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em às | Artigos e ensaios, Ladies Room, Mundo
Na biografia da escritora Clarice Lispector, encontrei um trecho que não sai da minha cabeça. É o seguinte:
“Não há o direito de punir. Há apenas o poder de punir. O homem é punido pelo seu crime porque o Estado é mais forte que ele, e a guerra, grande crime, não é punida porque se acima dum homem há os homens, acima dos homens nada mais há.”
Traçando um paralelo, gostaria de perguntar aos leitores: qual terá sido o crime de Geisy Arruda, visto que ela tem sido massivamente punida, não pelo Estado propriamente dito, mas pela ditadura das mídias que nos cercam? Eu me pergunto isso todas as vezes que vejo seu nome sendo citado. E me pergunto também o motivo dessa punição. Mas esta não é a questão que gostaria de abordar, afinal o assunto já foi bastante discutido. É só dar uma boa googlada que você poderá encontrar vários pontos de vista e formar o seu.

Responda sinceramente: qual foi o crime de Geisy Arruda?
O que eu quero de fato é utilizar o caso Geisy Arruda como um exemplo para que todos possam refletir sobre a educação. Você já se perguntou para que serve a educação? Responda o que quiser, tenho certeza de que você não estará errado, pois que a educação tem suas mil razões para existir.
A minha visão possui influências de uma aula de filosofia que tive quando ainda estava na faculdade. Depois dessa aula, tive de concordar que a maior função da educação é evitar a repetição de Auschwitz – o nome dos campos de concentração nazistas, onde foram mortos centenas de milhares de judeus. Em outras palavras: educação serve, primeiramente, para evitar a barbárie.
Ingenuidade dos que acham que algo tão bárbaro quanto Auschwitz esteja longe de se repetir. Isto se repete todos os dias, guardadas as devidas proporções. Theodor Adorno, filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão (1903 – 1969) concluiu que o nazismo só aconteceu por causa da identificação cega com o coletivo. Qualquer semelhança com o caso Geisy Arruda não é mera coincidência.

Entrada de Auschwitz, onde se lê 'Arbeit Macht Frei' ('O trabalho liberta'). Ironia fina, bem.
Você conseguiu responder qual foi o crime pelo qual a moça tem sido massivamente punida? O que de fato Geisy Arruda fez para despertar tanto desprezo? O que foi que ela fez para ser – e continuar sendo – tão humilhada, rebaixada, ridicularizada? Me digam vocês, pois eu mesma sou incapaz de chegar a uma resposta convincente. Nada me convence de que exista um motivo real para tal fato.
Não se identificar com uma pessoa não é motivo para marginalizá-la. Ou é?
Não há dúvidas de que está faltando educação – e não é só no Brasil. A educação a que me refiro não é somente aquela que prepara o cidadão para o mercado profissional, que torna o homem mais capaz de se realizar profissionalmente. Está faltando educação humana. A educação que nos permite resistir ao poder cego. A educação voltada para a formação de indivíduos capazes de pensar os próprios pensamentos. Capazes de discordar com a violência ao invés de calar diante dela, passá-la adiante ou fazer de conta que ela simplesmente não está ali.
A falta de autonomia e de autodeterminação são condições favoráveis à barbárie. O único meio de evitá-la é a conquista da autonomia e do poder para negá-la.
Link YouTube | Palestra sobre empatia, o que faltou para os alunos da Uniban
Não escrevo com o intuito de mudar nenhuma realidade. Tudo permanecerá como está, é o que acho. A minha esperança é que aquelas pessoas que estejam se deixando levar pela onda que marginaliza a Geisy, mas que possuem a capacidade de questionar as próprias atitudes e pensamentos, parem um pouco para raciocinar. A Geisy é um ser humano, como todos nós. Possui sua história, que não conhecemos direito. Não roubou, não matou, não feriu a honra de ninguém. Qual é o crime pelo qual ela tem sido punida? Ela realmente merece as ofensas que tem sofrido?
A minha opinião é que não há o direito de punir. Há apenas o poder de punir. Geisy é punida pelo seu crime indefinível porque a ditadura das mídias é mais forte que ela, e a falta de educação, grande crime, não é punida porque ela é a própria punição. E se acima da Geisy há a massa, acima da massa ainda existem algumas pessoas. E é pela voz dessas poucas pessoas que eu não me canso de procurar.
Nota do editor: se você achou o tema batido, lembre-se que é justamente porque paramos de pensar sobre isso que os casos Uniban continuam acontecendo.
E-music serious business, filósofa de boteco, interneteira, poeta [quando quer], e blogueira. Encontre-a no Avante7 ou no twitter mesmo.
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