Monumento a um jovem monolito: entre Pedro Bial e André Dahmer

Fábio Rodrigues

por
em às | Cabana no PdH, PdH Shots


Todos já devem ter cruzado com alguma tirinha do André Dahmer, em jornais, revistas, algum dos seus livros, no seu site ou em algum canto na internet.

Dahmer, entrevistado aqui no PapodeHomem em 2009, é autor de Os Malvados e séries como “Emir Saad”, “Quadrinhos dos Anos 10″, “Encontro Anual dos Donos do Mundo”, “Cadernos Secretos”, “Ziniguistão Sitiado”, entre provavelmente dezenas de outras.

O que talvez seja menos conhecido do público são seus trabalhos de pintura, gravura, texto e até como bonsaísta (que acabei descobrindo por acaso em fóruns sobre o assunto, uma vez que eu mesmo costumava plantar) e outras formas de arte que parecem indicar um interesse muito amplo, mais relacionado com estética como filosofia do que com alguma de suas ferramentas específicas, como o desenho.

O que me motivou a fazer esse post, especialmente, foi um vídeo recente feito pelo pessoal da Sheep, usando o texto “Monumento a um jovem monolito”, do Dahmer. O texto, que eu já tinha achado muito bom, ficou impressionante no vídeo.

O tom me fez lembrar um pouco o “Use filtro solar”, na versão do Pedro Bial, o que só faz a ironia ser ainda maior.

“Use filtro solar” com narração de Pedro Bial no Fantástico


Link YouTube | O texto original, “Wear Sunscreen”, é de Mary Schmich, publicado no Chicago Tribune, em 1997.

Vídeo do “Monumento a um jovem monolito”


Link YouTube

Ao completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles. Sorria, você é um jovem monolito e a vida vai ser pedrada. O trabalho é uma grande cadeia e você sentirá muito alívio por ter uma. A cadeia engrandece o homem. E o sangue do dinheiro tem poder. Reze. Reze ajoelhado por uma carreira, dê a sua vida por ela. Viva como todo mundo vive, você não é melhor que ninguém. Porque o dinheiro move montanhas, o dinheiro é a igreja que lhe dará o céu. Sorria, você é um jovem monolito e o mundo é uma pedreira. Eles irão moer você todinho. De brinde, muitos domingos para chorar sua falta de tempo ou operar uma tendinite. Nas terríveis noites de domingo, beba. Beba para conseguir dormir e abraçar mais uma monstruosa segunda-feira. Aquela segunda-feira que deixa cacetes moles e xoxotas secas para sempre. A vida é uma grande seca, mas ninguém sente calor: Nas salas refrigeradas, seus colegas de trabalho fabricam informação e, frios, sonham com o dia dez do próximo mês. Você é o Babaca do Dia Dez, não há como mudar o seu próprio destino. Babaca que acorda assustado, porque ninguém deve atrasar mais de vinte e cinco minutos. Eles descontam em folha e você é refém da folha, do salário, do medo. Ninguém tem o direito de ser feliz, mas você ganhará a sua esmola de seis feriados por ano. E todos nós vamos enfrentar, juntos, um imenso engarrafamento até a praia. Para fingir que ainda estamos vivos. Para mostrar que ainda somos capazes de sentir prazer. Para tomar um porre de caipirinha sentado em uma cadeirinha de praia. É uma grande solução. E você ainda ganhará quinze dias de férias para consertar a persiana, pagar contas, fazer uma bateria de exames. Ninguém quer morrer do coração, ninguém quer viver de coração. Eu não duvido da sua capacidade de vencer: Lembre disso no primeiro divórcio, no primeiro infarto, no primeiro AVC.”

André Dahmer

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Fábio Rodrigues

Designer, desenhista, professor de estética, guitarrista e baixista na banda Vacine, coordenador no CEBB Joinville e na Cabana PdH. Facebook e Twitter.


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35 comentários

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  • Rafael

    Texto pra se imprimir e colar na parede do quarto.

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  • http://mude.nu Toni Durden

    Porra, completo 30 anos este ano, e não estou vivendo quase nada disso. Senti agora uma epic win! :D

    • Rafael

      Nos descreva um pouco da sua vida.
      Fiquei curioso(sério mesmo) :)

      • http://mude.nu Toni Durden

        Rafael, eu sou autônomo (tenho uma empresa praticamente de um homem só) e trabalho em casa com o que gosto. Por isso, vejo minha família sempre. Não enfrento trânsito. Não gasto muito dinheiro, pois não vejo nos bens materiais fontes de prazer como a maioria das pessoas vê. Não bebo. Namoro a mulher que amo há cinco anos e vamos nos casar agora. Faço exercício regularmente desde moleque. Medito todo dia.

        Nada disso teria valor nenhum, entretanto, se eu não tivesse percebido já há algum tempo (depois de muita leitura) que a fonte de todos os nossos problemas está na mente. E que a solução de todos os problemas, por conseguinte, está na transformação da mente.

        Essa é a principal área que precisa ser trabalhada. O restante é consequencia. Por isso, é sobre o que mais escrevo.

        Inclusive, não há nada de intrinsecamente mau em só ver a amada e a família pouco, em ficar preso no trânsito, em beber, em trabalhar na firrrrma.

        Nenhuma dessas coisas por si só tem valor, exceto o valor que nós atribuímos a elas. O mesmo cenário pode ser visto da ótica do filtro solar ou da ótica do monumento ao monolito.

        A visão que você tiver, vai estar correta. Assim é se lhe parece.

      • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

        Muito bom, Toni.

        Gostei desse post sobre o Mind and Life (já falei sobre ele aqui no PdH também): http://mude.nu/mente/mind-and-life-institute-acompanhe-o-que-os-cientistas-dizem-sobre-budismo/

        Abraço.

      • Anônimo

        Sensação boa de ler um comentário assim no PdH.

        Muito bom o mude.nu, também, Toni.

    • Rafael

      Nos descreva um pouco da sua vida.
      Fiquei curioso(sério mesmo) :)

  • http://twitter.com/luciano_ribeiro Luciano Ribeiro

    O texto do André Dahmer é dolorosamente verdadeiro.

    Incrível!

  • http://twitter.com/JackCostaD Jack Costa

    A pedrada na testa mais certeira de todos os tempos… socorro!!

  • Convidado1

    Com esse cabelo aí vc costuma plantar, mas pra consumo proprio

    • http://twitter.com/_jbernardes Jair Bernardes Jr.

      A criatividade eleva o homem. Comentário altamente pertinente, só faltou ler o post “Monumento a um jovem monolito”.
      Paz

  • Roberto

    Pra que o preconceito contra os cabelos do cara?
    O que importa aqui é o ocnteúdo do texto, não?

    E por falar em conteúdo, o texto do André Dahmer é uma pedrada certeira. Deveríamos parar para refletir e viver a vida de vez em quando no meio dessa correria doida do nosso dia-a-dia.

  • Rodrigo

    esse texto me fez lembrar um outro de Jorge Luis Borges chamado “Instantes”, ambos são um grande “O que você ta fazendo da sua vida?” que ecoam no ouvido da pessoa após lido.

  • http://www.facebook.com/people/Alvi-Miranda/100001078974319 Alvi Miranda

    Escreveu com tanta verdade, que chegou sangrar… Não há alguém que leia e tenha coragem de discordar.

  • http://www.facebook.com/people/Tiago-Xavier/100001465290255 Tiago Xavier

    Não fico com nenhum dos dois, ainda mais conhecendo a trajetória de vida do Dahmer. Pra mim o Toni Durden falou tudo sobre o assunto.

  • NapoleonSolo

    A maioria das coisas que ele falou não tem nada de ruim em si, ruim é a relação que as pessoas tem com essas coisas. Só uma questão de visão de visão de mundo e consciência de si mesmo.
    E de qualquer forma, mesmo que tudo isso fosse intrissicamente ruim, viver assim ainda é uma escolha.
    Gosto do Malvados, mas esse texto não tem criticismo de sempre, só choramingado.
    A única coisa triste que eu achei foi ver gente achando certeiro.

    • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

      Napoleon, sério que não viu uma puta crítica nesse texto? Eu não vi um pingo de choramingação, muito pelo contrário, ele alterna entre trechos de ironia e de porrada mesmo, sem discurso irônico, como na última frase.

      • http://www.facebook.com/people/Tiago-Xavier/100001465290255 Tiago Xavier

        O texto tem muita choramingação! Mimimi, trabalhar em escritório é esmagar sua alma. Em certo aspecto, o texto é tão “monolítico” quanto a situação que quer (com sucesso) criticar.

      • Murdrok

        Aonde você leu essas conclusões? Não consegui encontrá-las…

        Estas conclusões na verdade forão suas, e que por sinal são semelhantes com as demais aqui postadas, o que mostra que no fundo você sentiu a critica como os demais…

        Não acha?

  • http://www.facebook.com/eduardo.b.camara Eduardo Boldrin Camara

    ótimo texto e ótimo debate. vitaminado pra alma!

  • Pablo Rocha

    A vida não é fácil…
    Fácil é meter o pau na tonelada de merda que enfrentamos todos os dias..
    Difícil, é fazer isso com dignidade e alegria, sabendo apreciar os belos momentos nos é nos são oferecidos.

    Ponto.

    • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

      Pablo,

      Esses comentários serão ótimos para um segundo texto do Dahmer. Aliás, eles poderiam até ser introduzidos no próprio texto. Ficaria ainda mais perfeito.

  • Harleydavidson1975

    Dó.A vida não é isso.

  • Zombie

    A vida pode ser isso para quem quer que ela seja assim. Para os que não tem coragem de viver. Simples assim.

    Mas serve como um otimo soco naquele amigo frouxo e apático.

  • http://www.facebook.com/people/Wesley-Oliveira/1079704530 Wesley Oliveira

    Meu, sou muito fã do Dahmer e digo que o video ficou foda demais! Esse merece ir pra parede do quarto!

  • http://www.facebook.com/people/Wesley-Oliveira/1079704530 Wesley Oliveira

    Meu, sou muito fã do Dahmer e digo que o video ficou foda demais! Esse merece ir pra parede do quarto!

  • Nando Zapelini

    Muito bom! Empolgante pra cacete… hahaha
    Brincadeiras a parte, o cara é fera!

  • http://twitter.com/johnnyschulte João Vitor Schulte

    Ótimo texto mesmo! ainda faltam sete anos até os 30 então dá tempo de perceber quando eu começar a viver assim e não deixar que isso aconteça!

    • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

      Uma coisa que vi aqui nos comentários (e aproveito pra comentar nesse, Schulte, porque sei que você também vê de modo amplo) é uma coisa de “Epic win, não sou assim” e “Ainda dá tempo de não ser assim” como se o problema apontado pelo Dahmer fosse pessoal, não coletivo.

      É claro que mudar a nós mesmos é o primeiro passo, mas não podemos perder de vista a estrutura no qual todos operamos. Podemos viver em brechas do sistema, podemos nos ajeitar de outro modo, mas e os outros?

      E quem já passou dos 30, João? Como ajudar essa galera a viver com outra base? E como ajudar a alterar essas estruturas que criam tanta merda para as pessoas?

      E essa “merda” é sutil. Ela se manifesta no cara que ganha muito, mas fica 12h por dia na agência, girando uma roda que não vai pra onde ele mesmo quer ir. Ela se manifesta nas pessoas que perderam o brilho no olho, que estão patinando em visões estreitas sobre si mesmos e sobre o próprio trabalho. Ela se manifesta até mesmo naquele que vende soluções para nos adequarmos às estruturas que existem, como se o problema fosse nosso, não das estruturas.

      Abração.

  • http://www.facebook.com/people/Tiago-Xavier/100001465290255 Tiago Xavier

    @Murdock

    As conclusões que eu expus se baseam nas tirinhas com forte conteúdo autobiográfico que o Dahmer publicou na época em que esse texto foi lançado (talvez um pouco antes, não me lembro). Estou no trabalho e não vai dar pra reunir os exemplos agora. Mas deu pra perceber que o autor enfrentou muita oposição para seguir o caminho profissional que escolheu e que isso não foi fácil. Daí o autor aponta o dedo para quem trabalha em escritório e faz esse tipo de colocação generalista.

    Conheço alunos de literatura que são obrigados a escrever de acordo com o que agrada os professores de semiótica, senão não conseguem entrar no mestrado. E conheço um ex militante anarquista que hoje é funcionário público, trabalha 6 horas em um ambiente burocrático e passa o resto do dia estudando pintura.

    E “conheço” um cartunista que leva adiante um personagem em claro processo de esgotamento, provavelmente pra pagar as contas: o Rei Emir, publicado no G1.

    A internet é o maior lugar de proliferação de metonímias que já vi.

  • Ronaldo Frotta

    To com 3.0… Essa marretada atingiu em cheio o monolito que vos comenta!

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  • Filipreds

    O vídeo saiu do ar. Alguém sabe o porquê?

    Abraço

    • Convidado

      Pois é, por quê?

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