Nada no horizonte do Corinthians
O Corinthians caiu. Tristeza imensurável para milhões que, como eu, engolimos em seco o maior sapo de nossa história no domingo dia 2 de Dezembro de 2007.
Festa para outros. Falou-se em justiça, divina ou histórica.
Fiéis de diferentes comunhões aproveitaram a queda para bradar suas mágoas recentes e antigas contra a maior torcida paulista. Principalmente num ano em que o ventilador da mídia tratou de espalhar a merda que nem mesmo o mais ingênuo dos fanáticos teria podido ignorar: os dirigentes corintianos estavam envolvidos em lavagem de dinheiro do crime internacional, formação de quadrilha etc. Quem não sabia? Faltava a Polícia Federal querer “descobrir”, e quis.
Tem gente falando até que a âncora do brasão só ajuda a afundar
Os torcedores do Timão, abalados com tantos escândalos (pra lá de prenunciados) envolvendo a diretoria do time, o grupo MSI e o mafioso russo Berezovsky, viram estupefatos o time afundar sob o próprio peso.
Não adiantaram os deseperados pedidos de auxílio a São Jorge nem a força dos trabalhos de religiosos como Pai Nilson – que sem dúvida perde terreno também, no setor de apoio espiritual a equipes e atletas em dificuldade, a gente como Robério de Ogum, que este ano subiu com a Lusa. Mas seria injusto atribuir a queda a Nilson, que, assim como os jogadores, fez o que pôde.
Afinal, por que caiu o Corinthians?
Não há dúvida de que o time era uma draga, o que justificaria a piada fácil de que se trata mesmo de um “time de segunda”. O fato é que esse time de segunda começou relativamente bem o campeonato, e venceu adversários entre os mais fortes da temporada, como São Paulo e Santos.
Num ano nivelado por baixo, as únicas coisas certas, ou muito prováveis, desde muitas rodadas, eram a queda do América e a vitória do São Paulo. A má qualidade do futebol não foi nem de longe privilégio do Timão. O campeonato inteiro foi de segunda.
O paredão Felipe, desolado após o apito final do empate contra o Grêmio, que selou a queda do Corinthians
Se tinha méritos para cair, esse mesmo time poderia, um pouco mais bem organizado, e com a garantia do genial Felipe sob as traves, se manter sem maiores sofrimentos.
O que derrubou o Corinthians
A meu ver, foi não ter sido capaz de dar uma resposta real, institucional, à lama em que se meteu na parceria com o MSI e, antes disso, no domínio da família Dualib no clube. Quem se convenceu com o simples afastamento de Dualib? E ainda com a eleição de Andrés Sanchez, parceiro de seu antecessor durante todo esse período?
Imagine-se o que é trabalhar num lugar onde o clima de corrupção impera, onde as pessoas já não sabem o sentido por que estão ali, onde tudo é entremeado de duvidosas transações. Onde parece que a diretoria, em pleno populismo, acoberta com promessas de títulos manobras inconfessáveis.
E não faltaram torcedores para apoiar essas manobras. Quem não se lembra dos gritos de “El, el, el, o Kia é da Fiel”?
Gritos que vinham dos mesmos torcedores que, logo após a rodada final do Brasileirão, invadiram a sede do clube para pedir a saída do presidente Sanchez (os gaviões o teriam cercado e dito que “ele participou da gestão anterior e da corrupção”, segundo o jornal Lance) e de alguns jogadores. Ouvi gente dizer, até mesmo corintianos, que desse jeito não daria pra organizar o time, nessa pressão, que não haveria estabilidade.
Que venha a instabilidade
Com esse tenebroso continuismo, só o que posso desejar é a mais forte instabilidade, até que caiam os que entortam a coluna do Timão.
Mas não me iludo: a torcida, forte em matéria de pressão mas pouco escolada no que se refere ao planejamento e pensamento de longo prazo, parece não ir muito além de exigências conjunturais. Demitir o Vampeta? É pedir o óbvio. E o Iran então??? Nelsinho Baptista?
Sócrates e os bons tempos. Há volta?
Lembro do primeiro jogo do Corinthians que vi no estádio: a final do paulista de 1982, em que a Democracia venceu o São Paulo. Naquela época, em que meus pais se engajavam na luta pelas Diretas, orgulhava-me em ver Casagrande, Sócrates e Vladimir erguer faixas incentivando o voto consciente antes das partidas. O Corinthians de hoje não tem mais nada disso, teria que lavar a boca muitas vezes para entoar a palavra democracia.
O rebaixamento para a Série B do Brasileirão seria uma excelente oportunidade de varrer do clube o que está errado, e recomeçar humildemente um trabalho ético de reconstrução. Nada no horizonte.
Se o futebol pode ser usado como o “ópio do povo”, pelo seu poder de mobilização ele tem também o potencial de se tornar o contrário disso, um território de aprendizado cívico e exercício da democracia.
Mas quando? Onde?
Maurício Ayer é corintiano e maestro do “Coro de Casagrandes” do Futepoca, que acabou de ganhar o prêmio de melhor blog esportivo de 2007.
Maurício Ayer é corintiano e maestro do “Coro de Casagrandes” do Futepoca, que está concorrendo ao prêmio de melhor blog esportivo no Ibest.
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