O Drama da Fila
Tristeza suprema do torcedor, festa dos rivais. Amargar anos sem título rende troça e muita história de amor ao clube do coração. Mas sempre pode ser pior no ano que vem.
O último campeonato paulista vencido pelo Palmeiras foi em 1996. Um timaço, daqueles de encher os olhos. Em uma competição de pontos corridos, a linha de frente Müller, Rivaldo, Luizão e Djalminha orquestrou os mais de 100 gols marcados pelo elenco.
Depois disso, o Alviverde seria vencedor da Taça Libertadores da América, em 1999. Os mais fanáticos parmeristas falam da Série B do Brasileiro de 2003, mas para mim título são os de verdade, de elite.
E a menos que o atual elenco comandado por Vanderlei Luxemburgo faça uma corrida de recuperação, completar-se-ão nove anos de fila em geral. E 12 de estaduais.
Aos desavisados, um “entre parênteses”
Fila é o termo que se usa para designar o time de futebol que não leva caneco para casa há um certo tempo. Ninguém sabe definir quantos anos é “um certo tempo”, mas a expressão deriva da idéia de estar atrás na disputa, de ficar esperando a vez de se deleitar na glória da conquista, de encher a lata e comemorar, mas nada conseguir.
Dez anos antes desse supertime de 1996, encontrava-me sozinho na sala de casa, aos tenros seis anos. Depois de vencer o rival Corinthians na semi-final, a equipe que tinha Éder Aleixo, Mendonça, e outros jogadores de menos projeção, como Edmar, Edu Manga e Mirandinha, foi derrotada por 1 a 0 na final, no Morumbi. A Inter de Limeira sagrava-se campeã.
Curioso é que fazia outros 10 anos da última conquista verde no estadual, ocorrida em 1976. Fila.
Ali, diante da TV, registrei aquela que seria a minha memória mais remota como torcedor de futebol. Lembro-me de saber que eu era palmeirense, mas não nada parecido em termos de sentir a combinação de tristeza e raiva contra os simpáticos limeirenses.
Dá pra acelerar essa porra de fila? Tô afim de mijar.
A dor de amargar a fila duraria mais sete anos até um time montado pela Parmalat levar o Paulista na prorrogação contra o rival Corinthians. Por mais masoquismo que soe, a derrota foi mais marcante do que a conquista – que só não foi comemorada devidamente, porque eu ainda não bebia aos 13.
A primeira forma de saber que seu time está na fila é quando seus parceiros de time evitam usar o termo. Já os adversários… fazem o inverso.
Então, falemos das filas dos adversários
Em primeiro lugar, do mais inofensivo: a simpática Lusa, que tem como trunfo um meio título paulista de 1973. Meio, porque o árbitro Armando Marques errou nas contas e deu a disputa de pênaltis que decidia o torneio por encerrada antes da hora.
Em vez de disputar nova partida ou terminar as cobranças que faltavam, os cartolas aceitaram a sugestão salomônica de José Ermírio de Morais (pai do Antonio), então cartola rubro-verde na Federação Paulista, de dividir o alvo da cobiça pela metade com o outro finalista, o Santos.
Seguimos por recordes de duração. O Corinthians tem a mais bem documentada fila do futebol brasileiro. O sofrimento dos alvinegros ao serem rebaixados para a segundona em 2007 não é nada com o que é pintado. Do título do quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954, até 1977, nenhuma nova taça foi catalogada na Sala de Troféus do Parque São Jorge. Felizes 23 anos para os rivais.
Rá! Furei a fila.
O Santos ficou menos tempo: 18 anos entre o Paulista de 1984 ao Brasileiro de Robinho, Diego e cia de 2002. O São Paulo, cantado com louros do Olimpo pela imprensa, ficou 13 anos sem conquistas relevantes, de 1957 até 1970. Praticamente o precursor das filas modernas.
Muito, mas muito mais dramático é a situação do América do Rio de Janeiro. Detentor de sete estaduais, o clube vermelho, time do coração do baixinho Romário, tinha Quarentinha quando conquistou o campeonato pela última vez, em 1960. Na temporada atual, regularidade: seis jogos, seis empates.
E dá-lhe fila.
Anselmo Massad é palmeirense, jornalista, e um dos autores do Futepoca.
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