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O obituarista não usa adjetivos

Rodolfo Viana

por
em às | Crônicas e contos


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Depois de morto, todos viram santos. Exceto para um certo obituarista, que não usava adjetivo algum.

Era uma escrita crua: introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora. Simples assim. Tinha isso como uma regra pessoal que o isentava do erro de transformar monstros em homens dignos e vice-versa. Não quebrou sua regra nem na ocasião do registro do falecimento da menina Dolores que, havia algum tempo, lhe inspirava sonhos devassos, quando não noites insones.

Não que a menina cheirasse a sexo. Ao contrário, mal tinha peitinhos. Não tinha um pingo de lascividade. E era tão graciosa quanto um azulejo português. Mas seu nome era Dolores e isso bastava para que o obituarista visse naquela menina de 16 anos a Lolita de Humbert Humbert.

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.

Enfim, era apenas um nome. E era o bastante para aquele homem.

Dolores e o obituarista não eram íntimos. Davam-se “bons dias” de vez em quando e só. A menina, claro, nunca soube do calor que arrebatava o peito e as partes daquele homem toda vez que ela passava vestida com o collant do balé em frente de sua casa. Ela nem imaginava que a vontade do obituarista era arrastá-la para dentro de casa e devorá-la. “Entra menina e sai mulher”, pensava o obituarista. E ele não era o único a salivar diante da menina. Dolores foi estuprada e morta por um tio-avô na antevéspera de Natal. O obituarista lamentou e entendeu o que se passava na cabeça daquele assassino. E não usou adjetivo algum ao escrever o obituário da menina, apesar de desejar de toda a alma fazê-lo.

***

Quando o pai faleceu, coube-lhe a tarefa de inscrever nas páginas do jornal sua morte. Foi então que a mão coçou mais uma vez para adjetivar aquele crápula. Usaria os piores verbetes encontrados na língua portuguesa, e não duvidaria se inventasse outros piores. Daria capa, foto, legenda, se possível fosse. Narraria em tom vívido aquela quarta-feira em que o pai saiu de casa para comprar leite e sumiu. E o telegrama na terça-feira seguinte dizendo que estava bem e que não voltaria. E a foto no jornal dois anos depois que estampava o canalha ao lado de uma jovem morena, sua sobrinha. E a legenda da imagem que berrava ao mundo a felicidade do casal prestes a se casar.

“O filho da puta matou minha mãe. De desgosto”, me disse uma vez o obituarista.

Na verdade, ela morreu de câncer algum tempo depois. E sua morte causou no obituarista imensa dor. Quando teve de colocar no jornal o falecimento da mãe, ele tremia ao grafar o nome da mulher, e foi inevitável aquela lágrima que caiu nas costas da mão enquanto digitava a hora do velório. Ainda assim, preservou os leitores de palavras mais subjetivas. Queria esconder nas entrelinhas que aquela mulher sofrera em vida e que, ainda assim, lhe legara muito amor. Não o fez.

***

A única vez que o obituarista fugiu à regra e usou um adjetivo foi quando decidiu se matar. Antes de estourar os miolos, deixou pronto o obituário do dia seguinte. Usou para se referir a si mesmo o termo “desgraçado” sem imaginar que, durante o fechamento da edição, o editor cortaria o adjetivo. Introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora. Sempre. Introdução padrão, nome completo, idade, local do velório, data e hora.

Rodolfo Viana

É jornalista. Torce para o Marília Atlético Clube. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]


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  • http://www.facebook.com/kelly.camilo Kelly Camilo

    Me prendeu a atenção do início ao fim. Foda. Sem mais.

  • http://www.facebook.com/kelly.camilo Kelly Camilo

    Me prendeu a atenção do início ao fim. Foda. Sem mais.

  • danielbovolento

    O obituarista dispensava adjetivos por medo de empregar pessoalidade demais neles. E vivia de eufemismos por isso.

  • Ceci

    O epitáfio: E aqui jaz alguém que vivenciou a morte. 

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Nada mais justo que morrer do jeito que se viveu.

    • http://www.facebook.com/arthur.s.mendonca Arthur Silva Mendonça

      é justiça morrer do jeito que viveu ?

      • http://papodehomem.com.br/author/rodolfoviana/ Rodolfo Viana

        é justiça morrer?

      • http://www.facebook.com/people/Ubiratã-Sad-Almeida/100000517835829 Ubiratã Sad Almeida

         É. Acho justo saber que um dia tudo vai mudar, que essa vida não
        existirá mais. Misericordioso, até. Pensar em viver pela eternidade
        preso a esse mundo, nada muda, vida (ou morte) que não segue, sei não,
        meio desesperador. Saber que tudo terá fim faz a vida ser melhor, mais
        intensa.

      • http://www.facebook.com/vagner.abreu Vagner Alexandre Abreu

        viver é justo?

  • http://www.facebook.com/people/Yago-Bruno-Dantas/100001296506331 Yago Bruno Dantas

    Isso me remete um pouco ao que se vê no cotidiano, por exemplo aquelas pessoas que morrem todo dia, mas pra gente não passa de números. “15 mortos em um acidente envolvendo um ônibus e uma carreta na br-116…”. Quantos sonhos, vivências, tristezas cada corpo não carregava?

  • Leonardo Pires

    Melhor viver assim: sem adjetivos. Positivos ou contrários.

    • Alex Silva Aguiar

      discordo totalmente   viver sem   adjetivar as coisas e as pessoas é como ser apenas  observador da vida e não fazer parte do elenco

  • Karol Braga

    Triste de um jeito profundo que faz a gente refletir. Texto muito bom, como de costume!
    ps.: Mesmo que o texto não fosse assinado, o trecho citado do livro bastaria pra entregar a autoria…hahaha
    ;D

  • Karol Braga

    Triste de um jeito profundo que faz a gente refletir. Texto muito bom, como de costume!
    ps.: Mesmo que o texto não fosse assinado, o trecho citado do livro bastaria pra entregar a autoria…hahaha
    ;D

  • Cristian Alexandre

    como  disse Charles Chapplin,  somos plenamente substituíveis ou trocáveis, assim como peças de uma máquina – muito bem retratada na genialidade de Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos’
    que vida?

  • http://www.facebook.com/DouglasAAlencar Douglas Alencar

    Muito bom! parabéns…

  • http://www.facebook.com/DouglasAAlencar Douglas Alencar

    Muito bom mesmo! parabéns 

  • http://www.facebook.com/vagner.abreu Vagner Alexandre Abreu

    Nascemos, vivemos, morremos. Nascemos, vivemos, morremos.

    Pode ter acontecido tudo de bom em nossas vidas. Podemos ter prejudicado meio mundo. Podemos ter vivido amores ensandecidos. Podemos ter criado finalmente a solução para o fim da miséria humana, salvando a humanidade. Ou dizimado milhões de inocentes.

    Podemos ter criado um império. Ou vivido sob as ordens de um. Ou criado uma comunidade unida e crescente. Ou sido expulso de uma. Possibilidades infinitas, vidas e histórias infinitas.

    Viramos capa de jornal, ou uma pequena menção no obituário. Ou como muitos, um simples anonimato.
    Para alguns somos heróis, para outros somos vilões, para alguns somos um tudo ou pelo menos alguma coisa, mas para a grande maioria, somos anônimos, somos “nada”. Somos mais um. Mais um que nasceu, mais um que viveu, mais um que morreu.

    No final, nós nascemos, vivemos e morremos. Tal como o obituarista, que não adjetivava (exceto por si mesmo) por um simples motivo: porque ele (e o editor do jornal) sabem que todos nós,”da mesma forma”, nascemos, vivemos e morremos. Deixem os adjetivos aos conhecidos. Aos critérios de quem viveu ao lado. Na hora da morte, só vai precisar  de nome completo, idade, local do velório, data e hora. (se bem que muitos nem isso no final tem…

  • Thyago Francco

    You are a drop in the rain,Just a number not a name. Humanity – Scorpions

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000559103169 SayoNara Costa

    De fato, o autor já desponta com um estilo próprio que, a cada novo texto, torna-se cada vez mais familiar aos leitores aqui do PdH. Rodolfo, escreva sempre, pois você tem o dom! Sem mais.

  • http://www.facebook.com/marcelorraposo Marcelo Raposo

    Texto foda, principalmente o último parágrafo.

  • Rodrigo

    Boa Rodolfo!

  • http://www.twitter.com/lucinda_mateus Lucinda Mateus

    Rodolfo, quando vejo um post seu que é uma crônica, conto ou algo do tipo, me reservo ao direito de não ler na hora, de pulá-lo no meu reader, e entrar no site mesmo e realmente ler, nem todos os textos eu leio com tanto prazer, pq na hora que você escreve vc agrada, mas neste estilo você é sensacional, amei..amei…..

  • Inaê Magno

    Boa. Não importa ser desgraçado. No fundo, todos são. Vida e morte padrão! Parabéns!

  • http://www.facebook.com/willtubarao Willian Tubarão

    me arranca o fôlego. sempre. =/

  • Renato H R

    Muito bom! Do começo ao fim!

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