Parodiando Vinicius, aquele comunista: as esquerdistas que me perdoem, mas a direitice é fundamental.
Juro: eu nunca tive preferências sexuais específicas nessa área. Estou até mesmo progressivamente virando esquerdista. Quem lê o blog desde 2003 pode comprovar esse curioso fenômeno.
Há cinco anos, eu só queria que minha empregada lavasse minhas cuecas e não quebrasse nada; hoje, estou escrevendo um romance sobre domésticas, quase realismo-socialista, todo preocupadinho com os sentimentos e aspirações das nossas babás e faxineiras. Eu sei, virei um chato, admito. O Ruy Goiaba nem responde mais meus telefonemas.
Mesmo assim, perdoem-me os dois pesos e duas medidas, posso ser culpado por não querer isso na minha companheira? Serei eu um monstro por preferir as mulheres de direita, fúteis e femininas, vaidosas e narcissistas?
* * *
Rosa Gertrude cresceu numa família de intelectuais (pai: sociólogo, mãe: historiadora) e fez graduação e mestrado em ciências políticas na Fefeléti (a faculdade que vem com uma Fofoléti). Participou de passeatas estudantis, militou na UNE e chegou até mesmo a voltar no tempo só pra poder ser membro-fundadora do PT. Para tudo, ela tinha uma causa, uma bandeira, uma preocupação social.
Não gostou da roupa que lhe dei porque era feita na Malásia – “como posso usar uma peça de roupa feita por crianças de três anos de idade trabalhando vinte horas por dia?!”. Não comia mais sanduíche de pasta de atum (que adorava) porque esses malditos pescadores estão acabando com os golfinhos.

desconto progressivo”
Se sair de casa com esse casaco Adidas, está tudo acabado entre nós!
Pastel de palmito, nem pensar: “você não se preocupa com a Mata Atlântica, Alex?!” Defendia veementemente, até as veias quase lhe estourarem na testa, o direito sacrossanto ao aborto, mesmo se o homem se dispusesse a criar o filho sozinho: “o corpo é da mulher, Alex!” Usava palavras como mais-valia, meios de produção, burguesia e, até mesmo, acreditem se quiserem, lumpen. Um dia, fora do nada, ela estava descrevendo um conhecido e falou: “ah, ele tinha um jeitão assim meio lumpen.” E eu não entendi: “Lum-o quê?” E ela: “Lumpen, Alex, até parece que nunca ouviu!” Mas era isso mesmo: “Pois é, acho que foi a primeira vez que eu *ouvi* essa palavra, assim, pronunciada.” Quando perguntava minha opinião sobre alguma nova barbaridade internacional (“viu o horror que o capitalismo neoglobalizante está fazendo com as criancinhas sem braço de Ruanda?”) e eu dizia que nem sabia do que ela estava falando, ficava revoltada: “como você pode ser assim alienado, Alex?! Não percebe que se não está contra eles, está com eles?”
Ai de mim se digo que estava relendo mais uma vez o Livro do Apocalipse. A Bíblia, como vocês sabem, é o cúmulo do reacionarismo. Mas, por outro lado, nunca reclamava quando eu não penteava o cabelo ou não fazia a barba.
E a culpa? Nem me falem. Um bom marxista nascido em família burguesa tem maior densidade de culpa do que o católico mais autoflagelador: qualquer experiência mais confortável do que cortar cana nos campos de Cuba era insuportável para Rosa. “Como posso comprar uma saia nova quando existem índios sem água no altiplano boliviano?” Naturalmente, a culpa não impedia que comprasse a saia: só de aproveitar.
Um dia até falou (meu deus, eu juro, juro que é verdade, devia ter filmado) que o orgasmo era uma sensação pequeno-burguesa, que era reacionário se deixar levar egoisticamente pelo prazer sexual quando havia tanta gente sofrendo e que eu, Alex, só conseguia ser feliz porque anestesiava minha sensibilidade para os horrores do mundo.

Como se Dar Bem com as Mulheres”
Linda. Mas engajada demais.
Sim, eu amava Rosa Gertrude. Como só andava de sandálias de couro cru, seus pés ficavam deliciosamente sujinhos. Pedicure, jamais. Isso era coisa de patricinha burguesa da Vila Olímpia. (“Como posso fazer as unhas sabendo que a manicure não tem dinheiro pra alimentar os filhos?”) Mas aquelas sujeirinhas sexy debaixo das suas unhas não eram o bastante pra manter meu interesse na relação.
Logo depois, comecei a namorar Margarete.
Amanhã, a história de Margarete.
alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // todos os meus textos são rigorosamente ficcionais. // se gostou, me siga no facebook, compre meus livros ou faça uma doação. // não leio comentários dos meus textos. para falar comigo, mande um email.
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