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Verdades pouco importam quando se busca retratar um mito. Seu legado é maior que sua vida. Neste espírito, Joann Sfar, célebre autor de graphic novels na França, concebeu o longa Gainsbourg – o homem que amava as mulheres, “biografia fantasiosa” do músico fodão Serge Gainsbourg.
“Fodão” nunca foi usado com tanta propriedade. Mesmo sendo um cara tão lindo quanto um joelho, Serge Gainsbourg conquistou as mulheres mais cobiçadas de seu tempo. Na lista estão Brigitte Bardot, Juliette Gréco e Jane Birkin. Apesar dos três nomes, é impossível mensurar quantas outras chegaram ao clímax com a participação (mesmo que indireta) de Gainsbourg: é dele o hino de motel mais famoso, “Je t’aime, moi non plus”.
O filme de Sfar remonta desde a infância de Gainsbourg, quando o menino judeu vivia numa França ocupada por nazistas. Com uma desobediência charmosa demais para sua idade, ele passa de nariz empinado por este período tenebroso da história, afogando-se cada vez mais nas suas fantasias. Mostra-se destemido diante da invasão do exército inimigo, e este destemor será fundamental para a formação de caráter do adulto. De menino desbocado, Gainsbourg passa a ser um homem ousado, talvez até mesmo sem freios.
A falta de limites se mostra na quantidade absurda de cigarro que ele fuma. Nos incontáveis copos de uísque. Nas demasiadas conquistas amorosas. E até mesmo na perversão cotidiana, no desejo de subverter alguns modelos de comportamento vigentes na época. Por exemplo, ele convence a cantora adolescente France Gall a gravar “Les sucettes”, canção que fala sobre chupar pirulito. Sacaram a analogia? Esse Gainsbourg era um puto de marca maior – no bom sentido.

Laetitia Casta interpreta Brigitte Bardot, diva e apenas uma das conquistas de Gainsbourg
No longa de Sfar – e certamente por ele ser do mundo das artes plásticas –, Gainsbourg desenvolve um alter ego malvado que se apresenta em formato de boneco. Alguém a quem culpar por seu comportamento destrutivo e, ainda assim, invejável. Uma maneira de externalizar o demônio que morava dentro dele. Demônio do qual todos nós compartilhamos, em maior ou menor proporção.
A cada maço de Gitane, a cada gole de álcool, a cada mulher conquistada, Gainsbourg se mostra um gênio sem regramento. Nada é meio termo: melhor é tudo ao extremo. E assim o homem se torna mito. Mesmo que tenha a cara de joelho.
É jornalista. Torce para o Marília Atlético Clube. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]
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