Criamos uma seção com o melhor do PdH. Vai lá ver e deixa nos seus favoritos. →
​​​​​

Medo de voar? (Não) Leia este texto

Fernando Vasconcellos

por
em às | Artigos e ensaios, Relatos


Existe uma pesquisa feita pelo IBOPE em 2007 que diz que cerca de 74% dos brasileiros têm medo de voar. Pessoas que só de pensar em estar em um avião são invadidas por um mal estar e ansiedade imensas.

Apesar de achar que viajar é um dos principais prazeres da vida, eu pessoalmente nunca gostei de estar a bordo de um avião. A sensação de ter a sua vida na mão de um estranho é horrível. Você está impotente e passivo, e sua vida depende de dois sujeitos que você nunca viu e em cujas credenciais você só pode confiar cegamente. É só entrar naquele tubo voador e pronto: todos os detalhes adquirem o potencial de mudar a sua vida – e o pior é que você não pode fazer nada. Tudo o que acontece na cabeça de um cagão como eu tem um significado e forma as minúcias da tragédia que, até onde me consta, está por acontecer.

A história que se segue é baseada na minha própria experiência e não reflete a realidade da minoria corajosa da população voadora brasileira. Seus sortudos.

Todos a bordo da minha mente

Eu saio do táxi e as portas automáticas do saguão se abrem para um momento que vai mudar a minha vida para sempre. No balcão de check-in, com o voucher impresso em preto e branco, a atendente pergunta:

– Qual o destino, senhor?
– Vou pra Nova York.

Segundos depois de checar meus dados, passaporte e bagagem, ela diz, com toda a calma do mundo, como se aquele não fosse um dos meus momentos finais:

– Senhor, seu voo é JJ8102. O portão de embarque é o 6, esteja na sala de embarque 50 minutos antes do horário de partida, boa viagem.

Ela pega uma caneta e circula o meu portão de embarque e horário com a naturalidade de um coveiro cavando o próximo túmulo. Ela faz isso todo o dia. Não demonstra emoção e não me diz adeus.

JJ8102. Essa sequência é que vai mudar a minha vida pra sempre. Já vejo as chamadas dos jornais do dia seguinte: “Voo 8102 cai com 450 passageiros. Não existem sobreviventes”. Meus pais e irmãos farão parte da Associação dos Familiares do Voo 8102. Minha primeira atitude é mandar um SMS aos meus pais e namorada, com tranquilidade e um tom informativo. Meu sentimento é de sobriedade com relação ao que vai acontecer nessas minhas últimas horas.

“Pronto para embarcar. Meu voo é 8102. Às 6 da manhã (Brasil) estou lá. Eu aviso quando chegar, beijos.”

Eu não posso desesperar ninguém. As palavras “friozinho na barriga”, “pressentimento” e “medo” não são pronunciadas desde a semana passada. Tenho a esperança de que nada vai acontecer, mas me mantenho preparado. Meus entes queridos agora também estão.

Chegando na sala de embarque, começo a notar as pessoas. Todos à minha volta serão meus companheiros na lista dos desaparecidos ou mortos. Entre eles, encontram-se uma variedade de perfis sociais e demográficos que serão um prato cheio para a Veja da próxima semana. Executivos, grupos de estudantes, mochileiros, casais em lua de mel, idosos… E eu.

Um momento de alívio: uma família com três crianças pequenas chega na sala. Uns 4 ou 5 anos, cada. Deus não pode ser tão mau com essas pessoas. Seria muita maldade derrubar um avião com pessoas que acabaram de nascer.

De repente, minha tranquilidade momentânea é atacada pela cavalaria silenciosa da tripulação. Uma elegância funeral. Todas as maletas são iguais. Hierarquicamente organizados. Piloto e co-piloto, comissários e aeromoças. Cabelos impecáveis. Roupas mais bem passadas que o terno do João Doria Jr. E uma frieza assustadora.

Eu tenho um dom e não sabia. Consigo fazer uma análise psicossociológica comportamental do piloto em menos de dez segundos. A lógica é simples:

Mais de 50 anos: Muito experiente, confiante e desleixado. Encara aquele momento como qualquer um, não se lembra que está pilotando uma arma de alta periculosidade. Conhece toda a aeronave de cabo a rabo e por isso pode esquecer de ligar o transponder. (Lembra?)

Menos de 30 anos: Pouco experiente, não conhece tudo o que vai encarar e já vai pegar um voo de 11 horas? Solteiro. Veio o caminho todo conversando com uma mulher no telefone. Certeza de que passou a noite em claro e não conseguiu descansar. Muita irresponsabilidade da companhia aérea deixar um cara como esse decidir o rumo de nossas vidas.

“Atenção passageiros do voo JJ8102 com destino a Nova York. Favor dirigir-se ao portão de embarque número 6. Seu embarque está sendo iniciado.”

Minha mão já não está suada. Agora suados estão meu passaporte e o ticket de embarque. Minha mão está encharcada.

Entramos em fila indiana procurando o assento, parecendo o corredor da morte travestido de início de férias. Como eu tenho certeza de que vou bastante ao banheiro em 11 horas, escolhi o 26F, corredor. A aeronave já está abarrotada, todas as malas socadas. Tem muita mala no compartimento superior, e o cara ao meu lado está usando todas as forças para colocar um pacote de pelo menos 40 quilos em um espaço de 30×60 cm.


YouTube | Pelo menos ninguém aditivou o café da equipe de bordo

Quando ainda existe esperança de sair vivo daquele tubo voador, noto o que seria a certeza do desastre. Não tem ninguém no assento 26E.

Já imagino esse desgraçado dando entrevistas nos jornais, falando que perdeu o voo e que o destino salvou a vida dele. Jornal da Globo, Jornal Nacional, Folha de São Paulo etc. Todo mundo espantado como o destino foi bom com ele. E logo ao meu lado! Não podia ter sido eu?

“Tripulação, portas em automático.”

A aeromoça tem uma dificuldade danada para baixar aquela porta gigantesca, e eu tenho a impressão de que ela não sabe o que está fazendo. Já viu um daqueles filmes em que a porta se desprende em pleno voo e a despressurização joga todos para fora? Pois é, estou preparado para isso agora.

“Bem vindo a bordo. É um prazer tê-los conosco neste voo São Paulo – Nova York das Linhas Aéreas Fulanas. Esperamos que tenha uma ótima viagem.”

O que em minha mente quer dizer:

“Bem vindos aos últimos momentos de sua vida. Estamos confiantes de que serão muito bem aproveitados com uma pequena refeição de massa ou frango, banheiros apertados e ar condicionado bem gelado.”

De repente escuto o piloto anunciando as condições metereológicas. É hora do desespero entrar em cena de vez. As condições metereológicas estão ruins em Nova York. Nevasca forte. Devemos atrasar. Porra, é Janeiro! Óbvio que está nevando naquele lugar! Por que não interrompem os voos? Não dá pra adiar pra Abril? Que tal pousar em Miami e fazer o resto do caminho por terra?

“Senhores passageiros, por favor, coloquem suas poltronas na posição vertical e prendam seus cintos de segurança. Em alguns momentos estaremos iniciando os procedimentos para a decolagem.”

Essa regra é universal, todo mundo tem um pouco de medo de decolagem. As pessoas simplesmente ficam tensas, todas elas. Eu fico mais, claro, mas pelo menos não me sinto tão sozinho.

“Desliguem seus aparelhos eletrônicos até o momento da aterrissagem.”

Sempre, sempre tem um destemido highlander dos ares que mantém o celular ligado até o último momento, respondendo e-mails, SMS etc, pouco se importando com o risco iminente da morte. Eis que a aeromoça passa próximo a mim e a senhora sentada ao meu lado faz um sinal. Assim que a atendente chega, ela sussura: “aquele moço não desligou o celular”. Ela está tão borrada quanto eu, só encontrou uma outra maneira de externalizar isso. Eu fico eternamente grato à senhora delatora e lhe cumprimento com um mini sorriso que deixa implícito: “obrigado por salvar 449 vidas”.

A decolagem é um momento especial. Nas últimas vezes que voei me tranquilizei olhando para fora, vendo em detalhes que o avião não está caindo quando ele finalmente para de se projetar para o alto e começa a voar paralelo ao chão. Essa é uma estratégia boa, mas não quando o cara que está na janela fecha a escotilha. Eu, sem nenhuma ferramenta tranquilizadora, fico só no feeling da subida da aeronave. Quando ela finalmente estabiliza no ar: músculos tensos, seguro na poltrona, frio na barriga e leve dormência nas pernas. Quando percebo que nada está caindo do teto e que não ocorreu despressurização, me sinto mais confortável.

A sensação de “tudo está sob controle” acontece aproximadamente cinco minutos depois da decolagem, quando escuto o som dos banheiros liberados e vejo os comissários se movimentando. “Deve estar tudo certo.”

Daí por diante o que se segue são análises baseadas em estudos básicos de engenharia e aviação civil que fazem com que eu identifique qualquer tipo de barulho como uma potencial tragédia. O som da turbina nunca pode mudar de ritmo. Os compartimentos de bagagem fazem ruídos que mostram o quanto o avião está desestabilizado no ar e quão vulnerável essa máquina é quando está próxima de Deus. Cada fechamento de gaveta das aeromoças dá um frio na espinha. São os sons da morte anunciada.


YouTube | “Seguros de vida pagam o triplo se você morrer em viagens de negócios”

Não contei que tomei um Dramin na sala de embarque. Esse pós-tensão que rola depois da permissão para soltar os cintos gera um sono quase instântaneo.

Cochilei e acordo bem próximo a Nova York. O tempo já melhorou. Agora só neva muito e a pista só está assustadoramente perigosa. Mas, honestamente, sou muito corajoso no momento da aterrisagem. Por já estarmos bem próximos, tenho a impressão de que nenhum acidente na chegada é fatal. Mesmo assim, ainda tem a famosa:

“Senhores passageiros, por favor, coloquem suas poltronas na posição vertical e prendam seus cintos de segurança. Em alguns momentos estaremos iniciando os procedimentos para a aterrisagem.”

A reversão das turbinas – o último momento. A hora de você pensar “porra, já fez tudo isso, não vai dar merda agora, né?” Todos os seus pensamentos são com relação ao comprimento da pista e o quanto esse cara pode ter problemas de freio na hora da chegada. O barulho ensurdecedor das turbinas trabalhando para parar aquela merda é como se fosse a sua música preferida em alto e bom som dizendo:

“Bem vindo ao resto da sua vida, aproveite.”

Nada aconteceu, óbvio. Nem vai acontecer com muitos de nós. Os acidentes por milhão de decolagem nunca foram tão baixos na história da aviação. Os instrumentos de segurança nunca foram tão precisos. O cara que perdeu o voo em São Paulo se ferrou. Eu cheguei em Nova York 11 horas depois de sair de São Paulo e sem a mínima dúvida de que os aviões são uma maravilha da engenharia, uma das melhores invenções da história.

Mas não tem barata, sapo, lobisomem, sucuri, aumento de imposto ou cara feia que me assuste mais do que voar.

Fernando Vasconcellos

Publicitário, quer morar em todas as cidades que visitou de Budapeste a Nova York. Enquanto não tem dinheiro pra isso, gasta seu tempo achando que marketing resolve 90% dos problemas do mundo. Zagueiro com pouco talento. Twitter: @fvasconcellos


Outros artigos escritos por

Somos entusiastas do embate saudável

O texto acima não representa a opinião do PapodeHomem. Somos um espaço plural, aberto a visões contraditórias. Conheça nossa visão e a essência do que fazemos. Você pode comentar abaixo ou ainda nos enviar um artigo para publicação.


EXPLODA SEU EMAIL

Enviamos um único email por dia, com nossos textos. Cuidado, ele é radioativo.


TEXTOS RELACIONADOS

Queremos uma discussão de alto nível, sem frescuras e bem humorada. Portanto, leia nossa porra de Política de Comentários.


  • Marceu Heinzmann

    PQP! Ri D+ com o texto! Não tenho muito medo de voar, mas me senti na pele do sujeito!

  • Jcgjunio

    kkkkkkkkkkkk, muito bom.

  • Gui Neto

    hahaha otimo texto!! Eu viajo bastante de aviao e mesmo nao tendo medo e torcendo pra tudo dar certo tenho que concordar que a maioria das coisas que voce descreve passa pela minha cabeca!

  • Leandroterra Bh

    Sua vida está na mão dos outros quando você está em um ônibus (que pode tombar em um barranco), em um carro (no Clube da Luta o protagonista é inspetor de sinistros de automóveis e tá se lixando pra avião), de bicicleta (“1,5m = a distância ideal!”) e até a pé, na esquina, esperando um motorista embriagado te dar uma carimbada.

    Dá pra morrer de pipoco também, sendo assaltado em uma capital brasileira, numa estrada de terra do Pará, ou em um acampamento de jovens em uma ilha norueguesa.

    Ou como diria Raul, em um trupicão idiota batendo a cabeça no meio-fio.

    • http://www.facebook.com/fernandovasconcellos1 Fernando Vasconcellos

      Sem dúvida Leandro, na verdade a questão do avião é mais pelo imaginário e pela diversão de ver pessoas (como eu) se borrando do que propriamente pelos riscos.

  • Henrique Marquezi

    Sensacional. Parece que o cara estava dentro da minha mente toda vez que tenho que entrar dentro de um avião!!!!

  • Thiago84

    O único medo que tive nessa vida foi o de ser desempregado e corno. Como já enfrentei e superei esses desafios, nada tenho a temer, mais a sensação de ter “sua vida depende de dois sujeitos que você nunca viu e em cujas credenciais você só pode confiar cegamente” é muito perturbador. Contudo, passamos por isso diariamente.
    Obs: Achei post muito longo, depois da 3ª imagem fiz leitura dinâmica.

  • Leandro

    Alberto Santos Dumont foi “O Cara”.

  • http://www.facebook.com/people/Rodrigo-Luz/553794360 Rodrigo Luz

    Putz… eu nunca tive o menor problema com aviões.

    O que eu acho um saco são os procedimentos (necessários, eu sei) de check-in, imigração, etc, etc. Cansa pacas!

  • Vítor Moreira Barreto

    Fernando, obrigado por narrar minhas sensações! Sempre tive o mesmo medo…

  • http://www.facebook.com/people/Júlivan-Arantes-da-Silva/100001032282778 Júlivan Arantes da Silva

    Nossa, é a exata seqüência de pensamentos que eu tenho toda vez que pego um avion. Adorei o texto!!! Eu fico calculando as probabilidades de eu morrer também… É mais ou menos 40% na decolagem, 30% durante o vôo e 30% na aterrisagem. A decolagem tem mais chances de dar merda porque eu vou pegando confiança no piloto durante o vôo. 

    • http://www.facebook.com/fernandovasconcellos1 Fernando Vasconcellos

      Julivan, muito boas as estatísticas, se tivesse antes do texto com certeza as usaria! Um abraço!

    • Thiago84

      E quando ele pousa quicando mais que teco-teco em pista de barro toda a confiança conquistada durante o voo é visca como uma traição? rsrsrsrsrs.

      • http://www.facebook.com/people/Rat-Geber/100003597644974 Rat Geber

        Caraca… o MAIS divertido é quando ele quica na aterrisagem! Só aconteceu comigo uma vez e sempre fico torcendo pra acontecer de novo… Voar é ‘massa’!

      • thiagones80

        não lembro aonde li que a quicada tem um nome e é usada para dar mais “aderência” ao avião… principalmente em pistas curtas.. 

  • LorranW

    Esse texto veio na hora exata! Com viagem marcada e tudo, eu tenho que mostrar esse texto pra minha namorada, senão ela acaba vendendo as passagens. 

  • Pedro Lima

    Texto maravilhoso, fiquei esperando uma desgraça, mesmo que fosse pequena, como uma perda de sustentação em virtude da turbulência.

    • http://www.facebook.com/fernandovasconcellos1 Fernando Vasconcellos

      Cara, só de ler isso me dá arrepios, não comigo, por favor!! =)

  • PolyGall

    Confesso que você é mais neurótico que eu (risos) – no bom sentido. Meus pensamentos são mais breves, e os interrompo da seguinte forma “porra, o cara que esta dirigindo esta merda não vai querer morrer, logo estamos todos salvos.” Respiro aliviada, e procuro pensar no lanchinho servido no voo (rs) ou no destino que em breve estarei curtindo. É uma boa alternativa!!!

    • http://www.facebook.com/fernandovasconcellos1 Fernando Vasconcellos

      Outra boa chama-se Dramin, ainda não descobri melhor! Um abraço!!

      • Thiago84

        Nos tempos da aviação de “luxo”, eu enchia a cara de Whisky.

  • Obede Jr

    Belo texto, Fernandinho. E de navio? Tem medo tb? haha parabéns, ficou bem engraçado e bem escrito!
    Abs

  • http://www.facebook.com/killersandro Sandro Guedes de Souza

    Eu sou um “destemido HIghlander” que vai com celular (e as vezes um PSP também) ligado durante toda a viagem. Sou acostumado a voar desde criança (criança mesmo, o primeiro voo foi aos 5 meses de idade) e nunca passei um ano sem embarcar em uma aeronave.

    Meu único problema com aviões é o tédio. Sério, se o voo dura mais de 6 horas eu fico louco, meus livros acabam, a bateria dos jogos eletrônicos vai pro brejo e chega uma hora que absolutamente não quero mais ver “Marley e Eu” naquela telinha da poltrona a sua frente. Por isso, para mim, pegar 3 voos daqui até toronto e fazer três pernoites será sempre mais “rápido” do que um voo único de 14 horas.

  • PhilipePacheco

    Hahahahhahaha, muito bom o texto, tem passageiro mais neurótico ainda.
    Particularmente respeito muito quem tem medo de voar, já que na maioria das vezes as pessoas tem verdadeiro pavor disso e precisam desafiar esse medo várias vezes na vida, diferente de outros medos.
    Eu por exemplo tenho fobia de cobra, logo pra mim fica mais fácil não confrontar isso, é só não ir ao Butantã e quando for no zoológico, basta passar longe dessa porra de bicho.

    Eu, como trabalho com isso, amo voar. Na minha opinião, voar é a coisa mais gostosa do mundo que você pode fazer usando calças.

    Eu já tinha pensado em escrever outro texto pro Pdh mostrando os motivos pra não ter medo de voar. Esse texto era a inspiração que faltava.

  • Cassio Ruggeri Cons

    Duas observações:

    - Rá, eu sempre soube que a sigla JJ era das Linhas Aéreas Fulanas!- Porra de cochilo hein, umas 9 horas aí, por baixo!

    Eu só tenho o mesmo problema que o Sandro aí de cima… o tédio de voos longos. Pelo menos algumas aeronaves te dão opções de filmes pra ver (já peguei voo de 11h sem tv ou com tv mas com programação fixa… aí é fogo).

  • Enderson Rafael

    Oi, Fernando! Pelo visto serei o primeiro tripulante a comentar aqui. Bom, sou comissário e estou estudando pra me tornar piloto. Também sou estudioso de segurança de voo e tenho cursos na área, além de estudar incansavelmente centenas de incidentes e acidentes. Na função de comissário, já tenho mais de 5mil horas de voo, e claro que minha prioridade como tripulante é fazer os passageiros sentirem-se confortáveis e seguros – o que eles de fato estão quase o tempo todo. Nossa profissão é tão segura que recentemente o TRT de SP julgou equivocado que recebamos adicional de periculosidade (e embora eu não tenha gostado disso, de fato, estatisticamente, é mais seguro que praticamente todas as outras profissões que envolvam transportes). Claro que o texto é caricato de propósito, e nós tripulantes tb analisamos cuidadosamente todos os passageiros, e em geral identificamos com relativa facilidade os que poderão necessitar maior atenção, seja por medo, saúde debilitada, por embriaguez, ou por outras razões menos nobres (antes nosso único problema fosse com safety – segurança de voo no sentido de acidentes: hoje o pior vem do security – segurança no sentido de atos ilícitos, e nisso a atenção dos outros passageiros é fundamental). A aviação, como vc bem lembrou, está cada vez mais segura. Sim pela tecnologia, mas muito mais pela cultura das empresas. Isso foi o que mais mudou, afinal, como a aviação é mto exigente nas suas mudanças técnicas, demora mto pra novas tecnologias serem incorporadas, e a cultura de segurança acaba mudando mais depressa. Não à toa existe uma frase que diz que “o principal equipamento de segurança de uma aeronave é uma tripulação bem treinada”. Por essa razão, por exemplo, não há nada de mau em voar com pilotos mais jovens. Claro que a maioria dos pilotos mais velhos se mantém atualizados, até pq a profissão obriga a isso, mas os jovens já nasceram e se formaram numa cultura de segurança muito maior, onde procedimentos são mais rigorosamente seguidos. Além claro, de toda a facilidade das novas gerações com o automatismo das aeronaves (causa comum de acidentes entre pilotos mais velhos). Mas óbvio que a experiência tem suas vantagens, e é mto mais fácil sair de uma situação que vc já viveu do que reconhecer uma que vc só viu no simulador. Se um passageiro visse o briefing da tripulação antes do voo, ficaria apavorado: só falamos de desgraça! Justamente, pra evitar que elas aconteçam e, se tivermos problemas, já estarmos preparados pra agir. Se a maioria dos acidentes aéreos hoje em dia têm sobreviventes, é graça a essa dedicação. No briefing específico entre pilotos e comissários, falamos das ações que tomaremos se precisarmos rejeitar a decolagem (qdo o avião para bruscamente antes de decolar), se houver fogo, se precisarmos fazer a evacuação dos passageiros, qual a ordem das ações, quem faz o quê. Sabemos todos esses procedimentos de cabeça, e sempre relembramos antes de cada decolagem. Quando somos checados (tipo uma prova oral que fazemos periodicamente, pilotos e comissários) passamos às vezes uma hora respondendo de memória sobre todos os procedimentos em todos os tipos de emergência possíveis. Vale lembrar que raramente um acidente não teve precedente. Quase todo dia alguma aeronave pousa com apenas um dos motores funcionando mundo afora, e quando acontece um acidente como o de Jundiaí na sexta passada, fica parecendo que é algo incomum: na verdade, o incomum é não contornarmos os incidentes com sucesso. Mesmo acidentes como o AF447 tiveram vários incidentes idênticos antes e depois que não deram em nada. O nosso desafio é entender pq naquele caso específico eles não conseguiram controlar a situação. De resto, todos nós tripulantes temos famílias, casa, sonhos, e não somos kamikazes que decidiram levar a vida perigosamente. Pelo contrário, somos pessoas normais, que querem chegar com segurança aos seus destinos tanto quanto seus passageiros, mas que somos intensamente treinados para reconhecer e agir em situações normais e de emergência – onde, em geral, entramos num modo de alerta frio e impessoal, mas que é, em última instância, o que nos dará a chance de relembrar o evento do qual saímos ilesos nos braços de nossas namoradas e esposas ou tomando cerveja com os amigos. Um grande abraço e bons voos!          

    • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000330463294 Eduardo Copelo

      Enderson, concordo em tudo o que você falou.  Nos últimos dois anos, posso dizer q fui frequentador assíduo da ponte aérea Rio-São Paulo graças ao meu trabalho, e se no começo eu me cagava de medo por cada tremidinha que o avião dava, hoje sou bem mais tranquilo, principalmente por conversar com comissários e comissárias de bordo sobre meu pânico, e por ajudar um amigo que é (por mais difícil que possa parecer) muito mais cagão que o autor do texto.  Quando tive que manter a calma pra que ele não se desesperasse numa turbulência, eu relaxei, até pq “caindo ou não caindo, não havia nada que eu pudesse fazer”.  Mas… com toda a tranquilidade que tenho hoje, ainda lembro das mãos suadas, das turbulências e de olhar a asa pela janela e pensar que ela ia quebrar d tanto que batia.  Hoje é só uma lembrança engraçada, graças a Deus.

    • thiagones80

      Enderson,

      Acho que você não entendeu o espirito desse texto. Desse relato…. Não é uma ofensa a quem trabalha … mas sim uma divertida maneira de mostrar os medos que nós que não conhecemos tudo passamos.

      É um texto pessoal de alguém que tem o cerebro criativo e que olha mil coisas. e fica imaginando mil tragédias.. todos temos um pouco disso… a parte do “especialista em barulhos” diz muito isso. Também sou assim… qualquer barulho não-padrão já dá aquela impressão: “pronto… morri”

      Eu mesmo, tenho o habito de segurar meu medo em turbulências olhando para a tripulação. Se estiverem tensos… eu me borro! kkkkkk  

      Mas que no fim celebra toda a inteligência de todo o processo da aviação que passa por vocês

    • Débora

      Olá Enderson!!! Sou também uma medrosa de voar e achei muito bacana o que você escreveu, sensível e sensato! Abraços :)

  • http://twitter.com/GeovanniCoelho Capitão Panda

    Eu acho uma delicia voar de avião, sem brincadeira. A sensação de estar no ar me dá um prazer tão bom que sempre me esqueço das possibilidades de acidentes, sejam elas grandes ou pequenas. Me preocupo mais quando viajo de onibus, pois nesse eu SEMPRE passo mal, sem exceção. Ou durmo a viagem inteira, ou acabo vomitando. 

  • http://www.facebook.com/people/Marcéu-Heinzmann/1380396333 Marcéu Heinzmann

    Hahaha! Muito bom o texto! Não tenho muito medo de avião, mas senti na pela o medo que sentia o sujeito! Hahaha

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Kkkkkk! Eu já tive um passageiro com medo de voar de avião do meu lado. Foi bem engraçado, percebi de cara quando ele fechou a escotilha da janela e enfiou a cara numa revista.

  • Severino

    Só voei tranquilo uma vez, quando vi que umas 6 freiras embarcaram junto.. Pronto, tá abençoado!

  • Marcia Lima

    Só de pensar que em poucos minutos estarei no meu destino esqueço tudo… Rsrsrs

  • http://www.facebook.com/people/Matheus-Mendes/1187927452 Matheus Mendes

    Os gravatas lá da frente sabem o que tão fazendo, mais fácil você perder o medo de voar do que ele esquecer de ligar o transponder.

    Abraço

  • Rafael

    eu sou piloto e ri muiiito do seu texto, parabéns..hahaha

  • http://euterpe.blog.br/ Leonardo

    hahahahah!

  • http://www.facebook.com/people/Antonio-Cardoso/100002269596317 Antonio Cardoso

    Sintetizou tudo que passa em minha cabeça desde o momento em que decido viajar de avião até a aterrissagem!!! Show!!!

  • http://www.facebook.com/people/Antonio-Cardoso/100002269596317 Antonio Cardoso

    Sintetizou tudo que passa em minha cabeça desde a decisão de viajar de avião até a aterrissagem…Show!!!

  • http://profiles.yahoo.com/u/GKFMTD3TXJGM4KSDM4RN4HP444 Osmar

    Deveras engraçado o texto. Putz, vai ser cagão assim lá em NY! Não imaginava que esse medo afligia tanta gente!

  • Rodrigo Cambiaghi

    Fernando, 

    Você já viu o quanto a porra daquela asa balança durante o vôo?
    É assustador.

  • marcelo

    fernando eh cagão ein kkkkkkkkkkkkkkkkk muito bom o texto

  • RenaN.C

    MUUITO bom, mas po Fernando, CUMPRIMENTO da pista é pracabar hem!

  • Ligia

    Como diria meu professor de turbulência do mestrado, com cara de preocupado, voando p/ um congresso durante a turbulência: – A gente que estuda isso, sabe que engenheiro nenhum no mundo sabe o que está acontecendo lá fora, né.

    Mas de boa, como falaram, é mais seguro que andar de ônibus!

  • http://www.facebook.com/tdaniiel Tuliio Daniel

    hahaha, muito bom

    seu relato mostrou a realidade de muitos outros que também morrem de medo de voar, 
    embora eu te acho um cagao, vai ser medroso assim la em casa.

  • Fabio Eduardo Boni

    Muito legal o texto, muito do que voce escreveu, eu passo sempre!

    Ano passado fui para Madri, saindo de SP. Qdo estavamos sob Belo Horizonte veio o aviso em Espanhol: Vamos volver por problemas tecnicos. Cacete, quase só eu ouvi!!! detalhe, tinha mais de 20 politicos no avião, inclusive o Tarso Genro. Até que um cara proximo soltou: PORRA , SEMPRE TORCI PRA UM AVIÃO CHEIO DE POLÍTICOS, CAIR, MAS TINHA QUE SER LOGO ESTE!! Eu ria e chorava de nervoso, rsrsr, mas o problema até que era simples, foi o radar que quebrou, pousamos em segurança.

    ALGUÉM PODERIA ME EXPLICAR PORQUE OCORREM AS TURBULENCIAS E PORQUE ISTO NÃO TEM TANTO PERIGO COMO IMAGINAMOS?

    ABS

    • Ligia

      Como exatamente a turbulência metereológica se forma eu não sei, mas a turbulência é um escoamento desordenado e caótico. É como a torneira do banheiro, que a água corre toda certinha (laminar) no começo e depois colapsa (turbulento). Agora pensa isso em escala atmosférica.

      É difícil prever esse movimento desordenado do ar, em alguns casos impossível. Mas o avião, os pilotos me corrijam, tentam fugir das zonas muito turbulentas. Sem contar que são muitos os equipamentos e sistemas, para cercar todas as possibilidades de cagada.

      abçs

  • Murillo Teles

    Parece que foi eu que escrevi esse texto, consegui imaginar sobre o que voce falaria no ultimo paragrafo.

  • Guilherme

    Eu fico mais preocupado quando viajo de ônibus. Viajar de avião para mim é um barato. Me divirto como uma criança. A decolagem é a melhor parte e gosto de quando o voo tem escala, só para decolar duas vezes. Durante o voo não canso de me fascinar com essa fantástica invenção da humanidade.

  • Renato

    Hahaha sensacional! Belo texto!

  • Renato

    Sensacional! Belo texto!

  • http://twitter.com/biaklimeck beatriz klimeck

    Minha mãe já sofreu um acidente de avião. Penso eu que estou livre de acontecer comigo!

  • thiagones80

    Eu ri muito do seu texto! Porque eu compartilho com você algumas sensações de “vai dar merda.”

    Me sinto como um renomado médico analisando qualquer esboço no rosto dos tripulantes. “Ele está calmo mesmo nessa tubulência.. Hummmmm ok!” Ao mesmo tempo que o cerebro pensa: “mas e se ele for treinado para fazer uma digna poker face mesmo que o avião esteja caindo em chamas?”

    Também tenho essa coisa do engenheiro de bordo: Esse avião está levemente inclinado… ou ele está balançando mais do que devia. Ou menos…. O avião é uma celebração a inteligência humana…. mas como de nossa inteligência saem coisas bem divertidas, nada mais justo que o avião lhe faça passar alguns bons medinhos no processo.

  • Wellington

    Cara, eu penso exatamente as mesmas coisas que você antes de voar. Já imagino as manchetes do jornal quando vejo o número do vôo, imagino meus parentes fazendo parte da associação de parentes das vítimas e mais, fico de olho pra ver se num tem um outro avião vindo na direção, fico doido na hora da turbulência, fico imaginando o avião se partindo em pleno ar, se eu conseguiria sobreviver, no porque eles não fazem assentos páraquedas ao invés de flutuantes, e pior, nunca preencho aquele verso de cartão de embarque que pede para colocar os dados da pessoa a ser informada em caso de acidentes… hahaha, até parece, é como assinar o próprio atestado de óbito.
    No mais o que conta mesmo é relaxar, lembrar das estatísticas, relaxar, mas sério, só quem sente sabe o que é isso. To procurando terapia porque agora eu tenho um filho e não quero que ele deixe de aproveitar coisas boas por causa de medo, então eu tenho que resolver isso caso precise ajudá-lo.
    No mais valeu pelo texto, excelente, está de parabéns, escreva mais sobre o tema. Com certeza, na próxima vez, quando estiver pensando em todas essas coisas, só de saber que mais um monte de gente vai estar pensando igual já vai ser bem engraçado e com certeza relaxante…

  • http://www.facebook.com/j0a0vargas João Vargas

    Hahahahhaha. Muito bom. As mesmas neuras que tenho. Só faltou aquela acelerada bizarra antes do pouso e o barulho das rodas saindo que o avião começa a tremer todo. Sempre penso na possibilidade de dar uma merda e as rodas não sairem. hahaha.

  • Dica

    Eu tenho muito medo de voar. Mas estou tentando com todas as forcas perder esse medo, pois ele ja esta me prejudicando muito, profissionalmente e mesmo pessoalmente, porque amo viajar. Meu sonho eh nao sentir medo nenhum e ficar tao a vontade e segura quanto estou na sala de estar da minha casa. De qualquer modo, o texto eh divertidissimo e ajuda muito saber que nao estou sozinha nessa. Abs.

  • Mari

    Me identifiquei muitooooooooooooo! Penso tudo,igualzinho, toda vez que vou voar! hahahahah

  • Camilla Carvalho

    FERNANDO VASCONCELLOS, esse texto reflete tudo, absolutamente tudo o que sinto, quando entro em um avião. tamo junto !

    Haaa vc esqueceu de um detalhe: eu rezo para que se cair, que eu não sobreviva, como naqueles filmes de drama (ou seria terror?) em que as pessoas precisam comer carne humana!

  • Morgana

    Nossa, eu nunca pensei que alguém imaginasse o mesmo que eu, desde olhar crianças e sentir mais tranquilidade, até imaginar as notícias e a dor de minha família…kkkkk Já fiz psicanálise, PNL, agora faço terapia cognitiva, tomo reconter para quem tem fobias, já tomei lorazepan e rivotril, mas minha adrenalina é tanta que tenho efeito rebote, fico mais de 30 horas acordada. Dramin já tomei mais de 4 dramins e nada..rs Nem faz cócegas. Já desmarquei tanta viagem e perdi tanto dinheiro, que já nem faço mais contas. Agora tenho uma viagem para Portugal, estou lendo livros sobre medo de avião, tenho um amigo comandante e vou tentando melhorar, mas o medo e os pensamentos trágicos estão sempre aqui.

  • Lilian Helena

    Pessoal, boa tarde, vocês tem a paranoia de ficar ligando os números, ex. voo, data de nascimento, data de ida etc, tudo parece que vai ser anunciado na tv, como coincidências!

  • joyce

    nossa…. adorei seu relato… estou terminando o curso de comissária… e vou ter que lidar com situações aonde os passageiro vão se sentir igual a vc …. mais apesar de tudo é uma maravilha vc com poucas horas estar em outro país e assim por diante… amo voar e se tiver que morrer… fazer o que ? é o nosso destino…. vou morrer muito feliz… mais espero ainda voar bastante e ter muitas histórias pra contar…..

  • http://www.facebook.com/edna.santoro Edna Santoro

    Fernando, ri muito com seu texto… e me identifiquei totalmente… eu também me borro toda rsrsrsrs e tenho exatamente estes mesmos pensamentos… Hj voltando de Recife, percebi a aeromoça comentando para a outra que estava no final da aeronave para chamar a atenção do pai de um pirralho que estava sentado na saída de emergência…. o pestinha estava mexendo na alavanca… e o bichao já tinha decolado… ai ai ai… passei metade do vôo no banheiro… p…medo e eu no trono rezando pra nao dar turbulência…. kkkkkkk

  • Sheila Yurgel

    Absolutamente fantástico o seu texto. Vivo em Amsterdam e com frequencia viajo ao Brasil., e toda vez é o mesmo problema : mêdooo, porém com a cara e a coragem eu embarco!!! Mas o pior é minha melhor amiga, que nunca veio me visitar por não conseguir nem pensar em entrar num avião.

    Adorei, dei muita risada. Parabéns!!!!

  • Liane

    Muito bom o seu texto, Fernando! Também tenho medo de voar e me identifiquei com absolutamente tudo que você escreveu! Parabéns e “bons” voos! rs

  • Ana

    Que alegria saber pelo menos que não estou sozinha. Passo exatamente por cada detalhe do que você passa. Ai, ai.

  • Azul Psicologia

    Gostaria de deixar umas dicas para quem tem medo de avião: http://www.azulpsicologia.com.br/carreira/571

    Eduardo Drummond
    Psicólogo Clínico
    CRP 05/35489

  • fe

    bbbbbbbbbboooooooooooooommmmmmmmmmmnmmmm

Papo de homem recomenda

Assine o Papo de homem

Curta o PdH no Facebook
  • 4412 artigos
  • 595684 comentários
  • leitores online

Lifestyle Magazine