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Journey: três horas de generosidade com um controle de videogame nas mãos

Fabio Bracht

por
em às | Artigos e ensaios, Cultura e arte, PdH Shots


Um completo estranho, sentado ao mesmo tempo que eu em frente ao seu PlayStation 3 em algum outro lugar desse planeta chamado Terra, acabou de dedicar três horas da vida dele a me guiar por uma jornada e me ensinar a ser como ele.

Nós não trocamos sequer uma palavra e não sabíamos nem mesmo o nome um do outro durante todo esse tempo.

Journey

O estranho me ajudou. Me mostrou onde estavam as coisas. Teve paciência comigo quando errei. Esperou por mim quando fiquei para trás e ficou para trás nas partes em que eu precisava ver as coisas por mim mesmo. Preocupou-se em ter certeza que eu não deixaria de passar pelos locais importantes e visse as coisas interessantes.

Com genuína surpresa, concluí: foi a primeira vez que um “jogo de videogame” me fez experimentar, em vez de agressividade, competitividade ou rivalidade, o sentimento de generosidade.


Soundcloud | Trilha sonora do jogo e deste texto

Sozinhos, mas juntos

Journey é um software interativo para PlayStation 3. Você joga com um controle, olhando para a TV, mas, como pode ver pelas aspas acima, estou tendo muita dificuldade em chamá-lo simplesmente de um jogo de videogame. Me parece uma definição insuficiente. No entanto, vamos seguir com esse conceito.

Você controla um personagem sem nome e com vestes vermelhas esvoaçantes. O objetivo, que logo fica claro, é cruzar o deserto até chegar ao alto de uma montanha distante no horizonte.

Journey

Há bem mais do que só areia entre você e aquela montanha

Para chegar lá, você vai passar por diversas áreas diferentes, e aqui entra a alma de Journey, o que torna ele uma experiência tão incrível: você não estará necessariamente sozinho.

Em cada área, você encontra uma outra pessoa. Alguém como você, com um personagem idêntico ao seu, jogando o mesmo trecho do mesmo jogo, ao mesmo tempo. A respeito um do outro, vocês não sabem nada além do fato de ser outro ser humano, ali, controlando aquele personagem junto do seu. A única forma possível de comunicação é um pequeno som e uma pequena luz para chamar atenção do outro explorador.

Uma experiência de existência compartilhada, através de um videogame. O quão louco é isso?

Jenova Chen, o diretor e maior mente criativa por trás de Journey, recentemente deu uma entrevista curta e ótima, na qual cita aspectos espirituais, fala da importância da trilha sonora orquestrada (ela foi composta durante três anos) e referencia Jornada do Herói, de Joseph Campbell. Meu trecho favorito:

“Nós observamos os jogos online para consoles e vimos que existe muita competição… as pessoas têm imagens muito negativas umas das outras. Quando você está em um jogo online, sente que todo mundo é meio cuzão.

Quando nós observamos [isso], pensamos se poderíamos criar um jogo no qual as pessoas realmente gostassem umas das outras ou se sentissem bem a respeito de estar junto com outro ser humano. Acreditamos que, pela natureza humana, este é um sentimento de que precisamos, e que as pessoas iriam gostar disso.”

O treinamento

Cheguei ao fim dessa jornada duas vezes, na verdade. A primeira, porém, foi do jeito “errado”: em três sessões curtas (o jogo não dura muito mais do que um filme, então o ideal é começar e terminar de uma vez), sempre dividindo atenção com conversas por Facebook ou SMS. Já achei o jogo sensacional nessa primeira experiência, dividindo o protagonismo com outros seres cambaleantes, mas somente na segunda vez eu tive a experiência motivadora desse texto.

Ao começar a minha segunda jornada, em vez de encontrar um personagem com as vestes vermelhas iguais às minhas, me deparei com um ser mais angelical, vestindo branco e dourado. Diferente dos seres vermelhos que encontrei da primeira vez, ele não parecia perdido. Não parecia compartilhar o meu objetivo, o meu esforço de chegar ao final. Parecia mais tranquilo.

Journey

Tomando a frente, ele me guiou (chamando com repetidas sequências daquele som, a única forma de comunicação no jogo) até dar a volta em uma queda de areia, atrás da qual havia um item brilhante escondido. Não o percebi da primeira vez que passei ali, e certamente não perceberia de novo. Aquele foi o momento quando entendi: ali estava alguém que já havia chegado ao final, conhecia cada canto desse mundo, e tinha voltado para guiar outra pessoa.

Essa outra pessoa era eu.

A pessoa controlando o ser branco não tinha motivo algum para fazer aquilo. Ela já havia terminado a jornada. Mas teve a generosidade de voltar e gastar seu tempo guiando outro jogador, dedicando-se a melhorar a experiência de outra pessoa. Descobri vários locais incríveis e coisas bem escondidas, unicamente graças à generosidade dessa segunda pessoa. Uma pessoa real, que existe, fora desse videogame, no mesmo mundo que eu, mas que não sei quem é.

Passei as próximas três horas na companhia dessa pessoa, até chegar, mais uma vez, ao final da minha jornada.

E descobri que agora também poderia me vestir de branco e dourado. Eu havia sido treinado para ajudar outras pessoas.


YouTube | Tente não se emocionar com este trailer

A vontade de retribuir imediatamente aquela generosidade era grande no meu coração, mas eu não tinha muito tempo. No pouco que tinha, descobri que um dos micro-objetivos do jogo era sentar em meditação por 20 segundos com outra pessoa.

Há um botão para sentar, mas ele não é óbvio ou necessário em momento algum do jogo. Esperei um pouco até encontrar outro jogador. Quando ele, vermelho com a inexperiência, me viu de branco e dourado, deve ter sentido o mesmo que eu havia sentido três horas antes. Comecei a sentar e levantar repetidas vezes, até o outro jogador entender a sugestão de que ele fizesse o mesmo. Após alguns momentos de hesitação, deve ter descoberto o botão para fazer isso e sentou.

Ficamos ali, sentados juntos no meio do jogo. Havia um cenário incrivelmente bonito ao nosso redor. Uma linda música suave tocava. Vinte segundos depois, um com a ajuda do outro, completamos a nossa pequena meditação.

Reflection

Ele deve ter se sentido grato.

* * *

A grande novidade dos games neste maio de 2012 é Diablo III, um jogo cujas principais mecânicas envolvem matar, amaldiçoar, roubar e revender tesouros. Não há absolutamente nada de errado com isso. Mas para mim é reconfortante saber que Journey bateu o recorde de vendas da PlayStation Store, tanto nas Américas quanto na Europa, desbancando um jogo com sangue até no nome.

Fico feliz em ver que, assim como no cinema há, para cada Os Vingadores, um Pina, também há cada vez mais nos games espaços para experiências sublimes.

Fabio Bracht

Toca guitarra e bateria, respira música, já mochilou pela Europa, conhece todos os memes, idolatra Jack White. Segue sendo um aprendiz de cara legal. [Facebook | Twitter]


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  • Guilherme

    Então a palavra certa era generosidade.

  • http://www.facebook.com/people/Alex-Abreu-de-Paula/100001721717088 Alex Abreu de Paula

    acabei de me arrepender de vender meu play…

  • Ramon Távora

    Lendo esse texto só me veio a mente dois jogos do PS2, ICO e Shadow of the Colossus.
    Eu acho que nós veremos mais e mais jogos que podem ser chamados de “Arte”. Fiquei curiosíssimo com esse jogo, queria achar mais opções do tipo pro Wii. Tudo nele é genial.
    Preconceito diminuindo vertiginosamente do PS3…

    • http://www.facebook.com/emerson.weber.9 Emerson Weber

      Ookami tambem. Simplesmente foda.

      • Ramon Távora

        Estou atrás dele, ainda não consegui jogar…

      • http://twitter.com/GeovanniCoelho Geovanni

        Jogue, mas jogue com gosto e sem pressa, pois tudo nele é lindo.

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      A primeira coisa que eu fiz depois de terminar Journey foi comprar o Remake HD do Shadow of The Colossus. 

    • http://www.facebook.com/people/Renan-Felippe-Correa/100000791971084 Renan Felippe Correa

      Ele é de uma empresa que a sony é dona então so vai rolar pro ps3… outro otimo jogo desses indies e diferentes do comum é limbo

    • http://www.facebook.com/arthur.s.mendonca Arthur Silva Mendonça

      shadow of the colossus foi o único jogo, pra mim, que conseguiu recriar aquele ambiente de fantasia de Zelda: Ocarina of Time. Os dois valem a pena só para andar pelo cenário

  • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

    É bom ver jogos estritamente cooperativos em meio a infinitos lançamentos de FPS e porradaria generalizada.

    Muito bacana essa mecanica de treinar um jogador para que ele guie e treine os demais jogadores. É uma coisa que eu sinto falta nos jogos mais populares: ninguém te explica nada, você precisa jogar com um guia de jogo aberto em alguma janela, e se o seu desempenho é ruim, você é zoado pelos rivais e insultado por quem teoricamente deveria estar do seu lado.

    Também é bom ver jogadores aprendendo enquanto jogam. É muito frustrante ver alguém jogando mal ad eternum sem aprender absolutamente nada com o jogo.

  • David

    Ótimo texto, boa sugestão… E ao visto um bom jogo, realmente ter pensando em solidariedade e companheirismo como pontos básicos me impressiona neste jogo.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100001516544153 Rafael Ribeiro Rocha

    Esse jogo é simplesmente sensacional! Superou Shadow of Colossus, concordo com o Fábio, vai muito além do que se espera de um jogo de videogame. Tenho que jogar de novo pra ajudar algum iniciante, e de certa forma retribuir quem me ajudou na primeira vez.

    Possível SPOILER:

    Fantástico aquela parte na neve um pouco antes do final… Sem nem saber o porquê, tentei escrever thank you nos rastros da neve… Meu companheiro entendeu e fez o mesmo. Fiquei emocionado, de verdade!

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      CARALHO. 

    • Leandro

      Podem achar exagerado, mas segurei uma lágrima só de imaginar a cena do agradecimento.

  • http://twitter.com/anabnas_ ana b.

    Journey é um dos jogos mais gratificantes e que conseguiu canalizar todo o mal embutido na minha alma para aquelas areias, tão magníficas e mutáveis.

    Uma das minhas experiências de games mais maravilhosas, tanto espiritualmente quanto graficamente que poderei experimentar um dia. Como o próprio criador disse em sua entrevista, o sentimento gerado nesse jogo deveria ser compartilhado mais vezes no mundo real.

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      Ana, recomendo MUITO que tu jogue “Ico”. Tem na PlayStation Store, para baixar, mesmo preço do Journey. Nem pergunte, apenas jogue.

      • http://twitter.com/anabnas_ ana b.

        Pode deixar, já tá anotado. ;D Obrigada pela dica.

  • http://www.facebook.com/people/Saulo-Mesquita-Cerqueira/100001632257916 Saulo Mesquita Cerqueira

    Cara, todos os gamers que conheço deveriam ver isso

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      Compartilhe com eles, Saulo. :)

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Recomendo muito escutar outras músicas da trilha,

    http://soundcloud.com/awintory

    espetacular.

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      Eu recomendo só pra quem, infelizmente, sabe que não vai jogar. Quem tiver a oportunidade, melhor que ouça pela primeira vez no próprio jogo…

  • http://www.facebook.com/people/Daniel-Castro/100002149254610 Daniel Castro

    muito bom esse jogo, pqp completei a jornada 5x no mesmo dia que lançou .. emociona

  • http://www.facebook.com/people/Marcio-Diniz/100000180717236 Marcio Diniz

    Sublime.

  • http://www.baixinhoinvocado.blogspot.com Wagner Villa Verde

    E EU AQUI ALUCINADO PARA TER ESSA EXPERIÊNCIA !!!

    Acho que o Fábio tem toda razão quando desperta em nós o que esse jogo pode provocar … é difícil um jogo com essa idéia fazer sucesso.

    O mundo anda precisando mesmo de pensamentos mais sublimes e de mais LUZ !!

  • Emerson Machado

    Deu vontade de comprar um PS3 só para jogar… Fantástico!

  • Ficticio

    e quem não tem PS3, comofaz?

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      Eu não tenho. Joguei no de um amigo. 

      Seria impossível fazer isso com jogs tradicionais, que demoram de 15 a 30 horas pra acabar, mas Journey não dura muito mais do que o tempo de um filme. 

  • http://twitter.com/becoldasice Alexandre Wiechers Vaz

    Fiquei arrepiado pra caralho só lendo o teu texto e bateu uma vontade enorme de comprar um PS3 unica e exclusivamente pra jogar Journey

  • http://www.facebook.com/people/Duda-Bolibeira/100003568224225 Duda Bolibeira

    Uma coisa que pude perceber através do game, é de que o homem gosta de reconhecimento, de dizer eu fiz, eu sou, e neste jogo podemos ver que isto é bastante irrelevante.

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      Bastante, bastante. Somos completos anônimos, participando das jornadas de outros anônimos.

  • http://www.facebook.com/valsortiz Valquíria Sampaio Ortiz

    Fiquei louca pra jogar esse jogo!!! Não tenho PS3 e afins porque sou facilmente viciável! hehehehe

  • http://www.facebook.com/people/Tiago-Xavier/100001465290255 Tiago Xavier

    Poucos jogos fizeram minha família me assistir jogar videogame. Isso mostra os méritos de Journey.

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      Eles ficaram até o final? Quanto tempo demorou até alguém quebrar o silêncio? 

      Simplesmente não tem como falar nada naquele final, cara. É um momento de contemplação foda.

      • http://www.facebook.com/people/Tiago-Xavier/100001465290255 Tiago Xavier

        Viram justamente o último terço (falo genericamente pra não spoilear).

        Encontrei um sujeito de dourado hoje. Realmente, generosidade é a palavra certa pra descrever a experiência desse jogo.

  • lvcivs

    Irado, gostei!

    Com o GT5 agora são dois jogos pra justificar a compra do PS3…

  • Zartan Magnus

    Ainda não tenho um Play 3, mas quando eu tiver essa oportunidade, certamente esse game será o primeiro! 

  • Toninhogbs

    Vou comprar um play por causa desse post.

  • http://www.facebook.com/people/Renan-Felippe-Correa/100000791971084 Renan Felippe Correa

    LIMBO também é um jogo que merece ser citado nesse papo de jogos “diferentes”

  • Diogo Cordeiro da Silva

    Que lindo esse jogo. Muito massa… 

  • Pedro Ivo

    Eita, é bom ver o Fabio voltando aos seus primórdios, escrevendo sobre games!

  • Arthur Franco Ferreira

    Que isso, fera. Tão cedo eu vou ter condições de ter um PS3 ou tempo para jogar, mas fico na inveja. Gostei muito do post e, caso eu venha a pegar um PS3 no futuro, não vou me esquecer da dica.

    Valeu, Fábio!

  • Olaf Q

    Shadow of the Colossus fellings, realmente deu vontade de descobrir esse jogo.
    Como já supracitado, Limbo tem uma experiência MUITO diferenciada também, vale muito a pena, jogo em PB, sem música, sem intro, somente jogue… Acho bem assustador e agoniante a a jornada de Limbo.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000169808328 Reyk Alencar

    Machinarium é outro excelente game..ótima trilha sonora, e um objetivo interessante, mesmo que o foco do jogo seja raciocínio lógico, tem um lado interessante também..

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  • http://www.facebook.com/priscilage Priscila Garcia Escudero Xavie

    Jogo arrepiante! <3

  • http://www.facebook.com/priscilage Priscila Garcia Escudero Xavie

    <3 <3 <3 <3 <3 < 3 <3 – Este jogo desperta valores que faz falta não só nos jogos mas no mundo, tomara que seja um preságio de uma mudança que esteja ocorrendo, já que o que ocorre nas telinhas não é nada mais que o reflexo do que passa na humanidade…

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