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em às | Artigos e ensaios, Atitude
Desde que vim para São Paulo, meu coração bate descompassado. Há quatro anos ele segue a regência absurda das buzinas frenéticas, dos motores de ônibus, do zunido das motocicletas que passam a mil.
Alguma coisa acontece no meu coração. Talvez seja o começo de alguma doença cardiovascular agravada pela quantidade de fumaça que enche meus pulmões todos os dias. São Paulo é isto: um lindo labirinto feito de concreto e fumaça. O monóxido de carbono é quase palpável. Se fosse mulher, ela te seduziria com seu charme e seus vícios para, no fim, acabar com tua vida – literalmente, pois ela te mataria aos poucos. De câncer.

Avenida 23 de Maio, São Paulo, 1971: a cidade da garoa já recebia uma enxurrada de carros
É um lugar apaixonante e tóxico. Ou melhor: é um lugar cheio de pessoas apaixonantes e tóxicas.
No momento em que bato estas teclas, o congestionamento beira os 80 quilômetros – é um dia comum, até que bom. Aposto que, enquanto escrevo “aposto que”, algum motorista grita com um pedestre e perde a cabeça. Um motoqueiro dá um pezada em algum retrovisor. Um mendigo xinga o transeunte sovina. O cara de gravata olha a bunda da moça de saia.
Não tem como não amar o caos institucionalizado de São Paulo. Mas há momentos em que, para não enlouquecer, temos que parar.
Ficar suspenso.
Fazer silêncio.
Aqui, sob este céu cinza de poluição, é fácil a gente se confundir com a massa. O silêncio, o olhar para dentro, é uma forma de enxergar nossa identidade. É uma forma do indivíduo não se perder no meio de tanta gente. Quem mora em grandes cidades têm urgência de uma paz particular. Nem que seja por 10 minutos.
Ou segundos.
É o que propõem Marcel Maineri e a namorada, Julie Bazacas. O casal criou o Projeto Pare que, por meio de intervenções em placas de Pare no trânsito de Porto Alegre, convidam motoristas e pedestres à reflexão. O imperativo “Pare” ganha novos significados, como estes:




Segundo o Tumblr do projeto,
Vivemos numa época de intenso movimento. Voltados sempre para fora e cada vez com mais pressa, ninguém tem tempo de olhar para dentro ou mesmo a sua volta. Tudo passa despercebido, todo dia o caminho é igual; os pensamentos, os mesmos.
Marcel comenta que a ideia do projeto nasceu da maneira mais lógica: “Num engarrafamento.” Parados no congestionamento por mais de 10 minutos, ele e a namorada avistaram uma placa de Pare – “uma placa que naquele momento não servia pra nada, afinal, estava todo mundo parado” – e começaram a brincar: “Pare e chore, pois você não vai sair daqui tão cedo.”
Esta brincadeira acabou série. “Foi com esse insight que resolvemos inverter a lógica e fazer disso uma mensagem positiva para a sociedade e para o trânsito”, comenta Marcel. A ideia surgiu em 13 de agosto e hoje, 15 dias depois, já conquistou não apenas porto-alegrenses. Até o momento da escrita deste texto, 2.420 pessoas haviam curtido Tumblr na rede social. Isso mostra que, em Porto Alegre, São Paulo e em outras metrópoles, compartilhamos da mesma necessidade.
As placas de Pare com intervenções estão nos movimentados bairros de Moinhos, Cidade Baixa e Bonfim. “A ideia é puramente artística e em nenhum momento tivemos a intenção de depredar ou prejudicar a sinalização do trânsito. Nos responsabilizamos pela retirada dos adesivos após quatro semanas”, diz Marcel.
E, por hoje, pare por 10 minutos.
Update [28/08, 22:48]: De acordo com Marcel, para que não ultrapasse o limite entre intervenção artística e contravenção, o projeto dura apenas um mês. Depois disso, os adesivos serão retirados. “Não temos a opção de deixar as placas permanentemente, pois isso seria adulterar a sinalização de trânsito, seria crime.” Assim, a fim de que nossos leitores não enfrentem problemas legais no futuro, retiramos o convite para que todos fizessem o mesmo que o casal Marcel e Julie.
Torce para o Marília Atlético Clube. Nunca aprendeu a dirigir. Cozinha bem. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]
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