Poema em linha reta, de Fernando Pessoa | Poesia PapodeHomem

Fabio J. Rocha

por
em às | Cultura, PdH Shots


Cabe poesia no Papo de Homem? Cabe. Cabe poesia em qualquer lugar. E, se não couber, ela o expande.

Sim, tinha aqueles poemas de amor rimadinhos do seu amigo romântico. Se isso não te traumatizou, a leitura obrigatória de poesia parnasiana na escola com certeza fez o serviço.

Mas a poesia não é sempre assim. Ela vai além dos limites da linguagem e da lógica, brinca com a filosofia, dança com a psicologia, flerta com a meditação. É uma nova forma de pensar, perceber e sentir a vida.

E você pode estar perdendo tudo isso por causa de umas bobeiras aí.

Não recomendo a leitura prévia de prefácios, análises críticas ou contextos sócio-histórico-pessoais em que viviam os autores. Poesia é pra ler direto no poema, sem intermediários ou embromações. Mario Quintana dizia que o poema é que te lê. E, se não te tocar, que se ferre, parta pra outra sem pena.

Aqui vai uma poesia de Fernando Pessoa (na verdade, do heterônimo dele, Álvaro de Campos) que tem tudo a ver com o PdH, por sua sinceridade, profundidade, atualidade e lucidez sem embromation:

Fernando Pessoa

Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
(…)
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Retirado do livro Poemas de Ávaro de Campos, edição de Cleonice Berardinelli (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, pp.234-5).

Diferentes interpretações do poema


Link YouTube | Versão de Osmar Prado, na novela O Clone. Excelente exemplo de poesia usada na vida “real”.


Link YouTube | Uma vídeo-instalação com legítimo sotaque lusitano.


Link YouTube | Versão de Paulo Autran. Sem dúvida, a melhor.

Quer mais? Vá no You Tube e busque por “Poema em linha reta“. Existem dezenas de versões. Divirta-se.

Fabio J. Rocha

Poeta e criador do site A Magia da Poesia. Administrador. Funcionário Público. Especialista em anti-especialização. Desenha com as duas mãos e os desenhos ficam horríveis.


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17 comentários

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  • Victor Alexandre

    Belíssimos poemas meu amigo! Adoro o trecho inicial de um poema de classe diferente:

    “Ainda que eu falasse a língua dos homens
    e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria .”

    (Monte Castelo – Renato Russo)

  • Cleyton Bruno

    Velhas Virgens – Fernando Pessoa Blues
    http://www.youtube.com/watch?v=2p9kt2XiHVc

    “Eu sou a escória dos vivos
    Eu sou a raspa dos tachosEu sou o terror dos passivosEu sou a vergonha dos machosO comandante supremo do exército dos derrotadosPor isso tome cuidado”

  • Eduardo

    Gosto muito d’O Corvo do Edgar Allan Poe. É de arrepiar, de fazer tremer. É muito grande para colar aqui mas é fácil de achar na net, com uma tradução do Fernando Pessoa (supostamente, mas é uma boa tradução sem dúvida).

  • Yolanda Costa

    Poemas & Fernando Pessoa (L). Tenho alguns poemas colados no meu guarda-roupa e o Fernando é o campeão, acho que com uns 4 ou 5. Mas tem “Quadrilha” do Carlos Drummond de Andrade que daria um filme interessante e o meu poema preferido de sempre “Testamento” de Alda Lara (uma poetisa angolana).
    Ah, estou toda empolgada com o tema!!! Vai haver mais né?!

  • Anônimo

    Pessoa é fodástico. Mas não posso deixa de comentar o meu preferido: Vinícius.

    Operário em Construção

     ”Era ele que erguia casasOnde antes so’ havia chão.Como um pássaro sem
    asas Ele subia com as asasQue lhe brotavam da mão.Mas tudo
    desconhecia De sua grande missão:Nao sabia por exemploQue a casa de
    um homem e’ um temploUm templo sem religiãoComo tampouco sabiaQue a
    casa quer ele faziaSendo a sua liberdadeEra a sua escravidão.”

  • http://shotsarge.blogspot.com Marcio Sarge

    Pessoas é sobre humano meu poeta de cabeceira

  • Anônimo

    Nossa, que interpretação fenomenal de Osmar Prado!! Ou melhor, as melhores.
    A variação no ritmo da fala, as pausas, o aumento/diminuição do volume, ele recitou não só na voz, mas também com gestos.
    Esse realmente sabe falar com o corpo.

    • http://www.facebook.com/amongini Antonio Roberto Mongini

      Concordo. Espetaculares voz, gesto, expressão facial.

  • http://rafaelgerude.wordpress.com Rafael Gerude

    Algum dia, li em algum lugar, o que alguém escreveu, algo mais ou menos assim:
    “A cultura não enche barriga dos seres humanos. Mas nos diferencia dos demais animais”.
    A poesia é, sem dúvida, principalmente quando recitada, uma chave que destranca os sentimentos. É mais que versos e rimas, mais que jogo de palavras. A poesia é um jogo de detalhes, de nuances, de significado.
    Fica ainda mais interessante quando se descobre o motivo que levou o autor a escrevê-la. Inserir-se no seu mundo, deixa a poesia com muito mais beleza e sentido!

    • http://fabiorocha.com.br Fabio Rocha

      Rafael, sinto assim também. Isso de tentar descobrir o que se passou na cabeça do artista quando criou a obra é genial. O filme “Minha Amada Imortal”, sobre Beethoven, explora lindamente essa divagação.

  • Lucas Carvalho

    Minha preferida, desde que eu li no metrô Tatuapé:

    Comigo me desavim
    sou posto em todo perigo
    não posso viver comigo
    nem posso fugir de mim

    Com dor, da gente fugia,
    antes que esta assim crescesse:
    agora já fugiria
    de mim, se de mim pudesse

    Que meio espero ou que fim
    do vão trabalho que sigo,
    pois que trago a mim comigo,
    tamanho inimigo de mim.

    É do Sá Miranda, qu eeu nem sabia da existência antes do metrô Tatuapé. Aliás, eu acho esse projeto de poesias no metrô muito legal.

  • http://bakablues.wordpress.com/ Igor Niemeyer

    Muito foda!
    Poema é uma das minhas paixões, eu tento escrever alguma coisa no meu blog ( http://pdh.co/baka ).

    Acho que meu livro predileto é do Fernando Pessoa – Alberto Caeiro: Guardador de Rebanhos. Muito foda.

    • http://fabiorocha.com.br Fabio Rocha

      Igor, linda foto da ponte de Floripa no seu blog! Dos heterônimos de Pessoa, meu favorito atualmente é o maníaco do Álvaro de Campos. Mas vario. :)

  • Marcosaugustonunes

    Se é assim, vai um d’minha autoria:

    Pessoa revisitado

    É melhor ficar quieto; ninguém
    é sábio, mas diz o ditado “pensando
    morreu um burro”

    Vivo pensando, mas não digo;
    melhor não dizer, todos falam, todos
    fingem que ouvem, até mesmo eu

    Eu, que entre tantos sou mais um
    que só se revela quando nada diz
    sequer para si mesmo, nesse silêncio
    que não é silêncio, pois ainda não
    de morte, e só por ela é que, na verdade
    todos se calam, embora muito digam
    sobre a morte, como se a conhecessem
    além do mau exemplo daqueles que partiram
    sucumbidos pelas doenças, pelo suicídio, e
    desde então, nada disseram

    Já falei demais, fui como que forçado a isso, é dito
    a cada homem seu testemunho, como se eu pudesse
    entre tantos, dar prova daquilo que vi e ouvi
    enquanto vagava por este mundo como que cego e surdo
    a tudo, menos a eu, esse eu, pequeno eu, acima de tudo
    eu, expressão minha de uma existência medíocre

    Mas por que falo? Por que
    dou elemento impresso ao som
    forjo palavras como se elas pudessem
    em si mesmas, ser expressão de vida e consciência?

    Não, fiquem sós, fiquem em paz, se isso existe
    se tanto pudéssemos, nós e sobretudo eu
    cujo reflexo no sonho que tenho a despertar
    cotidianamente, é de um louco que abraça
    em festa, o dia que começa, por oposto fim
    de sua razão alegre

    Fiquem sós, fico eu, é melhor ficar quieto, ou
    isso, ou zurrar diante do mundo, nu e
    posto cadáver, com seu amedrontador, ativo
    silêncio.

  • EduardoB

    Com certeza tem um monte de metido a machão que está lendo isso e está achando que poesia não é coisa de homem.

    Então eu digo: experimente fazer a interpretação do Osmar Prado na frente de uma mulher, e veja o que acontece.

    Mas tem que ser sincero. Você precisa mesmo sentir o poema, sentir o que está falando. Caso contrário, ela vai perceber que é falso.

  • http://www.facebook.com/ivairx Ivair Ximenes Lopes Junior

    Curti sua publicação no papo de homem, já que a poesia cabe em tudo! E curto muito!
    Valeu.

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