Papo de Homem

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Paris Dakar – Areias que matam


Publicado por Rodrigo Almeida em 14.1.2009 às 23:31 em Automobilismo

Thierry Sabine era um corajoso motociclista francês. Competia em provas de rally todo-terreno até enfrentar um grande revés em 1977.

Pilotando sua Yamaha XT 500 durante o Rally Abidjan-Nice, viu ao longe uma coluna de areia surgindo. O temerário piloto achou que podia enfrentar a tempestade de areia, mas acabou perdido a muitas milhas de distância da rota original prevista pela competição. A organização da prova enviou diversas missões de busca e resgate mas Thierry já deveria estar morto. Após o decreto do fim das buscas, um piloto de avião encontrou, no meio do deserto, o francês à beira da morte devido a desidratação.

Embora muitos de nós esperássemos que uma experiência como essa afastasse o piloto das competições no deserto, Thierry queria mais. Prometeu que, caso sobrevivesse, organizaria a maior competição à motores todo-terreno que o mundo houvera visto. O percurso deveria ser difícil para que somente os bravos ousassem desafiá-lo. Nas palavras de Sabine, seria:

“Um desafio para os que vão e um sonho para os que ficam”.

A competição seria longa, atravessando uma significativa parte do continente europeu e africano. A partida seria dada na França e a linha de chegada seria traçada no Senegal. Thierry dedicou sua vida à criação do mais assustador e prestigiado Rally do planeta: o Paris-Dakar.

Um ano depois, no final de 1978, 170 carros largavam na primeira edição do evento em frente a Torre Eiffel. A idéia, que para muitos pareceu excitante em um primeiro momento, mostrou-se perigosamente seletiva. A competição premiaria os mais audazes com o privilégio de alcançar a linha de chegada. Estar vivo ao fim da prova já era motivo para comemoração. Apenas sessenta e nove participantes completaram a prova.

Em 1981, todo o tipo de veículo participou da competição. Além de buggies, gaiolas, 4×4, havia o Citroën CX de Jacky Ickx em pessoa.

Na edição de 1982, Mark Tatcher, filho da Primeira Ministra Britânica Margaret Tatcher, desapareceu no deserto da Argélia com seu co-piloto e mecânico. Embora tenha sido encontrado com vida, outros incidentes seriam muito mais do que simples sustos.

Em 1983, 40 competidores ficaram perdidos após a interrupção forçada da prova devido a uma grande tempestade de areia. O resgate durou quatro dias.

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Parte do percurso. Dá medo só de se imaginar presente.

Em 1986, Thierry Sabine auxiliava na organização da prova à bordo de um helicóptero. Uma coluna de areia surgiu em meio a uma tempestade, tirando a visibilidade do piloto que voava baixo na ocasião. O helicóptero chocou-se com uma duna, matando todos os seus ocupantes. As cinzas do idealizador foram jogadas no deserto e, para impedir que o sonho do filho morresse, seu pai assumiu a organização do Paris-Dakar.

Em 1988 mais de 600 competidores largaram na França. Além de todos os recordes terem sido quebrados, tivemos a estréia dos brasileiros André Azevedo e Kléber Kolberg. Vale também destacar o curioso episódio em que o já famoso Peugeout, que Ari Vatanen usou em Pikes Peak, foi roubado. Uma menina de 10 anos morreu ao tentar atravessar uma estrada utilizada pela competição. Uma equipe de cinematografistas atropelou mãe e filha no última dia do evento. Três diferentes acidentes tiraram a vida de um navegador alemão, um piloto de carros francês e um motociclista também francês.

Alguns pilotos também foram acusados de causarem um grande incêndio que gerou pânico em um trem indo de Dakar a Bamako. Mais três mortes ocorreram nesse episódio.

Em 1990, o brasileiro André Azevedo foi o primeiro sulamericano a subir no pódio do Dakar, sendo vice-campeão na categoria motor 600cc.

No ano seguinte, um piloto de caminhões da Citröen morre em um trágico acidente, mas André Azevedo é pela primeira vez campeão na categoria Motos Maratona. Nosso grande Klever sofre uma queda de sua moto e é forçado a abondonar a competição devido a uma fratura exposta em seu braço. Em 1992, Klever volta com tudo e é o sétimo colocado na categoria motos enquando é André quem sofre um acidente, quebra o pulso e abandona a prova.

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“Sobe, sooobe diacho!”

Em 2003 um piloto francês capotou em alta velocidade matando o co-piloto. Em 2005, um motociclista espanhol chegou a ser levado até um hospital após sofrer um acidente, mas não resistiu. No dia seguinte, um italiano que já vencera a prova duas vezes também sofreu um acidente fatal com sua motocicleta. Ele era a 45ª morte registrada em toda história da competição. Alguns dia depois, uma senegalesa de 5 anos foi esmagada por um caminhão, tornando-se a 5ª vítima daquela etapa. Dizem ter acontecido muitas outras mortes causadas pelo Rally entre a população local, mas não há registros oficiais.

Em 2006, um motociclista australiano encerrou sua 3ª participação no Dakar ao sofrer um grave acidente. Os ferimentos no pescoço foram fatais. O acidente ocorrera no mesmo local onde o motociclista espanhol caíra de sua moto em 2005. Na mesma etapa, duas crianças africanas foram atropeladas e não sobreviveram.

Em 2007, mais dois motociclistas morreram. Vale destacar que um deles sofrera um acidente um dia antes de sua morte. Pediu então para que a moto fosse consertada e prosseguiu. A autópsia averiguou que a causa da morte foram ferimentos internos causados no dia anterior durante o primeiro acidente. Ele se recusou a desistir e procurar ajuda médica.

Em 2008, quatro turistas franceses foram assassinados na Mauritânia. Além do mais, a Al-Qaeda prometeu atacar competidores devido à grande cobertura do Dakar realizada pela mídia. O evento foi, pela primeira vez, cancelado devido a falta de segurança. Entretanto os organizadores prometeram uma grande surpresa para 2009.

Serão os desertos africanos mais traiçoeiros que os do Chile e Argentina? Em pról da diversão, espero que não. Rally Dakar Edição 2009 no Brasil? Quem sabe.

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Foto do autor

Rodrigo Almeida, engenheiro, apaixonado pela vida e por qualquer coisa com um motor potente, é um nostálgico entusiasta por muitas daquelas boas coisas que já não mais se fazem como antigamente.

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  • Estamos com uma exposição de carros do rally Paris-Dakar.
    Corram porque estaremos com a exposição até o dia 09 de agosto.
  • Samuel Scur Paim
    Perfeito
    aliás, gostei da bmw que aparece a parte de baixo :P
  • Sim, o texto es~tá parecendo mais um obituário. Tem muito mais coisas a serem ressaltadas (e evidenciadas no Dakar). A iniciativa do Dakar Solidário, evento paralelo que leva ações de educação e saúde às regiões pobres da África. O fato do Dakar criar uam espécie de " corredor turítico" nestes caminhos africanso que são percorridos ao longo do ano por europeus, gerando alguam atividade de trabalho e renda para os moradores. Enfim, também se morre andando de Fórmula 1 ou praticando mergulho, paraquedismo... nem por isso esses esportes são hostilizados. Ah, e uma história para ilustrar melhor a figura de Thierry Sabine. Em 1985, durante o Dakar, ele reencontrou a moto com a qual se perdeu quase 10 anos antes. Colocou-a no helicóptero e a levou de volta à França. A esposa de Thierry disse que o fato dele ter reencontrado a moto no meio do nada era um mau preságio. Era como se ele tivesse " fechado um ciclo em torno do deserto". No ano seguinte, o helicóptero de Sabine cai, abatido num atempestade de areia e ele morre no deserto. O Dakar é provavelmente a última grande aventura do homem moderno.
  • Rodrigo Almeida
    Pessoal,
    obrigado pelos comentários.

    Gustavo Alencastro e Grechejr,
    é impressão minha ou vocês são os leitores do PdH mais viciados por automobilismo? Achei que só eu fosse maluco assim.

    Sobre o Dakar,
    esse não é só a mais perigosa competição de veículos motorizados de todos os tempos, é a mais polêmica também.
    Devido à essa quantidade absurda de mortes, assim como alguns leitores comentaram acima, existem diversas organizações que tentam promover o fim do rally. O argumento é o mesmo citado pelos nossos leitores: o prazer em andar no limite e a adrenalina proporcionada justificam mortes de inocentes nas comunidades por onde a prova passa?

    Além do mais os custos do Rally são astronômicos. Não há equipe, por menor que seja, que movimente menos que alguns milhões de dólares.

    A infraestrutura da VW no Chile utilizou mais de 16.000.000 de dólares esse ano. Isso, em plena crise mundial. Vale lembrar que Honda abandonou a F1, Subaru o WRC e Kawasaki o Moto GP. Vale a pena investir tanto em algo tão perigoso.

    Bem, eu sou maluco. Na minha opinião PESSOAL, vale cada centavo.
  • Edinho
    Pessoal, eu ando de moto há 26 anos. Já fiz várias viagens pelo Brasil e tenho até uma aventura publicada na Duas Rodas n° 369. Faço tb trilhas,enduro e já fiz dois rally RN 1500. O RN 1500 tem cerca de 1500 Km, que a gente faz em 4 dias. Isso já dá uma satisfação incrível. Você andar numa moto a 120 Km/h numa estrada de terra e, ainda ter que tirar a vista da estrada para olhar a planilha, é muito perigoso/gostoso. Agora imagine o Dakar: mais de 10000 km, dunas que vc não sabe o que tem depois e, ainda assim, os caras andam de moto a mais de 180 Km/h. Não basta ter o saco roxo. Tem que ter o saco preto!
  • Raphael Backer
    Artigo perfeito... Não sabia de toda a história do Rally Dakar. Depois de ler esse artigo, deu até vontade de procurar um Lada Niva e sair correndo por aí... srsrsrsrs... Essa história dá um excelente filme, inclusive. Mais do que a paixão que tenho por qualquer coisa que queime combustível (fóssil, de preferência), gosto mais ainda de saber a história que há por trás deles... E será que alguém sabe da história do Rally que a Camel (cigarros) organiza, onde a maioria dos carros são Land Rovers daqueles que aparecem nos safáris do Discovery Channel? Se não me falha a memória, os jipes se metem em mata fechadíssima... Acho que esse rally também deve ter uma boa história pra contar. ;o)
    Abraços.

    E o PdH segue insuperável... Tanto que nem sabia que tinha concorrência. Sério mesmo.
  • Rob, você leu o mesmo que nós? É familiarizado com o conceito "história"?
  • rob
    o artigo inteiro só fala de mortes.
    Que legal, hein?
  • E Rodrigo, pqp, outro artigo fuderoso.
  • George Pediran, valeu pelo elogio inspirado ao PdH 3.0, a gente agradece. huauhauhauhahuahuuha
  • cara, ando numa moto trail e acompanho o Dakar...
    é realmente pra quem tem bagos entre as pernas...
    Competição mítica.
  • \'Cristine\'
    Amei o texto!E amei o novo estilo da PDH!
  • E o "nosso" Raly dos Sertões, ao que me parece, cresce a cada ano. Tomara que se consolide como um grande evento automobilístico.
  • Esse é um dos melhores textos que eu ja li sobre o Raly Paris Dakar. Realmente aqueles que ja participaram desse Raly são pessoas diferenciadas. Com certeza tem histórias pra contar. Quando eu imagina como seria participar do Paris Dakar, pensava como devia ser a emoção de chegar no final da competição, que se não me engano, fica em uma praia. A realização que deve ser chegar naquela praia, como aquele comercial de cartão de crédito diz, não tem preço.
  • Dr.Feelgood
    Ótimo artigo.
  • Olá, tenho um blog de promoções, sorteios, concursos e amostras, dá uma olhadinha.
    http://bahtrilegaltche.blogspot.com

    Bjs
  • Poxa já tinha ouvido falar muito sobre esse rally, mas nunca pesquisei sobre o mesmo, agradeço a todos pelas informações sugadas pelo meu cérebro =D

    EDIÇÃO DE 2009 tinha que ser na minha cidade BARBACENA - MG
    os buracos aqui nas ruas da cidade, estão uma coisa de "DOIDO" =P
  • Cara, texto muito bacana, PdH voltando com tudo esse ano!
    Olha só, um feedback: Agora o site carrega muuuito mais rápido com esse novo layout, ponto pra vocês, seus frutas!
  • Joir Eduardo
    Rodrigo como sempre produz ótimos textos.
  • Madger
    simplesmente a prova de rally mais foda que eu já vi, bate qualquer outra, justamente pelas dificuldades do percurso... e que mesmo com a ajuda da equipe de organização da prova continua completamente foda... só pra quem tem saco roxo mesmo essa prova
  • não sei se vale a pena..
    se só morressem competidores, não teria problema, o porblema são as vitimas que moram nos locais por onde passa a prova.
  • Stéfano Santos
    O texto é muito bom....
    Sempre acompanhei um pouco pela TV, mas sempre nas etapas finais quando os vencedores já estavam praticamente definidos, entretanto não tinha idéia do número de mortes desse desafio....sempre existem riscos e a proposta inicial do Rally era superar o medo e arriscar tudo pela aventura (desafio para quem tem o saco-roxo mesmo).

    Tomara que o trecho aqui da América do Sul seja cheio de adrenalina e surpresas.
    []’s
  • Nossa que texto bom. Esse Rally realmente é complicado hein! Já matou tanta gente e mesmo assim a direção do evento não o proíbe, ou coisa do tipo.

    Porém, participar de um evento desses deve ser uma das coisas mais emocionantes na vida de um homem.

    Abraços,
    Monthiel
    PS: Convido a seus leitores a conhecer meu blog, agora com novo design.
  • amaral
    isso tá parecendo um obituário.
  • Débora Rangel
    Ao assistir os vídeos fica aquela sensação de adrenalina, de instigação, realmente, deve ser uma experiência única.

    Quando era pequena, nos meus 8 anos acho, meu pai me levava para muitos rallys, corridas de carro, moto, kart, bike, claro, com percurso bem pequeno, de onde ficavamos dava para ver o início e o fim, torcia sempre para as mulheres no rally, claro. Com pouca idade isso me marcou demais, e eu adorava. Já com meus treze anos ia com o namorado para os pegas, muito bom (não recomendo).

    Mas, lendo o texto, além da sensação de adrenalina e instigação me vem um questionamento. Será que vale a pena arriscar vidas, o mais chocante, de crianças, em troca de satisfação e sonhos (dos prticipantes)?Não, essa é minha resposta.
  • Rafael
    Texto PERFEITO!
  • Luiz Hombre
    Do caralho! Ótimo texto!
  • Hugo Cerezer
    Isso sim é coisa pra quem tem saco roxo!

    Deve ser muito foda enfiar a cara num deserto e sair acelerando até o o motor fazer bico.

    Muito, muito, foda ;]
  • Gustavo Alencastro
    Fala Rodrigo, blz ?

    Bah cara tava pensando em mandar um mail pra vc escrever sobre esse maravilhoso Rally. Parabéns ótimo texto
  • Igor
    Se um pequeno rally que participei de um dia pelo interior de Goiás já me rendeu horas de histórias e mais histórias para contar, imagina atravessar um puta dum deserto...
    Eu PRECISO fazer isso antes de morrer.
  • Coelho
    esse é o tipo de coisa que eu não fazia a mínima idéia, mas que é muito interessante saber!

    fico imaginando, como deve ser fazer um rally desses, principalmente nas motos!
  • Mais fácil ou mais difícil, o fato é que este ano a hegemonia da Mitsubishi este ano está caindo. O equilíbrio e o inesperado está imperando.

    Quem quiser notícias fresquinhas direto da competição, acompanhe o blog da minha afilhada (pitacosdamandy.blogspot.com), ela acompanha a corrida do pai, Lourival Roldan, navegador, indo pela quinta vez ao Rallye.
  • Sensacional!
    Participar de um rally desses é um sonho para qualquer um.
    Muito bom.
  • uau!
  • Ahhh eu tenho nome!! É que fiquei off em outro texto. ;D
  • Cara que animal!!
    Eu nunca tinha lido uma descrição ao longo do tempo.
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