Terminados os campeonatos estaduais, vem as comemorações e as análises. Ao contrário do que acontecia recentemente, quando se discutia quem era o craque do torneio ou qual jogador tinha decidido na final, parece que a figura que se sobressai é outra: o técnico.
Na falta de atletas de alto nível, o garganteador do banco virou figura de proa tanto para o torcedor quanto para os pseudoanalistas das mesas redondas. Ganham e perdem jogos, são heróis ou vilões, parece que absolutamente tudo passa por eles.
Heil, Hit… quer dizer, Heil, Luxa!
E alguns se aproveitam disso para passar por gênios, tentam falar difícil, e muita gente engole e pensa que tudo que acontece tem o dedo do mestre de marionetes que manipula seus títeres em direção à vitória ou à derrota.
Dos treinadores vedetes, o principal é Vanderlei Luxemburgo. O precursor do marketing na classe dos senhores do banco é, sem dúvida, um vitorioso entre os seus. Competente, introduziu o terno Armani nos às vezes bem acanhados e modestos estádios do Brasil. Agora, de novo é tratado como gênio, por ter sido campeão paulista com o Palmeiras e igualado o recorde de títulos paulistas de Lula, treinador do mítico Santos dos anos 50/60.
Já circula o vídeo de sua preleção antes da partida decisiva contra a Ponte Preta, digno dos ensinamentos motivacionais do hoje semi-esquecido Lair Ribeiro. Na ocasião, ele deu um kit com faixas de campeão aos jogadores, falou os palavrões de sempre e os incentivou com um lenga-lenga comum nos vestiários.
Alguns assistirão o vídeo e pensarão: “nossa, como ele sabe incentivar o grupo”. Mas, e do outro lado, será que o treinador da Ponte, Sérgio Guedes, não fez nada para incentivar seus comandados? Fez, e não foi pouco. Colou recortes de jornais com todos os colunistas que diziam que o Verdão era campeão, estimulou seus jogadores, mexeu em seus brios. E a Macaca perdeu de 5 a 0.
Hmmm, alguém me empresta um Mach3?
A motivação é a diferença? Bobagem. É só olhar para o elenco de um e de outro time e dá pra perceber quem é favorito. Mesmo a tática passa a valer menos. Claro que o mistério pertence ao futebol, como diria Nélson Rodrigues, mas tudo favorecia o Verdão. E aí está o grande mérito de Luxemburgo: sempre estar no time que tem mais condições de contratar.
Foi isso que o levou ao Palmeiras. O treinador saiu do Santos por conta das sérias restrições de recursos que o Alvinegro já anunciava em 2008. Deixou a bucha pra Émerson Leão e foi pro Palestra, cujo parceiro gastou muito para tirar o Alviverde da fila.
Na verdade, a vida do treinador tem sido essa. Sem bons elencos, Luxa sai logo. Foi assim em suas passagens-relâmpago pelo Guarani, Ponte Preta e Paraná. Também teve trabalhos pouco gloriosos no Flamengo, uma vez em 1991/1992, e outra com o “melhor ataque do mundo”, com Sávio, Romário e Edmundo em 1995. Não ganhou nada.
E, pior, contribuiu para o rebaixamento do próprio Palmeiras em 2002 quando saiu no início do Campeonato Brasileiro, tendo barrado jogadores importantes como Claudecir e Magrão, hoje ídolo do Internacional.
Quando não tem amplos poderes, apitando em áreas do clube que não seriam competência de um treinador, Luxa também sofre. Foi assim no Real Madrid, onde fracassou de forma rotunda, e também na seleção, quando foi desclassificado de forma vexatória nas Olimpíadas, contra Camarões na prorrogação. O time africano tinha dois atletas a menos.
Mas fazer o que? Dizem que a História pertence aos vencedores e agora todos esquecem das derrotas e vexames do “gênio”, que adora atribuir a si próprio os méritos de seus boleiros. Às vezes até encarna o vidente. Os palmeirenses chegam a vibrar como um gol quando seu treinador enfrenta um jornalista exclusivamente por conta de uma demanda pessoal. Talvez este seja o maior reflexo do quanto os comandantes cresceram em importância com a falta de ídolos no gramado.
Mesmo vencedor, com o apoio da mídia, ainda falta a Luxa uma final de Libertadores. E olha que chances ele teve várias. Em 1994, com aquele senhor Palmeiras turbinado pela Parmalat, quase ficou na primeira fase e foi desclassificado nas oitavas pelo São Paulo.
Se algum daqueles surdos-cegos-mudos do Fantástico lerem meus lábios agora, vou mandar todo mundo tomar no cú tranquilo!
Em 1995, ainda com o Verdão, saiu nas quartas derrotado pelo Grêmio e, em 1999, caiu novamente nas quartas perdendo para o seu ex-time Palmeiras, à frente do Corinthians. Sua melhor campanha foi em 2007, com o Santos de Zé Roberto, quando foi eliminado pelo Grêmio na semi. Não conseguiu o que treinadores menos badalados fizeram, caso de Jair Picerni com o São Caetano, Valdir Espinoza, Antonio Lopes (duas vezes) e Paulo Autuori (duas vezes).
Luxa é bom, mas não é gênio. Os jogadores, por piores que sejam, ainda decidem.
Glauco Faria é filho de peixe. Santista e jornalista, tem birra do Luxemburgo e escreve para o Futepoca.
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