Percussão corporal: como tirar sons do nosso corpo

Pedro Consorte

por
em às | Cultura e arte, Listas


Além de arrotos e peidos, não temos noção da infinita variedade sonora que o corpo é capaz de produzir. Quando digo “corpo”, considero nosso ser como um todo, tento não pensar no corpo como se fosse uma casca de caramujo que a gente simplesmente habita.

Na época em que comecei a tatear o potencial musical do corpo, era apenas brincadeira. Não tinha nenhuma pretensão, talvez exatamente por isso a ludicidade da prática me deu prazer em estudar. Hoje integro o grupo STOMP.

A convite do Gustavo Gitti, compartilho um pouco das minhas explorações com vocês. Falo sobre o contexto, listo 12 jeitos de tirar som do corpo e ao fim deixo um exercício simples.

Percussão corporal não é só coisa de músico


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Voluntários ou involuntários, volumosos ou sutis, alguns sons estão tão incorporados no cotidiano que já nem conseguimos identificá-los como tais: ronco, palmas, assobio, estalo de dedo, respiração, espirro, esfregar de mãos, soluço…

Existem também aqueles que até chegamos a explorar um dia, geralmente quando crianças, mas já não usamos mais. Durante nosso crescimento, somos estimulados a usar certos tipos de sons e desencorajados a usar outros. Não só porque existem sons considerados culturalmente apropriados e inapropriados, mas também porque estipulam-se certos sons como padrão para se comunicar – a voz, por exemplo.

Sabendo que os sons do corpo existem potencialmente desde que o corpo é corpo, podemos assumir que os utilizamos desde nossas origens. Se pensarmos sob parâmetros evolutivos, a utilização do som como ferramenta de comunicação entre os indivíduos da espécie garante, entre outras coisas, articulação e desenvolvimento.


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O que muita gente também não sabe é que, além de instrumento de comunicação, os sons do corpo podem servir para outros fins.Nos últimos dez anos, mais atenção tem sido atraída para este tipo de olhar sobre as práticas que utilizam os sons corporais. Existem milhares de possibilidades e utilidades quando explora-se esse recurso, mas, em especial, há uma prática que faz muitos olhos brilharem. A “percussão corporal” é uma expressão que tem sido usada, não só em referência à prática de percutir partes do corpo, mas também para criar um jeito de olhar as técnicas que percutem o corpo, organizando os sons em uma estrutural musical.

A percussão, de modo geral, é uma prática bastante associada a culturas populares e a percussão do corpo acompanha este mesmo raciocínio. Em atividades de cultura popular, dança e música trabalham quase sempre juntas e, nesses ambientes, podemos encontrar vários tipos de percussão corporal. Em várias culturas, dá para observar a presença da percussão corporal como recurso sonoro e musical. Em cada lugar, ela é desenvolvida dentro de um estilo e, conforme analisamos seu tipo de técnica e nível de complexidade, podemos até identificar diálogos com o respectivo contexto cultural.


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O mais legal de conhecer um pouco de cada estilo é poder perceber o quanto um transbordou no outro. A contaminação das técnicas é um processo que, obviamente, não ocorre apenas neste tipo de ambiente, mas o interessante de perceber as influências de um no outro é exatamente poder desenvolver este exercício de reflexão, e expandi-lo a outros universos.

Quando conhecemos as diferenças entre as práticas que se utilizam da percussão corporal, de onde vieram e como se organizaram, podemos notar que contaminação de linguagens dentro da arte é um fenômeno que ocorre em todos os lugares. A mestiçagem, a contaminação, a hibridez e a pluralidade são fatores necessários para uma evolução efetiva e inteligente. Dá pra notar também que estamos sempre em constante transformação e que, ao contrário de alguns movimentos conservadores, é importante aceitar o não estabelecimento do conceito de pureza.

Listo abaixo práticas que utilizam a percussão corporal como recurso sonoro e musical, não necessariamente só na música, mas também na área da dança. Na verdade, em algumas práticas é difícil identificar se é música ou dança, e talvez isso nem importe tanto. Restrinjo-me ao âmbito da apresentação cênica, não toco ainda em áreas como musicoterapia, dinâmicas de grupo, educação musical e muitas outras que também desfrutam da percussão do corpo.

De acordo com a minha escolha pessoal, aqui estão alguns dos nomes e estilos mais importantes de percussão corporal. Esta é uma passada superficial, mas tentei detalhar um pouco sobre a origem, timbres explorados e coloquei um vídeo de cada estilo. Tecnicamente, considerei percussão corporal as técnicas que batem partes do corpo umas nas outras ou no chão.

Vamos ver algumas possibilidades para se fazer som com o corpo.

Gumboot


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Estilo de dança e percussão corporal nascido nas minas de ouro da África do Sul como um instrumento de comunicação entre os mineradores que eram proibidos de falar. Os caras trocavam ideias com frases rítmicas batendo as mãos nas botas de borracha.

Barbatuques


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Além de ser o nome do grupo, tornou-se o nome da própria técnica, desenvolvida inicialmente por Fernando Barbosa (“Barba”), criador e diretor do grupo. O método começou a ser explorado a partir da transposição dos sons da bateria para o corpo e se desdobrou em uma pesquisa, de níveis bastante sensíveis, da ampla variedade de timbres corporais, desde os percussivos até os vocais.

Hambone (Juba Dance)


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Estilo de dança rítmica inventado por escravos afro-americanos que não podiam usar nenhum tipo de instrumento musical. Pelo fato de alguns escravos poderem se comunicar por meio da percussão de tambores, os comerciantes de escravos proibiram qualquer tipo de instrumento, o que acabou estimulando a utilização do próprio corpo. Nesta técnica, leves tapas no peito, coxas e pernas são combinados com batidas dos pés no chão e palmas.

Clogging


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Considerada como uma das primeiras danças urbanas, se originou durante a Revolução Industrial no Reuno Unido (“clog” é o tipo tamanco utilizado por milhões de trabalhadores naquela época). Há basicamente batidas dos pés no chão ou de um pé no outro. Esta técnica era utilizada como entretenimento, acompanhada de cantigas, e influenciou a criação da juba dance e do sapateado americano.

Tap dance (sapateado americano)


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Mistura de clogging, step dance irlandesa e juba dance, alterna entre linhas de pesquisa mais dançadas e linhas mais tocadas. As dançadas se aproximam do teatro musical da Broadway e as tocadas do jazz. No tap, as partes do corpo mais usadas são os pés, acompanhadas de eventuais palmas.

Stepping


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É uma linha das danças percussivas criada por fraternidades de estudantes universitários afro-americanos por volta de 1900 nos Estados Unidos. Passos, palmas e gritos de guerra combinam som e movimento de uma maneira bem interessante.

Stomp


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Além de ser o nome do grupo inglês que trabalha com percussão em movimento, também pode ser considerado o nome de um estilo de percussão corporal. Entre percussões de instrumentos não convencionais, o grupo também explora a percussão do corpo de uma maneira bastante original. Os shows possuem caráter cênico e de movimento bastante forte, e os timbres corporais mais usados são a batida dos pés no chão (botas), palmas e batidas nas coxas.

Flamenco


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Combinação de música, canção e dança, o flamenco se desenvolveu em Andalucia (Espanha) a partir grandes influências de grupos ciganos vindos da Romênia. Há tapas no corpo, mas a característica mais forte é a presença das palmas e frases rítmicas do sapateado. Sua principal fórmula de compasso é a de 12, com acentos nada convencionais aos ouvidos ocidentais.

Saman


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Estilo de dança da Indonésia que utiliza a percussão corporal de forma bem sutil, geralmente com um grande número de dançarinos para que as palmas e tapas se tornem audíveis a um grande público. Os dançarinos ficam de joelho e a percussão é feita nas palmas e costas das mãos, coxas e tórax.

Dança romena


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Dança folclórica desenvolvida principalmente na região da Transilvânia durante o período do feudalismo, em pequenas vilas, como uma atividade comunitária à disposição dos participantes, é geralmente trabalhada em roda ou em pare, acompanhada de instrumentos musicais e canto. A percussão corporal mais comum neste estilo explora estalos de dedo, pisadas no chão, batidas de mão nos pés, coxas e palmas de mão.

Dança cigana


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Com origem na Hungria e na Eslováquia, possui as mesmas influências que a dança romena, mas é organizada de modo diferente. O andamento é bastante rápido e as frases rítmicas são mais complexas. Os timbres corporais tocados são palmas, pisadas, tapas nos pés, coxas e peito.

Kathak


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Derivada da palavra “katha” (história, narrativa), é um estilo de dança do norte da Índia, que geralmente, conta uma história sobre a mitologia hindu ou sobre os famosos contos Mahabharata, Raymayana e Purana. Piruetas rápidas e posições estáticas são acompanhadas por instrumentos tradicionais hindus, como cítara e tabla. Os dançarinos usam guizos (ghungroo) nos tornozelos, batem os pés no chão e criam frases rítmicas que acompanham os padrões da música.

“Dum-chi-chi-dum-dum…” Tire um som do seu corpo agora

Pra você que chegou até aqui, provavelmente deve estar batendo uma vontade de se arriscar nessas descobertas sonoras. Se ainda não tem familiaridade, aí vai um esquema que pode te iniciar na técnica dos Barbatuques. É uma célula rítmica de 4 batidas. Quando chegar ao final da célula, volte ao começo e tente tocá-la de uma maneira fluente e cíclica:

1. Mão direita: batida no peito
2. Mão esquerda: estalo de dedo
3. Mão direita: estalo de dedo
4. Mão esquerda: batida no peito

Se você observar, é só alternar as mãos, não precisa necessariamente começar com a mão direita. Se quiser continuar desenvolvendo, é só ir substituindo os timbres por partes diferentes do corpo.

Junte uma galera para brincar!

Seguimos o papo nos comentários. Fico à disposição para ajudar quem quiser aprender um estilo desses. Mesmo os que parecem mais distantes, como o Gumboot, estão bem acessíveis aqui no Brasil.

Pedro Consorte

Pesquisador em som e movimento, integrante do show STOMP, graduando em Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP), coordenador do grupo de estudos de música corporal FRITOS, colunista do site Batera e do próprio blog, indivíduo inquieto.


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  • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

    Belo post, Pedro.

    Alegria ter mais um brazuca no STOMP.

    Cara, eu quero muito aprender o Gumboot. Conheci num espetáculos do Bertazzo, o Milágrimas, e recentemente a Paty Passoni falou que está organizando um grupo de estudo.

    Em breve vou fazer TaKeTiNa com eles e aproveitar metade do tempo para aprender um pouquinho da técnica, assim como estou há tempos para fazer uma noite com Os Fritos. ;-)…

    Quanto à repercussão aqui no PdH, não entendi bem essa ausência de comentários. Nunca vi isso por aqui. Acho que caguei na edição ou o post foi vítima de alguma síndrome online desconhecida.Abraço.

    • Eduardo Amuri

      O post é interessante,  mas muito longo. Além da extensão visual (olha o tamanho da barra de rolagem), tem quase 1 hora e 20 minutos de vídeo. O leitor ficou inibido, creio.

      Estou há quase 10 minutos tentando fazer o exercício do final. O gran finale seria um tumbalacatumbatumbatá.

      • LuizZamboni

        Pra ser sincero, eu nem li nem ouvi…só rolei a barra.
        Entrei aqui pois estou sem nada pra fazer mesmo, mas não to com saco pra isso não.

    • Enio

      Po Gitti, eu imagino que é mais por conta do feriado do que pelo post em si.
      O video do STOMP é sensacional.

      Gosto muito deste tipo de som, mas nunca busquei mais sobre isso. Eu mesmo, me orgulho por saber assoviar de uma forma que nenhum dos meus amigos sabem, então é bem legal essa sensação de fazer algo diferente com o som que vai contra o que é tradicional.

      Belo post!

  • VitorPro

    Adoro experiências corporais.
    Li e vi os vídeos com vontade de fazer tudo, muito bom!
    Vou começar com a dica no final do texto e ver se ‘tiro’ algo legal, mesmo sabendo que tenho pouquíssimo ritmo. Vamos ver se isso muda =)

  • jaderpires

    Eu sempre achei foda demais os sons que saem das batidas em tambores. Vendo o próprio corpo como instrumento em potencial me deixa mais empolgado ainda! Pena eu ter uma péssima noção rítmica pra ser bom nisso.

    Quem sabe com um pouco de prática e paciência. Esse artigo pelo menos me fez querer tentar. Muita referência boa pra caramba!

  • http://www.facebook.com/people/Gustavo-Faria/1132579103 Gustavo Faria

    Acho que um dos mais legais é o beatbox… ao que me parece nao foi muito explorado… mas irado o tema!

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100002615758742 Cássio Suzuki

    Tive a oportunidade de assistiar a uma apresentação do grupo Barbatuques, e é impressionante como conseguem tirar sons de lugares estranhamente interessantes. O ponto que mais me deixou intrigado foi quando chamaram a platéia para subir ao palco e os convidaram para fazer os sons com o corpo também. E incrivelmente saiu um ritmo muito legal, sem ensaio, no improviso mesmo! Isso deixando as pessoas livres para decidirem que tipo de som quisessem usar, desde que fosse com o corpo.

  • LucianaGauchinha

    Ai, não sei se eu escrevo o que pensei…..
    Ah, lá vai. O bom de ter amigos homens (já me sinto em casa aqui) é poder falar umas besteiras às vezes.

    Pedro, você falou que há sons que são culturalmente inapropriados mas que chegamos a explorar um dia, quando criança. Pois bem,

    Eu me lembrei na hora de um episódio dos Animaniacs que Wakko vai cantar música clássica mas só sai arroto, e no fim ele pede mil desculpas, enquanto a plateia o ovaciona. http://www.youtube.com/watch?v=FUUNs49NG1M

    Em outro episódio ele volta ao concerto sem voz e decide tocar a música nas mãos, mas só sai som de peido e ele acaba novamente morrendo de vergonha e pedindo desculpas, mas o povo adora.
    http://www.youtube.com/watch?v=gP6teva-VKU

    Baixei o nível, né? hehehe

    • Pedro Consorte

      Haha, eu acho que tem tudo a ver! quando a gente tenta derrubar essa barreira cultural de sons apropriados ou não, fica mais interessante a pesquisa e maior o repertório de possibilidades sonoras!

  • http://www.facebook.com/people/Nana-Ribeiro/100001456632147 Nâna Ribeiro

    Sou suspeita pra falar de percussão.Mesmo com minha forte tendência rock’n roll ela entrou na minha vida como um tsunami e foi paixão ao primeiro batuque. Me resta saber qdo vai rolar uma oficina aki pelas bandas das Gerais, hein hein hein? 

  • http://www.facebook.com/carlozfilho Carlos Roberto

    Pedro, parabéns! 

    Você escreveu um dos melhores posts sobre percussão corporal que vi até hoje na net! Além de ter sido muito prudente nas escolhas dos vídeos!

    Sou músico, bacharel em canto, mas sempre tive uma queda por percussão corporal. Tudo começou em uma oficina que fiz com o Reynaldo Puebla e o Eduardo Fernandez, que na época dirigiam o Coro Cênico da UNIFESP. Hoje sou técnico em apresentações artísticas no SESC de Foz do Iguaçu, e lendo seu post tive algumas idéias que pretendo amadurecer nos próximos dias. Gostaria que me passasse um contato seu, email, face, algo assim para trocarmos uma idéia…

    Grande abraço e parabéns novamente!

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