O Festival de Cinema do Completo Acaso

Fabio Bracht

por
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Conheci o austríaco Synes Elischka, 29 anos, por acaso. 

Ele era um tipo meio hipster, perdido — como eu — em um hostel em Lisboa. Nós usávamos os nossos laptops, mas, ao contrário dos outros hóspedes, por acaso não estávamos no Facebook. Ambos estávamos trabalhando. As telas mostravam muitas letras. Por acaso, ele também estava escrevendo.

– Tu também é jornalista, escritor ou algo assim?
– Não, é que eu organizo um festival de cinema e estou preparando uns materiais para ele.

É muito difícil um papo entre dois turistas em um hostel começar de modo melhor que esse (geralmente é uma parada meio sem graça de perguntar “de onde você veio?”, “tá curtindo aqui?”, “já viu muito da cidade?” etc.), então assim que chegou a hora de dar uma parada e ir tomar uma Sagres no bar do hostel, eu quis saber mais sobre o tal festival de cinema do cara.

E foi assim que fui apresentado ao Random Film Fest, o único festival de cinema todo regido pelo acaso.

Onde o acaso te leva. // Foto: Random Film Fest

Para onde vamos?

A primeira coisa que o Synes me contou foi o que me prendeu atenção e me fez querer saber mais: o local onde o festival acontece a cada edição é decidido na Wikipedia.

Mas não é por meio de pesquisa, não. Eles vão clicando em Random Article até caírem na página de um lugar. Vale desde cidades grandes até vilarejos remotos, em qualquer lugar do mundo. “Só não vamos se o lugar tiver menos de 100 habitantes”, segundo ele.

As duas primeiras edições do festival foram em Wiesensteig, Alemanha, e Bór Zapilski, Polônia (foto abaixo). A terceira, a ser realizada este ano, será em Anija, na Estônia, uma vila com apenas 128 habitantes. Eu nunca ouvi falar desses lugares, e provavelmente nem eles antes de decidirem fazer um festival lá.

Um lugar tão bom quanto qualquer outro para a arte. // Foto: Craig Downing

E se cair um lugar do Brasil, como São Paulo ou, sei lá, o município de Serra da Saudade (MG), com menos de 1000 habitantes?, perguntei. Vocês vêm? “Definitivamente!”

Método de escolha de filmes: bolos de chocolate

Não é só a escolha do lugar que é feita por acaso: os filmes a serem exibidos em cada edição também são escolhidos na sorte.

Cada diretor pode inscrever um filme, e em vez de passar pela aprovação de um júri, nós sempre tentamos bolar algum método novo e visual para escolher os filmes por acaso. Neste ano de 2011, nós assamos bolos de chocolate e colocamos os nomes dos 200 filmes inscritos em pedaços de papel, um em cada pedaço. Distribuímos isso nas ruas de Viena, e os 25 últimos pedaços de bolos, os que sobraram porque ninguém quis, traziam os nomes dos 25 filmes que acabaram entrando no festival.

Escolher filmes pode ser gostoso também. // Foto: Random Film Festival

Com isso, o festival acaba mostrando uma variedade grande de tipos de filme. De animações a documentários, de experimentais a artísticos, tanto curtas quanto longas.

As consequências do acaso

A ideia do Random Film Fest é ser quase um manifesto contra a mão de ferro usada pelos júris de festivais de cinema em dizer o que entra e o que não entra. Arte é arte, e, segundo os organizadores, todos os filmes têm igual mérito. Por isso a aleatoriedade é usada.

Mas o fato do festival render boas histórias não deve ser um motivo muito abaixo na lista.

Segundo ele me contou, durante as quase três edições do festival muita coisa inusitada já aconteceu: no primeiro ano, por exemplo, ele e o seu amigo, que ajuda a organizar a coisa, foram para um vilarejo alemão desconhecido. Sem nenhum preparo, apenas com alguns filmes em um notebook, foram atrás de um projetor e lugar para exibir os filmes. Não conseguiram. Sendo assim, resolveram mostrar os filmes para as pessoas individualmente na rua e em suas casas. Um grupo de adolescentes seguiu o tempo todo, querendo ver todos os filmes no laptop deles.

Outra: depois de fazer a segunda edição do festival na Polônia, os caras conversaram com a prefeita do lugar, que tinha uma revelação a fazer. Ela só concordou com a realização da coisa e colaborou tão prestativamente com eles porque, até o início das exibições, realmente acreditou estar sendo enganada por algum tipo um programa de pegadinhas com câmeras escondidas.

Equipe de 2011, fazendo um festival e tomando uma cerveja (o Synes é o brother de verde na esquerda). // Foto: Craig Downing

É de admirar quem leva a vida e os projetos assim, na leveza do acaso. Considerando que naquele mesmo hostel, do outro lado do oceano, eu acabaria conhecendo um cara que mora na minha cidade, no meu prédio e no meu andar, diria que foi uma viagem cheia de acasos interessantes.

Fabio Bracht

Toca guitarra e bateria, respira música, já mochilou pela Europa, conhece todos os memes, idolatra Jack White. Segue sendo um aprendiz de cara legal. [Facebook | Twitter]


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  • http://twitter.com/ronigomes Roni Gomes

    Caramba cara, que maneiro! A ideia é muito boa mesmo!
    Mas eles que bancam tudo? Tem apoio de alguém alguma empresa? Deve ser meio caro fazer isso hein!

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Cara, eu vou te dizer. Nesses tempos de internet é cada vez mais difícil de se surpreender, mas esse festival parece ser uma ideia foda!

  • http://twitter.com/BrisaFeliz Fernanda Magalhães

    “A ideia do Random Film Fest é ser quase um manifesto contra a mão de ferro usada pelos júris de festivais de cinema em dizer o que entra e o que não entra. Arte é arte”

    “Mão de ferro”, o grande vilão dos festivais nacionais.

    Uma pena :(

  • http://www.facebook.com/ormando Ormando Neto

    Meu eterno dilema como realizador audiovisual: A relação de amor e ódio com os festivais de cinema, que ao mesmo tempo que divulgam, segregam. Ao mesmo tempo que incentivam, moldam. A internet está aí, sem custo e sem limites para a distribuição. Mas e os festivais que não aceitam filmes que estão na rede? Ainda pior, aqueles que rejeitam o digital, e, consequentemente, a grande maioria dos vídeos realizados no Brasil e no mundo…

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      Inscreva seus filmes no RFF, Ormando! E torça pra cair num pedaço de bolo pouco atraente. Hahaha

  • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

    Foi de outro mundo, cara. Não sou muito de ficar dando trela pra coincidências, e achando elas mágicas, nem nada, mas, porra. Eu tô lá em Portugal, num hostel qualquer, e encontro um cara que mora na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma rua, no mesmo prédio e no mesmo número (de um bloco diferente) do que eu?!

    Postei no Facebook e até hoje foi a coisa que mais rendeu curtidas que eu já postei por lá. 

  • Gi

    Que demais ..!! 
    Adoro essa leveza que o acaso proporciona, adoro a possibilidade/potencialidade que o acaso representa/pode representar… demais !

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