Para estufar esse filó/ Como eu sonhei/ Só/ Se eu fosse o Rei/ Para tirar efeito igual/ Ao jogador/ Qual/ Compositor/ Para aplicar uma firula exata/ Que pintor/ Para emplacar em que pinacoteca, nega/ Pintura mais fundamental/ Que um chute a gol/ Com precisão
De flecha e folha seca.
* Música popular brasileira sobre futebol
O fluminense roxo (quer dizer, tricolor) Chico Buarque é síntese de dois dos maiores talentos brasileiros, música e futebol. Provavelmente o jogador bissexto não chegue aos pés do compositor, ou sei lá, o compositor pode estar cheio de fazer música e prefira jogar, mas isso só ele pode saber.
Cantando ou jogando bola?
A brincadeira aqui é juntar duas paixões, música e futebol, mas sem endeusar muito. Há músicas maravilhosas, mas também uns abacaxis azedos dignos de um jogo entre Juventude e Figueirense na galeria do melhor e o pior da música brasileira sobre futebol, MPBF.
Até onde vai o parco conhecimento, a primeira música a relacionar os temas é “1X0”, que Pixinguinha, o gênio que Vinicius de Moraes chamava de Santo, fez a música junto com Benedito Lacerda por conta da vitória do Brasil sobre o Uruguai no primeiro sul-americano da história, em 1919, no qual vencemos com gol de Arthur Friedenreich, considerado o primeiro craque do futebol brasileiro.
Para contrabalançar, é bom lembrar músicas da segunda divisão, feias como algumas defesas por aí. Quem não se lembra do clássico da ditadura, “Pra Frente Brasil”, composição de um tal Miguel Gustavo (?):
“Noventa milhões em ação / Pra frente Brasil, no meu coração / Todos juntos, vamos, pra frente Brasil / Salve a seleção!!!”.
A seleção era a de 1970, que muita gente boa garante ser a melhor de todos os tempos. A música, bem, é digna do gosto da ditadura do Brasil, aquela do ame-o ou deixe-o, de triste memória.
Para voltar a algo digno do meio de campo da seleção de 1982, com Falcão, Cerezzo, Sócrates e Zico, vale o “Ponta De Lança Africano (Umbabarauma)”, de Jorge Ben Jor, por acaso um dos compositores prediletos do Galinho de Quintino. “Umbabarauma, quero ver você jogar / Umbabarauma, quero ver você marcar / A galera quer sorrir / A galera quer cantar / A galera tá feliz / Ela quer comemorar / Umbabarauma, Umbabarauma, Umbabarauma, / quero ver você jogar”.
Esse sabe animar uma torcida
Jorge deve ser o recordista de músicas de futebol, só de cabeça dá para citar “Fio Maravilha”, que depois de desavenças com o jogador que dava nome à música virou “Filho Maravilha”. Outra é “Camisa 10 da Gávea”, sobre o Zico, sem contar “Zagueiro”: “Arrepia, zagueiro / Zagueiro / Limpa a área, zagueiro / Zagueiro / Sai jogando, zagueiro / Zagueiro / Ele é um zagueiro / É o anjo da guarda da defesa / Mas para ser um bom zagueiro / Não pode ser muito sentimental…”. E tem muito mais.
Na várzea da música, dá para destacar as aparições do maior jogador de futebol do planeta. Pelé, que a todos encantou nos campos, nas tentativas de compor, tocar violão e cantar, não foi tão feliz assim… Quem já o ouviu cantando com Elis Regina na música “Vexamão”, sabe do que se está falando.
Essa não adianta pôr a letra, só ouvindo. A música faz parte de um compacto simples gravado pelo Rei e pela Pimentinha em 1969, relançado agora num CD, Elis Regina, 20 anos de Saudade. O destaque é só pela curiosidade.
Para encerrar, e dá para continuar com mais dezenas de músicas num outro momento, vale uma rixa curiosa entre compositores. João Bosco e Aldir Blanc jogam no time titular de qualquer seleção da MPB e por muitos anos compuseram juntos, com uma pequena sutileza. Um, Aldir, é vascaíno. João, flamenguista. A solução foi salomônica.
Pra quem ainda não se lembra, o jogador da música do Jorge Ben veio do time dessa mocinha aí
No disco Galos de Briga, um dos melhores da dupla, na música “Gol Anulado”, os versos provêm de São Januário: “Quando você gritou ‘mengo’ / no segundo gol do Zico / tirei sem pensar o cinto / e bati até cansar…”. No outro trecho, que passaria pelo crivo da Lei Maria da Penha: “Eu aprendi que a alegria / de quem está apaixonado / é como a falsa euforia / de um gol anulado”.
O lado rubro-negro vem em Incompatibilidade de Gênios: “Dotô, / jogava o Flamengo, eu queria escutar. / Chegou, / Mudou de estação, começou a cantar. / Tem mais, / Um cisco no olho, ela em vez de assoprar, / Sem dó, / Falou que por ela eu podia cegar”. Composição genial para quem quer uma aula sobre relacionamentos e futebol. Mas essa fica para outra ocasião.
É isso, aguardem os próximos capítulos. Quer dizer, as próximas partidas.
Escrito por Frédi Vasconcelos, com colaboração de Maurício Ayer, ambos são integrantes da equipe do Futepoca, Melhor Blog Esportivo de 2007.
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