Meditação: um guia para homens céticos – Parte II
Continuação da primeira parte de nosso Guia sobre Meditação. Não deixe de ler a primeira parte antes de entrar nesse artigo. E prepare-se para rever tudo que achava saber sobre a arte de meditar.
Efeitos
Meditar não significa deixar a barba crescer e se isolar do mundo
Matérias sobre meditação na mídia inevitavelmente enfatizam seus efeitos biológicos: “medite e seja mais saudável”. Isso é verdade: a postura facilita a circulação do ar, a alimentação muda (comer muito e errado transforma a meditação em um pesadelo!), a qualidade do sono melhora, diminuem consideravelmente o estresse e a ansiedade que antes nem sabíamos que existiam em nós.
Observe-se agora e sentirá uma leve contração, uma espécie de nó que faz seus ombros tensionarem. Esse medo não localizável é um processo que nos impede de respirar com os dois pulmões e pisar com os pés no chão.
Os efeitos sutis são os melhores. Sutis, mas igualmente mensuráveis no funcionamento de nosso campo emocional, habilidades cognitivas e principalmente nas nossas ações e relações cotidianas. Sentimos o frescor de uma vida autêntica (como queriam os existencialistas), livre das artificialidades e estratégias que usamos para nos conectar com as pessoas. Estratégias que enpalidecem nosso mundo.
Com a prática, as cores voltam a ficar vívidas e sentimos mais prazer com nossos cinco sentidos. Coisas banais como acordar e escovar os dentes nos alegram. Apesar de ficarmos mais expostos às dores, os sofrimentos desvelam uma qualidade onírica e não nos afligem tanto. Pouco tempo de meditação já nos mostra que não precisamos de quase nada para ser feliz e inflar a vida de sentido. Basta voltar à nudez crua do simples viver.
Por onde começar?
Para meditar não é preciso estar ligado a prática religiosa alguma. Hoje há um movimento para desvincular as técnicas de atenção, contemplação e meditação das tradições de fé. Ainda assim, os principais professores e instrutores são mestres de alguma tradição e, por isso, falar em meditação ainda é de algum modo falar em religião.
O importante é sempre analisar o grupo de praticantes e o instrutor, além de testar cada ensinamento na teoria (pensamento, filosofia, lógica) e na prática (quais os benefícios na sua vida). Uma boa opção é aprender meditação cristã, budista ou hindu, mas sem se filiar à religião ou adotar doutrina alguma. Como sou apenas um iniciante, deixo instruções básicas para começar a praticar.
Os interessados devem procurar um grupo e um professor qualificado. Antes de começar, não encare a prática como algo místico ou esotério e não fique contando a todos que agora você está meditando. No futuro, isso trará complicações desnecessárias: ou alguém vai cobrar uma postura lúcida de você e repreendê-lo a cada ação impulsiva, ou você sem querer acabará contribuindo para a tese de que a meditação não funciona, não traz benefício algum.
Estabeleça uma boa motivação também: como você causa mais sofrimentos nos outros do que em si mesmo, vá meditar focando trazer felicidade a todos os seres.
Comece com 5 ou 10 minutos diários. Para muitos, 5 minutos é muito tempo! É natural que seja assim, portanto respeite sua atual condição. Escolha um local tranquilo e sente-se em uma almofada. Os dois joelhos devem tocar o chão, portanto a postura de índio está descartada. As pernas devem se cruzar paralelamente (postura birmanesa), com um pé em cima da outra perna (meio lótus) ou com os dois pés em cima das pernas (lótus completo).
Isso não conta como posição de relaxamento
Se tiver dificuldades em encostar os dois joelhos no chão, use uma almofada mais alta. Coluna ereta, mãos repousando sobre as coxas, língua no palato (para reduzir a salivação), olhos abertos ou semicerrados 45º à frente, respiração natural sem esforço, queixo para dentro. É importante não fechar os olhos porque o objetivo é manter o contato com os fenômenos, não se perder em algum estado particular da mente.
Vários pensamentos e emoções surgirão no espaço da sua mente. Em algum momento, você será fisgado e entrará em uma cadeia de respostas condicionadas: “Ontem aquele filme, bem legal, mas eu não curti o final. Aquele outro é bem melhor, assisti no cinema com aquela garota gostosa. Que pernas! Será que consigo sair de novo com ela, acho que tenho o número de telefone…”. Quando você acordar, estará em pé com o celular na mão, descontrolado pela libido! Mas você está meditando.
Em algum ponto, lembra-se disso e retorna: “Puxa, estou meditando aqui sentado”. Você fará esse processo várias e várias vezes. O objetivo não é reprimir o que surge, mas simplesmente exercitar a opção de não responder, não reagir. Quando ficar bom nisso, terá liberdade de mover sua libido, em vez de ser movido por ela. Liberdade de ligar ou não para a garota. Meu professor conta que liberdade é poder falar “ou não”.
Dizem que após o início da prática contemplativa nossa vida piora muito antes de melhorar. Na verdade, essa sensação de piorar surge porque enfim vemos nossa confusão e paramos de nos enganar. Comigo, ainda não melhorou. Para ser sincero, não chegou sequer a piorar!
Meu orgulho e minha preguiça insistem em achar que não preciso meditar e que tudo está bem como está. Tenham compaixão por mim e meditem muito. Por favor. Eu escrevi todo esse texto só para isso.
Depois da prática
“As práticas espirituais só adquirem seu sentido na vida cotidiana. A relação com nossos pais, esposa, marido, filhos e colegas de trabalho, isto é o termômetro da prática. Todas as construções espirituais, ainda que meritórias, são esponja, água e sabão, ou seja, dispensáveis ao final.” –Lama Padma Samten
Está na hora de aproveitar sua vida sem carregar o mundo nas costas
No final, o que importa mesmo são as 23h nas quais você não está sentado em meditação. O método budista, por exemplo, divide o treinamento em três etapas: visão, meditação e ação. Você pensa, analisa, compreende. Depois senta, respira, contempla.
Tudo para poder se levantar e começar a fazer o trabalho sujo mundo afora. Quando finalmente se livrar do peso que você é (seu autocentramento, suas justificativas, sua seriedade), aí sim a brincadeira começa!
Gustavo Gitti é formado em filosofia e passa a vida tentando meditar, tocar bateria e dançar salsa, samba e tango. É autor do excelente blog sobre relacionamentos Não Dois, Não Um, do Transconhecimento e do novo blog sobre ritmo TaKaDiMe .
Gustavo Gitti é baterista sem bateria, meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro. É autor do Não2Não1 e coordena a Cabana PapodeHomem.
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