estava. Veja só que loucura. Graças a Deus ninguém se feriu.
Entendeu agora, sô?
Update 23/07/2007: convido para participar desse meme o Bender, o Navarro, o João, o Melo e o Walmar (meio offtopic pra você Walmar, fica a seu critério).
Publicitário e criador da PapodeHomem. Quer passar 2008 viajando e escrevendo do laptop. Aham, vai sonhando...
Outros artigos escritos por Guilherme Nascimento Valadares







Porra. Isso é que é ter conhecimento de causa.
Parabéns pelo guia, ficou show!
Acabou saindo um artigo monstro, Becher, dos maiores, se não for o maior até hoje! Gostei demais de participar desse meme.
Abração, cara
Recentemente passei um bom tempo em BH a trabalho, e realmente alguma expressões chamam a atenção. Uma bem interessante, inclusive citada no texto, é o “tá garrado”. Se o trânsito que não anda é porque “tá garrado”, se a pizza não chegou é porque o motoqueiro “garrou”, ou se o cluster não sobe é porque “isso tá garrado demais da conta”. Ou coisa legal é o “fechou igual a boca de bode”, seguido do gesto com as mãos.
Sobre o fato de abreviar, tem uma piada que diz que o mineiro é o baiano que ia pra São Paulo mas ficou com preguiça e parou no caminho.
Em tempo: sou baiano.
Sou mais o baiano, meu reeei.
Psycho, fui lá no seu blog e li o relato completo da sua aventura. Você gastou mais de 12h entre Sampa e BH. Puta merda.
Cara, ando correndo de avião, do jeito que sou, ia ficar *muito* puto se fizessem overbooking comigo. Prefiro pegar um ônibus e ir curtindo as músicas do meu Mp3 no caminho. E chegar na hora.
Abraço
Eu, como mineira, digo que simplesmente amei o texto e a forma como foi abordado o tema.
“Textim bom demais da conta, sô…” rsrsrs…
[...] palhaçada do meme sobre os regionalismos começou com o Pedro, passou pelo meu semi-clone e pelo Guilherme Valadares. Este último me convidou, então aqui está o guia do gaudério-alemão falado no Vale do Sinos, [...]
eita!!!
Ainda esqueceram da famosa expressão…..mulher aqui é mato….o mato significa que te mta mulher….”Aqui é mato!!
Eu como mineiro, parabenizo o artigo guilherme e queria completar o “Bãodimáisdaconta” pra “Bãodimáisdacontasô!” . Esse sô no final, é de lei, não acha?
ABraços!
hahahahahhaha
claro que é, sô!
sem falar que “de lei” é outra expressão bem mineira…
O texto é de Felipe Peixoto Braga Netto (1973) Procurador Juridico do estado de Minas, mora em Belo Horizonte e ama Minas Gerais. Esta crômica foi extraída do livro “As coisas simpáticas da vida”, Landy Editora, São Paulo (SP) - 2005, pág. 82.
André, muitíssimo obrigado pelo complemento. Por curiosidade, como encontrou nosso artigo aqui no PapodeHomem?
Abraço
Nada menos que maravilhoso.
Um beijo enorme, e um cheiro, a todos os meus amigos mineiros. ;-D… Hehehe..
Bj e cheiro devidamente recebidos, Fernanda. ;D
O texto “minerês” é de autoria de Felipe Peixoto Braga Netto, e o título original é “Sotaque mineiro: é ilegal, imoral ou engorda?”
Só uma mulher para salvar vcs, homens, rs.
Bjin!
Cara Luana, realmente uma mulher faz muito pela gente, mas nesse caso, se vc olhar 4 comentarios acima vai ver que eu já havia falado sobre isso em outubro do ano passado! Bj!