Nua, eu abro a porta

Clarisse Colombo

por
em às | Crônicas e contos, Ladies Room, PdH Shots


Ela gosta de ouvir anos 80. Músicas que nasceram junto com ela e a acolhem em momentos não tão bons. Prefere suas unhas pintadas de vermelho, lembrando a primeira vez em que as pintou dessa cor e sua mãe disse:

– Parece mão de puta.

Talvez isso, de certa forma, explique sua curiosidade, sua vontade de ser garota de programa por um dia. Talvez.

Seus leves TOCs são coisas de alguém que associa detalhes a algo que dará muito certo, tal qual superstições. Nunca prende o cabelo e sempre se deita ao lado direito do parceiro.

"Vou bater na sua porta de noite completamente nua."

Naquela sexta-feira, Alice saiu de seu trabalho às oito. Era uma noite quente de março e o calor aumentava no asfalto, onde Alice estava havia um bom tempo. Cheiro de escapamento se misturava ao seu perfume delicado. Era uma cidade podre com uma bela mulher. Uma luz neon explodia no seu rosto, mas não era por isso que o carinha no carro ao lado a encarava. Ela sentia os olhos famintos daquele homem. Apenas fingia retocar o batom esperando o fluxo rodar e cantarolava a música do rádio.

– Olho a cidade ao redor e nada me interessa. Eu finjo ter calma. A solidão me apressa…

Esqueceu a letra e, logo em seguida, retomou.

– Vou bater na sua porta de noite completamente nua.

“Completamente nua.” Alice fingia prestar atenção nas sinaleiras, na marcha, nas curvas… seguia automaticamente seu rumo de casa e pensava naquilo. Na nudez. Em pele. No corpo livre. Sentiu algo pulsar lá embaixo. Naquele momento, nada mais enchia seus olhos e ninguém mais despertava sua vontade, não da mulher bater à porta, mas de abri-la estando nua.

Chegou em casa como todos os outros dias: sem flores, sem dores, sem amores. Cortou corações de frango – e seu dedo no caminho – e os levou ao fogo. Abriu uma cerveja. Colocou Nina Simone na vitrola.

– It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me. And I’m feeling good…


Link Soundcloud | “Feeling Good”, por Nina Simone

Comeu os corações, bebeu a cerveja, e em momento nenhum livrou a mente de pensar nos homens com quem se relacionara. Pensou também na própria sexualidade. Percebeu que dos muitos machos com quem havia dormido, poucos a fizeram ter vontade de recebê-los em casa. Ainda mais recebê-los nua.

Poucos seriam dignos de vê-la abrir de porta sem roupas, aquele metro e setenta e nove de mulher e salto alto. Seus cabelos lisos tapariam um dos seios. O outro estaria à mostra, com seu mamilo pequenino, róseo e por toda vida enrijecido.

Calcinhas na gaveta

Alice teve três namoros sérios, mas assusta-se com o número de homens com quem já trepou. Mora sozinha e está bem assim, convivendo consigo mesma. Sabe receber pessoas como ninguém. Se for macho e despertar seu tesão, ela não faz muitos rodeios para o convite até sua cama.

Às vezes, saía à caça.

Numa fase de sua vida, Alice deixava suas calcinhas na gaveta e saía assim, apenas com um vestido no comprimento de um palmo depois da virilha. Se estava com vontade, com aquele desejo despudorado, pegava na mão do cara e a levava até sua boceta para que pudesse senti-la lisa, pulsando e intimando-o. Não lhe importava se alguém visse isso. Há coisas muito mais descaradas por aí e sem o mínimo charme.

Já aconteceu de sair com alguém sem a menor intenção de transar. Apenas para beijar, beber um pouco e jogar papo fora. Só que ao se despedir, ainda no carro, lembrava que estava sem calcinha. Em meio aos beijos, não hesitava e acabava dando.

As janelas estão todas abertas e Alice está nua.

Hoje em dia, prefere um convite menos audacioso. Quer algo verdadeiro. Alguém que mereça o seu abrir de porta sem roupas. Depois abraçá-lo com ardor, passando o seu calor pelo tecido da camisa, roçando seu pescoço no nariz dele como quem diz: “Esse sempre será o meu perfume”. O beijo na boca poderá esperar: será hora de torturar seu homem com palavras sujas.

Para Alice, nudez é a verdade mais crua.

Alice sorri macio com aquela boca que destaca o lábio inferior. Volta à realidade de Nina Simone e cerveja. Levanta-se do sofá – já nua e suando pelo calor da cidade infernal e dos pensamentos igualmente quentes. Ruma à cozinha e lava o prato e os talheres, preocupando-se em não descascar seu esmalte vermelho. As janelas estão todas abertas. Avista um vizinho a mirá-la. Ela não se incomoda.

Neste momento, a campainha toca.

Clarisse Colombo

Jornalista. Geralmente escreve por insights noturnos e jura que seus contos são totalmente fictícios.


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  • Eduardo Amuri

    Bom, esqueçam o que eu escrevi sobre turmas no shot anterior e tentem fazer parte do grupinho da Alice. Ou da Clarisse, não sei.

    • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

      hahaha Muito bom. Esse diálogo entre textos é sempre hilário.

  • http://www.facebook.com/cristianosvieira Cristiano Vieira

    Vi a Clarisse, ou a Alice, ou as Marias, Joanas fazendo loucuras. Batendo em minha porta. Mas no fim, texto findado meu coração palpitou e só quis estar com minha Preta em meus braços. Ah, textos PdH, melhor que alucinações proibidas!

  • Paulo Rubira

    eu adoro contos…e quando vejo alguém escrevendo me sinto como se algumas frases fossem minhas…. e realmente tens uma facilidade em transparecer o que aquela garota sentee na vida dela… é isso que da a beleza e a emoção de quem lê !!! parabénss!!!

  • Jão

    O texto é só mais um rostinho bonito falando sobre sexo e, seria inútil, se eu não gostasse disso tudo!

  • Felipe Zidane

     Intenso, perturbador, provocante, sensibilidade a flor da pele…De 1 a 5, 10 estrelas……cheias de tesao.Adorei o texto linda, tens um talento orgasmico pra isso, rs.

  • http://www.facebook.com/people/Natasha-Moraes-Rego/541893009 Natasha Moraes Rego

    Delicioso texto!

  • Amarante, R.

    Eu só faria questão de dar um banho na Alice, pra tirar o tal “cheiro de escapamento”… Queria ser algum que a fizesse ter vontade de me receber nua, e claro, deita-la logo em uma cama pra disfarçar os tais 1,79m! Muito alta pra mim! ;)
    Adorei o texto, parabéns quexuda!

    • Clarisse Colombo

      Obrigadaaaa, dear, dear!!!!! Besos! :P

  • Narguile

    caraca… texto perfeito… a imaginação, ao som da música, flui facilmente… show de bola

  • http://www.facebook.com/jua.nakutis Juá Nakutis

    Alice bate um bolon!

  • http://twitter.com/RickFerreira Henrique Ferreira

    Esse texto merecia ser capa

  • Daniel-leitessa

    Texto muito bom. Só uma coisa, prefiro a versão de Feeling Good do Muse.

  • Daniel-leitessa

    Texto muito bom. Só uma coisa, prefiro a versão de Feeling Good do Muse.

  • Eduardo Dude

    Clarisse + 10!!!!!

  • http://www.facebook.com/people/Uriel-Souza/100001682067122 Uriel Souza

    Também prefiro a do  Muse. Muito bom o conto.

  • http://www.facebook.com/people/Pedro-Sales/1580832880 Pedro Sales

    Tenho que perguntar, o tamanho do texto foi baseado na duração da música? Porque a sincronia ficou perfeita demais. Parabéns, belo shot

  • http://twitter.com/teteu_linhares Mateus Linhares

    ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS!!!!!
    Sem mais.

  • Daniel Polcaro

    Parece uma vizinha minha…. (ah, as vizinhas, sempre elas!)

  • Ramon Távora

    Clarisse, você tem um dom de fazer palavras sujas se tornarem charmosas. E daí que Alice gosta de sair sem calcinha, ela é dona do 1,79 m de mulher que ela é. nada demais em gostar disso. Ela apenas procura nos lugares errados um homem que mereça ser recebido dessa forma. Um bom começo seria pelo PdH.
    Suspeito que ela deseje ser desafiada, e só. Não achei uma gota de vulgaridade no teu texto, só desejo, e Muito!

    • Clarisse Colombo

      Obrigada, dear Ramon!

  • Anônimo

    PdH, continue a abrir espaço para contos , muito interessante isso ;-)

  • http://twitter.com/Samyta_ Samyta Núñez

    Planos, pra sexta à noite??? Posso pensar em um lendo esse texto, do PdH, hein…rs

  • http://twitter.com/guijermoacunha Guilherme Cunha

    A experiência da mistura de sentidos neste texto foi fantástica…

    Para quem leu o texto sem ouvir a música sugerida, sugiro que releia ouvindo-a.

    Faltou apenas sentir o cheiro da Alice….

    Simplesmente espetacular…

    Que mais textos como este abrilhantem ainda mais este espaço…

  • http://profiles.google.com/andrefd andre deuner

    1 palavra pra descrever: Paudurecencia… quem nao teve é pq tá num ambiente muito improprio MESMO

  • http://naomefazpensar.wordpress.com Felipe Carriço

    Belíssimo texto, Clarisse. Gostei da maneira como você despudorou as palavras, despindo-as pouco a pouco como a Alice e, na verdade, quem está nú quando o texto termina é o seu leitor. E talvez não apenas nú.
    “Com seu mamilo pequenino, róseo e por toda vida enrijecido.” Esta frase me arrebatou, entre outras coisas. Rs!

  • João Vitor Schulte

    Sem palavras para esse conto, ou melhor como disse o amigo ali encima Paudurecencia…
    Gostei muito do jeito de escrever da autora! Parabéns…

  • L1a

    Adorei esse texto…

  • L1a

    Adorei esse texto…

  • @isaacmenezesf

    A jogada da música caiu muito bem, faz você ir longe na histótia ao ponto de se sentir nela e ser o cara certo a chegar naquele momento..

    Meus parabéns!!

  • http://www.facebook.com/people/William-Roger/100002036348383 William Roger

    Humpf… rs… 3ª vez que leio, 3ª forma de imaginar rsrs… 
    Clarice, parabéns pelo texto!!!

  • http://www.facebook.com/fabio.loezer Fabio Loezer

    Bom o texto, e confesso que adorei Feeling Good em outra voz (to acostumado com o Bublé cantando).

  • marilene t. colombo

    não é novidade para mim que a Clarisse, ótima escritora, se transporte a um mundo sensual…ser escritor é fazer parte de diversas pessoas ao mesmo tempo; é saber colocar-se na personalidade do outro…e, que dizer da música, de fundo? maravilhosa, idéia genial..ela de parabéns e o pessoal do Papo de Homem, idem.Qual homem não gostaria de abrir a porta e ver uma Alice?
    Eu, já não posso: fugiriam, mas, bem que anos atrás, em outra encarnação,até que poderia.
    Parabéns- sigam nos presenteando com criatividade. obrigada. marilene.

    • Clarisse Colombo

      <3

    • Clarisse Colombo

      <3

  • Anônimo

    Fantástico conto. Fantástica música. Fantástica interpretação.

    Parabéns, Clarisse.

  • Anônimo

    Fantástico conto. Fantástica música. Fantástica interpretação.

    Parabéns, Clarisse.

  • Anônimo

    Fantástico conto. Fantástica música. Fantástica interpretação.

    Parabéns, Clarisse.

  • Anônimo

    Fantástico conto. Fantástica música. Fantástica interpretação.

    Parabéns, Clarisse.

  • http://www.johnnybecker.com Johncker

    Não vou comentar o conto. Acredito que me falta conhecimento para tal. Mas vou comentar algo que gosto muito, ler contos como este, escrito por mulheres. A forma como mescla o lúdico, o erótico, a inocência, o charme, o clima, a fantasia e a realidade, o céu e o inferno, a menina e a mulher… Tudo isso envolve o leitor de modo a criar a cena instantâneamente na cabeça e viajar pra dentro do texto esperando ver Alice abrir a porta…”neste momento a campainha toca… Alice não pára pra pensar quem possa ser, não se questiona se está apropriada para abrir a porta, não espera que seja boa ou ruim a visita, não espera nada desta noite, não abre a porta, sabe que atrás dela não está quem mereça seu abrir de porta nua, muito menos vestida. Dorme. Sonha. Acorda. Outro dia, a mesma rotina, os mesmos desejos. Mais cerveja. A campainha toca…”

  • http://donluidi.wordpress.com don luidi

    Passa as coordenadas de onde você mora que vou alugar um apê no mesmo prédio rs. Conto muio bem escrito, me inspirou para escrever o meu, hehe

    • Clarisse Colombo

      Que bom, Don! Obrigada e beijos! ;)

  • Murilo Machado

    Parabéns Clarisse, conto fantástico. Simplesmente fantástico. Nunca fui leitor de contos… até conhecer o Papo de Homem. Muitos contos bons, e esse está entre os melhores dos melhores. Sério, pelo menos pra mim.

  • http://www.facebook.com/maria.chaves Guta Almeida Campos Chaves

    Típico personagem a ser encarnado na vida real.

    Parabéns, Clarisse!

    • Clarisse Colombo

      É bem por aí!
      Tks, Guta.

  • Eduarda Chacon

    Eu QUERO isso. Agora. Não quero depois.

    Sensação irritante. De não se ter o que se deseja. Desejar o que não se pode ter… poder ter, mas não como se deseja. Poder desejar, mas não o que se pode ter.

    Quero “o” dedo dentro de mim… na rua. Não qualquer dedo.
    Quero um homem que me dê vontade de abrir a porta nua.
    Quero um amigo que me ouça e que fale comigo.
    Quero aprender a dizer pornografias sem timidez pra ele.
    Quero ser carente e ridícula. E também bem resolvida e assustadora.
    Quero uma pegada forte na minha cintura. Me sentir mulher. Desejada.
    Quero cafuné na minha cabeça… entregue e indefesa.
    Quero barba no meu pescoço… entregue, indefesa e excitada.
    Quero sufocar o grito. Ou não.
    Quero morder. Lamber. Suar.
    Quero fazer amorzinho cafona de leve na manhã.
    Quero deitar na grama de mão dada.
    Quero beijos de tirar o fôlego.

    Quero agora. Não quero depois.
    Ou quero não querer.

  • Marcos Vinícius

    Boníssimo!!! Foda. (daquelas bem boas)

  • bbetina

    gostei muito do texto, da forma como é escrito e se desenrola. mas meu comentário nao é sobre isso, é sobre algo muito sutil, que achei sensacional, que creio que não foi trazido ainda pelos comentários.
    alice, pelo que se entende, já namorou algumas vezes e transou dezenas, centenas (talvez?). ela quer achar alguém que “mereça” vê-la nua; ela quebra, com essa sutileza e beleza, aquele estereótipo de “vadia”, “mulher-pra-ficar-e-não-namorar”: alice dá um tapa na cara do machismo.
    se colocada sua história em outras palavras, tenho certeza que muitas pessoas a classificariam desta forma, como vadia, puta, e afins, sempre no sentido pejorativo. alice até admite que já teve um súbito desejo de ser puta! e como assim, ela agora quer namorar? ela merece namorar? quem a namoraria? meio sem-querer-querendo, o conto conduz o leitor a perceber que nada impede que alice venha a se envolver emocionalmente com alguém, que ela é mulher, livre, sexual…. e que se isso a torna vadia, entao ser vadia nao é algo ruim.

  • Luciano Andrade Junior

    Achei bobo.

    : /

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