por
em às | Artigos e ensaios, Corpo são, Dr. Health
Pergunta: “Caro Dr. Health, meu filho nasceu sem os testículos e só descobrimos agora aos 3 anos de idade.
Ele passará por cirurgia nos próximos dias, mas pelos exames preliminares é de 95% de chances de ele não poder ter filhos. Já ouvi a respeito e gostaria de saber se é possível um transplante de testículos, caso seja eu transplantarei para ele. Obrigado.”
Olá, leitor.
Bastou ler o começo do seu email para perceber que você (felizmente) equivocou-se em seu “diagnóstico”.
Seu filho não nasceu sem os testículos. Permita-me explicar…

É o que toda garota fala… | Fonte: Zazzle
A genitália rudimentar nos bebês de ambos os sexos se forma com poucas semanas de desenvolvimento. Se em até oito semanas não houver desenvolvimento testicular, o bebê terá genitália feminina, a chamada Sindrome de Swyer, na qual, a grosso modo, temos uma mulher com cromossoma XY.
Se os testículos se desenvolverem mas se perderem entre 8 e 10 semanas, o bebê terá genitália ambígua. E se houver perda testicular após 14 semanas, a genitália masculina é normal, mas sem os testículos, ocorrendo a chamada anorquia. Nesse caso, a reprodução é impossível.
O dado que me faz afirmar que seu filho não tem anorquia é o seguinte trecho do seu texto:
“Ele passará por cirurgia nos próximos dias, mas pelos exames preliminares é de 95% de chances de ele não poder ter filhos”
Se ele não tivesse os testículos, essa cirurgia não teria o menor sentido em sua existência. Ele não tem, vai operar para quê? Lógico que existem próteses testiculares, mas colocar isso numa criança de 3 anos é imprudente e desnecessário.
Para saber como cheguei à conclusão que seu filho tem testículo, sim, e que por isso fará a cirurgia, é necessário voltarmos ao desenvolvimento da genitália masculina.
O motivo pelo qual os testículos ficam numa bolsa fora do organismo em si é a manutenção de uma temperatura menor que a do corpo. Esta temperatura menor favorece a formação adequada dos espermatozoides. O músculo cremáster regula a distância entre os testículos e o organismo, de acordo com a temperatura ambiente. Quanto mais frio, mais próximo do corpo o testículo fica, puxado pelo cremáster.
(Os bons entendedores aqui acabaram de sacar por que o saco encolhe no frio…).
Link YouTube | Cena clássica de Seinfeld: “I was in the pool!”
Mas o testículo não se forma fora do corpo. Eles são formados dentro do abdômen. No final da gestação, os testículos migram através do canal inguinal (perto da famosa “virilha”) e vão descendo para assumir sua posição dentro da bolsa escrotal.
Em certos casos, essa descida simplesmente não acontece: o testículo fica retido em algum ponto entre o abdome e o canal inguinal. Este evento é o diagnóstico do seu filho, e chama-se Criptorquidia.
O que confirma isso é a indicação cirúrgica, pois o tratamento é justamente a “descida” manual do testículo por meio cirúrgico, para o seu local normal. Se não existisse o testículo, não haveria sentido em operar a criança.
Infelizmente nem toda correção de criptorquidia está isenta de complicações. E a pior delas é a infertilidade. Quanto mais alto estiver o testículo, maior a chance de ocorrer dano estrutural e alteração do suprimento vascular, o que leva a fibrose do órgão e disfunção. Isso, claro, quando bilateral. Um único testículo funcionante garante a fertilidade, conforme já escrevi aqui em texto anterior.
A primeira etapa ao se abrir o local é localizar o testículo ectópico e testar sua viabilidade. Em alguns casos, o órgão está danificado demais e o melhor a fazer é simplesmente retirá-lo. Isto pode acontecer com seu filho, esteja alerta. E nesse caso, ele será infértil.
Outro dado que fala a favor da possibilidade alta de infertilidade, é o tempo de evolução. Perdeu-se um tempo precioso nesses 3 anos que a criança ficou sem diagnóstico – teoricamente, os testículos podem já ter sofrido danos irreversíveis devido à temperatura mais alta do organismo. Essa cirurgia deveria ter sido feita com 4 a 6 meses de vida.
Mas em boa parte dos casos, especialmente quando o testículo está mais baixo, a chance de manutenção da fertilidade é considerável.

É essa descida que vai acontecer na marra | Fonte: Portal São Francisco.
Outro motivo para a realização da cirurgia é a possibilidade de câncer testicular. Testículos que não desceram apresentam um risco consideravelmente aumentado de desenvolver um tumor.
Sobre o transplante testicular, tecnicamente é complexo. Caso envolvesse apenas a troca do órgão, um eventual filho do seu filho, na verdade, seria um meio-irmão. Isso porque os espermatozoides seriam seus, não do seu filho. Ou seja, você seria pai do seu neto. O que postulei aqui foi apenas uma hipótese; não é assim que um transplante de testículo funciona.
A técnica atual do transplante testicular, além de experimental e repleta de falhas, é na verdade um auto-transplante, ou seja, requer um desenvolvimento gonadal prévio normal. Se o cara nasceu infértil, não há nada a ser feito. É feito principalmente em pacientes que passarão por quimioterapia ou radioterapia, que podem causar esterilidade. É retirado tecido do testículo e preservado, faz-se a terapia, e quando cessar o efeito desta, reimplanta-se o tecido no testículo, na esperança de que ele retome a atividade espermatogênica. Os resultados, contudo, ainda não são animadores.
Dr. Health, lembrando que se precisar de bolas peça ao Fluminense. Ganharam cinco do Mengão no domingo passado!
Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.
O texto acima não representa a opinião do PapodeHomem. Somos um espaço plural, aberto a visões contraditórias. Conheça nossa visão e a essência do que fazemos. Você pode comentar abaixo ou ainda nos enviar um artigo para publicação.
Enviamos um único email por dia, com nossos textos. Cuidado, ele é radioativo.
Queremos uma discussão de alto nível, sem frescuras e bem humorada. Portanto, leia nossa porra de Política de Comentários.
Lifestyle Magazine