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O sobrinho de Freud que inventou o consumismo

Marco Aurélio Lang

por
em às | Cultura e arte, Mundo, PdH Shots


Garanto que você já se perguntou de onde vem aquela vontade de comprar o carro da moda. Ou talvez aquela calça que custa quase metade de seu salário. A resposta mais clássica é “culpa do poder manipulativo do marketing”. O que ninguém explica é quem descobriu como nos vender todas essas coisas de que não precisamos.

Edward Bernays influenciou muito a forma como nos “relacionamos” com o consumo nos dias de hoje. Bernays (1891-1995) foi um pioneiro no campo das relações públicas e da propaganda. Citado pela revista Times como um dos 100 americanos mais influentes do século XX, a forma de trabalho de Bernays se baseava no princípio de que as sociedades se comportam como manadas, as pessoas são irracionais, suas decisões e ações são manipuladas facilmente.

Profissionais de relações públicas e publicitários, eu sou o tataravô de vocês. De nada.

O mais polêmico feito de sua autoria aconteceu na década de 20:

A indústria do cigarro queria derrubar o tabu que na época não permitia que as mulheres fumasse em público. Bernays, baseado em Freud, percebeu que o cigarro é um símbolo fálico, e que idéias de poder, independência e liberdade vinha embutidos nele. O consultor percebeu que poderia fazer com que o cigarro fosse adotado pelas mulheres como um desafio ao poder masculino.

Durante uma passeata em comemoração à páscoa, em Nova Iorque, modelos foram contratadas para fumar e fotógrafos para registrar o fumo. A expressão “tocha da liberdade” foi usada para designar o objeto mágico de libertação feminina.

A imagem da mulher que fuma e a da mulher forte e independente se confundem desde então. Bernays mostra, assim, seu poder de construir hábitos. (fonte do trecho)

É deles os grandes clássicos Lucky Strike.

"Ninguém pode negar..."

Combinando as ideias de Gustave Le Bon e Wilfred Trotter com as ideias psicológicas de seu tio Sigmund Freud, Bernays descobriu que associando produtos a emoções poderia satisfazer as necessidades egoístas das pessoas. E, com isso, fazer as pessoas consumirem por desejo. Não por necessidade.

Quer um exemplo? Antigamente se comprava (e vendia) carros pela necessidade de transporte. O problema era que, depois que uma pessoa tinha um carro, ela não iria comprar outro, pelo menos não em um curto espaço de tempo. A necessidade de transporte dela já estava suprida. A ideia de Bernays era apelar para o emocional, transformando, por exemplo, o carro em um objeto de desejo, que demonstraria o quanto seu proprietário é bem sucedido, ou o quanto ele é macho, ou o quanto é fo**.

Parece loucura? Então da uma olhada no comercial de 2012 do Honda City:


Link YouTube | “As mina pira no carrão!”: esta é a psicologia do consumo. Ou do consumismo.

Resumidamente Bernays implantou nas massas a seguinte ideia: compre porque você quer e deseja e não porque realmente precisa.

A culpa de você talvez estar na merda – financeiramente falando – não é somente das grandes corporações que fazem uso de todo o tipo de artifício de marketing. A culpa é sua, que muitas vezes tenta suprir uma insegurança pessoal consumindo, que tenta construir sua identidade no shopping center.

Como se salvar?

Difícil dizer. Mas o primeiro passo é ter consciência desta “psicologia do consumo”. Assim poderemos ter um estalo de lucidez antes de comprometer nossa situação financeira, ou mesmo nossa sanidade, para tampar nossas inseguranças.

No festival mais famoso da publicidade mundial desse ano, Cannes Lions, o filósofo Alain de Botton nos brindou com uma fala espetacular:


Link YouTube

“A publicidade é o instrumento de sedução mais poderoso de que dispomos e não há nada de errado nisso, mas devemos usá-la para alcançar o topo.

Hoje, existe m dilema entre ganhar dinheiro vendendo coisas para preencher os desejos imediatos ou não ganhar com as necessidades mais profundas. Não precisa ser assim. O ser humano sempre está em busca de equilíbrio.

Por isso a publicidade, hoje, vende calma (porque vivemos estressados), natureza (porque estamos perdendo contato com o que é natural). A questão é ver o que as pessoas não tem, o que estão querendo e dar isso a elas.

Este será o século em que venderemos as coisas que as pessoas realmente precisam e não o que elas apenas querem.”

 

Quer entender melhor?

Assista ao documentário The Century of the Self, da BBC. Nele você conhece toda a fantástica história de Edward Bernays. De quebra entende melhor da onde vem a vontade de comprar o que você não precisa.


Link YouTube | Parte 1


Link YouTube | Parte 2


Link  YouTube | Parte 3


Link YouTube | Parte 4


Link YouTube | Parte 5

Cuidado com o que você compra.

E especialmente com a imagem que deseja vender.

Marco Aurélio Lang

Publicitário e colorado, mas no fundo gente boa. Trabalha como diretor de marketing no ramo da moda, se diverte com cinema, bebidas, games e escrevendo artigos em seu blog fluindo.com. Joga mal futebol e anda bem de bike. É complexado por nunca ter visto uma ovelha preta.


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  • http://www.facebook.com/people/Gustavo-Henrique-Gordo/100000230207408 Gustavo Henrique Gordo

    Acho que assisti e entendi a filosofia do Clube da Luta muito novo. Nunca tive problema com isso. Sempre tive noção. Nem camiseta estampada eu uso. Mas é bem isso ai mesmo, o povo é meio pateta, fácil de controlar por todos terem preguiça de pensar sobre.

    • http://twitter.com/lucianoandolini Luciano Andolini

      Gustavo,

      Tudo ok com o que você disse, não vejo problema nenhum e tals, mas acho que temos que tomar muito cuidado com afirmações como “assisti e entendi a filosofia do Clube da Luta”.

      O Clube da Luta é legal, está entre os meus filmes favoritos, mas temos de ter em mente que é uma obra de arte e que não vamos chegar a lugar algum nos guiando pelo que o personagem diz nos seus momentos de aflição e confusão.

      • http://www.facebook.com/people/Gustavo-Henrique-Gordo/100000230207408 Gustavo Henrique Gordo

        Sim, isso é claro. Quando quis dizer a filosofia, foi somente a base. Que seria o cinismo e o niilismo presente no filme.

  • http://twitter.com/felipeamendes Felipe Mendes

    O post é interessante. Todavia, se pensarmos na própria teoria psicanalítica (que foi tão mencionada), o desejo é o que nos move, sobretudo a falta. Aquele vazio que nunca pode ser completado, sempre falta, e se um dia há uma completude estamos diante da morte. Bem no estilo do vovô Freud. Eu fiquei pensando aqui como esse “vender o que realmente precisamos” será (ou já é) feito. Vender a calma, por exemplo, como é vendido? Por meio de casas e apartamento que nos fazem relaxar ou talvez por remédios (muito mais provável). Pois, a calma é preciso devido a correria e a necessidade de fazer tudo. Assim o nosso marketing já “bate um bolão”. A natureza é outra questão. É preciso vendê-la, mais de que meio e pq? Quero dizer que tudo isso é uma construção. A calma é preciso ser vendida já que nos foi vendido a pressa. A natureza é preciso ser vendida já que para sustentar nossas vidas de alto consumo foi abalada. É o comprar comprar comprar…

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Sobre sua dúvida, Felipe.

      Te dou um exemplo do vender o que as pessoas precisam vs o que as pessoas desejam.

      Queremos expandir eventos como Cabana-do para explorações maiores – nada na Cabana envolver marcas -, nas quais o foco seja lidar com as relações corpo/mente/saúde e não enfiar o máximo de patrocinadores.

      O foco passa a ser a visão, a fazer o que nós mesmos acharíamos o MAIS do caraleo. E não focar a máxima margem e lucratividade para se criar um “produto”.

      Coerente?

      Esse é um papo que me interessa muito. É nosso maior desafio.

  • http://twitter.com/leabdalla Leandro Abdalla
    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      boa, Leandro.

      eu estava lá no dia dessa palestra do André Trigueiro.

      vc foi tb?

  • ciceroaj

    O poder que uma propaganda tem,a falta de segurança e a noção de necessidade leva mais da metade desse planeta comprar porcarias, eu também já comprei muito lixo, pois é, estamos aqui para errar, aprender e seguir em frente. Tenho pena daqueles que não aprende nada e continuam errando e acumulando lixo em sua casa.

  • Jemerson Siqueira

    Philip Kloter é considerado hoje no mundo acadêmico como o pai o marketing, segundo suas teses o marketing é a ciência que “cria” as necessidades nas pessoas, é algo como se você comprasse algo que nunca tivesse visto e derrepente o sujeito, já com o produto em mãos, pensasse ou dissesse “nossa isso é tudo o que eu queria”.
    Todos os produtos antes de serem criados, lançados, relançados é estudado para que haja uma identificação/aceitação pelo seu nicho de público, ai entra a publicidade com toda sua criatividade divulgando (os) e este público corre nas lojas para comprá-los.
    Tudo é feito assim, compramos sem necessidade, seja em produtos de tecnologia, veículos, roupas e acessórios, determinados tipos de comida e etc.
    Isso movimenta a economia, não há como nos livrar e sempre será assim.

  • Pingback: vou | A Magia da Poesia

  • https://www.facebook.com/Andre.R.Tamura André Tamura

    Excelente texto! Estou longe de defender o consumismo, mas é algo que fico sempre alerta. Sou facilmente seduzido. Alguns cientistas sociais dizem que o consumismo é uma patologia da categoria do alcoolismo. Querer uma boa casa, um bom carro, um computador bom…acho perfeitamente aceitavel e a ambição é saudável. A atenção deve ser no limite disso. Tenho conhecidos que assumem dívidas para comprar carros que nunca vão pagar, para gastar com garrafas de bebidas caras na night. Não é questão de ter muito e gastar, é gastar o que não tem para tentar ser algo que não é.

    O marketing faz um excelente trabalho, a única ressalva que acho “suja”, é o marketing direcionado ao público infantil. Ai é covardia.

    ***

    Os mercados distorceram completamente o valor das coisas. O mercado é a maior religião do mundo, não é preciso pregar, basta comprar.

    ***

    Ontem estive presente na palestra de Martha Gabriel, entre muitas informações marcantes e ótimo conteúdo, ela falou que as pessoas estão sempre buscando (Google), e levantamos da cama todos os dias com dois sentimentos; Interesse e Medo. Tudo que buscamos parte disso.

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Todos nós somos facilmente seduzidos, Tamura. Não só você.

      ;)

      Sobre a palestra da Martha Gabriel e o comentário dela sobre interesse e medo. Poderia explicar em mais detalhes de que maneira esses dois sentimentos perpassam nosso dia-a-dia na visão dela?

      • https://www.facebook.com/Andre.R.Tamura André Tamura

        Ela falou sobre um artigo que escreveu; apresentou mais ou menos assim: “Duas alavancas movem o homem: interesse e medo.” — Napoleão Bonaparte.

        Conhecer os interesses e medos das pessoas nos permite saber os fatores
        que motivam essas pessoas a agir, e possibilita: a) influenciar essas
        pessoas – tanto para o bem como para o mal (manipulando-as) e; b) prever
        ou analisar seus comportamentos.

        Se na época de Napoleão era muito mais difícil obter dados sobre as
        pessoas para conhecer seus interesses e medos, hoje, as próprias pessoas
        fornecem toda sorte de informações pessoais de inúmeras maneiras (Redes Sociais).

        Ela deu a entender e eu concordo que agir por medo é sempre pior. Dai podemos entrar na discussão deste post:
        http://papodehomem.com.br/a-esperanca-e-que-nos-fode/

        Mas como o tema aqui é Marketing, olha isso:
        http://www.neurofocus.com/company_team.htm

    • Médico_Mg

      Bem mais interessante qdo é dito que tudo que buscamos parte do sexo (ou para o sexo)…

      • https://www.facebook.com/Andre.R.Tamura André Tamura

        Pode ser também @medico_mg:disqus a energia sexual move montanhas mesmo, pessoas morrem por isso.

        Interesse em sexo e medo de não comer nínguem.

        Dai o Marketing descobre: Sex-Shops, Prostituição, camisinhas de todos os tipos..etc.

      • Médico_Mg

        hahaha gostei do interesse em sexo e medo de nao comer ninguém… Estou me vendo na adolescência, rs. Mas eu quis mesmo era dar uma lembrada em Freud com isto.

  • Bruno Alexandre

    Esses dias estava refletindo sobre uma utopia minha. Assisti o filme La Belle Verte (Turista Espacial no título brasileiro) e fiquei imaginando um meio termo das duas culturas que aparecem no filme.

    Pra quem não conhece, uma tribo de humanos vive em outro planeta e são muito mais avançados que nós mentalmente falando, não constroem nem possuem nada, vivem soltos na natureza e vivem como uma família, então um dos habitantes faz uma viagem pra Terra a vive um tempo na nossa cultura.

    Minha idéia: e se vivessemos do compartilhamento?

    Abolir o dinheiro, qualquer um pode ter o que quiser, é só ir lá e pegar. A ostentação se faz na nossa sensação de inferioridade, então compramos coisas caras e recém-”inventadas” pra mostrar que somos fodões. Se tudo fosse compartilhado, não existiria a necessidade de possuir coisas, porque se todo mundo pode ter o que quiser, não há porque acumular, não tem que mostrar nada pra ninguem.

    Não haveria posse, um fazendeiro não seria dono da terra, apenas cuidaria do plantio que há ali, uma outra pessoa não seria dono da barraquinha na feira, apenas estaria ali auxiliando na distribuição do alimento. Vez ou outra, se alguém cansasse de certa ocupação, era só deixar tudo lá e buscar outra coisa pra fazer, alguém também sentiria o mesmo, então todo mundo cuidava de tudo. Também não teria stress por trabalhar demais, tá cansado e quer ficar a semana inteira de boa? Fique, depois quando tiver energia vai lá e contribui com a sociedade.

    Os nossos padrões de comportamento destrutivos para nossa existência teriam bem menos duração. Companhias de petróleo não gostam de carros econômicos e elétricos porque interfere no faturamento deles. Se não tivesse dinheiro, veríamos que era melhor ter veículos que nos servissem da mesma maneira sem necessitar de tanto combustível, então uma petroleira poderia ser simplesmente largada lá porque o tempo dela passou, e quem cuidava dela vai buscar outra coisa pra fazer, seja auxiliando na produção veículos mais econômicos ou pescando.

    Utopias… pelo menos isso alivia meu stress quando to com raiva dom mundo…

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      A utopia do 100% compartilhado parece realmente uma utopia.

      Vamos lá, viajar na sua ideia…

      Temos um grupo de pessoas num local x, vivendo. Uma delas resolve caçar mais comida pois tem mais fome e deseja ter mais reserva pra não passar fome, algo assim.

      Ele arranja cem frutas e guarda. O pessoal da vila come tudo e voltam a dormir, ou ficar no mesmo ritmo de antes.

      Ele não liga muito e coleta ainda mais frutas. As pessoas se alimentam e vão se acomodando.

      Por fim, ele fica puto e decide que não quer mais compartilhar com quem não faz esforço algum.

      Ele agora quer trocar.

      E aí começa a história toda… capital, etc etc

      http://papodehomem.com.br/como-pode-dinheiro-simplesmente-desaparecer/

      //

      Não consigo ver esse tipo de utopia se sustentando.

      • http://www.facebook.com/rodrigo.lourenco.12 Rodrigo Lourenço

        Bom, Guilherme, vamos tentar continuar esse pensamento…

        Primeiro, como um amigo me disse em uma conversa de madrugada, temos que ter cuidado com um ponto: essa ordem social, baseada no capitalismo feroz e na desigualdade legitimada, está tão “bem estruturada” e moldada que na maioria das vezes já partimos da ideia de que o “contrário” não daria certo. É mais ou menos aquela questão batida durante os primeiros anos de escola: o Socialismo fracassou, só resta o Capitalismo.
        Mentira. Esses são os dois projetos sociais que a história conheceu, o que não determina a unicidade dos mesmos.

        Tudo bem, romantizar a realidade e acreditar no mundo perfeito onde eu planto legumes, você cria animais e nós trocamos mercadorias felizes e contentes é um pensamento vazio. Mas aceitar o “sistema” da maneira como se encontra parece fugir um pouco do ideal de humanidade.

        Pensamos: para uma pessoa andar de Chevrolet Camaro, quarenta e cinco (consideremos esse número apenas para ilustrar) andam num ônibus que comporta apenas trinta. Enxergou?

        Existe uma desigualdade estruturada na sociedade atual que só tem aumentado e se legitimado, e esse deve ser o ponto principal. Pensamos apenas em comprar, em ter, e abrimos mão de qualquer etapa contemplativa na vida. Nós apenas trabalhamos e gastamos nossos salários. O desafio é negar esse posicionamento, essa mecanização.

        Muito legal esse tema discutido no PdH, sentia falta nas discussões por aqui; espero que seja apenas o primeiro de muitos. Essa situação precisa ser repensada.

      • Médico_Mg

        O capitalismo nu e cru é muito defendido para nós, terceiro mundistas, pelos países do norte. Dá uma olhada em economias de mercado européias que vc vai entender. Países como Noruega, Inglaterra, França, dentre outros, investem pesado para a melhoria da condição da população como um todo. Aqui no Brasil, o bolsa família é atacado. Na França, é estipulada uma ajuda de custo para mulheres grávidas que após o parto recebem uma vez por semana em casa uma pessoa para ajudá-la com afazeres gerais, é mole? rs
        Acredito que a solução mesmo é essa economia de mercado, regulada pelo estado. Na França existe teto de salário, para jogadores por exemplo. Justo la na Europa, berço do capitalismo, ele está sendo adequado. Os Eua estão revendo este estado mínimo, sua saúde apesar de ser uma das mais caras do mundo não supera em muito a de Cuba.
        Agora, esse pensamento que todo mundo se ajuda e vai é furado…

      • Paulo

        Concordo , competição é algo biológico , ta na nossa natureza, infelizmente alguns tem que ficar pra traz pra que a sociedade possa evoluir e enfrentar novos desafios.

    • Leandro Terra

      Bruno, depois dá uma lida no “Island” do Aldous Huxley. Um jornalista fica a deriva e é resgatado pela população de uma ilhota no pacífico, nos anos 60. Lá as pessoas vivem em uma sociedade que mistura monarquia parlamentar, budismo e socialismo, e rola tudo isso que você falou: não há dinheiro, as pessoas trabalham para o coletivo e mudam de ofício ao longo da vida.

      A utopia desmorona justamente porque existem outros impulsos e desejos humanos destoantes com compaixão, justiça e racionalidade.

      Além disso, a Economia só dá atenção para o que é escasso. Por isso mesmo não comercializamos o ar, a luz do sol e a areia dos litorais… esse tipo coisa você pode ir lá e pegar, a vontade, sem pagar, igual você sugeriu.

      Tudo o que exige terra fértil e cultivo, materiais raros, mão-de-obra e tecnologia é escasso e não pode ser distribuído de graça, se não um grupo vai ficar sem. Aí o bicho pega e começam as disputas pelo “poder”. A Publicidade é uma ferramenta complexa de distribuição de poder para mentes complexas e complexadas que nos tornamos.

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        Excelente lembrança citar “Island”, Leandro!

    • Matheus Gomes

      Infelizmente a mente do ser humano é muito complexa. Não tem como ser assim. Para isso dar certo, é necessário que todos tenham o mesmo ritmo de trabalho, as mesmas ambições, os mesmos desejos. Tipo, não é justo eu trabalhar no dia x e o vizinho não. Pode ser que eu pense “ah, mas ele está cansado hoje, vamos deixá-lo descansar. Amanhã invertamos os papeis”. E no outro dia eu descanso e ele vai trabalhar. E se ele pensar “mas que cara folgado, eu ralando aqui e ele descansando”. Viu, os dois em um mesmo período de tempo fizeram a mesma coisa, só que um não enxerga isso. Agora imagina isso estendido a 7 bilhões de pessoas! Não dá…

    • Isa

      “utopias… pelo menos isso alivia meu stress qundo to com raiva do mundo…”
      Substitua ‘utopias’ por ‘compras’ e terá uma das premissas que embasam logicamente o mundo que vivemos hoje; sugiro ainda que depois monte outras premissas substituindo ‘raiva’ por ‘inveja’, já que são sentimentos tão próximos; e posteriormente troque ‘do mundo’ por “de mim” ou ” dos outros”. Exercício interessante…

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Marco, bela lembrança compartilhar conosco a história e alguns dos feitos de Edawrd Bernays.

    O documentário é espetacular, também.

    Em especial, me agrada a fala do Alain de Botton sobre o futuro do capitalismo e da própria publicidade.

    É no que acreditamos aqui dentro.

    Grande abraço!

  • Felipe Cardoso

    A primeira lembrança que me veio foi de Mad Man…

  • http://tenholaminhasduvidas.blogspot.com/ Marcelle Gália

    Ontem eu tive a prova da irracionalidade que o consumismo e a identificação excessiva com a marca provocam.
    Estava envolvida com um cara fascinado pela Apple; consome todos os produtos. Chamava a Apple Store de church. Relevei. Quando finalmente eu saquei o meu celular da bolsa durante um encontro, notei uma reação estranha dele, frieza instantânea, mas não dei atenção. Hoje, recebi um email dele com um “você não tem um Iphone”. Segundo ele, eu não devo ter o mesmo nível social por não ostentar um aparelho do mesmo “porte”. E acabou ali o romance ahahahahaha sou a escória da sociedade. Surreal. Sinceramente, não me seduzo tão fácil por marcas. Dificilmente vou associar alguma à minha identidade. Milhares de vezes já entrei em lojas e comprei sem saber onde estava, só descobria na hora de pagar. Olho, gosto e compro. Mas admito que nem sempre penso se PRECISO.

    • Junior

      Você deveria tirar um print desse e-mail e mandar para o pessoal do “Classe Média Sofre”.

      • http://tenholaminhasduvidas.blogspot.com/ Marcelle Gália

        ahahahahahaha rindo pra não chorar, viu.

      • Isa

        Marcele, pense no lado bom da coisa: olha de que tipo de traste seu celular te livrou! No seu lugar, eu ainda ficaria com ele pelo menos uns quatro anos, por pura gratidão! Bj.

      • http://tenholaminhasduvidas.blogspot.com/ Marcelle Gália

        Isa, depois de umas horas em choque pelo fora mais ridículo da minha vida, devo concordar com vc!

    • Leandro Terra

      Só uma gíria belorizontina consegue expressar minha reação ao ler isso:

      NUH.

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        A pessoa que negativou seu comentário certamente não conhece o significado de um “NUH” belorizontino.

    • http://www.facebook.com/guerrafelipe Felipe Guerra

      Caraleo! ‘Você não tem um Iphone’ huAHUAHUahu

      Sensacional, cara. Gostaria de ter passado por situação semelhante para poder escrever um texto bizarro.

      Certa vez, um jornalista me entrevistou durante a produção de uma matéria sobre um aplicativo chamado Pixlr – meio que uma alternativa ao Instagram para a edição de fotos (que pode ser usado no computador mesmo). Ele falou comigo porque tenho uma página de humor no FB sobre o Instagram e posto coisas toscas com fotos ‘instagramizadas’ (perguntou o que eu achava da liberação, da polêmica etc). Para mim, a melhor parte da matéria foi a opinião de um usuário do Instagram+iOS a respeito do Pixlr e da liberação da rede social para usuários de Android (pobres, rizos). Segue o trecho:

      ‘… não compartilha do mesmo pensamento. Ele crê que a expansão desse tipo de aplicativo traz a vulgarização do serviço que, há até pouco tempo, era exclusivo dos clientes de Steve Jobs. “Poucos tinham perfil no Instagram. Acaba que as pessoas que eram ligadas nisso e que usavam iPhone com diversos editores maravilhosos de fotos, não curtem mais”, reclama. Para ele, o site também peca em funções, como desfoque das imagens.’

      Dessa maneira, parece até que o Instagram era um átrio de sabedoria e cultura antes de ser liberado para Android, e que, depois desse histórico momento (a adaptação para Android), o fim do mundo chegou…

  • http://www.facebook.com/wagner.crizostimo Wagner Crizóstimo

    Ótimo texto…

  • Caio Felipe
  • http://www.notsosweet.com.br/ Magê Ciconello

    Adorei o texto, Marco Aurélio. Sempre achei legal o poder do consumo em massa e como isso manipula as pessoas. Talvez por nunca ter comprado algo só porque vi sendo anunciado (ok, só quando existiam os chocolates Surpresa e os cartões com raças de cães), gosto de entender porque isso acontece com as pessoas e me tornei publicitária. Você sendo publicitário, se sente influenciado por um anúncio?

  • http://www.facebook.com/people/Mari-Dias/100001311764887 Mari Dias

    Obrigada por postar todas as partes desse documentário, eu o procurei tanto.

  • http://profiles.google.com/1bertorc Humberto Ramos Costa

    Na verdade o termo é recente, o uso dos aspectos psicológicos para uma grande parcela da população também (já que antes quase toda a humanidade estava morrendo de fome) mas estes aspectos não são novos. Quem pôde (antes muito poucos) sempre viveu com mais do que precisava e ao contrário do que muitos dizem esse não é um fenônemo novo nem ocidental. Reis e nobreza sempre viveram de maneira opulenta praticamente no mundo todo. O que há de novo é que hoje uma parcela razoável da população não precisa se preocupar se terá alimento ou abrigo amanhã e ainda tem recursos ‘sobrando’. Antigamente era apenas uma minoria ínfimia.
    Apesar do tom não quer dizer que eu defenda esse modelo, hoje a maioria de nós (a dita classe média) pode se manter e ainda sobram recursos… A pergunta que cabe é: O que estamos fazendo com esses recursos que ‘sobram’ na nossa carteira?

  • Isa

    Show!

  • Médico_Mg

    Excelente texto, um dos melhores que já li por aqui.
    Imparcial, informativo, boas linha de raciocínio e referências.

    Longe de ser uma descoberta por análise, acho que fiquei livre deste consumismo avassalador. Eis o motivo: Cresci em uma cidade de interior, ia muito pra fazenda, ficava meio distante de tudo isso, em um tempo que os “produtos” não chegavam com tanta rapidez e tanto marketing. E nem me era permitido esse consumismo, membro de uma família de classe média que prezava por um desenvolvimento sócio-educativo-cultural de qualidade, tais produtos não tinham espaço e não eram tão acessíveis. Lembro que meu super nintendo “veio” bem depois do lançamento e de meus colegas já terem um modelo em casa, o mesmo digo do computador, da bicicleta “maquinada”, tv de 29 polegadas, o primeiro carro e por aí vai (o playstation 2 nunca veio,rs)… Engraçado que isso nunca me chateou de fato, acho que por influência materna tinha essas coisas por segundo plano, era incentivado a ter um grande desenvolvimento humano, estudo, esportes… Uma pena não ter prosseguido com a música. A minha frustação não vinha do não ter, mas do não ser…
    Não sou tão velho assim, tenho 24, mas muita coisa mudou e não acredito que seja pra melhor… Toda essa tecnologia, estes novos produtos, geram muito mais segreção do que “felicidade de fato”. A aquisição não está mais na necessidade, como dito no texto, mas sim no simbolismo. E esse simbolismo se dissolve tão facilmente… Basta chegar a versão nova do antigo, basta pensar um pouco na sua própria condição humana…

  • Médico_Mg

    Não me lembro quem havia escrito um texto sobre o impacto da televisão nos moradores de Fiji. Muito embora abordem troncos diferentes, o cerne é o mesmo (a mudança das relações sociais e da condição humana com o novo paradigma de informação facilitada, markenting, consumismo etc). Acredito ser um tema com muito ainda a ser explorado, principalmente no que se refere às consequências deste processo na vida do homem atual. Penso que seria interessante se esta discussão fosse aprofundada e abrangida em outro post.

  • Relri

    Cara, meu muito obrigado, ler esse post foi deveras construtivo!!!

  • http://www.facebook.com/lucas.barros.397948 Lucas Barros

    Muitissimo Obrigado.

    Olhem este tambem sobre consumismo!

    http://youtu.be/vW9hisREdw8?t=10m36s

  • http://www.facebook.com/guerrafelipe Felipe Guerra

    Texto foda! Assistirei ao documentário depois.

    É tenso mesmo ver a que nível o consumismo chegou. Mas eu não to fora disso não. Só uso roupa de marca. Por exemplo, tenho uma calça jeans da Nicoletti (foda, hein?). Ela custou 40 reais, e eu uso a coitada há uns três anos. É de marca, bem. Além disso, tenho altas camisas fodas da Hering! 20 reais cada uma.

    É foda ver gente que só fala em comprar iPhone, dizendo que é o melhor, sem ao menos ter experimentado outras opções e sem saber especificar as vantagens desse produto sobre os outros. Tanto quanto é tenso ver gente comprando uma porrada de produtos caros admitindo ‘sei que não preciso disso para viver, mas preciso disso para conviver com o meu círculo social’.

    Mas, apesar disso, é difícil qualquer um de nós dizer que não somos ao menos um pouco consumistas. Tenho o meu celular, que tem nada de excepcional em termos de funções. Mas ele é azul, criado com produtos reciclados e pode ser recarregado com luz solar. Quando vi isso pensei ‘po, daora. Curti o aparelho, e dificilmente acharei alguém com um igual’. Comprei o bichano, sem pagar absurdos, mas pagando talvez mais que o suficiente para as funções dele. Atualmente (dois anos depois), eu olho para ele e ainda curto o seu visual. E ainda não vi outra pessoa com um igual. Mas geralmente tenho uma leve vontade de dar uma bicuda nele lá de cima do edifício Altino Arantes, porque ele não tem funcionado direito. E eu fui avisado que teria certos problemas com ele, mas não dei muita bola, pois a vontade de ter um produto diferente foi maior…

    E, pior de tudo, é que não foi seduzido por anúncios. Achei o produto por acaso no MercadoLivre, dei uma lida sobre ele pela internet e falei ‘é agoga, meu camagada’…

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