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Nem toda ruga significa qualidade

Fred Fagundes

por
em às | Artigos e ensaios, PdH Shots


Nossa percepção inicial, ao avaliar a competência de desconhecidos, muitas vezes nos prega peças.

Esperamos por sinais que comprovem a quilometragem avançada. No entanto, a expressão calejada pelos anos pode mascarar a verdadeira face do indivíduo.

O que é uma grande merda.

Nem todo senhor de idade é meticuloso, analista e estrategista. Nem todo jovem é irresponsável, espontâneo e explosivo. Apesar da porcentagem alta que leva a essas características, o perfil varia bastante de acordo com o local e/ou situação. É como se qualquer homem com aparência de mais velho, independente da profissão, transmitisse segurança.

Por exemplo, imagine a cena: você encontra na porta do avião o seguinte piloto. Qual te transmite mais tranquilidade para afivelar o cinto, inclinar a poltrona após o sinal luminoso e acordar só na conexão em Guarulhos?

O jovem e o pai de família. Quem passa mais segurança?

É comum que você escolha o piloto mais velho. Seria ele o mais hábil?

Anos de prática não necessariamente formam um expert. O verdadeiro polimento da habilidade passa pela maneira como conduzimos nosso treinamento. Passa pelo olhar atento, pelo forte senso de auto-crítica e comprometimento feroz em buscar aperfeiçoamento contínuo. É uma postura de vida, que pode muito bem estar presente em moleques sem qualquer ruga ou sinal de idade avançada.

No entanto, muitos desconsideram tal ideia ao valorar ou prestigiar um artista, um profissional ou mesmo um amigo.

Isso abre espaço para enganadores que, sem qualquer passado glorioso, possam se apoiar nos cabelos brancos e anos de currículo para expressar certo tipo de conhecimento ou autoridade.

As figuras públicas costumam utilizar muito dessa artimanha. Não é difícil encontrar políticos que configuram seus “portfolios” encabeçando os anos de atuação. Como certa vez disse o Senador da República Pedro Taques (PDT-MT):

“Experiência é algo bastante relativo. Fernandinho Beira-Mar tem experiência. José Sarney tem experiência. Nicolau dos Santos Neto tinha muita experiência. Esse tipo de experiência eu, novato, não quero”.

A declaração foi na época que o acusavam de falta de política na carreira.

Esse equívoco comum ao avaliar pessoas alcança também críticos formadores de opinião.
Analise certos comentários de ditos especialistas. Ou então de meros comentaristas de trivialidades.

Incrível como alguns atores ganham respeito com o passar do tempo. É como se ao nascer de cada ruga o cara ganhasse horas de aula de teatro. Mickey Rourke, tido como dos maiores canastrões dos anos 90, recebeu indicação ao Oscar. O mesmo vale para Jeff Bridges. É visível a melhora nas atuações. Mas é obvio que os cabelos brancos significam algo em torno de 50% dessa nova imagem.

Ricardo Macchi: o melhor ator do Brasil em 2032.

A importância da aparência calejada não deveria pautar impressões primárias.

Sempre há um cara mais jovem melhor que o gerente orgulhoso por ser da época do curso de datilografia. Sempre há outro, inclusive, que não chegou a usar o Windows 3.11, como eu e tu.

Portanto, não fique contando os dias passados executando seja lá o que for que você faça como experiência adquirida. As rugas da velhice aparecem com facilidade, são inevitáveis; as válidas rugas do real talento e habilidade são o oposto, bem raras.

Lembre-se disso ao observar as rugas, costeletas, cabelos brancos e demais “sinais de qualidade” nos experts soltos mundo afora, velho.

Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


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  • Luciana_Marques

    Sinceramente, eu compartilho (a priori) da mesma opinião. É muito difícil lidar com essa falsa sabedoria aplicada ao quesito tempo. Isso vale tanto dentro das profissões quanto dentro das relações pessoais.

    Todavia, eu sorvo cada palavra daqueles cujas rugas destilam experiência, sabedoria e crescimento. Porque quando encontramos preciosidades assim, descobrimos que o tempo só as melhora.

    Enfim, na minha percepção, o tempo só acura o que, mesmo de forma embrionária, já existe.

    (Curiosamente, é interessante observar como a defesa desse artigo vai ao encontro de uma das características padronizadas da geração Y)

  • Angelo

    Gostei do texto,concordei com várias coisas,mas você meio que desprezou a experiência de trabalho que só se consegue na prática,após anos e anos enfrentando situações adversas,e isso te dá uma maior tranquilidade pra enfrentar tais situações futuramente.

    Essa experiência de que falo não dá pra ganhar na teoria,só na prática,enfrentando a vida mesmo.

    Exemplo disso é o futebol: mesmo com todo o trabalho psicológico encima dos jogadores,os novatos costumam se desesperar ao enfrentar uma La Bombonera lotada,enquanto que os veteranos,acostumados a situações de extrema pressão,demonstram maior tranquilidade.

    Claro que existe exceções,como mostrou Romarinho no último jogo do Corinthians…

    • Gustavo Esquive

      Este é o problema, Ângelo; será que muitas vezes não fechamos os olhos para os vários “Romarinhos” que existem em todas as profissões? Aproveitando o gancho de sua metáfora futebolística, o próprio Tite, num primeiro momento, optou pela experiência, preterindo o jovem em boa fase pelo veterano em forma física decadente (Liedson). Resumo da peleja, o Liedson em quase 60 minutos de bola rolando nada fez, enquanto o menino em um toque mudou a história do jogo. Experiência pode ser importante, mas até que ponto? Será que talvez não fosse melhor analisarmos neste pacote itens como postura, formação, rapidez de raciocínio, conhecimento, e só depois a experiência? Fica ai o debate!

  • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

    Cara, enfrento isso com quase todos os pacientes. Na parte da relação médico-paciente, TALVEZ faça algum sentido. No resto, na maioria das vezes, não:
    http://www.medscape.com/viewarticle/743312?src=mpnews

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Lucas, não consegui acessar seu link. Pediu user e senha.

      Há outro modo de ler?

      • http://www.facebook.com/people/Lucas-Pedrucci/100001663603171 Lucas Pedrucci

        Nem tinha me ligado que era um artigo interno do MedScape. É de graça mas realmente requer cadastro. Não consegui achar uma versão “compartilhável”.

        É sobre um estudo italiano que comparou o tratamento de doenças cardiovasculares entre médicos novos e ‘antigos’. A chamada é “Younger Doctors Treat Cardiovascular Disease Better.”

        Comentário do autor do estudo original (Giuliano Tocci):
        “We found that younger doctors followed best practice more than older doctors. Younger doctors were more likely to order diagnostic tests for global cardiovascular risk stratification as advised by guidelines and prescribed more guideline-recommended drugs, such as antiplatelet and glucose- and lipid-lowering agents, whereas older doctors were more likely to recommend lifestyle changes. And patients treated by older doctors had a lower rate of control of major cardiovascular risk factors, such as hypertension, dyslipidemia, and diabetes.”

  • https://www.facebook.com/Andre.R.Tamura André Tamura

    Bem real esse texto. Mas ao mesmo tempo tem uns velhinhos que são fera, eu conheço um dono de uma indústria, deve ter uns 70 anos, o cara é mais jovem que todos os funcionários dele. Em conhecimento e na atitude.

    Certa vez eu ouvi uma das piores frases em um ambiente profissional.Ao enconro do que li no texto.

    “Primeiro trabalhe aqui 8 anos, consiga um cargo e depois tente mudar alguma coisa”

  • Mark

    Gostei do seu texto Fred, mas em diversas carreiras a experiência é muito importante. Vou citar o seu primeiro exemplo, a categoria de pilotos de aeronaves. Por mais que vc se capacite, treine em simuladores, o vôo real terá características próprias. Um simulador carregará somente problemas conhecidos, os inéditos acontecem no ar. Por isso vemos capitães sempre mais velhos. E como essa profissão, existem outras várias em que a experiência é importante. É claro que exceções irão existir, mas não devemos tranformá-las em regras.
    Há, e já usei o MS-DOS e Win 3.11…eita tempo que voa.

  • matheus farage

    A psicologia cognitiva afirma categoricamente que é preciso pelo menos 10 anos de prática constante para que uma uma pessoa se torne expert em uma certa habilidade.

    Concordo com você no sentido de que nem toda ruga sugere uma grande experiência, principalmente no mundo extremamente diferente que vivemos hj, comparada a anos atrás. O que acaba deixando certas habilidades muito maleáveis também.

    Porém, toda grande experiência deixa rugas (simbolica e literalmente falando). Não dá pra simplesmente desprezar isso. Não é pq o cara é velho que ele vai ser o pica, mas se ele mais de não sei quantas mil horas de voo, isso não pode ser considerado irrelevante.

    O tempo, o esforço e a prática deliberada são fatores que auxiliam, e muito, para se tornar um expert.

  • Claudia Jane Maydana

    Confesso…. fiquei sentada em cima do muro ao ler o teu artigo. Porém, como nada é absoluto nessa vida, aceito minha indecisão!

  • http://www.facebook.com/people/Ju-Liano/100001748412921 Ju Liano

    Fantástico! Muitas vezes o olhar e não às rugas é o que realmente entrega e experiência.
    Uma frase de Sêneca expressa bem este sentimento. ” Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos; ele não viveu muito, apenas existiu muito tempo. Julgas que navegou muito aquele que, tendo se afastado do porto foi pego por violenta tempestade e, errante, ficou a mercê dos ventos ao capricho dos furacões, sem, no entanto sair do lugar? Ele não navegou muito, apenas foi muito acossado.”

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Excelente citação de Sêneca, Juliano!

  • http://www.facebook.com/people/Alex-Abreu-de-Paula/100001721717088 Alex Abreu de Paula

    Certa vez disseram-me que canalhas também envelhecem…

  • Gustavo Esquive

    Passei por uma situação engraçada relacionada à experiência: aos 23 anos abri o meu escritório de advocacia; passei a cultivar minha barba por saber que poucas pessoas teriam a confiança de entregar seus casos nas mãos de um “moleque” de 23 anos. Uma das primeiras clientes que atendi veio me procurar por conta de problemas com seu filho mais velho; exposto o seu caso, ela vira e me diz: “ah Doutor, mas dá pra entender né? Ele é meio cabeça fraca, mas tem só 26 anos, é normal errar nessa época da vida.”. Primeiro minha vontade era dizer pra ela que sim, é normal errar em qualquer época da vida, mas com 26 anos o mínimo que podemos esperar é que você não seja tão “distraído”, como ela disse, e que principalmente, você arque com seus erros e não corra para a barra da saia da mamãe; depois deste pensamento, fiquei matutando: como ela confiaria em mim para resolver os problemas do filho dela, se ela achava que alguém com três anos a mais de “vivência” do que eu podia ser dar ao luxo de fazer um monte de merda? Enfim, ela nunca perguntou a minha idade, consegui resolver os problemas do filho dela e até hoje ela é minha cliente, mas duvido muito que me passaria aquela causa se soubesse que na época eu tinha 23 anos.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=1066327634 Dani Stark

    A verdade é que é bem assim mesmo. A gente tende a achar que a pessoa mais velha é a mais experiente. A experiencia se consegue através de anos de prática e estudo. Passo por isso sempre. E, pra minha própria sorte (ou azar) aparento ter menos que os meus 23 anos. Meus alunos sempre estranham o fato de eu ser tão nova.

    Mas como diziam os romanos: ” A barba não faz o filósofo”.

  • adunco

    Vide Mário Gomes, canastra mor da década de 70 e 80, agora dando pinta de maduro e bom ator, e mais importante: calejado por ter superado o incidente da cenoura (diz ele)

  • http://tulejur.wordpress.com/ Cassio Cons

    “Aquele não é o Cigano Igor?”

  • Bruno Ortega

    Exemplos: Caio Ribeiro x Neto – Milton Neves x Thiago Liefert… quem é melhor?

    • Gustavo Esquive

      Puts, disputa acirrada; duro saber quem fala mais besteira.

  • Thais

    Acho que a experiência é muito importante, mas sozinha não serve para muita coisa… É muito preconceito achar que só pq alguém é mais velho vai saber lidar melhor com as situações ou tem mais conhecimento.
    A questão é: o que a pessoa fez com toda a experiência acumulada durante os anos? Como alguém comentou antes, só se pode melhorar o que já existe. Se a pessoa é um péssimo profissional, nunca estudou, nunca se dedicou, o fato de ter experiência não vai fazer dele um profissional mais competente que outro recém formado mais dedicado.
    Eu sofro bastante com esse tipo de preconceito no trabalho, não me considero tãooo nova assim (28 anos), mas aparento bem menos e meus colegas são bem mais velhos. No fim, muitas vezes, as pessoas acabam achando que sou estagiária! hehehe Mas depois que me conhecem, muitos preferem trabalhar comigo que com os meus colegas por me considerarem mais dedicada (modéstia parte!).

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