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O preço de uma morte tranquila

Roberto Del Grande

por
em às | Debates, Mente e atitude, PdH Shots


Você tem seguro? No mundo de hoje, a maior chance é que você responda sim. Na intenção de se proteger de problemas, muita gente faz seguro. Do carro, da casa, de vida, de morte.

Sim, de morte também.

Descobri recentemente, enquanto lia algo totalmente não relacionado: há pessoas procurando algo bem parecido com um seguro de morte: serviços que garantam a elas um tipo específico de morte, caso for do desejo do cliente.

A morte rouba a seriedade da vida

Uma opção para quando não se tem opções

Quanto mais passa o tempo, maior a probabilidade de termos problemas de saúde. Ficamos velhos, as coisas deixam de ser tão fáceis, e o nosso histórico começa a assustar. Vemos pais, avós e parentes começando a sucumbir. Lembramos, nem sempre com tranquilidade, que em breve seremos nós.

O que resta aos que estão ao redor é oferecer palavras de conforto. A pessoa deixa de viver naturalmente e vive à base de aparelhos e da boa vontade de quem se dispor a cuidar. Cuidados esses que se tornam cada vez mais intensos, acarretando numa preocupação geral de quem está por perto.

Como se sente a pessoa que está ali, doente, consciente ou não, com limitações motoras? Quais seus medos? Qual será o peso de ser um fardo tão grande para aqueles que em outros tempos estiveram aos seus cuidados? Não é impensável que algumas pessoas, em uma situação assim, prefiram partir logo e sossegadamente.

O seguro de morte serve para garantir a execução dessa vontade.

Por que não?

Instituições como a Dignitas, na Suíça, são especializadas nisso: fazer você morrer. Se você quiser.

A mecânica não é complicada: o segurado paga para se inscrever, depois, na hora que quiser acionar o seguro, paga mais uma taxa (em torno de R$ 15.000,00, segundo matéria da revista Época) para que o levem até as instalações. É administrado um composto de barbitúrico, de gosto supostamente amargo — apesar de ser diluído em água. Dentro de alguns minutos a pessoa começa a ter sono. Dorme. E não volta.

Por uma quantia extra, a empresa ainda pode cuidar de todos os processos envolvidos na morte de alguém, para que a família não precise se incomodar nem mesmo com enterro ou cremação.

Para não ter problemas com a justiça, a empresa passa a informação que apenas preparou o coquetel, que foi tomado, por vontade própria, pelo então falecido. O cliente deixa registros escritos ou gravados, no quais deixa completamente claro que, de sã consciência, quer de fato que isso lhe aconteça.

A matéria que li apresenta algumas informações interessantes:

  • Entre 1998 (data da sua fundação) à 2011, foram 1.298 mortos.
  • A Dignitas possui 6.261 sócios ativos, e um número que chega perto de 5.000 pessoas pagantes, sendo a maioria de nacionalidade alemã.
  • O Brasil aparece com 10 pessoas pagantes.

Existem hoje no Brasil algumas formas legais para fazer um atalho para o fim:

  • Ortatanásia, que seria simplesmente a não-prolongação artificial da vida de um paciente, deixando que a morte ocorra naturalmente.
  • Eutanásia voluntária, quando o paciente insiste na sua vontade de encerrar a vida antes da hora, por estar sofrendo demais. Este método não é legal no Brasil, mas em certos casos pode ser batalhado e autorizado judicialmente.

Existe um certo fator reconfortante em saber que, para aqueles que sentirem que a sua jornada chegou ao fim, existe essa opção. No entanto, não gosto de me posicionar a favor ou contra.

Qual a sua opinião? Você consegue se enxergar usando esse recurso? E se alguém da sua família fizesse essa escolha, qual seria sua reação?

Roberto Del Grande

Menino selvagem, com raízes fortes e ideais inabaláveis. É o cara que tem os contatos que ninguém mais tem e que nem você mesmo sabe que precisa. Pra se contar faça chuva ou faça sol.


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  • Roger Moreira

    Tem coisas na vida em que a sua opinião simplesmente não interessa. Essa é uma delas, e as pessoas deveriam entender e se conformar com isso. Viver ou morrer é uma decisão de foro tão particular, que só cabe ao indivíduo decidir.
    No entanto, somos obrigados a ouvir baboseiras como “a vida é sagrada” e inversões da lógica de “direito a vida”, justificando intromissões da religião, sociedade e estado, naquilo que é somente seu para dispor como quiser. Impressiona que se sintam sócios ou até donos do corpo alheio para querer decidir pelo outro.

    • Leitor

      Seja qual for sua crença, o processo é natural. Não sou contra pessoas que acreditam poder escolher a hora da sua morte, mas apenas penso que essas pessoas são covardes.

    • Iceman

      Concordo e discordo.
      Concordo que ninguém tem nada a ver com o outro e as pessoas deveriam guardar suas opiniões para si próprios e não querer impô-las e/ou obrigar os outros a adotá-las.
      Mas discordo quanto a usar o termo “baboseiras” para a opinião dos outros, só porque são diferentes das suas.
      Eu creio que a vida é sagrada mesmo e que não tenho o direito de decidir sobre a vida e a morte de outras pessoas, assim, EU não usaria e deixaria nas mãos de Deus, mas respeito quem opta pelo encerramento de sua própria vida.
      E justamente por isso que não aceito que isso seja levado ao plano público, se é algo privado, então o cara deve decidir e executar sozinho, sem envolver o poder público (aqui representado por médicos e hospitais).
      Ainda mais no Brasil, onde tudo é uma bagunça e já houve casos de pessoas que não estavam mortas serem dadas como mortas para aproveitamento de órgãos, com tantos erros médicos e casos de desprezo à vida e à saúde das pessoas.
      Se liberar a eutanásia não demora nada para aparecer casos de pessoas que “decidiram” encerrar a própria vida, principalmente nas camadas mais pobres da população.

    • Tatiane Andrea

      Eu acho interessante que muitos se posicionam desta forma ”
      só cabe ao indivíduo decidir” quando o assunto é aborto e eutanásia (etc) mas se colocam fortemente contra alguém que decide ou não recusar ou aceitar um tratamento medico. Acho q o julgamento, na verdade, a falta dele, deveria seguir certa razoabilidade. A verdade é que cada um deveria ter o poder de escolher o que faz com a própria vida, baseado em crença ou no quer que for importante para a pessoa SÒ, contanto que não ultrapasse o direito do outro.

  • http://www.facebook.com/kindlein Acauã Kindlein

    Bacana a informação.

    Isso me lembrou um filme que vi essa semana “You don’t Know Jack” http://www.imdb.com/title/tt1132623/
    é baseado em fatos reais, fala sobre um medico que lutava pelo direito a eutanásia nos EUA, e tem o Al Pacino. Recomendo

    • http://tenholaminhasduvidas.blogspot.com/ Marcelle Gália

      Filme muito bom lançado pela HBO! Pode entediar no começo, mas vale a pena insistir. Al Pacino teve brilhante atuação como o “Doutor Morte”/ Jack Kevorkian. Susan Sarandon, outro espetáculo à parte.
      Não é um filme que fala somente sobre a luta pelo direito a eutanásia, processos judiciais etc. Vai um pouco além, explora o lado humano da situação e satisfaz a curiosidade quanto aos seus métodos, por que ele fazia as famosas entrevistas com alguns “pacientes” (copiadas das reais, claro) explicando pq queriam morrer daquela forma, quem foram seus apoiadores e…vejam o filme :)

    • Ju

      Lembrei desse filme na hora também!

  • http://rodrigonovac.tk/ Rodrigo Novac

    Uma notícia
    vista pela manhã que me chocou um pouco foi a de Tony
    Nicklinson, que é paralítico e teve o seu pedido de suicídio assistido negado pela corte.

    Porém, a corte só deu 2 opções: esperar morrer por causas naturais ou parar de comer e morrer por inanição. O britânico ainda irá recorrer a sentença.

    Realmente triste e ao mesmo tempo polêmico. [info: http://glo.bo/OqanUN

    • Adunco

      Terry Schiavo parou de ser alimentada: pelo jeito, única saída em busca da morte.

  • http://www.facebook.com/brennors Brenno Rodrigues

    Ninguém deveria ser obrigado a viver contra a própria vontade, a vida é do cara, é de se supor que ele faça o que quiser. Caso eu fosse suiço, trataria logo de organizar meu seguro. Acho que é uma opinião egoísta, mas bem que eu preferiria ter controle sobre meu último suspiro.

    • andressa

      não acho egoísmo vc querer ter controle sobre o seu próprio corpo. é seu e de mais ninguém, vc tem o direito de fazer o que quiser com ele, desde que não prejudique outras pessoas.

  • andressa

    concordo que a pessoa deveria ter autonomia sobre o próprio corpo, e que todos tem direito a uma morte digna. só fiquei com umas dúvidas: no brasil é possível conseguir uma eutanásia voluntária com batalha jucidial? já houve casos em que foi autorizado judicialmente? as pessoas envolvidas não podem acabar sendo criminalizadas por homicídio ou algo do tipo?

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100001683998983 Ana Ribeiro

    suicídio?

    • Luciana_Marques

      Na verdade não é suicídio (por isso a diferença já institucionalizada na nomenclatura!), mas o direito a não prolongar o sofrimento irreversível…

      Assim como alguém com metástase escolhe não fazer um tratamento, a ortotanásia recusa o prolongamento artificial da vida, em ambos os casos o indivíduo não controla o dia da morte.

      Quanto à eutanásia, acrescenta-se apenas o controle sobre esse dia, enquanto ainda há sanidade.

      Nos dois casos o indivíduo busca uma morte digna e deseja minimizar o sofrimento próprio e o familiar…

  • brunowjr

    A lei brasileira é clara a esse respeito:

    Induzimento, instigação ou
    auxílio a suicídio

    Art. 122 – Induzir ou instigar
    alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça:

    Pena – reclusão, de dois a seis
    anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa
    de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.

    Parágrafo único – A pena é
    duplicada:

    Aumento de pena

    I – se o crime é praticado por
    motivo egoístico;

    II – se a vítima é menor ou tem
    diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.
    Mas, praticado no exterior, respeitadas algumas condições, não é punível.
    Portanto, não tentem praticar isso em casa!

  • Pingback: O preço de uma morte tranquila | Mugango

  • janslley

    Nossa muito tenso mesmo fiquei sem palabras não sabia que existia esse tipo de seguro, por mais estranho que seja querendo ou não é uma opção para algumas pessoas Deus tenha pidade dessas almas.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000169026699 Michel Colombo

    Cada um com seu julgamento, mas não há como negar que isso é um suicídio enfeitado. A empresa provê ao cliente as ferramentas de um suicídio indolor e rápido. Nem precisa ter coragem de agir.

    Bem foda. Só podia ser na Suiça

  • http://profiles.google.com/reccanello.waldir Waldir F. Reccanello

    Os “homens sem face” da vida real!

  • Tatiane Souza

    Só uma preocupação que me passa a mente, é como isso é, ou se deveria ser, controlado. Digo, se alguem tem uma doença psicológica (?), como depressão, e tende ao suicidio. Faz um seguro desse, ele consegue ter a permissão de tirar a propria vida? Pq a depressão pode ser tratada e a pessoa consegue viver (quase que) normalmente. Eae, como funcionaria, neste caso?

  • Luana

    “Eu penso e posso
    Eu posso decidir
    Se vivo ou morro por que
    Porque sou vivo
    Vivo pra cachorro”

  • Adunco

    Vale lembrar tb os termos distanásia (fazer medidas excessivas, forçando o prolongamento da morte, como procedimentos em UTI mediante prognóstico desfavorável) e mistanásia (algo como negligência, onde se faz menos, acelerando a morte). No Brasil, o CFM advoga a ortotanásia, que o próprio nome já significa como ‘morte correta’: nem mais, nem menos. Apenas medidas caminhando em paralelo ao processo inevitável da morte.

  • http://www.facebook.com/JimmySub Marcus Vinicius

    Acho que as pessoas tem o direito de desistir de viver, porém essas não tem meu respeito.

  • Luiz Matos de Lima

    O suicidio, não se configura apenas por uma bala na cabeça, ou saltando do vigésimo andar, se o individuo concordou em que ponham fim á sua vida, ele endossou o suicidio. pra mim, o ato de tirar a propria vida,é uma das atitudes mais nocivas que o ser humano causa á si mesmo, aqui eu teria que entrar no terreno complicado e controverso das convicções religiosas, vou evitar e vou apenas citar as ponderações de uma determinada doutrina; quem garante que aquele momento de sofrimento é o final da existencia? Convicções á parte, as vezes no calor da batalha nós atropelamos nossos principios…

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