No tempo que quem corria era a bola
Estou lendo um livro que faz um inventário do futebol no cinema brasileiro, desde o início do século passado.
As primeiras filmagens são pura e simplesmente de jogos da época, principalmente confrontos com clubes internacionais e de seleções. Mais tarde, já na década de 1930, começaram a ser produzidos os primeiros filmes com enredo envolvendo o futebol – tudo impulsionado pelo bom desempenho do Brasil na Copa de 1938 que, dizem, marcou o começo da histeria e da paixão pelo escrete nacional aqui nessas plagas. E Leônidas da Silva era o dono da bola.
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Pra quem não conhece Leônidas
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Mas, voltando ao livro, a história vai viajando até a presente década, com destaque especial para “Pelé Eterno”, de Aníbal Massaini. Para tanto, o autor do livro conseguiu uma entrevista exclusiva com o próprio Rei do Futebol – que, por sinal, é muito boa. Pelé sentiu-se à vontade para falar do que ele realmente entende: o futebol jogado dentro de campo.
Porque todo mundo reclama que o homem só fala besteira, só que ninguém presta atenção nas bobagens que perguntam pra ele. Quando o assunto é puramente jogar bola, a conversa é em alto nível (como não poderia deixar de ser).
O Rei fala sobre um monte de coisas, porém, há um trecho que me chamou a atenção. É quando ele fala que jogava como um meio-campista mais avançado, artilheiro, ao contrário dos clássicos jogadores da posição, como Didi, Zizinho ou Ademir da Guia. Falando ainda sobre esta região do gramado, Pelé cita Zidane e Sócrates como exemplos de meias que já não existem nem no futebol brasileiro e nem no mundial.
O motivo? Simples: segundo o Rei, esses dois jogadores não corriam atrás da bola; eles faziam a bola correr.
E não é que ele tem razão?
Como é difícil ver um meia “de fato” hoje, com essa característica marcante de fazer a bola correr. É por isso, muitas vezes, que assistimos boas partidas entre clubes bem montados mas, de uma forma ou de outra, fica a impressão de que alguma coisa está truncada, amarrada.
O jogo de contato é o padrão, muita pancadaria e muito congestionamento no meio do campo, com volantes brucutus e meias que não tem um pingo de categoria ou visão de jogo. A bola corre e sempre tem gente correndo atrás dela. Sócrates não fazia isso: a bola passava e ele distribuía para todos os cantos – às vezes, com seu característico toque de calcanhar.
É impressão minha ou tá faltando habilidade? (crédito)
Pois bem, mas como recuperar para o nosso futebol esse tipo de jogador? Será deficiência nas categorias de base? Será influência dos esquemas táticos retranqueiros, de forte marcação? Será que a habilidade, a inteligência e o bom senso de posicionamento são qualidade em extinção no país do futebol? Não sei.
No meu time, por exemplo, não vejo um meia desse tipo, que faz a bola correr, há muitos anos. Raí e Kaká eram jogadores que atuavam mais próximos da área, caindo pelos flancos, no estilo de Pelé e Zico. Acho que o último que distribuía bem, mesmo, foi o Pita, na longínqua década de 1980.
Nos outros times, também fica difícil lembrar. O Rivaldo dos tempos de Palmeiras poderia ser um caso, mas acho que nem tanto quanto o já citado Ademir da Guia. O hoje comentarista Neto, que teve seu auge no Corinthians, até se encaixaria entre aqueles que não corriam atrás da bola (até mesmo porque ele era mais redondo que ela), só que também é um outro estilo.
No Santos, recentemente, tivemos uma passagem brilhante do Zé Roberto que hoje joga na Alemanha. Em algumas partidas, ele fez exatamente – e com maestria – esse fundamental papel de fazer a bola, o time e o jogo correrem. Acho que é o exemplo mais próximo.
Eu sei que os laterais têm vital importância no futebol de hoje, bem como os volantes. Mas identifico como fator principal, nos jogos modorrentos e sem nenhuma criatividade, a falta de um meia habilidoso. Daqueles que esticam uma bola de 50 metros no pé do atacante, daqueles que eram chamados de “gerentes”, pois absolutamente todas as jogadas passavam ou saíam de seus pés.
O cara ficava ali, na região do círculo central, praticamente parado. Só tocando e distribuindo, como um jogador de sinuca. Sócrates fumava, bebia. E jogava como todos nós sonhamos que alguém ainda jogue em nossos times. Até seu irmão Raí afirma que, mesmo tendo ganho menos títulos, o gênio da casa é mesmo o Doutor. Incontestável.
Enquanto sonhamos acordados, relembrando o passado, temos que nos contentar com os Hugo, Diego Souza, Douglas e Molina da vida. Não são ruins, muitos deles já tiveram até algum brilhareco em momentos decisivos. Mas a característica geral desses atletas é algo tão distante daquilo que costumávamos ver há 20 ou 30 anos.
Todo time tinha uma meia estiloso, alguém que fazia o time jogar. Mesmo que não desse um pique sequer durante dos 90 minutos. Mesmo que não se afastasse por nenhum momento da região central do gramado. Mas fazia a bola correr. E botava um sorriso na nossa cara.
Marcos Palhares, 34 anos, é jornalista e integrante do coletivo que faz o Futebol, Política e Cachaça (Futepoca), que está concorrendo ao prêmio de melhor blogue de língua portuguesa no The BOBs. Se você gostou desse texto, clique aqui e saiba como votar no Futepoca, que qualquer um pode acessar para espinafrá-lo. Faça o favor.
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