Pare e se apaixone

Rodolfo Viana

por
em às | Artigos e ensaios, Atitude


Desde que vim para São Paulo, meu coração bate descompassado. Há quatro anos ele segue a regência absurda das buzinas frenéticas, dos motores de ônibus, do zunido das motocicletas que passam a mil.

Alguma coisa acontece no meu coração. Talvez seja o começo de alguma doença cardiovascular agravada pela quantidade de fumaça que enche meus pulmões todos os dias. São Paulo é isto: um lindo labirinto feito de concreto e fumaça. O monóxido de carbono é quase palpável. Se fosse mulher, ela te seduziria com seu charme e seus vícios para, no fim, acabar com tua vida – literalmente, pois ela te mataria aos poucos. De câncer.

Avenida 23 de Maio, São Paulo, 1971: a cidade da garoa já recebia uma enxurrada de carros

É um lugar apaixonante e tóxico. Ou melhor: é um lugar cheio de pessoas apaixonantes e tóxicas.

No momento em que bato estas teclas, o congestionamento beira os 80 quilômetros – é um dia comum, até que bom. Aposto que, enquanto escrevo “aposto que”, algum motorista grita com um pedestre e perde a cabeça. Um motoqueiro dá um pezada em algum retrovisor. Um mendigo xinga o transeunte sovina. O cara de gravata olha a bunda da moça de saia.

Não tem como não amar o caos institucionalizado de São Paulo. Mas há momentos em que, para não enlouquecer, temos que parar.

Ficar suspenso.

Fazer silêncio.

Quietude

Aqui, sob este céu cinza de poluição, é fácil a gente se confundir com a massa. O silêncio, o olhar para dentro, é uma forma de enxergar nossa identidade. É uma forma do indivíduo não se perder no meio de tanta gente. Quem mora em grandes cidades têm urgência de uma paz particular. Nem que seja por 10 minutos.

Ou segundos.

É o que propõem Marcel Maineri e a namorada, Julie Bazacas. O casal criou o Projeto Pare que, por meio de intervenções em placas de Pare no trânsito de Porto Alegre, convidam motoristas e pedestres à reflexão. O imperativo “Pare” ganha novos significados, como estes:

Segundo o Tumblr do projeto,

Vivemos numa época de intenso movimento. Voltados sempre para fora e cada vez com mais pressa, ninguém tem tempo de olhar para dentro ou mesmo a sua volta.  Tudo passa despercebido, todo dia o caminho é igual; os pensamentos, os mesmos.

Marcel comenta que a ideia do projeto nasceu da maneira mais lógica: “Num engarrafamento.” Parados no congestionamento por mais de 10 minutos, ele e a namorada avistaram uma placa de Pare – “uma placa que naquele momento não servia pra nada, afinal, estava todo mundo parado” – e começaram a brincar: “Pare e chore, pois você não vai sair daqui tão cedo.”

Esta brincadeira acabou série. “Foi com esse insight que resolvemos inverter a lógica e fazer disso uma mensagem positiva para a sociedade e para o trânsito”, comenta Marcel. A ideia surgiu em 13 de agosto e hoje, 15 dias depois, já conquistou não apenas porto-alegrenses. Até o momento da escrita deste texto, 2.420 pessoas haviam curtido Tumblr na rede social. Isso mostra que, em Porto Alegre, São Paulo e em outras metrópoles, compartilhamos da mesma necessidade.

Onde estão as intervenções

As placas de Pare com intervenções estão nos movimentados bairros de Moinhos, Cidade Baixa e Bonfim. “A ideia é puramente artística e em nenhum momento tivemos a intenção de depredar ou prejudicar a sinalização do trânsito.  Nos responsabilizamos pela retirada dos adesivos após quatro semanas”, diz Marcel.


Link Vimeo |

E, por hoje, pare por 10 minutos.

Update [28/08, 22:48]: De acordo com Marcel, para que não ultrapasse o limite entre intervenção artística e contravenção, o projeto dura apenas um mês. Depois disso, os adesivos serão retirados. “Não temos a opção de deixar as placas permanentemente, pois isso seria adulterar a sinalização de trânsito, seria crime.” Assim, a fim de que nossos leitores não enfrentem problemas legais no futuro, retiramos o convite para que todos fizessem o mesmo que o casal Marcel e Julie.

Rodolfo Viana

Torce para o Marília Atlético Clube. Nunca aprendeu a dirigir. Cozinha bem. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]


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20 comentários

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  • http://www.facebook.com/people/Rosana-Rogeri/100000284466237 Rosana Rogeri

    Projeto fantástico, uma coisa simples, se faz alguém sorrir por alguns minutos já vale muito. Vou ver se acho algumas placas aqui na minha cidade, sério, num tem placas aqui… hehe

  • http://www.reflexoesmasculinas.com.br/ Shâmtia Ayômide

    Eu já resolvi todos meus problemas em São Paulo, indo embora de São Paulo. Foi fácil, rápido e o custo da solução é baixo.

    • http://bakablues.wordpress.com/ Igor Niemeyer

      Pena que não são todos que podem fugir.

    • http://bakablues.wordpress.com/ Igor Niemeyer

      Pena que não são todos que podem fugir.

  • http://bakablues.wordpress.com/ Igor Niemeyer

    Hoje moro na tranquilidade do interior, cidade universitária, tem festa de segunda a segunda kkkk

  • Zelda

    Nasci e cresci em São Paulo. Toda essa bagunça cotidiana fazem parte da minha personalidade, não sei se isso é ruim. Atualmente moro a um ano e meio no interior de sp em uma cidade universitária, que é bem mais tranquila, e sinto uma falta imensa dessa correria e loucura de sp. Desde pequena sempre aprendi a ter o meu momento STOP. E o mais legal é quando vc para e começa a observar as pessoas ao seu redor. Em vários momentos fiz isso quando estudava no bairro do Brás. Eu aconselho a todos fazerem isso. Aprendi muito com tds os desconhecidos q observei e conversei, desde engraxates e ambulantes, a mendigos, prostitutas e usuários de crack. E não precisa ter medo, as vzs o que essas pessoas necessitam é apenas um pouco de atenção, e não da sua carteira… Uma boa conversa pode se tranformar em um verdadeiro tesouro!

  • http://www.facebook.com/agages Hugo Fellipe

    eu enlouqueceria, sair do interior baiano pra ir pra sao paulo deve matar de choque térmico

  • http://www.facebook.com/people/Gabriela-André/100001866437243 Gabriela André

    Sou de Porto Alegre, mas infelizmente não vi nenhuma placa com o adesivo. Muito bacana a idéia, não deveriam tirar nunca e ainda, colocar em vários outros pontos da cidade! E que a idéia se estenda para várias outras cidades! Parabéns pelo iniciativa e criatividade!

  • http://www.facebook.com/people/Marcio-Diniz/100000180717236 Marcio Diniz

    Vi a foto “Pare e sorria” e sorri. =]
    Gostei!

  • Eduardo Amuri

    Projeto bem legal mesmo. Eu já coloquei um post-it no meu monitor, com a frase “Respira, porra”. Para o caso de eu esquecer. Bem útil.

  • http://www.facebook.com/leonora.ling Leonora Berrini

    Engraçado que mesmo antes da sugestão do Rodolfo, havia pensado em colocar um adesivo como o “Pare e chore…” em algumas placas de “Pare” de Niterói, onde moro. Vou buscar seguir com a idéia, pois na melhor das hipóteses, ao invés de chorar, a pessoa ri :).

    Ótimo texto.

  • http://www.facebook.com/leonora.ling Leonora Berrini

    Engraçado que mesmo antes da sugestão do Rodolfo, havia pensado em colocar um adesivo como o “Pare e chore…” em algumas placas de “Pare” de Niterói, onde moro. Vou buscar seguir com a idéia, pois na melhor das hipóteses, ao invés de chorar, a pessoa ri :).

    Ótimo texto.

  • http://osexoeasmulheres.blogspot.com Deb.

    Fiquei aqui lembrando de uma época em que tinha um namorado que morava na Serra da Cantareira. Às vezes dormia na casa dele, e no dia seguinte quando descíamos para o centro de São Paulo eu via lá do alto uma cúpula cinza sobre a cidade. Poluição. Coisa de maluco pensar que você está se dirigindo voluntariamente para esse lugar… 

    Saí de São Paulo faz tempo. De algumas coisas, sinto muita saudade. Dos bons amigos, da gastronomia, da diversidade, da oferta de serviços e de seu profissionalismo, eficiência e rapidez (acreditem, fora de São Paulo isso é MUITO pior). Mas do caos, da violência, da poluição, do trânsito infernal… não tem como sentir falta.

    A iniciativa do casal de Poa é bem bacana. Causa reflexão e vai no mesmo sentido da Fun Theory. Não sei se vai gerar mudanças, mas pelo menos é uma tentativa, né?

  • http://twitter.com/ivoneuman Ivo Neuman

    Obrigado por explicar o q estou sentindo em SP pra mim. Del carajo!

  • http://twitter.com/ivoneuman Ivo Neuman

    Obrigado por explicar o q estou sentindo em SP pra mim. Del carajo!

  • Fabio Rocha

    Bela idéia. Pena ser crime e não poder durar… Mas o caráter efêmero da coisa pode ser visto como artístico também. :)

  • http://www.facebook.com/maria.chaves Guta Almeida Campos Chaves

    Demorou demais para fazerem isso aqui em São Paulo.

    Eu reclamo TODO SANTO DIA de morar aqui, mas não acredito que trocarei a selva de pedra por outra cidade (selva de selva?) tão cedo. Me acostumei ao caos e gosto disso.

    Um dia estava no carro de um amigo meu quando eu vejo um nariz de palhaço no painel e pergunto pra ele: “vc deixa um nariz de palhaço no carro????” e ele: “sim. é pra quando eu estou no trânsito e vejo a cara das pessoas ao meu lado, ranzinzas, desesperadas, irritadas. daí eu coloco meu nariz de palhaço e elas dão risada”.

    Gostei demais da atitude dele! De que adianta a gente se irritar também, né?

  • Hélio César

    Muito legal a iniciativa. O caus torna-se descontraído e assim o dia não é mais o de ontem.

  • http://twitter.com/ronigomes Roni Gomes

    Projeto muito manero! Aqui no Rio o transito está cada vez pior! Fico horas na linha vermelha, avenida Brasil. Seria muito show fazer umas intervenções dessas por lá, já que nessas estradas as paisagens não são lá muito agradáveis! Gostei muito da proposta!

  • Anônimo

    Um texto que faz ter vontade de voltar e ler novamente… um texto que te lembra daquilo que você  ama na sua cidade, um texto que faz alguem que só andava acompanhando o PDH pelo reader e parou de escrever nos comentários, acho que esse é o texto. Muito obrigada por ele. Beijos

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