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Em 20/1/1983, pouco mais de 26 anos atrás morria no Rio de Janeiro o cidadão Manuel Francisco dos Santos aos 49 anos. Apenas mais um para as estatísticas se não tivesse ele nos proporcionado tantos momentos de alegria e ajudado a catapultar o futebol brasileiro ao seu lugar no topo do mundo. Naquela data perdíamos Mané Garrincha, a Alegria do Povo, o Anjo das pernas tortas. A PdH presta aqui seu tributo, contando um pouco da história deste gênio do futebol.
Garrincha nasceu em 1933 em Pau Grande, distrito da cidade de Magé, no estado do Rio de Janeiro. Tinha 15 irmãos. Seu pai era alcoólatra, problema que mais tarde viria a atingir Mané. O pequeno Manuel nascera com várias alterações esqueléticas: Sua coluna era deformada, sua perna direita era “em tesoura”, curvada para dentro, e sua perna esquerda era curvada para fora e 6 centímetros mais curta. De forma impressionante, nenhuma dessas deformidades impediu que seu imenso talento aflorasse.
O apelido “Garrincha” veio do nome de um passarinho muito comum na região, e também acredita-se que o termo seja utilizado pejorativamente para alcunhar pessoas com algum grau de incapacidade.

Ele era conhecido dos olheiros da época, mas poucos acreditavam na história de “um menino que vivia no meio do mato e tinha as pernas tortas, mas que era impossível de ser marcado, e driblava como um demônio”. Por conta disso e pela sua falta de interesse em jogar profissionalmente Garrincha só começou a jogar futebol para valer no final da adolescência.
O talento de Garrincha chamou a atenção de Arati, um ex-jogador do Botafogo. Após uma breve passagem por um clube de Petrópolis, não se sabe ao certo por intermédio de quem, Garrincha chegava ao Botafogo. Em seu primeiro treino, demonstrou sua imensa habilidade ao passar a bola por entre as pernas de ninguém menos que Nilton Santos, talvez o maior lateral esquerdo da história do futebol brasileiro, já um craque consagrado naquela época. Nilton pediu aos dirigentes que contratassem o garoto.
Quando chegou ao Botafogo, em 1953, Garrincha era casado com Nair, uma namorada de infância, e já era pai. Os dirigentes ao perceberem sua habilidade e sua idade maior que 18 anos vibraram ao poder contratá-lo profissionalmente.
Em 19 de julho de 1953 Garrincha estreou no time profissional do Botafogo marcando 3 gols numa vitória contra o Bonsucesso.
Apesar do surgimento estrondoso, o Brasil dispunha de outros bons jogadores na posição como Julinho. Associado a uma nova mentalidade que priorizava a organização tática, fruto do Maracanazo de 1950, Garrincha ficou de fora da seleção que disputou a Copa de 54. Estreou na seleção em 1955 contra o Chile.
No campeonato carioca de 1957, Garrincha marcou 20 gols em 26 jogos, e carimbou seu passaporte para o Mundial do ano seguinte. Onde o mundo conheceria aquele gênio.
Após uma performance apenas razoável nos primeiros jogos da Copa de 58, contra Áustria e Inglaterra, o Brasil precisava vencer o forte time da União Soviética para se classificar. Foi quando alguns atletas, chefiados por Nilton Santos, reuniram-se com a comissão técnica e impuseram as entradas de três jogadores: Zito, Pelé e Garrincha. O técnico Vicente Feola assente, e muda o time. Era a estréia de Mané e de Pelé em Copas.
No primeiro ataque do Brasil, Garrincha avança pela direita, dribla um soviético e solta um petardo que explode na trave do legendário Yashin, assustando o time soviético. O Brasil, com essa nova formação, vence o jogo e parte para a conquista de seu primeiro mundial.
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Na final contra a Suécia, após o Brasil levar o primeiro gol, duas jogadas de Garrincha deixam Vavá livre para marcar dois gols e virar o jogo. Após, viria a consagração de um moleque de 17 anos chamado Pelé, que ofuscou um pouco o brilho de Garrincha. Porém, 4 anos depois…
Muito se fala sobre Maradona ter ganho sozinho a Copa de 86 para a Argentina, mas podemos dizer que Mané fez o mesmo para o Brasil em 1962. No segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, Pelé se contundiu seriamente e não jogou mais naquele mundial.
Com o Brasil precisando vencer a Espanha no terceiro jogo para se classificar, o resultado era 1 x 1 até os 40 do segundo tempo, Garrincha pegou a bola pela direita, driblou um jogador espanhol e parou. Driblou de novo, cruzou para Amarildo desempatar o jogo e classificar o Brasil.

Em campo, essa dupla dava um show de bola
Nas quartas, contra a Inglaterra, Garrincha acabou com o jogo. Fez o primeiro gol de cabeça, armou a jogada do segundo e fez o terceiro num lindo chute de fora da área. Na semifinal, contra o Chile, fez mais dois gols. Com uma febre alta, Garrincha jogou a final, o Brasil foi campeão e ele foi eleito o melhor jogador do torneio.
Ainda em 1962, Garrincha queixou-se de fortes dores no joelho aos médicos do Botafogo e foi levado para exames. O diagnóstico foi brutal: se não parasse de jogar por 3 meses estaria inutilizado para o futebol. O Botafogo tinha excursões agendadas que precisavam de sua presença, sob pena de perder 50% do faturamento, e assim, adiaram a cirurgia e precipitaram o fim de sua carreira.
Após 1963, quando Garrincha foi operado dos meniscos, começou a passar longos períodos em inatividade. Sua relação com a diretoria foi se desgastando, foi apelidado de “come-dorme”, recusava-se a excursionar por não ser mais titular e no próprio boletim do clube, era chamado de moleque.
Mesmo assim, ainda disputou a Copa de 66 pelo Brasil. Marcou seu último gol contra a Bulgária, na estréia. Seu último jogo foi contra a Hungria, quando o Brasil perdeu por 3 x 1. Aquela foi a única derrota do Brasil com Garrincha em campo.
Começou então uma peregrinação por diversos clubes. Jogou no Corinthians, Atlético Júnior (Colômbia), onde recebeu uma vaia tão grande que só pôde jogar uma partida, Flamengo e Olaria. Encerrou a carreira em 1973, num jogo festivo no Maracanã.

O sucesso de Garrincha nos campos contrastava com sua vida pessoal. Ele era alcoólatra e envolveu-se numa série de acidentes automobilísticos. Em especial um em 1969 que matou sua sogra, gerando uma condenação a 2 anos de prisão, e posterior absolvição.
Em 1965, assumiu um relacionamento com a cantora Elza Soares, com quem se casou numa cerimônia extra-oficial em 1966, deixando mulher e oito filhos. A conservadora sociedade da época foi implacável em críticas. Associado a isso, Garrincha entendia tanto de administrar suas finanças como um aborígene selvagem entende de engenharia mecatrônica. Gastava dinheiro como água. Conta-se que após a vitória em 58 ele voltou para Pau Grande e pagou em dólar todas as dívidas de todos os habitantes de lá. Em meio a brinquedos de suas filhas eram encontrados cheques datados de um ano antes. Assinou inúmeros contratos que lhe foram desvantajosos, criando a lenda que “assinava contratos em branco e ainda agradecia”.
Viveu algum tempo na Itália, sustentado por um patrocínio magro e por Elza, que trabalhava numa rádio local. Jogava num time amador local formado por açougueiros, e sua “carreira” ali terminou numa derrota de 5 x 4. Os passes para os 4 gols foram de Garrincha.
Em 1977, separou-se de Elza após agredi-la numa briga. Afundou no álcool e a cirrose o consumiu. Morreu pobre e esquecido, mas sua cerimônia fúnebre, do Rio até Pau Grande, reuniu milhares de pessoas que prestavam a última homenagem a Mané.
Em sua lápide, no Cemitério Raiz da Serra, em Magé, está a seguinte frase:
“Aqui descansa em paz aquele que foi a Alegria do Povo – Mane Garrincha”
Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.
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