Os homens dependem excessivamente do olhar feminino para agir ou ser alguém. Mas isso não precisa ser assim.
Em dois artigos recentes (“Sobre mulheres imperfeitas e tangíveis” e “A nova revista da velha mulher”), falamos sobre como muitas mulheres se preocupam com o olhar masculino e se guiam por visões que não são delas, gerando sofrimento e insatisfação.
A situação é tão grave que – como bem mostra o documentário italiano O Corpo das Mulheres – até mesmo os comerciais de produtos femininos, direcionados às mulheres, são feitos para os olhos dos homens. Ou seja, a mulher compra o produto para receber o mesmo olhar que a gostosa do comercial captura. A empresária, a produtora, a atriz e a consumidora, todas veem o comercial com um olho que não é delas.
Ambos os artigos receberam excelentes críticas nos comentários, das quais destaco a seguinte, do leitor Paulo de Tarso:
“Eu sempre fui contra a ter ‘papo de mulher’ neste site, e já me posicionei várias vezes quanto a isso. E não é porque sou machista, ou porque quero um clube do bolinha, e sim porque gera essa necessidade de receber aplausos femininos, de agradar esse público, e acaba por desvirtuar o site como um todo.”
O ponto principal não é definir papeis e clubes (o que é ou não é papo de homem) ou se fechar às visões do sexo oposto, mas a perda de nossa autonomia e de nosso direcionamento, equívoco comum a homens e mulheres.
Como já abordamos o assunto para elas, agora é hora de falar para homens que se preocupam com aplausos e agem cegamente de acordo com as demandas e necessidades de outros em geral, não só de suas mulheres.

“Mulheres mandam, homens servem”
Oscar Filho é o cara com quem mais me identifico no CQC. Pra mim, é o mais transparente, o menos cheio de pose e o mais engraçado deles. Essa semana, ele contou em seu blog que negou tirar fotos com alguns fãs e foi repudiado e criticado por isso, chegando ao ponto de ouvir “Sandálias da humildade pra você!”.
O problema não está em tais situações, mas no fato de que isso nitidamente o perturbou, criou algum grau de aflição e frustração. Aponto isso de modo impessoal porque todos nós somos celebridades em nosso mini palco, com nosso microfone invisível e nossa micro plateia de amigos, família e seguidores no Twitter.
Assim como o Oscar Filho, todos nós queremos manter uma imagem admirada por todos, sem críticas, sem repúdios ou aversão. Uma imagem completamente aceita e elogiada por todos, não é mesmo?
Adivinhe… isso é impossível. Porém, embora saibamos disso, somos fisgados pela alegria dos elogios (quem nunca se extasiou ao ouvir “Você é viciante!”?) sem prever sua outra face (“Você é um merda”). O modo como outros nos veem passa a ser nossa fonte de felicidade e é assim que perdemos nossos olhos.

O que você não faria para fisgar esses olhos? | Olivia Wilde (homenagem ao Pedro Jansen)
Em um livro com um dos melhores títulos que já vi, Discurso da Servidão Voluntária, o filósofo Étienne de La Boétie, bem antes de Darwin e Freud, se pergunta algo assim: se os homens são naturalmente livres, por que se submeteriam à servidão? No âmbito social, a pergunta seria: como pode um homem controlar uma multidão que poderia matá-lo a qualquer momento?
Uma das respostas é: o indivíduo aceita a pirâmide de poder na esperança de um dia chegar ao topo, ou seja, ele obedece porque deseja dominar. Outra resposta é dada por Marilena Chauí ao comentar o texto: “Nem coragem e força do tirano, nem covardia e falta de fibra dos tiranizados engendram a servidão voluntária, mas apenas o esquecimento da liberdade”. Eu busco me tornar livre por meio do poder apenas porque me esqueci de minha liberdade original.
Nos relacionamentos amorosos, isso é simples de se observar. Como nossa felicidade depende dos olhares externos, queremos controlar a imagem que está sendo projetada. Para tanto, obedecemos aos movimento desses olhares. Mimamos o outro para recebermos sua aceitação e para que se preserve a imagem positiva de nós que ele detém. Chega a ser um processo de sobrevivência, uma forma de se sentir vivo.
É por isso que todo homem daria tudo para saber, em definitivo, o que as mulheres querem… Nada menos que sua felicidade e o sentido de sua vida que está em jogo – ou melhor, na mão delas. E não estou exagerando: há homens que se matam e outros que quase explodem quando são abandonados ou traídos por suas mulheres (só na última semana, recebi dois emails com relatos assim).
Algumas revistas masculinas sabem: barriga “tanquinho”, ombros largos, um bom peitoral (com pelos para algumas, sem pelos para outras), inteligência, senso de humor, presença, profundidade, dinheiro, poder…
Quando perguntamos para elas, a resposta vem parecida, mas sem tantas exigências: “Respeito, carinho, atenção, ambição, fidelidade, inteligência e não precisa muito de beleza, não”.
Veja um exemplo:
Link YouTube | A bela Lívia, durante o evento de lançamento do BIC Comfort 3
E então um bando de homens vai atrás disso e se frustra quando dá errado: “Poxa, eu tinha tudo e mesmo assim ela ficou insatisfeita”.
Imagine se o Google fizesse uma pesquisa entre seus usuários antes de lançar o Google Wave ou se Biz Stone e seus parceiros tivessem perguntado a várias pessoas “O que você mais quer na Internet?” antes de criar o Twitter. Não, eles não olharam com nossos olhos. Eles usaram os próprios olhos para antecipar nosso próprio comportamento futuro ou, mais ainda, para construi-lo.
As mulheres – e os homens também – não sabem o que querem. A humanidade como um todo é cega para aquilo que mais poderia beneficiá-la (caso contrário, não haveria tantas guerras e injustiças). Portanto, o desejo do outro é sempre uma péssima referência para balizar nossa ação.
Às vezes nos comportamos como um cara que está fazendo sexo anal em sua namorada e perguntando a cada 2 minutos:
“Está doendo? Eu posso parar, se quiser… Está bom pra você? O último tapa foi forte demais?”
Ora, sua mulher é um ser livre! Se ela não estiver gostando, ela vai sair. Da cama ou da relação. É isso que nos assusta. E por isso fazemos checagens. Num esforço para ignorar a liberdade do outro (que pode ser cruel), tentamos aprisioná-lo com nossos mimos: “Se sempre for bom pra você, então você não me abandonará, né?”.
Quando surge o ciúme, você faz reverência e deixa que ele comande sua situação (“OK, querida, eu nunca mais vou ligar pra minha melhor amiga”). A raiva aparece e você abaixa a cabeça (“Você tem razão em estar nervosa”). Assim que a carência a invade, você reage aumentando os mimos.
Quem comandou suas ações? A quem você fez prostração? Quem foi seu líder?
O ciúme, a raiva, a carência. Aflições, emoções perturbadores, venenos mentais, obstáculos do outros. Inimigos, você foi guiado por inimigos que fazem mal para você, para a relação e principalmente para o outro, seja ele seu chefe ou sua esposa.

O outro lado da deliciosa frase “Eu sou sua”.
Imagine duas histórias…
Na primeira, seu amigo passa um mês na sua casa, não reclama da louça suja, não critica quando você acorda tarde, não liga para suas bebedeiras e apenas se diverte com você.
Na segunda, seu professor japonês de meditação passa um ano com você. Na primeira semana, ele joga um balde de água fria diariamente às 5h40 e ainda faz você colocar o colchão para secar ao Sol, o que não dá muito certo. Na segunda semana, você se cansa de dormir no colchão molhado e passa a levantar cedo. Por repetidas vezes, o professor coloca sua louça imunda na frente do computador, então você, irritado, nunca mais deixa um copo sequer de bobeira sujo na pia. E assim ele faz com todos os seus obstáculos, metralhando um a um. Fora as 4 horas de meditação diárias…
Entre o amigo ou professor de meditação, qual mais ganhou sua admiração e confiança? Qual relação foi mais benéfica e transformadora? Qual você gostaria de continuar?
Nesse exemplo caricato, fica claro que somos mais benéficos aos outros quando não reagimos aos seus condicionamentos, quando não mimamos seus desejos, quando não perguntamos “O que você quer?”. Em vez disso, podemos usar nossa visão ampla para construir relações que realmente beneficie a todos, mais até do que os outros podem imaginar.

Se ela quiser todos, você vai comprar?
Abdicamos de nossa liberdade, perdemos nossos olhos, deixamos nossa autonomia dormindo em casa apenas porque encontramos energia, felicidade e satisfação em outro processo. E não soubemos fazer diferente. Não são as mulheres ou as situações que nos aprisionam, mas nossa própria falta de direcionamento, estabilidade e lucidez.
Assim que encontrarmos uma uma fonte de satisfação, energia e felicidade que independa de imagens e olhares, assim que percebermos que agir com direcionamento e autonomia nos deixa mais vivos, despertos e potentes, vamos inverter o jogo.
Em vez de mimar as aflições do outro, na esperança de que ele também se esqueça de sua liberdade (de ficar ou partir), em vez de fazer prostração aos desejos autocentrados dos outros em troca da satisfação dos nosso mesmíssimo autocentramento, vamos sair do salão de espelhos, vamos acabar com o jogo de imagens e propor brincadeiras mais interessantes, nas quais ambos andem com seus próprios pés, sem ligar para as caras fechadas e birras manhosas que surgirem no meio do caminho.
E, claro, isso vale para homens e mulheres, sem distinção.
Brincando com a imagem de um “homem bem-feito”, a BIC está propondo essa discussão. Minha opinião foi dada: um homem se faz de modo autônomo, de dentro pra fora, caso contrário ele é arrastado por olhares alheios que não lhe garantem estabilidade alguma.
Para entrar no papo e concorrer a vários prêmios (Wii, Nokia N97, iPods e camarotes para jogos do Brasileirão), assine o Twitter @homembemfeito e entre no site oficial da campanha.
Fica a dica.
Quase professor de TaKeTiNa, baterista sem bateria, meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro. É editor do PapodeHomem, autor do Não2Não1, colunista da revista Vida Simples e caseiro da Cabana PdH. No Twitter: @gustavogitti.
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