Papo de Homem

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Porque o amor não se explica – Parte I


Publicado por Michelli Lorenzi em 03.8.2008 às 22:18 em Colunas, Ladies Room

- Mi! Acorda!! É sério!

Ouvi a voz no meu quadragésimo sétimo estágio do sono.

- Acorda!

Levantei zonza, sem saber o que era sonho, delírio ou realidade.

- Aqui! Na janela!

Uma mulher deitada pouco abaixo da escadaria, local onde os cachorros moradores do prédio costumam marcar território matinalmente, próximo ao portão de entrada, gritava:

- EU AAAAAAAAAAAAAAAAMOOOOOOOOOOO ESTE HOOOOOMEEEEEEM…

Ela rolava pra um lado. Logo rolava pro outro.

barraco

Barraco bom é barraco com “crasse”

No prédio ao lado, várias cabecinhas se aglomeravam nas janelas. Vinícius – policial que sempre se manifesta nestas ocasiões gritando “Estou descendo aí! Que baixaria é essa?? Tô descendo agora, porra!!”, enquanto a esposa que grita “Calma, Vinícius” estava ausente nesta madrugada.

- EU AAAAAAAAAAMOOOOOOOO ESTE HOOOOMEEEEEMMM…

E voltava a rolar pra um lado, depois pro outro. Nestes momentos de decadência e degeneração, uma palavra de consolo sempre é de extrema benevolência e apoio. Então, gritamos:

- EU TAMBÉEEEEEEEEEEEEMMMMMM!

E ela continuava rolando..

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiii!! COMO DÓOOOOOOOOOOIIIIIIIIIIII!!

Sim, parecia doloroso. Levantou-se – ou tentou – e ajoelhou na escada.

- Eu quero você, mesmo que com OUTRA!

É. A figura da outra é costumeira nessas situações. E voltou a deitar no chão, mas não sem antes ajeitar cuidadosamente seus cabelos – pelo visto recém escovados -, tirar algumas folhas caídas no chão do jardim lateral e deitar lentamente a cabeça sobre sua bolsa. Para não desarrumar o penteado, suponho.

ciumentinha

Ah, então você não estava satisfeito com o arroz e feijão é, seu safado?

- EU AAAAAAAAAAMOOOOOOOOO ESTE HOMEEEEMMMM…

Rolou mais um pouquinho pra direita, mais um pouquinho pra esquerda.

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Dói MUITOO…

Parou de rolar e olhou pras janelas do prédio.

Voltou a rolar.

- Aiiiiiiiiiiiiiiii…

Barulho de chave na porta. Era o outro Diogo, amigo nascido na Bahia, criado uma parte em Minas, outra em São Paulo, formado no Paraná, concursado com passagem pelo Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília. E atualmente morando em Criciúma – SC, nosso hóspede de passagem chegando da balada. Entrou na ponta dos pés. O apartamento estava às escuras. Nos encontrou na janela.

- Vocês também?

- Sim! Já tem quinze minutos que estamos aqui! Agora conta tudo que viu e ouviu lá embaixo!

- Bom… assim que cheguei eu avistei a mulher, fiquei um pouco assustado, esperei um pouco. Parecia que iria demorar, então passei pelo ladinho.

- Tem mais alguém lá embaixo?

- O porteiro. Ele disse que não é a primeira nem a última vez dela. E que costuma demorar mesmo. Então acho que fiz bem em subir logo.

- Você é um COVARDEE!! Aiiiii. Eu AMOOO este homem…

Ela ainda rolava e gritava.

Resolvemos descer. Eu de pijama, Diogo também de pijama e o outro Diogo vestido da balada. Elevador, botão térreo. Saímos, silenciosa e discretamente, e ficamos atrás dos vidros da primeira entrada.

Ela ordenava ao porteiro por entre as grades do portão.

- ABRE ISSO AGORA!

O covarde também estava lá, do lado de dentro do portão, a uma distância segura e ordenava ao porteiro:

- Não abre!

- ABRE AGORA! Seu covarde!

Soluçava. Algo de vidro espatifou-se contra o portão. O covarde virou-se e veio em nossa direção. Sem tempo para entrar no elevador, corremos pela escada de acesso à garagem e nos escondemos entre as pilastras. Aguardamos alguns minutos.

- Parece que está calmo.

- Vamos voltar.

Na escada, o covarde nos avistou e disse, parecendo sem graça:

- É doida, né? Não liguem.

Constrangidos, voltamos a nos esconder – agora dele – entre as pilastras. Parecia insensibilidade rir às vistas dele.

Por fim, resolvemos voltar ao apartamento pelo elevador, preparados para fechar a porta à força caso parasse em algum andar diferente do nosso. Chegando, corremos de volta à segurança de nossa janela.

- Seu cachorro!

Passou mais algum tempo o xingando de todos os nomes. Dizem que o amor e o ódio são sentimentos muito próximos…

Fez-se silêncio.

love-hurts

Taí ó, tatoo perfeita praquele momento pós-chifre

Ajeitou novamente seu cabelo, literalmente sacudiu a poeira, subiu nos saltos e deu meia-volta. Saiu quebrando as cadeiras com o seu cabelo ainda esvoaçante, segurando firme sua bolsa. Triunfal, se não fossem os vinte minutos que demorou tentando acertar a chave na porta do carro. Saiu cantando os pneus em seu carro branco até a perdermos de vista.

No fim de tudo, ficou marcada a mentira do porteiro e a expressão  “rolar no chão e gritar EU AMO ESTE HOMEM” em nosso vocabulário.

A câmera digital ainda fica ao lado da janela esperando por ela. Nas noites de madrugada, ainda acordo assustada e ansiosa quando ouço alguém gritando na rua. Algumas vezes, fico minutos prestando atenção no que é dito, até ter certeza que não é nenhuma voz conhecida. Em outras, chego a correr até a janela com alguma esperança.

Mas ela foi embora, pra nunca mais voltar. E foi assim que tudo acabou.

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Michelli Lorenzi é leitora da PapodeHomem, bloga no Partículas Elementares e mora num condomínio muito movimentado.

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23 comentários ↓


  • #1 - Denis em 03.08.08 at 11:02 pm
  • Ansioso pela parte II


  • #2 - Wlademyr em 04.08.08 at 1:08 am
  • Já aconteceu algo semelhante comigo… mas eu abri a porta… me arrependo amargamente até hoje. a garota rasgou metade das minhas roupas, destruiu meu apartamento e me acusou de agressão… ainda tive que prestar depoimento na delegacia.


  • #3 - Vagner em 04.08.08 at 1:54 am
  • Nossaaaa que mulher loka… haioehaoieuaie
    é isso que o amor proporciona as vezes


  • #4 - Irene Mara em 04.08.08 at 8:59 am
  • Nenhum amor vale isso, ainda mais depois do chifre…. hehehehehehe


  • #5 - juzinha em 04.08.08 at 12:33 pm
  • Eu sentei a mao na cara de um namorado num lugar publico,quando o vi com uma biscate.Mas mesmo quebrando tudo somos só nos que sofremos.


  • #6 - Patrícia Ferraz em 04.08.08 at 2:49 pm
  • Bom, há poucos elementos para analisar. Mas, a princípio, eu não chamaria isso de amor, mas de embriaguez, ou falta de auto-amor…


  • #7 - Gustavo Alencastro em 04.08.08 at 3:19 pm
  • Novelão Mexicano !

    Na boa, tem momentos que o orgulho deve falar mais alto, daí não nos rebaixamos.


  • #8 - Michelli (Autor) em 04.08.08 at 6:12 pm
  • Acredito que todos esses tipos de exagero/compulsão/desespero/cenas-decantes/falta-de-noção
    são manifestações de um desequilíbrio interno resultante, no geral, de insatisfações acumuladas do significado de sua própria existência.

    Alguns chamam de amor, outros de passionalidade, arrisco até a palavra obsessão. Mas, em todo processo, não acredito na culpa de apenas um. Normalmente, os processos neuróticos são provocados e estimulados por ambas as partes. Ou seja, nestes casos não há excludente de culpabilidade.

    =)


  • #9 - Carol em 04.08.08 at 7:01 pm
  • É, só o fato do dito cujo ficar na portaria assistindo ao barraco de camarote, sem agir, já demonstra uma certa culpa…

    Acho que a mulher não voltou por conta da lei seca… Talvez tenha sido presa… Eheheheheheh


  • #10 - Rubens em 04.08.08 at 8:33 pm
  • A ex namorada de um amigo fez algo parecido, mas pior.
    Ela tentou atear fogo na casa dele, eu estava lá no momento. Tentando segurá-la ganhei uma bela mordida no braço.


  • #11 - Fred em 05.08.08 at 11:12 am
  • Espera aí. Que mentira do porteiro?


  • #12 - Igor_182 em 05.08.08 at 11:42 am
  • besteira…uma ex já me fez vergonha pior…


  • #13 - Michelli (Autor) em 05.08.08 at 12:40 pm
  • O porteiro disse que não era a primeira, nem a última vez dela, que eram costumeiras essas aparições. Mas ela nunca mais voltou…


  • #14 - Guilherme em 05.08.08 at 7:24 pm
  • Ninguém pensa na polícia nessas horas?


  • #15 - Roberta em 06.08.08 at 10:42 am
  • Só faltou o amor próprio, né?


  • #16 - Renato_ML em 06.08.08 at 10:46 am
  • tem mulher que gosta de sofrer, acho que nisso todos vao concordar…


  • #17 - Natalya em 06.08.08 at 3:26 pm
  • PUTS! HAUHAUAHUAHA
    Acho que esse é o fetixe dela… só pode!!


  • #18 - Natalya em 06.08.08 at 3:27 pm
  • ps: eu tbm estaria com câmeras à disposição da louca! AHUAHAUHAUH


  • #19 - Rafa em 06.08.08 at 6:28 pm
  • @carol……concordo…foi a lei seca q a impediu de retornar e dar esse showzinho


  • #20 - nunaina em 06.08.08 at 10:40 pm
  • claro que não é amor,nem por si mesma,é histeria pura que precisa de platéia.


  • #21 - Thiago em 08.08.08 at 5:40 pm
  • Concordo com Nunaína..

    É histeria. :/


  • #22 - Morena Jambo em 27.11.08 at 7:05 am
  • Já dizia o poeta que “amar se aprende amando” e se seguirmos seu raciocínio, esbarraremos na lição que nos foi passada nas décadas passadas: relação é sinônimo de desilusão.


  • #23 - Uma síndica, s’il vous plaît sill vu plé « Partículas elementares em 24.08.09 at 5:53 pm
  • [...] Meu endereço residencial anterior era uma avenida um pouco mais tumultuada, como já relatado aqui. Bom, além de ser uma quadra pacata e silenciosa, o meu prédio localiza-se exatamente no meio da [...]


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