Hoje, ao entrar em meu quarto, quase tropecei em meu par de botas. Ao desviar do tombo, passei a uns 2cm de esmagar o celular. E acabei desistindo de ler um livro, por não conseguir achá-lo no meio da zorra.
Esse pinguim é o Feijão, meu parceiro de guerra, em seu habitat natural: a mesa do quarto. O que um psicólogo diria sobre ele?
Na hora me veio aquela frase na cabeça, de que “a sua mesa de estudo é o retrato interno de sua mente”. Há quem diga que é baboseira. Mas não poderia concordar mais com essa frase. Minha experiência pessoal comprova essa fato diariamente.
Não sei dizer quais as origens de um Bagunceiro Consumado – e sou o primeiro a me incluir nesse paredão. Tenho vagas lembranças de infância, nas quais minha mãe me pedia para arrumar o quarto. Às vezes atendia o pedido e jogava toda a tralha dentro de um enorme balaio que ficava num dos cantos.
Aquele balaio era minha alegria. Tão grande que me permitia entrar dentro dele por completo. E sempre achar um novo, ou esquecido, brinquedo. No entanto, na grande maioria das vezes, quem dava conta da arrumação era mesmo a empregada. Nunca dava muito bola para tarefas domésticas. Meu gênio criativo intenso não abria espaço para trivialidade. Passava horas desenhando invasões alienígenas ou escrevendo tramas mirabolantes em meu caderno. Isso quando não estava no glorioso Mega Drive, matando aquele chefão fdp do Streets of Rage pela décima vez.
Tudo muito bom e rotineiro, até que a idade trouxe uma benção de dois gumes. Por volta dos 18 anos, nossos pais alteram o discurso. O mantra em vigor se torna “você é adulto e sabe o que faz”. Ótimo, finalmente espaço para fazer o que der na telha.
Esse é um momento crítico.Todos os anseios e hábitos suprimidos vêm a tona com força absurda. Comecei a acumular uma quantidade obscena de objetos inúteis em minha caverna – apelido informal que deram para meu quarto. O posicionamento dos itens seguindo uma ordem absolutamente aleatória, criando uma espécie de campo minado.
Ninguém mais poderia entrar ou tocar em nada lá dentro, sob pena de afetar a instável harmonia presente.
Eram comuns brigas do tipo: ” – Quem pegou o papélzinho amarelo que estava no fundo da pilha de papéis brancos, com a ponta pra fora? “…
Será que o quarto dele também era uma zorra?
Mais algum tempo se passa e você vai morar sozinho.
Ahhh, como é doce o ar da total autonomia! Enquanto saboreia a nova conquista, decide deixar os tempos de bagunça para trás e faz uma bela arrumação. Sozinho, sem que ninguém peça. Liga o som com algum CD que te anime e manda bala. Quatro ou cinco horas depois, nem mesmo você pode acreditar. Seu quarto está um brilho, impecável. A organização impera e até sua respiração se torna mais leve.
Você finalmente dá razão ao ditado. O quarto realmente reflete como anda sua cabeça.
O quarto é uma zona. Mas o lençol novo…
Mas a história não acaba aí. Dois ou três meses depois, o caos pouco a pouco retorna. O quarto regride a um estado tão bagunçado quanto antes, assim como sua cabeça. Você abre sua gaveta de cuecas – dizem que ela também reflete a sua sanidade – e acha uma camisa da seleção velha lá dentro. Coloca ela de volta. Vira de costas e quase pisa em seu celular novamente.
É, a vida continua.
Criador do PdH. Valoriza os bons amigos, boas cervejas e o trabalho. Baixa tolerância a papo furado e idiotas.
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