Os súditos da Rainha no país do Futebol – Parte II
Segunda parte da aventura do inglês Andrew e sua esposa Rebecca assistindo um jogo de futebol no Brasil. Mais um artigo nota dez da equipe do Futepoca.
Sem espaço para os pobres no estádio
Futebol , Show Business, ambos?
Hoje, a maior parte das arquibancadas é ocupada por pessoas de classe média-alta e poucos são os torcedores dedicados mesmo aos clubes (aqueles que cantam as canções). Além disso, há muitos turistas – qualquer jogo do Manchester vai ter uma parcela não totalmente desprezível de “torcedores” japoneses e de outras nacionalidades de todo o mundo.
Outro dado a ser considerado é que os clubes são empresas, hoje dominadas por investidores russos (detalhe, Andrew conhecia o nome de Berezowsky…) e estadunidenses, na maior parte das vezes sem qualquer conhecimento sobre futebol ou relação com os clubes que compram.
Querem é retorno financeiro pelo investimento, então o que interessa o torcedor? O torcedor, neste caso, é um consumidor previamente fidelizado, que cogita a opção de “mudar de fornecedor”. Vê-se aí como é perversa a lógica do futebol empresa, mesmo nos lugares onde ele dá mais certo.
A possível compra do Liverpool… pelos seus próprios torcedores
“Uma opção é o que estão fazendo no Liverpool”, aponta Andrew. “Os torcedores resolveram se juntar e se cotizar para comprar o clube do investidor que atualmente controla o clube”.
Eles assim se tornariam “sócios” do clube no sentido empresarial da palavra, formando uma espécie de cooperativa, e teriam que inventar um meio de regular o controle do grupo, provavelmente com eleições de chapas de presidente e dirigentes etc.
A torcida de verdade fica nos Pubs
Alguma semelhança com a estrutura brasileira? Mas é falacioso apontar isso; no caso deles, a estrutura empresarial seria mantida, e o novo sistema seria o resultado de uma tomada de poder (ainda que pelos meios financeiros) por parte da torcida, que se veria assim intimamente identificada com a administração do clube. Nada a ver com a administração familiar que vemos em tantos grandes clubes brasileiros.
No caso do Manchester, parece que agora há proposta de que não haja mais a possibilidade de se comprar ingressos de um campeonato, mas só de todos os jogos do clube durante a temporada! Para Andrew, estão cada vez mais querendo sugar o sangue do torcedor, só o dinheiro que importa.
Estádios que mais parecem shows de ópera
Mas voltando à experiência de estar ali assistindo ao jogo, na descrição do Andrew, e exagerando um pouco, a superorganização do campeonato inglês acabou aproximando a experiência de ir a um estádio àquela de ir a uma sala de concerto: ingressos por temporada, público um tanto individualista, sem a vivência da emoção da massa, infra-estrutura impecável e nenhuma espontaneidade.
Neste último quesito, Rebecca lembrou da presença marcante do sistema de alto-falantes do estádio: “ficam tocando músicas de torcida, que algumas pessoas começam a cantar junto, além de passar informações incessantemente. É como se precisassem preencher o silêncio”.
Tá, mas e o jogo?
O jogo rolou sem grande percalços. Sem grande qualidade também. Finalmente, perguntei isso – afinal, o que tinha achado da partida? Para Andrew, o que chamou a atenção é que o jogo é bem mais lento. “Na Inglaterra, tem muito mais pressão, e a bola chega no gol rápido. Mas gostei do jogo.”
Não foi tão bonito, mas…
Não sei se ele estava só sendo gentil, mas talvez tenha gostado realmente. Eu mesmo não achei tão sofrível, mas no meu caso eu tinha uma expectativa baixíssima, e me surpreendeu ver um time que jogava com um mínimo de organização.
Mais tarde, no São Cristóvão, bar na Vila Madalena com um belíssimo acervo de fotos de futebol que entopem todas as paredes, me perguntaram sobre a seleção brasileira, e repensei sobre a questão do jogo mais lento.
Tem mesmo uma diferença de estilo, o brasileiro joga mais cadenciado, e não é exatamente exemplo de time que sabe fazer a marcação pressão. Mas é difícil dizer, no caso do jogo que fomos ver, até que ponto isso era da escola brasileira, até que ponto da falta de habilidade dos artistas em campo.
E a Rebecca aproveitou pra tirar sarro de seu país, com ironia que só os ingleses sabem ter: “Na verdade, isso de pressão, é que na Inglaterra o time perde a bola rapidamente para poder trabalhar duro na recuperação da posse de bola”. Andrew riu, e concordou.
Mas ele não deixou de apontar que o Manchester tem Cristiano Ronaldo, Tevez e outros grandes jogadores. Não dá pra comparar com Lulinha e Dentinho, mesmo que sejam bons meninos, de muito futuro.
Mas Rebecca ainda completou: “Todo ano, a cada campeonato, nós ingleses temos certeza de que vamos ganhar. E todo ano isso não acontece, e as pessoas gastam horas e horas de discussão pra entender por que dessa vez não deu. Normalmente a explicação é que faltou sorte…”.
Para nós, brasileiros, que entramos em qualquer campeonato sentindo a obrigação de vencer e que quando vencemos jogando mal sentimos como se não fosse a mesma coisa – como na Copa de 94 ou na última Copa América –, é mesmo um outro mundo.
Maurício Ayer é corintiano e maestro do “Coro de Casagrandes” do Futepoca, que está concorrendo ao prêmio de melhor blog esportivo no Ibest.
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