O Natal das trincheiras

Vinicius Cabral

por
em às | Artigos e ensaios, Mundo


No Natal de 1914, aconteceu algo muito mais surreal do um velhinho distribuindo presentes pelo mundo com seu trenó voador.

Sarajevo, Sérvia, 28 de junho de 1914. O estudante bósnio Gavrilo Princip mata a tiros o arquiduque Francisco Ferdinando (herdeiro do Império Austro-Húngaro) e sua esposa Sofia. O atentado, motivado por problemas regionais, logo entra para a História como o estopim da Primeira Guerra Mundial.

Na verdade as nações envolvidas no conflito precisavam apenas de um empurrãozinho: bastava um simples “acidente diplomático” para iniciar o tiroteio. Os ânimos já estavam bem exaltados entre as potências européias desde meados do século XIX e a guerra era apenas questão de tempo. Considerada pelo escritor britânico H. G. Wells como “a guerra para por fim a todas as guerras” e que acabaria de forma bem rápida, a Primeira Guerra Mundial logo virou um conflito extenso e bem custoso para os Estados envolvidos.

Inferno

Se para os países ficou complicado manter a guerra por um tempo além do estimado, imaginem como estavam os soldados, entrincheirados no campo de batalha, tendo que conviver com sujeira, chuva, frio, lama, o forte cheiro dos companheiros e inimigos mortos na “terra de ninguém” (aquele espaço entre as trincheiras inimigas), ratos, piolhos e, é claro, o chumbo-grosso do outro lado.

Carlitos, não adianta fazer graça porque a coisa tá bem fedida por aqui, ok?

Seis meses após o início do conflito, a França e a Alemanha já tinham perdido cerca de 300 mil homens cada e a Inglaterra uns 160 mil. A linha de trincheiras ia do Mar do Norte até os Alpes suíços, cruzando partes da Bélgica, França e Alemanha. Durante o dia, colocar a cabeça para fora da trincheira era pedir para levar uma bala na testa disparada pelos franco-atiradores posicionados em lugares estratégicos.

À noite o soldado torcia para não receber do superior a ordem de ter que se arrastar até o lado inimigo e tentar matar alguém no escuro. Havia também o medo de que uma bomba ou uma granada caísse bem em seu colo, mas o soldado até conseguia dormir com um pensamento destes rondando sua cabeça. O difícil era dormir com o barulho das explosões próximas. O ambiente era assustador.

Perto do Natal de 1914, os ânimos para lutar estavam bem frouxos. Os soldados já estavam cansados daquele inferno. A partir da noite do dia 24, várias regiões ao longo da linha de trincheiras viveram situações no mínimo surreais para uma guerra. Os soldados e oficiais dos dois lados do conflito começaram a negociar tréguas espontâneas que começariam já naquela noite ou na manhã do dia seguinte.

Em muitas regiões esta trégua serviu para que os dois lados enterrassem seus companheiros e inimigos mortos, já que os corpos estavam estirados nas “terras de ninguém” e nenhuma pessoa em sã consciência se aventurava a andar por ali sem uma trégua. Inimigos cavaram as covas e rezaram juntos pelos mortos.

"Tenente, o que eu falo para quebrar o gelo e iniciar o pedido de trégua com o outro lado, senhor?" / "Pergunta se eles conhecem o Apimentadas!"

“Vocês não atiram, nós também não atiramos!”

Em outras regiões, soldados ouviam o outro lado cantando músicas natalinas e, mesmo sem entender a letra, conheciam a melodia, afinal, “Stille Nacht” em alemão tem a mesma melodia de “Silent Night” em inglês ou “Douce Nuit” em francês, e até nós conseguiríamos reconhecer a música, já que “Noite Feliz” é uma canção universal para celebrar o Natal.

A música muitas vezes servia para quebrar o gelo entre os dois lados e logo ouvia-se um “Feliz Natal” arrastado no seu idioma vindo do outro lado. Daí para a negociação de trégua e a aproximação dos até então inimigos era um pulo. Ou melhor, uma “arrastada” até a trincheira inimiga.

Não foram raras as vezes em que os soldados inimigos trocaram presentes como cigarros, sabonetes e vinho. Em algumas regiões eles improvisaram campinhos de futebol e jogaram com o que tinham à mão. Latas vazias de comida, grama, feno ou capim enrolados com panos e amarrados com arame, tudo valia para improvisar uma bola. As traves eram os capacetes ou estacas fincadas na terra. Árvores de Natal também eram improvisadas com galhos secos, velas e laços feitos com panos coloridos.

É até normal entender estas tréguas e demonstrações de humanidade entre os combatentes. Muitos soldados não entendiam ou não aceitavam os reais motivos da guerra, e ficar ali naquela situação fedendo, sentindo fome, frio e medo acabava aproximando os dois lados.

Enquanto isso, os generais dos dois lados, confortavelmente instalados em suas salas, de frente para uma lareira e bebendo vinho quente, não gostaram destas atitudes de seus subordinados e enviaram ordens proibindo qualquer tipo de trégua sem a expressa autorização do alto-comando.

"Qual deles o senhor vai querer no gol, senhor?"

Não adiantou muita coisa. Em algumas regiões as tréguas e as confraternizações chegaram a durar semanas! Quando os soldados eram pressionados pelos superiores, bastava ir para trás das trincheiras e ficar ali sem fazer nada. Quando muito, davam tiros a esmo, para o alto, sem direção nem alvo.

Muitos franceses e belgas não gostaram destas tréguas, afinal de contas, eles estavam ali defendendo seus países, dentro de suas terras invadidas pelos alemães. Mas de um modo geral até os mais revoltados acabavam cedendo, afinal de contas, aquela era uma guerra idiota (assim como todas as guerras, concordam?).

Um cabo austríaco, em especial, lutando ao lado dos alemães e entrincheirado na Bélgica, reclamou da “humanidade” de seus companheiros que, ao invés de atirarem nos britânicos, estavam trocando presentes e cantando com eles. Teve, em um futuro próximo, sua chance de atirar nos britânicos. Aliás, atirou nos britânicos, nos franceses, nos soviéticos, nos gregos, nos iugoslavos, nos belgas, nos holandeses, nos judeus… e quase destruiu toda a Europa. Para Hitler, nem a comemoração do Natal merecia uma trégua…

A guerra continuou. Apesar da trégua, alguém tinha que sair vencedor do conflito, de preferência causando milhares de baixas do outro lado. E assim foi feito até 1918, com a rendição alemã. Para alguns historiadores, a Primeira Guerra nem teve fim, apenas passou por um intervalo até 1939 quando, historicamente, consideramos o ano como o início da Segunda Guerra.

Este episódio fica como exemplo de que os homens lutam, muitas vezes, porque são obrigados, não porque desejam o conflito.

Vinicius Cabral

Guitarrista frustrado, faixa preta em levantamento de copo e PhD em cantadas de pedreiro que costumam dar certo. E professor de História nas horas vagas. Na falta de aulas, dá plantão no HistóriaZine.


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34 comentários

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  • http://muitapimenta.com Francis Rosário

    “Este episódio fica como exemplo de que os homens lutam, muitas vezes, porque são obrigados, não porque desejam o conflito.”

    Exato, na maioria dos casos uma guerra começa apenas por brigas entre lideres egocêntricos ou então por ganância. Quem paga o pato é o pobre soldado de patente baixa, aquele que serve basicamente como alvo.

    Mas de qualquer forma guerras são fascinantes e eu sou um dos que adora estuda-las.

  • http://www.facebook.com/eduardo.cerqueira Eduardo Cerqueira

    Guerras criadas para defender os interesses de poucos, que tentam, todo dia, pela televisão, propaganda e outros, nos dizer como viver as nossas vidas.

    E aliás, ótimo texto! Nem desconfiava que essas coisas aconteceram. Sequer consigo imaginar o que esses homens passaram, e que infelizmente, outros passarão.

  • Dsf

    Tem um livro de um piloto alemão da primeira guerra (Ernst Udet) que ele conta alguns casos semelhantes, como uma vez em que ele levou charutos no hospital para um piloto inglês que ele tinha abatido.
    Hoje em dia acho que não existe mais essa mentalidade, os generais sentados em frente à lareira ficaram bons em te fazer acreditar que o adversário é um monstro.

    • http://www.historiazine.com Vinicius Cabral

      Dsf, antigamente existia cavalheirismo até no front (mas existiam também as barbaridades)! Hoje a coisa espirocou de vez…

  • Dsf

    Tem um livro de um piloto alemão da primeira guerra (Ernst Udet) que ele conta alguns casos semelhantes, como uma vez em que ele levou charutos no hospital para um piloto inglês que ele tinha abatido.
    Hoje em dia acho que não existe mais essa mentalidade, os generais sentados em frente à lareira ficaram bons em te fazer acreditar que o adversário é um monstro.

  • Aluísio

    Poxa vida,considero,dos que já vi,o ato mais humano e digno que se pode fazer é,em uma guerra sangrenta e devastadora,vc se expor a situação perigosa de pedir trégua e depois trocar presentes e dribles com um cara que a não muito só queria acabar contigo com uma bala,simplismente incrivel esse ato de humanidade.

  • http://www.hynd.com.br/ Jorge Maluf

    Eu já tinha escutado essa história, mas não tão bem contada como você fez aqui… Eu sei que não é natal nem nada, e vai demorar um pouco pra chegarmos nessa época. Mas pra mim o natal, ou qualquer época que se assemelha algum feriado que a maioria comemora e tem costumes, tem um Q de mistério sobre as pessoas… Sempre terá. Eu fico tremulo com tudo isso e gostei muito do texto. Natal pra mim também sempre foi diferente, pois meus pais são comerciantes de artigos natalinos e todo final de ano abrem loja, uaHEUAHEUHEU.

    Um abraço! :)

    • http://www.historiazine.com Vinicius Cabral

      Valeu Jorge!

      Também acho que estas “grandes datas mundiais” despertam nas pessoas o que elas tem de melhor.

  • http://www.hynd.com.br/ Jorge Maluf

    Eu já tinha escutado essa história, mas não tão bem contada como você fez aqui… Eu sei que não é natal nem nada, e vai demorar um pouco pra chegarmos nessa época. Mas pra mim o natal, ou qualquer época que se assemelha algum feriado que a maioria comemora e tem costumes, tem um Q de mistério sobre as pessoas… Sempre terá. Eu fico tremulo com tudo isso e gostei muito do texto. Natal pra mim também sempre foi diferente, pois meus pais são comerciantes de artigos natalinos e todo final de ano abrem loja, uaHEUAHEUHEU.

    Um abraço! :)

  • http://www.hynd.com.br/ Jorge Maluf

    Eu já tinha escutado essa história, mas não tão bem contada como você fez aqui… Eu sei que não é natal nem nada, e vai demorar um pouco pra chegarmos nessa época. Mas pra mim o natal, ou qualquer época que se assemelha algum feriado que a maioria comemora e tem costumes, tem um Q de mistério sobre as pessoas… Sempre terá. Eu fico tremulo com tudo isso e gostei muito do texto. Natal pra mim também sempre foi diferente, pois meus pais são comerciantes de artigos natalinos e todo final de ano abrem loja, uaHEUAHEUHEU.

    Um abraço! :)

  • http://www.facebook.com/rodrigo.cambiaghi Rodrigo DAvola Cambiaghi

    Porra Vinicius, muito bom seu texto, me fez sentir umas saudades das aulas de História do colégio…
    Sempre foi minha matéria preferida

  • http://www.facebook.com/henriqueathayde Henrique Athayde

    Sempre pensei nisso dos soldados simplesmente não quererem lutar. Afinal, é preciso um motivo bastante valioso pra alguém arriscar sua vida e acabar com a vida dos outros.

    Mas concordo com o Francis Rosário. Guerras são mesmo fascinantes e é sempre muito bom saber um pouco mais sobre elas.

    Parabéns pelo post!

  • Fernando Stefanello

    Heróis não fazem guerra… heróis terminam com a guerra.
    Quantas guerras acontecem diante de nossos olhos nos dias de hoje?
    Texto muito foda!!

  • http://twitter.com/johnnyschulte João Vitor Schulte

    Nunca tinha escutado ou lido nenhuma história de guerra por esse angulo. Sempre gostei muito de filmes histórias desse tipo, meu Bisavô era suíço e morava na Alemanha nessa época, veio pra cá fugindo da guerra, e me lembro que quando era moleque com uns 8/9 anos, sempre que eu e minhas primas íamos visitá-lo ele pegava uma cadeira e a gente sentava no chão em volta e ele sempre nos contava muitas histórias algumas relacionadas a isso e eu sempre ficava fascinado e depois a caminho de casa fazia milhões de perguntas ao meu avô! (saudades desses bons tempos…)

    Parabéns pelo texto e obrigado por compartilhar mais uma forma de ver a história do mundo!

  • http://justwrapped.interbarney.com/ João Baldi Jr.

    Vinicius, existe até um filme sobre esses episódios, não sei se você já chegou a ver

    http://www.imdb.com/title/tt0424205/

  • ISMAR

    Acho que vi isso em algum filme…o nome dele se não me engano é “Feliz Natal” ( Joyeux Noël ) http://pt.wikipedia.org/wiki/Joyeux_No%C3%ABl

    • http://www.historiazine.com Vinicius Cabral

      João e Ismar, nunca vi este filme, mas já ouvi falar do mesmo.

  • Daniel Felipe

    Tem um filme sobre isso, chamado Feliz Natal, de 2005. Joyeux Noel no original.
    Lembro de ter assistido ele quando lançou, muitop bom por sinal.

  • http://www.facebook.com/people/Carlos-Henrique-Vasconcellos/100001832668743 Carlos Henrique Vasconcellos

    Eu já conhecia essa história, talvez não em tantos detalhes. Quando se fala em guerra e humanos eu sempre lembro de band of brothers, um dos sobreviventes fala sobre a idade dos “participantes” das batalhas, e diz que muitos tinham interesses em comum e provavelmente seriam amigos se não fosse a guerra.

  • http://www.facebook.com/people/Felipe-Castilhos/100000911398306 Felipe Castilhos

    Mesmo concordando com muita coisa, não acredito que esse texto esteja 100% correto.

    A maioria das pessoas acha que soldados (leia-se praças) são seres dotados de baixa capacidade de pensamento próprio, que só sabem seguir ordens e lutam guerras sem sentido mesmo sem entender.

    Ledo engano.

    Soldados são seres humanos e, como tal, são tão inteligentes quanto qualquer outra pessoa. A diferença está justamente nos gostos.
    Vou explicar com exemplos: vou puxar desde a escola primária, onde já podemos notar as aptidões das pessoas conforme suas preferências. Alguns demonstram facilidade pras áreas exatas e a chance de se tornarem engenheiros, físicos e matemáticos são grandes. Outros que têm dificuldade nessas áreas se sobressaem nas humanas e também terão um ótimo futuro! Outros ainda podem seguir o esporte, saúde e centenas de outras possibilidades, e é exatamente numa dessas que conseguimos chegar nos militares.

    Antigamente (bem antigamente) militares eram treinados desde a infância. Felizmente isso passou e hoje na grande maioria dos países do mundo militares iniciam a carreira depois da maioridade. Até então são civis, jogam bola em campos de terra, têm amigos, família, namorada, enfim, fazem qualquer coisa que outras pessoas fazem, e justamente por ter contato com ambas as visões (civil e militar) conseguem ter um ponto de vista mais objetivo e melhor sobre o que são os conflitos.

    Puxando o gancho do texto e o que expliquei, posso começar a traçar um perfil dessas pessoas:
    - Militares são aquele tipo que gosta de guerra tanto quanto vikings gostavam de batalhar, e justamente por isso optam pela vida regrada da caserna.
    - Militares sentem prazer (e orgulho) em carregar uma arma e atirar, e sabem que o outro lado também tem militares treinados, e se sujeitam a levar algum tiro e morrer (ou pior) pelo seu país, amigos, família, namorada, ideologia… E não porque algum superior idiota (políticos inclusos) acordou um dia e pensou que seria legal invadir outro território (salvo algumas exceções óbvias que duram até hoje).
    - Militares abrem mão de coisas supérfluas e aceitam passar por situações bastante rigorosas para ter maior chance de voltar das batalhas.
    - Militares sabem, aliás, que independente do resultado de qualquer batalha, se puderem voltar pra casa e reencontrarem seus amigos, família e mulher bem sentirão uma alegria e orgulho maior que qualquer outro na vida.
    - Militares lutam SABENDO que um conflito é idiota (visto os alemães que o texto do Vinícius fala) e sabem quando ignorar ordens por isso, mesmo com o que poderão sofrer por ignorá-las.

    Esses são só alguns pontos desse perfil, mas já podemos notar, pela lógica, o tipo de gente estamos falando: Pessoas determinadas que aceitam ir à luta (por gostarem) mas que sabem deixar a batalha de lado sempre que houver coisa melhor/mais importante (um pouco de conforto e alegria faz parte disso e se torna muito importante sob essas circunstâncias). E exatamente esses são o pessoal descrito pelo Vinícius!

    Pra terminar, cito um vídeo que circulou um tempo atrás nos e-mails por aí de um piloto (não lembro a nacionalidade, provavelmente americano ou britânico) que se recusou a bombardear um veículo suspeito no Iraque (ou Afeganistão, o vídeo não deixava claro) e quando outros soldados em terra pararam o carro descobriram que era apenas uma família… E havia crianças junto! Por pouco não morrem todos devido a um engano de um oficial estúpido…

    OBS: Curiosidade aos mal informados: mesmo com o sistema de alistamento obrigatório do Brasil, a imensa maioria do contingente anual das nossas forças armadas é composta por voluntários!

    Obrigado,
    Felipe de Castilhos – A.K.A. Cabo Castilhos (da reserva, infelizmente)

    • Túlio

      Felipe, gostei do que você adicionou e concordo em parte com o que você falou. Acredito que nos tempos idos de 1910 o serviço militar e a cabeça das pessoas era totalmente diferente.

      No entanto me pergunto: será que depois de 300 mil baixas o exército ainda tinha condições de recrutar apenas os que tinham esta ‘vocação’ para a guerra? A França, por exemplo, tinha uma população pouco menor que 40 milhões de habitantes na época.

      Tenho a impressão de que neste momento eles já estavam mandando a campo todo tipo de gente…

      E, putz, que post foda. Emocionante. Deu vontade de ver o tal Joyeux Noel.

    • http://twitter.com/edegar EDEGAR NEUMANN

      Felipe,
      então você discorda da afirmação de que muitos soldados foram enviados pra guerras sem quererem/estarem preparados/entenderem?
      Explique melhor este “Antigamente (bem antigamente) militares eram treinados desde a infância.” Quanto antigamente é isso?
      Nas 2 grandes guerras, muitos foram obrigados a ir pro front, muitos foram mais por medo (do inimigo invadir/matar/espoliar) do que por orgulho; na guerra da independência, escravos foram mandados às batalhas. Isso está nos livros de história, em documentos oficiais e nos depoimentos de sobreviventes.
      Até nas guerras mais recentes às vezes ouço depoimentos de militares que declaram que haviam se alistado sem nunca imaginar/desejar ir para a guerra propriamente dita. Qual a mentalidade destes, não faço ideia, mas é fato.
      Explique melhor, que provavelmente não entendi seu ponto de vista.

  • http://www.facebook.com/people/Rafael-Ucha/736168852 Rafael Ucha

    Pessoal,
    Estou ajudando um amigo a realizar uma pesquisa com HOMENS, os selecionados receberão um vale-presente de R$20 da Saraiva.
    Por favor, respondam ao questionário para participar: http://svy.mk/e8n8xY
    Muito obrigado!

    • http://www.hynd.com.br/ Jorge Maluf

      Olha o flood! XD

  • http://twitter.com/_marloncg marlon c g

    Otimo post!
    Existe um filme muito bom, que conta um pouco dessa historia: http://www.imdb.com/title/tt0424205/

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Felipe, eu confesso que não compartilho essa sua empolgação com a caserna e lembro que na época que eu tive que comparecer para o alistamento eu tinha de medo não ser dispensado e atrasar a faculdade por causa do serviço militar, mas realmente essa questão dos voluntários deve ser verdade, até hoje eu nunca soube de ninguém que tenha prestado serviço militar contra a própria vontade.

  • Lilla

    Felipe, você mostrou com bastante coerência uma visão que talvez seja correspondente a um grande número de soldados, ou talvez a maioria. O que não desmerece outros percepções. Tenho um amigo que é major reformado ou da reserva (esses termos das Forças Armadas não me são intímos), que serviu como médico durante 2 anos e até hoje presta algum tipo de exame com determinada frequência ao Exército. Em muitas de nossas conversas percebi que ele tem esse perfil de “guerreiro” como descreves acima, gosta de guerras, assiste todos os filmes do tipo, leu inúmeros livros sobre, é um aficcionado pela Segunda Guerra, etc, etc e tem essa ligação forte com família, amigos e cidadania. No entanto, ele tem consciência de que um soldado é treinado para ser um cão de guarda, como ele mesmo costuma dizer, ou cão de ataque. Conta também que as práticas das atividades físicas, bem como, o preparo psicólogico dado pelos oficiais visam a total sujeição da vontade, anulando o pensamento crítico do sujeito. Aliás, tinha um superior dele que sempre falava: “vocês não podem pensar. Vocês tem de fazer. Questionar jamais. Quem pensa são os comandantes.” Se em nossa cultura, reconhecidamente como um povo não-belicoso, o direcionamento das Forças Armadas é assim, imagine como o é em países do hemisfério norte…Acerca dessa dificuldade tão evidente, que é o fato de soldados não cumprirem estritamente ordens expressas e demonstrarem sentimentos (bons) não condizentes com a vontade dos superiores, está a beleza desta história toda. Da mesma forma, existe ou deveria existir uma simpatia profunda pela situação do soldado Bradley Manning que sofre horrores por ter vazado informações ao Wikileaks, dando conta dos inúmeros “erros” de cálculo dos oficiais americanos, inclusive, tais documentos revelariam ainda que estes “erros”, onde alvos civis são atacados e crianças morrem, são “alterados” para que não constem que havia crianças e sim adultos. Tomara que existam mais soldados de vontade férrea e com…bondade, por que não?

    http://www.bradleymanning.org/learn-more/bradley-manning
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Bradley_Manning

    p.s. : é de uma sordidez tamanha o que estão fazendo ao soldado Bradley Manning, um país exige de outros países, respeito aos Direitos Humanos…

  • wayne

    Concordo contigo em praticamente todos os pontos.
    Mas, assim como o Leonardo, também não compartilho dessa empolgação com as forças armadas.
    Mas apenas questiono o seguinte aspecto:

    “Militares lutam SABENDO que um conflito é idiota (visto os alemães que o texto do Vinícius fala) e sabem quando ignorar ordens por isso, mesmo com o que poderão sofrer por ignorá-las.”

    Se o conflito é idiota, não seria melhor evitá-lo ao invés de apenas ignorar certas ordens?

  • Marcos

    Bom texto, Vinicius.

    Esse espisódio do natal nas trincheiras já rendeu um videoclip do Paul McCartney e um filme europeu de nome Joyeux Noël, de 2005. Recebeu alguns prêmios em festivais e tem cotação no IMDb de 7,7.

    Respondendo ao Lilla, sim o soldado é treinado pra fazer sem questionamentos. No começo do século, contudo, os valores eram outros mesmo para aqueles na condição de soldados. Eric Hobsbawn no seu livro Era dos Extremos comenta que o fim do cavalheirismo, das gentilezas e maneirismos se deu por conta da I GG. A França perdeu tantos soldados e o trauma foi tão grande que não fez nenhuma resistência à invasão alemã na II GG uma vez que driblaram a linha Maginot. Por certo as francesas decretaram que não se perderiam mais homens por uma bobagem…

    Com a Blitzkrieg alemã surge o soldado que conhecemos, ou de que seu major chama de cão de guerra e o cenário de um rachão entre soldados adversários no front hoje é completamente inconcebível.

  • http://www.facebook.com/people/Lucas-Barbalho/100000256329537 Lucas Barbalho

    Essa história é muito boa. Aliás o filme Feliz Natal, que trata desse tema, é sensacional, vale a pena assistir!

  • http://www.facebook.com/BlackFelipe Luiz Felipe Rodrigues Rosa

    Cara acabei de sair do Exército ontem ( 31/03/11) para poder estudar. Fazia parte de uma tropa de elite militar os paraquedistas ( os que atuaram no a Alemão) que só aceita voluntários.. Estive em batalha, o alemão no caso, não em uma guerra. A emoção de dispersar vagabundos é muito boa, da uma adrenalina do c*.

    – Militares são aquele tipo que gosta de guerra tanto quanto vikings gostavam de batalhar, e justamente por isso optam pela vida regrada da caserna.

    (Não acredito nisso. São realmente poucas as parcelas de militares sejam oficiais ou praças que tem esse tipo de pensamento. A grande parte que tem esse tipo de pensamento são os soldados. Isso eu posso afirmar)

    - Militares sentem prazer (e orgulho) em carregar uma arma e atirar, e sabem que o outro lado também tem militares treinados, e se sujeitam a levar algum tiro e morrer (ou pior) pelo seu país, amigos, família, namorada, ideologia… E não porque algum superior idiota (políticos inclusos) acordou um dia e pensou que seria legal invadir outro território (salvo algumas exceções óbvias que duram até hoje).

    (Realmente é isso. Nós sentimos muito orgulho ser treinados (mal treinados) e poder em certa parte ajudar a pessoas que não tem como se defender.)

    - Militares abrem mão de coisas supérfluas e aceitam passar por situações bastante rigorosas para ter maior chance de voltar das batalhas.

    ( Você acertou quase tudo. Não é pelas batalhas, mas sim por reconhecimento, orgulho e superação)

    - Militares sabem, aliás, que independente do resultado de qualquer batalha, se puderem voltar pra casa e reencontrarem seus amigos, família e mulher bem sentirão uma alegria e orgulho maior que qualquer outro na vida.

    ( Com certeza. Sentir que fez um bem a outras pessoas é foda)

    - Militares lutam SABENDO que um conflito é idiota (visto os alemães que o texto do Vinícius fala) e sabem quando ignorar ordens por isso, mesmo com o que poderão sofrer por ignorá-las.

    (Realmente, ordem tem um limite)

    Mas o que falo da grande realidade dos soldados de hoje em dia é que eles vão não por acharem legal, mas sim pelo dinheiro e pelas oportunidades que a vida de militar pode trazer.

  • sasasa

    Não sei se vcs viram mais tem um filme que fala sobre algo muito interessante(infelizmente nao lembro o nome).A questao é que descobriu-se que os soldados americanos quando estavam frente a frente com os inimigos hesitavam no momento de puxar o gatilho,o mesmo estudo foi feito em outros paìses e descobriu-se o mesmo:matar uma pessoa olhando na cara dela não é tao facil quanto alguns filmes mostram.Esse é um dos motivos pelo qual os atiradores de elite são tão odiados nas guerras e sofrem tanto quando sao pegos…

  • http://www.facebook.com/people/João-Carlos-Vieira/602345580 João Carlos Vieira

    É esse mesmo, filmasso!

  • http://profiles.google.com/softcart Marcelo Teixeira

    A muito tempo atras, na revista manchete, li algo similar. Tinha lá meus 12 anos. E havia uma matéria que dizia o quão ‘romantica’ podia ser uma guerra. Onde se via quem era de fato bravo (valente, cojaroso) ou quem era um falastrão. Tinha umas passagens que citaram isso e outras que se escrevo aqui, vão me linchar e pedir meu atestado de saude mental.

    Bom texto! Gostei muito

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