Logo depois de Rosa Gertrude, comecei a namorar Margarete Bulhões de Alcântara. Que delícia. Que diferença. Pra começar, ela jamais se classificaria de direita porque, sinceramente, não pensava nessas coisas.
O mundo estava perfeito como era, visto lá do alto de seu apartamento em Vila Nova Conceição, quatro carros na garagem, empregada limpinha na senzalinha, tudo ordenado e estratificado, como tem que ser.
Quando comprava um cosmético, Margarete não queria saber quantos coelhinhos tinham sido torturados para fazer seu rímel: queria era se olhar no espelho e ser linda. E conseguia, com honras. Quando comia um sanduíche, Margarete não queria saber se aquela galinha teve uma vida longa e produtiva, feliz e ao ar livre: ela só queria que o seu filé de frango estivesse gostoso. Ah, o mundo era simples ao lado de Margarete.
Caminhava sem culpa enquanto observava as vitrines.
Não acreditava em Deus, mas ia a missa com a mãe, só pra não criar problemas com a família e não arriscar a polpuda mesada que recebia. Sempre disse que aborto era assassinato (“ora, Alex, falem o que quiserem, está se impedindo alguém de existir”) mas, quando ficou grávida do namorado depois de mim, resolveu tudo numa clínica de Atibaia e ainda continuou tão contra o aborto quanto antes.
Sua lógica era impecável: “Só porque eu baixei um filme pirata, vou ter que ser a favor do roubo? Só porque cometi um crime ele deixou de ser moralmente errado?” E eu, ia responder o quê?
Margarete não era vagabunda: formada em Direito, com um mestrado em Filosofia sobre algum aspecto bem não-prático do Platonismo, trabalhava em um grande escritório de marcas e patentes – super chato, segundo ela, mas fácil e bem pago. Ralava muito, todo dia até altas horas da noite, e como morava com os pais e tinha carro com tanque cheio na garagem, economizava bastante.
Em breve, conseguiria dar entrada no seu apartamento e poderia fazer o que quisesse de sua vida bandida e libertina – não preciso nem dizer que, pelo simples fato de eu ter me envolvido com elas, ambas eram fortes, malvadas, liberadas, taradas, etc etc, não?
Margarete não era burra: além de direito (que, graças a Deus, ela nunca mencionava socialmente), Margarete conhecia profundamente da literatura à filosofia, do jazz à culinária, do i-ching à ioga, mas nada sobre aquecimento global ou neoliberalismo, crianças sem perna de Angola ou sweatshops de Macau.
Carpe Diem, por que não?
Margarete também não era insensível: dava dinheiro às crianças do sinal e deixava gorjeta dobrada nos restaurantes (coisas que Rosa Gertrude nunca fazia), voluntariava na creche da igreja (segundo Rosa, o papismo era uma das faces mais perversas do capitalismo internacional) e, sempre que voltava de viagens, trazia presentes caros pra todos os empregados da casa, do piscineiro à passadeira.
Brigou com os pais para darem um mês de férias para Dona Rosicreide ir visitar a mãe lá em Caixa-Prego, mas jamais deixou de comprar uma roupa por qualquer motivo que fosse – inclusive falta de dinheiro, algo que nunca lhe aconteceu. Não sei nem se sabia das crianças de três anos trabalhando vinte horas por dias nos sweatshops do Vietnã, mas já posso imaginar o que diria: “bem, Alex, a verdadeira questão é: elas ganham mais fazendo roupas pra Nike ou cortando cana nos campos?”
Rosa sentia-se culpada somente por *andar* na Oscar Freire e nunca comprava nada, apesar das insistências da sua mãe: “deixa eu te dar uma calça nova, filha!” Já Margarete adorava a Oscar Freire mas se incomodava com o número crescente de mendigos: “sério, Alex, eu passo doze horas por dia naquele escritório chatérrimo! Você acha que se esse povo quisesse trabalhar duro assim estaria aqui sentado na calçada pedindo esmola?!”
Quando tínhamos uma diferença de opinião, Rosa Gertrude se empolgava: acessava logo o Google, verificava os fatos em questão, voltava cheia de números e gráficos. Já Margarete cansava em três minutos e, como sua avó e sua bisavó antes dela, bem femininamente me convencia de que eu estava coberto de razão, quem era ela pra esquentar sua cabecinha com isso?, e continuava achando tudo o que já achava antes.
Uhum, você está absolutamente certo, meu bem…
Uma vez me disse que me amava mais por eu ser seu único homem que nunca caiu nesse seu papo-furado poupa-discussão, mas com certeza dizia isso pra todos.
Sei que estou pintando Rosa Gertrude como uma mala sem alça e isso não é justo – ainda bem que ela só lê blogs políticos e engajados! Rosa, na verdade, era tudo de bom: forte, independente, passional, cheia de opiniões, libertina, tarada, desinibida.
E aquelas suas solinhas cascudinhas de tanto andar descalça eram uma delícia: já Margarete, em casa, só usava chinelinho e meia e, na rua, saltos altos que deixavam verdadeiras cicatrizes de batalha em seus pés, testamento ao preço que as mulheres pagam para ganhar mais alguns centímetros e empinar a bundinha.
Enfim, amei e ainda amo as duas. Cada uma do seu jeito, são duas deusas que passaram por minha vida e deixam saudades todo dia.
Mas, que Rosa Gertrude não me leia (se o Idelber linkar esse post, eu estou fudido), mulher agora só de direita.
Alex Castro é. Por enquanto. Em breve, nem isso. // Se gostou desse texto, dá uma olhada nos meus livros.
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