Os riscos do jogo jogado
Quando o moleque da terceira série foi disputar a bola alçada na área de futebol de salão com este escrivinhador, então na primeira, uma testa se acomodou no meu nariz de um jeito nada agradável. Misteriosamente, sangrou-me a parte interna do lábio.
– Acontece – consolou-me a secretária gordinha da coordenadora, que acumulava a função de cuidar dos moleques acidentados. – quem joga futebol se machuca, né?
“Mira no fêmur!” – frase comum nas bocas de jogadores que confundem futebol com Street Fighter, vide Obina e cia
Eu, ali, com gelo no lábio sem saber pra que nem imaginaria que, vinte anos depois, o goleiro Cech, do Chelsea, na Inglaterra, usaria capacete e máscara para se proteger. Duas trombadas e o cidadão não quer mais riscos. Onde estará a tia gordinha da secretaria pra explicar que não é assim?
Minha inaptidão com a bola nos pés é considerável. Como jogador de futebol, sou um jornalista e blogueiro nota cinco (dá pra passar, vai?). Da última vez em que me arrisquei, terminei com a sola do pé em carne viva. Quem joga se machuca, né?
Seja por incompetência com a bola, seja por indisposição ao choque, pode haver uma alternativa para ir além da posição de espectador e palpiteiro de botequim. Seriam os emuladores uma alternativa?
Há um ano e tanto, José Roberto Torero assumiu, na Folha, que estava viciado. Apresentava sintomas de um adicto em entorpecentes, mas logo revelava a que se dirigia a compulsividade.
Viciado?
“Não tem nada a ver com crack, mas tem craques”, trocadilhava. “Chama-se ‘Winning Eleven’ e é jogado no PlayStation”. O jogo de futebol no videogame permite escalar times, comprar e vender atletas e pilotar os jogadores já amplamente comentado no PapodeHomem.
A concorrente nesse mundo, revela uma pesquisa básica no Google, são as edições anuais do Fifa . Ambos têm imagens realistas que fazem a memória do River-raid ou do Frostbite parecerem… jogos de Atari.
Nada como os games de última geração, o realismo impera
E para os que praguejam contra a cartolagem tupiniquim, nem precisa saber comandar os fálicos joysticks. O Manager Zone tem versão gringa, e brazuca (oficial) e extra-oficial, que permitem que se contrate e escale o time. Pode definir o esquema tático (4-4-2, 3-5-2, ataque em leque e defesa em funil etc.), avaliar o andamento dos treinos, comprar e vender atletas, chamar juvenis, melhorar o estádio e por aí vai.
Mais: pode ainda assistir às partidas no navegador com recursos gráficos chiques. Também tem a mesma brincadeira para hockey, mas disso eu sei menos ainda.
Será que a gordinha da secretaria (não confundir com o pimba na gorduchinha do impagável Osmar Santos) advertiria:
– Quem joga videogame tem problema na vista, menino!
Anselmo Massad é palmeirense, jornalista e autor do Futepoca. Não entende nada de games nem de ortopedia, mas suspeita que a epidemia de LER/DORT que assola os escritórios decorre dos efeitos de longo prazo do excesso de Decathon para Atari.
Anselmo Massad é palmeirense, jornalista, e um dos autores do Futepoca.
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