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O Monte Everest, passo-a-passo, Parte II


Publicado por Mauricio Garcia em 15.1.2008 às 10:40 em Aventura e Viagens, Principal

everest-topo

Continuação da primeira parte da jornada rumo ao topo do Everest. Se você já considerou os primeiros 5000 metros difíceis, não viu nada.

O Acampamento-Base do Everest

Distante onze quilômetros de Lobuje, a 5364 metros, fica o acampamento-base do Everest. O plano normalmente consiste em sitiar a montanha, ao mesmo tempo que se faz a aclimatação gradual e necessária.

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Esse jardim de tomates e ervilhas é na verdade um exemplo de acampamento-base

Os sherpas vão na frente, e levantam um acampamento, depois a expedição vai atrás. Repete-se tal procedimento mais 3 vezes, num total de 4 acampamentos, sendo o quarto situado no colo sul do Everest, a 7924 metros de altitude. Dali se parte para o ataque ao cume.

O caminho é feito sempre em idas e vindas ao acampamento-base, para melhorar a aclimatação. Todo o processo leva em torno de 1 mês.

Porém, entre o acampamento-base e o acampamento 1, está um dos trechos mais temidos pelos alpinistas, a cascata de gelo do Khumbu. Existem quedas d´água neste rio (afinal, você está andando sobre ele, e rio acima), e imensos blocos de gelo do tamanho de edifícios, chamados seracs podem se tornar instáveis e até caírem sobre os alpinistas (houve casos de alpinistas esmagados por seracs que caíram).

khumbu

A subida por Khumbu, observe atentamente a paisagem amigável, cheia de vida

Ainda existem as fendas no glaciar, uma pisada em falso e a pessoa cai num buraco imenso, podendo até morrer. Todo cuidado é pouco. Para piorar, o período de aclimatação exige que você faça a escalada deste glaciar umas 7 vezes (pelo menos foi o que aconteceu na expedição que Krakauer participou).

Uma tenebrosa visão que acomete os alpinistas, relatada por Krakauer, foi um momento em que ele andava e tropeçou em algo envolvido por um plástico cinza. Um pouco embotado pela altitude, levou algum tempo para perceber que aquilo era um cadáver humano.

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Fenda. O bacana é que você cai e já torce um três membros na hora.

Logo após encontrou outro, ou melhor, metade de outro, e pelo estilo de roupas concluiu que estava ali há pelo menos 10 ou 15 anos. Sim, a montanha está cheia de vítimas espalhadas pelo caminho, pois é extremamente difícil o resgate dos corpos.

Uma das primeiras pessoas a morrer no Everest, o inglês George Leigh Mallory, em 1924, só teve seu corpo resgatado 75 anos depois. Outros estão lá até hoje.

Perigos e Males da Atitude

Neste ponto, o ar rarefeito já começa a trazer seus males. Fica praticamente impossível dar mais que 5 passos sem parar para respirar. Indisposição é algo freqüente.

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Destroços de helicóptero no caminho rumo ao topo

Dores de cabeça fortes podem acometer os alpinistas, podendo inclusive evoluir para um estado chamado edema cerebral de altitude elevada, onde a pessoa apresenta desorientação excessiva, nega os sintomas, e quando vê, está inconsciente. Se não for evacuada a tempo para altitudes menores, é morte na certa.

Outra condição que acomete os alpinistas é o edema pulmonar de altitude elevada. Simplesmente os pulmões se encharcam e nem oxigênio resolve. Esta condição matou um sherpa da expedição de Krakauer.

O frio também cobra seu preço. Mesmo que usem roupas adequadas, temperaturas que podem chegar a 70 graus Celsius negativos costumam acometer as extremidades e o nariz. Em certo ponto, é difícil sentir as pontas dos dedos.

Queimaduras pelo gelo podem ocorrer. Um dos guias da expedição de Krakauer já tinha os dedos de um dos pés amputados por gangrena. Após os eventos que levaram à tragédia de 1996, um dos sobreviventes perdeu uma mão e parte do nariz.

Outra condição, não relacionada à altitude e sim à neve é a cegueira temporária. Os raios do sol refletidos na neve atingem a retina com grande intensidade. Se não usarem óculos especiais, ao final do dia, os alpinistas ficam cegos por um tempo.

Mesmo auxiliados por garrafas de oxigênio, o embotamento mental é intenso. Cada passo é um gasto de energia terrível, normalmente se dá um passo e pára-se em busca de fôlego. Este embotamento mental pode custar vidas. Um erro de julgamento, um passo em falso, a falha ao se pendurar nas cordas, e uma queda ao longo dos flancos da montanha podem ser fatais.

Outro perigo imenso é o chamado jet stream, ventos fustigantes que atingem o topo da montanha e levam a sensação térmica lá para baixo. Tempestades também são comuns.

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Avalanche no Everest, o pesadelo de todo alpinista

Associado a isso, chega um momento que o trato gastro-intestinal simplesmente pára de funcionar para que o sangue possa ser levado aos centros mais vitais. Alimentar-se é impossível.

Acima de 8000 metros, entra-se na chamada Zona da Morte. Não existe possibilidade de aclimatação, e se permanecer ali por mais de 48 horas, as funções do organismo se deterioram e a morte é certa.

O Ataque ao cume a Tragédia de 1996

Do acampamento 4 (7924m), se procede o ataque ao cume, ou seja, vencer os 928 m de altitude restantes. Este vai depender de uma série de fatores. O vigor restante à equipe e as condições climáticas são alguns deles.

Os alpinistas normalmente só têm uma chance de fazê-lo. Se o tempo não ajudar, é sábio abortar a missão e retornar de outra feita. Isto pode valer vidas.

Com condições adequadas, a expedição parte em torno da meia-noite para escalar os 928 metros restantes. Num ritmo adequado, chega-se ao cume por volta de meio-dia. Passa-se pouco tempo lá, pois é perigoso iniciar a descida após às 14h.

Naquele dia em 1996, uma conjunção de fatores ocasionou a pior tragédia numa escalada do Everest. Alpinistas inexperientes em expedições comerciais, muitos estavam praticamente sem condições de subir, sendo ajudados por outros (uma perda de tempo muitas vezes fatal), um número grande de expedições causou engarrafamento em certos pontos da escalada. Mas o principal foi a tempestade que se deu no final da tarde, quando alguns ainda desciam.

Alguns, como Krakauer, apresentavam condições melhores e conseguiram chegar ao acampamento 4 à tempo. Outros, como o experiente guia Rob Hall estavam tentando ajudar clientes a chegar ao topo, e no final, perderam tempo precioso e pagaram com suas vidas.

Um dos guias estava tão desorientado que errou o caminho e caiu no flanco da montanha. E finalmente, um grupo que estava atrasado, na escuridão, foi fustigado por uma tempestade de neve no final da descida. Sem conseguir ver um palmo à frente, passaram a noite amontoados na neve, à temperatura de 70 graus Celsius negativos.

Dois integrantes do grupo, quando amanheceu, foram dados como mortos, e ali abandonados. Um deles conseguiu, milagrosamente, se erguer sozinho e voltar ao acampamento (foi este que teve a mão e parte do nariz gangrenados).

sagarmatha

Sagharmatha

Ao mesmo tempo, uma expedição indiana que escalava a outra crista do Everest perdeu 3 de seus membros. Tentou-se uma expedição para resgate de alguns corpos, mas isto significaria perder ainda mais vidas.

Naquele dia, o Everest consumiu doze vidas.

Os sherpas costumam venerar o Everest (Sagharmatha, como o chamam). E o preço que a “divindade” cobra àqueles que desafiam-na, é altíssimo. Por isso hoje entendo a devoção e a dor do povo neozelandês por Sir Hillary.

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Foto do autor

Mauricio Garcia é flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico. Ele é o nosso grande Dr. Health.

Outros artigos escritos por Mauricio Garcia

  • Jamil Gaui
    Gostei muito desta reportagem, vou ler o livro, essas coisas mechem com a alma da gente, gostaria de ser um tremendo aventureiro, com dinheiro suficiente, para fazer uma escalda desta com muita segurança. Parabens a todos que consequiram e os que tentaram.
  • Pedro
    Acabei de ler o livro. Sensacional! Realmente, apesar de todas as medidas de segurança, um planejamento tem que ser cumprido. Ao meu ver foi esse o problema das varias expedições em 1996.
    + Quem sabe um dia eu subo lá...
  • Aurélio
    Muito interessante esse livro!!!!!!!!
  • É um sonho de qualquer aventureiro...
    Mas é algo EXTREMAMENTE necessitado de EXTREMO preparo e estudo...
  • É um sonho de qualquer aventureiro...
    Mas é algo EXTREMAMENTE necessitado de EXTREMO preparo e estudado...
  • Tostines
    É lamentavel a perda de vidas humanas ao desafio da natureza, mas realmente é de impressionar os fatos relatados por quem ja esteve ao menos perto deste gigante de gelo, ouvi relatos sobre os trechos de quem ja percorreu esses caminhos e sobre as dificuldades enfrentadas, felizmente esses sobreviveram, pois não havia condições climaticas para continuar e o que era sonho ficou apenas em sonho mesmo, e o que mais impressionou foi o fato de que mesmo sendo gelo e rocha tudo tinha vida e movimentos......impressionante mesmo
  • Bem... eu não perdi nenhum dedo, mas já estive escrevendo scripts bash às 4 da manhã, em que a gente codifica 5 linhas e tem que parar para refocalizar os olhos...

    ...também dá uma certa adrenalina.

    (Com o tempo também a gente aprende a digitar sempre

    rm /something -rf

    ao invés de

    rm -rf /something

    Especialmente no teclado ABNT2 em que a barra é suicidamente próxima do Enter --- na verdade estou tão escaldado que estou limitando o uso do -f apenas para o momentos em que estou *muito* repousado e lúcido)
  • Guilherme
    Muito bom!!!! Acho que posso imaginar como é dar 5 passos e ter que parar para respirar... tenho sonhos assim periodicamente... bizarro não??
  • Bernardo
    Muito bom! Otímas fotos. Vai uma dica. Além do livro "Ar Rarefeito" escrito por Krakauer existe tb "A Escalada" escrito por um russo que participou da mesma expedição.(Anatoli Boukreev). Vale a pena conferir.

    Sobre escalar o Everest...tenho medo até de roda gigante!!

    Abraço.
  • Rapaz, isso que é saco roxo!
    Literalmente.
    Acho que me arriscaria, mas depois de já ter vivido tudo que tinha direito.
  • Vinícius
    Fala isso em Wellington pra ver o que os neozelandeses fazem contigo rapaz... :D

    Excelente texto!
  • Guilherme Nascimento Valadares
    "Meu conceito de curtir a natureza se chama jardim de inverno.

    Meu conceito de aventura emocionante consiste em fazer pipoca com a panela aberta."

    hahahahahhahahahha

    Dobrei de rir com esse comentário do SaintCahier.
  • Marcão
    Cara, eu já achava, agora eu tenho certeza: os caras (e mulheres) que fazem isso são doentes mentais. A morte é justa e até merecida, pois nos livra da estupidez deles.
    É muito pouco amor à vida arriscar ela sem nenhum motivo válido. Quer ficar famoso? Entra pro BigBrother!! Gosta de frio? Compra um bom arcondicionado, abre o freezer de casa. Gosta de aventura? Vem viver no Rio de Janeiro.
    A matéria é boa, mas os alpinistas são boçais...

    Marcão, Macho-Alpha ++
  • Fernando
    Pô, chegar a 928 do topo do mundo e ter que voltar é dureza.

    "Só o cume interessa".
  • Meu conceito de curtir a natureza se chama jardim de inverno.

    Meu conceito de aventura emocionante consiste em fazer pipoca com a panela aberta.
  • Matheus
    José Roberto disse:

    "[...]Do que o Matheus disse, trocaria a banheiro por uma praia, cheia de curvas volupuosas passando pra lá e pra cá, pra lá e pra cá.[...]"

    Eu respondo:

    Melhor uma dentro da banheira me esperando, do que várias pela praia passeando !

    aIOHAEOIHae.. até rimou!
  • Ainda acho que sou capaz.


    valeu.
  • Insolente
    Que fria!


    Mas, ainda sim, no fundo, no fundo meu lado aventureiro grita de empolgação ao pensar num desafio desses.
  • eu li ontem mas só deu pra comentar hj...
    ótimo texto rapaz!
    só que eu concordo com o matheus!!
    hehehehehe
    questão de acessibilidade né!
    abraço
  • Mauricio parabéns pelo excelente texto!
    Ótima homenagen!!

    Abraço
  • Netinha
    Emocionante o texto, uma homenagem póstuma a Sir. Hillary, a beleza desafiadora do everest e a coragem e determinação dos que o desafiam.
  • Muito bom o texto. Simples, fácil, cativante. Muito bom. Parabéns.

    Em relação a subir... eu acho que ficaria aqui em baixo mesmo. Afinal, odeio frio, e convenhamos, se não vive nenhum animal lá em cima é porque a coisa é brava. Melhor seguir a natureza.

    Do que o Matheus disse, trocaria a banheiro por uma praia, cheia de curvas volupuosas passando pra lá e pra cá, pra lá e pra cá.
  • Bah, loucura total esse everst hein.

    Só os com culhões MESMO conseguem ao menos criar coragem pra se arriscar nele.

    Eu realmente achava que era só chegar e escalar.

    Não me imagino dando 5 passos e ficando cansado. Bah, deve ser o inferno, o inferno gelado!
  • Eu!

    Matheus: esse é o nome do "cara". Disse tudo!
  • Matheus
    Preciso ler também.
    Já está anotado!

    Eu estava lendo e pensando, se eu subiria.
    Talvez eu tentasse, mas só de pensar em uma banheira quentinha, com uma mulher maravilhosa dentro, me chamando pra entrar, tomando uma champagne, eu desistiria...

    Quem mais? rsrs
  • Meus parabéns!
    Excelente texto, preciso ler esse livro tbm...

    Abraço.
  • Faltou 1 "h" em baixo da última foto.

    Muito bom o artigo!
  • Rodrigo Almeida
    Fiquei até sem saber o que dizer agora...
  • Passini
    Simplesmente impressionate.
    Impressionante a dificuldade, beleza,necessidade de vencer os obstáculos, natureza...Fantástico. Ótimo texto. Parabéns!
  • Rodrigo
    Um dia eu subo...
  • Elisandra
    Muito bom Mauricio!!
    Decididamente não farei essa visita maravilhosa jamais.
    E que DEUS abençoe quem o fizer!!!
  • Sensacional... Preciso ler esse livro!
    Texto maravilhoso, esse!
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