O ódio será o fiel da balança do Brasileirão?
“É verdade que tinha corintiano chorando no Pacaembu?”
Essa era a pergunta que a Bia, uma amiga minha santista que está em Liverpool, fazia pelo MSN. Ao responder que sim, ela colocou um emoticon de festa, comemorando a desgraça alheia.
Futebol não. É tribo mesmo.
Mesmo o dócil educador Paulo Freire sabia da importância da “justa raiva” para o ser humano, já que é “a emoção que move as atitudes dos cidadãos”. E foi essa ira que motivou a felicidade da Bia, certamente partilhada por inúmeros torcedores rivais do Corinthians depois da partida contra o Vasco. Por mais que uma pessoa seja apaixonada pelo seu time e devote seu amor a ele, o ódio também é um sentimento fundamental no futebol.
A última rodada vai pegar fogo
E é esse ódio que vai dar mais emoção à última rodada do Brasileirão. O Corinthians depende só dele mesmo para se livrar da Série B em 2008. Mas vai precisar derrotar o Grêmio em pleno Olímpico, uma façanha tão improvável que os próprios torcedores do Timão estão se fiando mais nas derrotas de seus adversários diretos do que em uma mítica vitória.
Caso não supere os gaúchos, o Corinthians vai depender de insucessos de Goiás e Paraná. E aí entra o ódio. O clube goiano vai enfrentar o Internacional em casa. O mesmo Inter que adquiriu uma recente birra contra o alvinegro paulista por considerar o título brasileiro de 2005 “roubado”. Os torcedores não perdoam e pedem que o time “entregue” o jogo pro Goiás.
Uma das comunidades coloradas no Orkut já iniciou uma campanha “101 mil posts Entrega Inter”. Outros já prometem ir assistir ao Timão, que vai treinar no CT do clube, para gritar “ê ê ê, Corinthians na Série B”.
Embora o “entrega” seja um assunto recorrente entre os torcedores, é difícil acreditar que jogadores fariam corpo mole para fabricar um resultado. Se fosse assim, o São Paulo poderia ter facilitado a vitória do Juventus no Paulista de 2004, resultado que levaria o Corinthians para a segunda divisão do campeonato. Quando o sistema de som anunciou a derrota do Corinthians para a Portuguesa Santista, juventinos e tricolores gritaram unidos: “Entrega!, Entrega!”. Mas Grafite fez o segundo gol e o rival ajudou o Timão.
Facilitação?
Aliás, na história recente, o São Paulo é o único time que teria protagonizado um episódio de “facilitação”. No Paulista de 2004, cedeu um empate, no mínimo esquisito, para o Santo André. Mas, naquela ocasião, o beneficiado seria ele mesmo já que, pelo exdrúxulo regulamento daquele ano, o empate fazia com que o time do Morumbi cruzasse com o próprio time do ABC nas quartas-de final. Caso vencesse, pegaria o Santos de Diego e Robinho. Pode ter facilitado, mas foi para benefício próprio e não apenas para prejudicar um rival.
No Paulista de 1988, novamente o ódio não prevaleceu e o Corinthians também foi beneficiado por um rival. Ele precisava derrotar o Santos e torcer para que o Palmeiras vencesse o São Paulo para chegar à final contra o Guarani. Quando foi anunciado o gol do Verdão no Pacaembu, a torcida corintiana começou a gritar “Palmeiras, Palmeiras”. A revista Placar deu uma capa em que estampava a comunhão dos adversários: “Porcorinthians”.
Mas hoje o principal problema do Inter é a falta de motivação. Para ele, o jogo contra o Goiás não vale rigorosamente nada. Não vai facilitar, mas também não vai jogar com a mesma aplicação que o time goiano, que será empurrado por um Serra Dourada lotado. Isso, somado ao aproveitamento ruim dos colorados fora de casa (oito derrotas, sete empates e somente três vitórias), pode fazer com que nem seja necessário “entregar o jogo”… E os corintianos terão que aguentar toda sorte de ressentimentos dos rivais.
Já outros integrantes do coletivo Futepoca acreditam que quem pode facilitar é o próprio Grêmio. No caso, o sentimento que reinaria não seria o ódio, mas a cobiça. Não só porque, sem o Corinthians, a visibilidade da primeira divisão seria afetada, mas também porque o treinador tricolor Mano Menezes já se despediu do clube.
E poderia ir em 2008 para… o Corinthians. Ou seja, em suas mãos estaria a chave para treinar um time da primeira ou da segunda divisão. Enfim, não acredito, mas conspiração há para todos os gostos…
Se vencer, apanha!
O torcedor do Atlético Mineiro também pede que sua equipe não entre com essa vontade toda na partida contra o Palmeiras. Tudo porque uma possível vitória do Galo beneficiaria seu maior rival, o Cruzeiro, que poderia entrar no grupo da Libertadores com a derrota esmeraldina. Fãs do Galo ameaçaram até mesmo esperar o time no aeroporto para bater nos jogadores caso vençam o Verdão. Ah, o ódio…
Esse texto é mais um da grande equipe do Futepoca, um dos melhoes blogs esportivos da atualidade.
Glauco Faria é filho de peixe. Santista e jornalista, tem birra do Luxemburgo e escreve para o Futepoca.
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