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O mapa dos alambiques de cachaça

Felipe Jannuzzi

por
em às | Artigos e ensaios, Bebida, Cultura e arte


Ainda nos meus anos de faculdade, sentado em uma mesa de bar com amigos, pensei: não seria legal fazer uma pesquisa sobre o destilado brasileiro de cana-de-açúcar, a nossa cachaça?Naquela época, o objetivo era fazer um longa sobre a bebida, mas como esses papos de boteco acabam sendo esquecidos, achei que a ideia duraria no máximo até a saideira.

Uma das motivações para pesquisar e documentar a cachaça era justamente conhecer as histórias daquelas inúmeras garrafas nas prateleiras empoeiradas, vindas de todo Brasil e repletas de rótulos hilários, tais como “Amansa Corno”, “Na Bunda”, “Leite da Mulher Amada” e “Balanga Bicha”.

A graça acaba com a dor de cabeça no dia seguinte...

A graça acaba com a dor de cabeça no dia seguinte...

Apesar disso, no Brasil, nada mais comum do que desvalorizar e desconhecer cachaça. O bêbado pode até ter enchido a cara de cerveja, mas vão apontar pra ele e dizer: “Lá vai o cachaceiro”. Pior, as versões ditas “mais chiques” do nosso drinque nacional por excelência, a caipirinha, sempre incluem elementos gringos, como vodca, rum e até mesmo saquê, que nem destilado é.

Um detalhe interessante: a cachaça é das poucas bebidas alcoólicas que não envelhecem apenas em carvalho. Madeiras nacionais como o bálsamo, umburana, jequitibá, ipê, tapinhoã e várias outras são utilizadas para o envelhecimento ou armazenamento da bebida. Cada madeira concede uma cor, um aroma e um sabor característico. O potencial gastronômico dessa particularidade é imenso: imaginem as possibilidades de harmonização da bebida com ingredientes e pratos da cozinha brasileira. Afinal, tem coisa melhor e mais brasileira do que uma boa cachaça acompanhando uma feijoada?

Mas, por falta de informação, o destilado brasileiro ainda é tido como um produto menor, com poucas qualidades sensoriais, uma bebida de “pinguço” e isso nos faz deixá-lo ali, paradinho nas prateleiras, mesmo com tantos causos pra nos contar e com tanto sabor pra no dar. Esses preconceitos não são recentes e fazem parte mesmo da história da bebida.

Os historiadores dizem que a primeira cachaça foi destilada por volta de 1532 em São Vicente, onde surgiram os primeiros engenhos de açúcar no Brasil. Há algumas versões sobre a sua origem, uma delas conta que o destilado teria surgido quando um escravo, que trabalhava no engenho, experimentou a “cagaça” – um caldo esverdeado e escuro que se forma durante a fervura do caldo da cana. O processo de destilação da “cagaça” acabou dando origem à cachaça.

A bebida teve sua fabricação aprimorada ao longo dos anos, atraindo vários consumidores e passando a representar uma importante atividade econômica na colônia. Com isso, a bagaceira e os vinhos importados de Portugal apresentaram uma brava redução de consumo. Preocupados com o sucesso da aguardente brasileira, os portugueses, através de uma Carta Real de 13 de setembro de 1649, proibiram a fabricação e a venda da cachaça em todo o país. Hoje, todo o dia 13 de setembro se comemora o “Dia Nacional da Cachaça” como uma forma de relembrarmos os tempos de um Brasil colonial, quando a cachaça era símbolo de resistência contra a Coroa portuguesa.

Os Inconfidentes Mineiros tomavam cachaça como forma de protesto. Tiradentes teria dito antes de ser enforcado: “Molhem a minha goela com cachaça da terra”

Os Inconfidentes Mineiros tomavam cachaça como forma de protesto. Tiradentes teria dito antes de ser enforcado: “Molhem a minha goela com cachaça da terra”

Por causa dessa e de outras proibições que acompanharam a trajetória da cachaça, o destilado apresenta diversos sinônimos, que ajudavam os produtores e os comerciantes a burlarem a fiscalização. Com certeza, brasileiro que é brasileiro conhece pelo menos uns cinco apelidos para se pedir uma boa cachacinha. Aqui vão os meus: água-que-passarinho-não-bebe, boa pra tudo, caiana, esquenta-corpo, talagada… O dicionário Houaiss registra mais de quinhentas palavras para denominar a cachaça e aqui tem mais alguns. Eta povo criativo!

O mapa da cachaça

Aquele flerte inicial com a história da bebida acabou se concretizando com o site Mapa da cachaça. Junto com outros colaboradores entusiasmados, montamos um site que busca fazer o que o francês faz com o vinho, o escocês com o uísque, o mexicano com a tequila e o russo com a vodca: valorizar um produto tipicamente nacional!

Recentemente, criamos um cadastro colaborativo de alambiques no Guia Mapa da cachaça. Funciona como um wiki, onde qualquer pessoa pode cadastrar, complementar e moderar as informações sobre alambiques de cachaça, como:

  • localização geográfica,
  • curiosidades,
  • detalhes técnicos,
  • imagens de rótulos,
  • história do alambique.

Com essa ação colaborativa queremos continuar o trabalho do folclorista Câmara Cascudo, que em 1968 escreveu o livro Prelúdio da cachaça, onde declara:

“O brasileiro é devoto da cachaça, mas não é cachaceiro.”

Mais do que um simples guia de endereços, o Mapa da cachaça pretende ser um espaço vivo e cheio de cultura, curiosidades e experiências – como os verdadeiros alambiques.

Pesquisas indicam a existência de mais de quatro mil alambiques artesanais. Será que conseguimos visitar todos?

Pesquisas indicam a existência de mais de quatro mil alambiques artesanais. Será que conseguimos visitar todos?

E, quem sabe, entre alambiques e amizades, conhecendo mais nosso país e degustando o sabor de nossa cozinha, a gente até encontre uma resposta para a famosa pergunta: “O que é ser brasileiro?” Até lá, de mesa em mesa e de bar em bar, que o brinde seja feito com cachaça!

Felipe Jannuzzi

Editor do site Mapa da cachaça. Na velhice, talvez sossegue e monte o próprio alambique, mas agora quer viajar para conhecer e divulgar todos os cantos do Brasil.


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  • Dado Teles

    Salinas/MG é o paraíso da marvada. Vi o rótulo da Canarinha acima e deu água na boca!

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Grande texto, Felipe! Prazer publicá-lo no PdH. 

    “Ainda nos meus anos de faculdade, sentado em uma mesa de bar com amigos, pensei: não seria legal fazer uma pesquisa sobre o destilado brasileiro de cana-de-açúcar, a nossa cachaça?”

    Nossa origem também passa por aí, conversas nos bancos da faculdade… ;D

    Abração!

    • Anônimo

      O prazer foi meu! Obrigado pela oportunidade de valorizar ainda mais esse produto nacional. Não vamos deixar morrer esse espirito de bancos de faculdade! :)
      abração

      • Dado Teles

        Valorização da cachaça, é isso que falta. E pra valorizar algo, tem que conhecer.

  • Daniel Paschoal

    Maravilha de texto!

    A cachaça talvez seja o destilado mais menosprezado atualmente. Fruto principalmente do preconceito e desconhecimento acerca da bebida. Mas nessa conta é preciso também incluir o enorme rol de porcarias que são vendidas com a denominação de cachaça.

    Quer maior despropósito do que nós brasileiros pagarmos R$250,00 em uma garrafa de vodka Grey Goose, que por ser super destilada tem quase o supremo sabor de NADA?!?! Mas torcermos o nariz para comprar uma cachaça Anísio Santiago de R$150, que tem um complexo sabor, feita artesanalmente e em pequena quantidade, conhecida como a melhor cachaça feita no mundo.

    Tenho em casa sempre 2 ou 3 variedades de cachaças artesanias e ,entre os destilados, considero a complexidade de sabor da cachaça somente comparável ao uísque. Cada uma conta a história do seu alambique, da sua região, influenciada pelo solo, clima e madeira do envelhecimento. Um gole de cachaça é um pouco de história do Brasil!

    Mas enfim, acredito que o governo precisaria definir e implementar regras rígidas para a bebida ser vendida como cachaça, tal como acontece, por exemplo, na Escócia com seu uísque.

    Para quem quer conhecer mais sobre a cachaça, recomendo uma visita ao Mercado municipal de Belo Horizonte, visitem uma das cachaçarias do local e aproveitem para degustação de algumas variedades. Só um alerta: melhor ir de taxi! Hehehe….

    • Dado Teles

      Daniel, muito desse preconceito se dá por causa das “Caninha 51″ da vida ou aqueles horripilantes exemplares vendidos em embalagens plásticas, no formato “barrilzinho”. Mas aí não entra na categoria Cachaças, mas sim em Venenos.

  • Samyta Nunes

    ADOREI ESSE POST!!!

    Os Inconfidentes Mineiros tomavam cachaça
    como forma de protesto. Tiradentes teria dito antes de ser enforcado:
    “Molhem a minha goela com cachaça da terra”

    ORGULHO DE SER MINEIRA! É por isso que eu sempre respondo quando me perguntam (espantados): “Mas você bebe cachaça???” “Claro, sou de Minas, uai!”

    Bom demais da conta…

  • http://flavors.me/veronicagunther Veronica Gunther

    Eu tinha uma frase pronta que era “eu odeio cachaça”. Meu primeiro porre, o maior de todos até hoje, foi de cachaça. Desde então, nunca mais. Até vcs do turma do Mapa da Cachaça me levarem pro restaurante Mocotó e darem aquela aula sobre a bebida.

    Porra, @felipejannuzzi:disqus  eu AMO beber cachaça lá. Nada além de “muito obrigada” por tirar esse preconceito da minha cabeça.

    Parabéns pelo trabalho de vcs, muito sucesso!

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