Os súditos da Rainha no país do Futebol – Parte I
O que um torcedor europeu ia pensar vendo um jogo no Brasil?
É uma pergunta que vira e mexe retorna às mesas de boteco quando se pensa na diferença de organização e profissionalismo entre o continente que mais importa jogadores de todas as partes do mundo, incluindo todas as grandes estrelas, e o país que mais exporta futebolistas, grande parte deles justamente para a Europa.
O brasileiro em geral não tem dúvida de que o seu futebol seja o melhor do mundo, assim como seus jogadores, e as conquistas internacionais não desmentem essa impressão. Mas quando o assunto é campeonato, organização etc., há quase unanimidade quanto à catástrofe. Corrupção, desorganização, total falta de planejamento…
O Futepoca (www.futepoca.com.br) decidiu ir a campo pôr à prova a hipótese. Um inglês, torcedor do Manchester United roxo, estava por estas plagas e não perdemos a oportunidade: fomos ao Morumbi.
Um britânico no Morumbi
Andrew e Rebecca, nossos observadores internacionais
E lá estávamos eu e Andrew, junto com sua mulher Rebecca, Domingo, 17 de fevereiro, na avenida Eusébio Mattoso, em frente ao shopping Eldorado, esperando o ônibus para ver o jogo entre Corinthians e Bragantino pelo Campeonato Paulista de 2008. Na plataforma estava um grupo de torcedores corintianos, que pulava e gritava, e que entupiu uns bons três ônibus. Pegamos o seguinte.
O ônibus parou na av. Francisco Morato e chegamos andando pela av. Jorge João Saad. Depois de uma curva, a fachada do estádio já causou impacto: “An impressive stadium”, disse Andrew, impressionado com o tamanho e a imponência do Cícero Pompeu de Toledo.
Precisávamos de ingresso e, diante das filas nas bilheterias, resolvi encarar o cambista: R$ 25 pela arquibancada azul, que é central, R$ 5 a mais do que pelos meios oficiais. Compramos, sob o olhar curioso de Andrew que a tudo observava.
Ingressos, Brasil x Inglaterra
É preciso dizer que uma semana antes, quando propus de irmos ver a peleja, Andrew topou, mas estava preocupado em como comprar os ingressos. Razão não lhe falta: na Inglaterra, é praticamente impossível conseguir ingressos no dia do jogo, a menos que alguém desista e lhe ceda o lugar.
A grande maioria dos ingressos é vendida em pacotes para toda a temporada, a preços que eles estimam estar por volta das 600, 700 libras esterlinas, por uns 30 jogos. Mas eles não tinham certeza do valor. A opção pode ser comprar ingressos em agências de viagem, a preços individuais proporcionalmente muito mais caros, que os turistas pagam sem reclamar.
“Uma vez resolvi ir a um jogo do Manchester pela Champions League”, contou Andrew. “Consegui um ingresso por 120 libras. Foi uma vez na vida!” 120 libras! Ele fazia as contas, o ingresso que pagamos no Morumbi, num lugar com excelente visibilidade, tinha custado umas cinco, seis libras…
Pernil com cerveja para os gringos
Antes de entrar, Rebecca tinha fome e fomos comer o tradicional sanduíche de pernil das cercanias do Morumbi, acompanhado de cervejas. Adoraram.
Quando entramos, o jogo já tinha começado e a arquibancada azul estava lotada. Passamos a primeira parede humana e nos ajudaram a subir até um nicho em meio à massa. Novo espanto, dessa vez de Rebecca: “Lá, fica todo mundo incomodado se você tiver que passar pra ir ao banheiro ou comprar comida, aqui ajudam, rola um clima de fraternidade”.
E tem isso também: “É legal isso da comida, da água, passar em meio à torcida. Em Manchester, se quiser comer tem que sair, pegar fila, e meia hora depois voltar”, completou Rebecca.
Jogo rolando, os ingleses mantinham uma postura de observadores. Andrew em particular estava atento a tudo, e fazia comentários sobre jogadores do Bragantino que eu sequer sabia de quem se tratava. Mas este era um desvio de observação meu, o jogo era do meu time…
Sentados e silenciosos?
Todo mundo calminho
Perguntei o que estava achando, o que ele via de diferente. A primeira coisa que ele apontou era o fato de que o povo fica em pé o jogo inteiro. “Na Inglaterra, não é permitido ficar em pé, você só levanta na hora do gol. Também é bem mais silencioso. Tem grupos cantando, mas são em geral grupos menores de torcedores, o canto nunca toma o estádio inteiro”, explicou.
Mais tarde ele me explicou um pouco melhor o contexto. No decorrer das últimas décadas, o futebol se tornando um negócio mais e mais rentável, os clubes ingleses ficando conhecidos internacionalmente, o preço do ingresso subindo.
O resultado foi que as classes populares foram pouco a pouco sendo alijadas dos estádios. Foram então que os pubs passaram a comprar os pacotes de canais a cabo que transmitem os campeonatos e oferecem às torcidas o ponto de encontro para assistir aos jogos.
Amanhã, a segunda parte desse artigo com a continuação das impressões de um inglês em pleno Brasil numa partida do Corinthians.
Maurício Ayer é corintiano e maestro do “Coro de Casagrandes” do Futepoca, que está concorrendo ao prêmio de melhor blog esportivo no Ibest.
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