Israel e Palestina, uma análise sobre o surgimento do Estado israelense

Valdir Pimenta

por
em às | Artigos e ensaios, Mundo


Esclarecimento ao leitor

Antes de tudo, é preciso esclarecer que o artigo em questão pretende somente dialogar com os fatores que permitiram a fundação do Estado Israelense no território da Palestina, provocando assim um dos mais longos e dramáticos conflitos internacionais de nossa história recente.

Portanto, não tenho aqui o objetivo de posicionar-me em relação a um ou outro pensamento político, o que levaria a ideia de propor uma discussão sobre o tema a uma linha de raciocínio agressiva e, consequentemente, a comentários e posições igualmente agressivos.

Calma

De fato, não é a intenção causar isso entre nossos leitores. Acho mais interessante esclarecer alguns pontos sobre a questão da fundação do Estado de Israel e do território da Palestina para que possamos conversar abertamente sobre esse assunto que, naturalmente, e pela carga histórica que carrega, já é bastante delicado e problemático.

Os judeus na Europa e o sionismo

Existem muitos argumentos que tentam compreender as raízes do movimento nacionalista judaico na Europa:

1. Assimilação da comunidade judaica aos povos locais;

2. O movimento nacionalista seria o único meio de preservar a fé judaica;

3. Perseguição antissemita aos judeus europeus (antissemitismo: preconceito ou hostilidade contra judeus  baseado em ódio contra seu histórico étnico, cultural ou religioso) presente sobretudo na Europa Oriental, em países como Rússia ou Polônia.

Leão Pinsker e Theodor Herzl foram os principais líderes ou incentivadores do movimento sionista (movimento político e filosófico que defendeu o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado judaico independente) a partir do final do século XIX. Em 1896, Herzl publicou o livro intitulado Judenstaat (O Estado Judeu), em que defendia a criação de um território autônomo e independente para a comunidade judaica.

O curioso nesse caso é que o autor sugeriu parte de duas regiões para resolver o problema: a primeira seria a Palestina, mas a outra região pensada por Herzl seria a Argentina! Isso mesmo colegas, a terra de nossos “hermanos” foi pensada como solução para resolver o problema da morada final dos judeus. Figuras conhecidas como Maradona ou Messi poderiam ter nascido então na parte que teria cabido aos judeus.

Só para se ter ideia, mais de 100 mil judeus imigraram para a Argentina entre 1840 e 1914.

Mas essa é outra história. O fato é que imaginavam poder tomar territórios de civilizações ditas “atrasadas” e assim fundar seu Estado, mas em 1897, em um congresso sionista na Basiléia, ficou definido que a Palestina seria a melhor opção para o povo judeu. Portanto, nada de tango em hebraico para os argentinos.

A participação britânica

Inglaterra mete o bedelho

Ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os sionistas tiveram a oportunidade de criar órgãos independentes para representar o movimento por meio do que os ingleses chamaram de “Mandato Britânico sobre a Palestina”, ou seja, à grande potência imperialista da época não era interessante, naquele momento problemático, mais um tipo de “ação colonizadora”, embora esse posicionamento ferisse os acordos que os britânicos tinham com os árabes naquela época.

De qualquer forma, o movimento sionista necessitava de apoio das forças imperialistas e a ideia sobre o território palestino entrava diretamente nesta concepção. Sobre isto afirmou Theodor Herzl em seu livro:

“Se sua majestade, o Sultão, nos desse a Palestina, poderíamos comprometermo-nos a estabilizar completamente as finanças da Turquia.

Para a Europa, constituiríamos ali um pilar contra a Ásia, seríamos a sentinela avançada da civilização contra a barbárie. Manteríamos como Estado neutro, relações constantes com toda a Europa, que deveria garantir a nossa existência”.

Árabes na Palestina

O movimento nacionalista árabe teve também início em meados do século XIX. Nessa época, o território palestino era dominado pelo Império Otomano a comando do sultão Abd al-Hamid II (1875-1908) que, por sua vez, era contrário ao movimento sionista por entenderem nele uma tentativa de domínio europeu da região.

Os primeiros judeus começaram a chegar ao final do século XIX. De início, as relações com os árabes não apresentavam grandes atritos. O primeiro conflito violento entre os dois povos ocorreu em 1886, quando nativos atacaram o assentamento de Petach Tikva, o mais antigo entre os assentamentos judaicos da região. Assim, a partir de 1893, teve início, de fato, a primeira campanha árabe contra a colonização judaica.

Segundo estatísticas da ONU, em 1922, havia na Palestina 750.000 habitantes, dos quais 90% eram árabes.

O conflito entre os povos

Até aqui foi possível observar que o conflito no Oriente Médio, entre judeus e palestinos, está ligado a expansão do projeto sionista no início do século XX. Porém, as proporções catastróficas que este assumiu até o princípio do século XXI (hoje) estão também atreladas a algumas questões que envolvem a política externa da Grã-Bretanha:

1. O acordo que garantia apoio militar árabe aos britânicos durante a Primeira Guerra e, como retribuição, garantia ao povo árabe independência na forma de um Estado;

2. As desavenças na distribuição territorial entre os países vencedores da guerra e a posse da Palestina;

3. Revelação de acordos secretos entre os países vencedores da guerra.

A situação após a Segunda Guerra Mundial

Os britânicos sempre mantiveram estratégias políticas que lhes garantiam o controle da maior parte do Oriente Médio. Essas manobras se mantiveram bem posicionadas no período entre guerras, mas após 1945, o nacionalismo dos povos desta região tomou forte propulsão, sobretudo contra o movimento sionista e a presença e influência francesa e britânica na região.

Podemos justificar essa mudança com a formação de uma sociedade mais consciente e aberta a ideias ocidentais de liberdade e independência, sendo dessa época o surgimento dos primeiros líderes que comandavam a população revoltosa nas ruas e que se clamava contra a exploração estrangeira.

Para se ter ideia, em 1941, o Estado iraniano conseguiu resistir a uma invasão comandada por britânicos e soviéticos em seu território e assinou acordos com esses países que lhe garantiram a soberania de suas fronteiras (não é difícil observar que até os dias de hoje o Irã representa uma forte “dor de cabeça” ao mundo ocidental).

O fato é que após 1945, o poderio britânico estava enfraquecido (economia em crise, dívida externa e impossibilidade de manter o custeio das tropas no vasto Império) e foi necessário recorrer ao apoio norte-americano para que não perdessem completamente suas atividades no Oriente Médio. Foi dessa forma que, após passar à ONU a responsabilidade sobre o conflito árabe-israelense, a Grã-Bretanha retirou-se por completo da região palestina em 1948, motivo que estimulou e intensificou o conflito na região.

O lado anti-judaico do movimento sionista

Refugiados judeus no navio S.S. St. Louis

Entre 1942 e 1943, muitos judeus já haviam sido mortos pela política extrema de extermínio da ação Nazista, porém, outros tantos conseguiram escapar (inclusive para regiões do Brasil).

Reside o problema em que esses refugiados encontravam-se em péssimas condições de sobrevivência e era necessária uma ação que atendesse essa população. Esse foi um bom motivo para que os sionistas pressionassem os ingleses e exigissem a entrada na Palestina. Discussões e negociações foram travadas entre Churchill, Roosevelt e a liderança sionista.

Poucos resultados efetivos. Mesmo dentro dos Estados Unidos, muitos judeus eram contra a formalização do Estado israelense na região da Palestina. Aí entrou uma grande sacada dos sionistas europeus: o grupo de refugiados foi literalmente abandonado pela ação aliada na Europa e mesmo pelos próprios sionistas na arrecadação de fundos.

Essa comunidade foi assim deixada ainda após o fim da guerra, pois bem, reside nisso a estratégia sionista, pois seria bem mais fácil convencê-los nestas condições a partir para uma nova vida na Palestina (visto que a maioria dos judeus temia e ou mesmo era contra a mudança para a região da Palestina).

Israel, ONU e o Estado

Após a resolução da Assembleia Geral da ONU, em 29 de novembro de 1947, foi recomendada a implementação do Plano de Partilha da Palestina. Em 14 maio de 1948 foi declarado o estabelecimento de um Estado judeu, que fora batizado como o Estado de Israel (inicialmente a região fora dividida em oito territórios, sendo três israelenses, três árabes, um enclave árabe em território judeu e uma última parte, Jerusalém, que estaria em controle internacional).

Mediante a situação, os povos árabes invadiram Israel de imediato, em apoio ao povo palestino. Teve início, dessa forma, a Guerra de 1948, que envolveu, além de judeus e palestinos, Iraque, Egito, Jordânia, Líbano e Síria. A organização sionista, mais preparada militarmente, preocupou-se em tomar a maior parte possível dos territórios desenhados e definidos pela ONU e, ao mesmo tempo, registrou-se já ali uma grande baixa de aldeias entre os povos árabes.

Os primeiros grupos palestinos de refugiados (milhares deles) foram formados nesse período. A partir disso, sabemos dos tristes dias que tragicamente estavam marcados a esses dois povos fadados a um conflito que perdura a mais de sessenta anos.

As devidas considerações

A tão desejada Jerusalém

Pode-se afirmar que a fundação do Estado de Israel não representou uma estratégia britânica ou americana como tanto se imagina. Tampouco colocá-lo como uma criação ocidental (a não ser pela perspectiva de inspiração do sionismo no imperialismo europeu), ao contrário, a presença israelense foi um “prejuízo” a esses países (os próprios ingleses chegaram a oferecer outras regiões aos sionistas, como parte do Sinai ou Uganda).

Produzindo esse texto, vejo que acima de qualquer coisa, é necessário “humanizar o inimigo”, buscar brutalmente uma rejeição – não do outro -, mas da figura do inimigo, buscar transformar esse em homem e assim encontrar soluções que resolvam este conflito.

Lembro-me que, ainda garoto, assisti pela televisão uma matéria com crianças de Saravejo e o depoimento de uma adolescente me arrancou lágrimas, não sei ao certo, mas ainda me recordo disso com facilidade e os conflitos daquela também triste região dos Balcãs sempre me sensibilizam.

Há uma obra bastante interessante intitulada A terra das duas promessas, escrita pelo palestino Emil Habibi e por seu amigo israelense Yoram Kaniuk, que busca expor uma visão do conflito e acima de tudo humanizar tais relações a partir de um comovente relato. Fica aqui um de meus trechos preferidos:

“Por acaso não foi você, meu caro Emil, que contou a respeito do pescador árabe que vivia perto de Haifa, em Tantura, junto ao mar, e falava aos peixes? Você contou que um menino judeu se aproximou e lhe perguntou em que língua estava falando com os peixes? E o homem disse: árabe. E o menino perguntou se os peixes entendiam árabe. E o homem (você) respondeu: sim. Os peixes grandes, velhos, aqueles que estavam aqui antes do surgimento do Estado de Israel, entendem árabe! E o menino pergunta, e quanto aos peixinhos? Por acaso eles entendem hebraico? E o homem disse: tanto árabe como hebraico, o mar não tem fronteiras…”

Valdir Pimenta

Historiador, tem especialização em História Social e Ensino de História. Mestre em História Social com ênfase em Religiosidades, Judaísmo e Intolerância. Professor no Ensino Superior e na Rede Pública de Educação. Interesse nas Artes, literatura, poesia e cinema. Ainda escreverá um romance.


Outros artigos escritos por


SEPARAMOS MAIS TEXTOS PARA VOCÊ CONTINUAR LENDO




O texto acima não representa a opinião do PapodeHomem. Conheça a visão e a essência por trás do que fazemos. Queremos uma discussão de alto nível. Antes de comentar, leia nossas boas práticas. Caso deseje enviar um texto e se tornar um autor, venha por aqui.


  • http://www.facebook.com/maycon.reis.585 Maycon Reis

    Como deve ser legal ser dono do mundo. “Vou colocar este povo aqui e pronto.”
    Não é só como manipular um povo ou incitar ódio entre povos. Criar um e impor que os arredores, culturalmente discordantes, engulam esse fato. De onde estiver, Maquiavel está aplaudindo.

    Encontrei A Terra das Duas Promessas no Saraiva
    Autor: Habibi, Emil Editora: Imago Por R$ 38,00

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      Maycon, o livro é sensacional! Vale muito a pena tê-lo entre os seus. A escrita é densa e prende o leitor do começo ao fim. Valeu.

  • Antonio Rodrigues S.Neto

    Este é um dos melhores textos que já li sobre este assunto. Parabens!!!

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      Obrigado Antonio. Continue conosco.

  • Leonardo Linhares

    Valdir, eu já estava achando o seu texto excelente até o final, quando li o trecho em que você menciona a necessidade de “humanizar o inimigo” para entender os conflitos. Há muito tempo não lia algo tão bacana sobre o conflito árabe-israelense. Parabéns!

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      Este argumento é a base do livro “A terra das duas promessas”, trata-se de estar tão próximo e distante em sentidos diversos. Obrigado Leonardo…

  • Thiago

    cara-lho
    pelo amor de Deus, por favor, postem mais post assim
    por favor!

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      ;)

  • Genilson Zunino

    Cara, parabéns, é o primeiro texto sobre esse complicado e extenso tema, que não tenta dar um culpado, e sim uma visão da situação, onde guerras, crises econômicas e interesses influem na vida de pessoas e povos.

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      Obrigado Genilson.

  • Chongo

    de faco trata-se de uma análise importante, apenas peca por iniciar no meio historia. se tivesse se referido de onde é os judeus foram dispersos pelo imperio romano, acredito que teria sido mais explicativo.
    um abraço

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      É um assunto muito amplo que remete ao “início dos tempos”, vamos assim dizer ilustrativamente, ficaria muito difícil partir do surgimento dos hebreus ainda na antiga Mesopotâmia (há mais de 2 mil anos), busquei me concentrar na questão contemporânea da coisa, partindo dos conflitos que tiveram início no século XIX. Mas futuramente podemos trabalhar com um artigo que tenha esse período como foco, é bastante interessante também. Abraço.

      • chongo

        obrigado Valdir Pimenta, seu interesse pela historia daquela parte do mundo é bem vindo para todos, veja que a questao dos judeus e palestinos acaba por dividir todo o mundo. aguardo por mais trabalhos seus sobre os conflitos do medio oriente.

  • http://twitter.com/DEPAIVAOLIVEIRA RICARDO PAIVA

    Excelente texto e elucidativo, já que a grande maioria das pessoas atualmente busca um culpado pela situação (quase sempre acusa os palestinos, por influencia da mídia), quando na verdade a situação já não tem mais volta, é preciso olhar para frente e resolver o problema. A coexistência é uma realidade e uma necessidade, restam as partes resolverem se continuarão assim pacificamente ou de maneira conflituosa. Não concordo em nada com os procedimentos Palestinos, mas concordo menos ainda com a postura de Israel que faz questão de impor força, aumentar o ódio e a rejeição. Pesquisas recentes demonstram que o apoio a política expansionista vem caindo, só que ainda é muito fácil obter apoio pregando o pânico nos Judeus que estão na região e temem ficar sem suas casas.

    É preciso uma posição mundial incisiva contra o colonialismo e a tomada de territórios da maneira como é feita. É preciso um pouco mais de coerência nas ações mundiais, Palestina, Malvinas, e outros territórios Africanos estão de posse, sendo ocupados, reivindicados das mais diversas formas e argumentos, mas o Mundo continua tratando de forma diferente casos semelhantes e sempre beneficiando o mais forte ou o mais rico e esquecendo de discutir e procurar uma decisão justa.

    Terroristas não nascem, eles são produto do meio, da política de exclusão e principalmente da mentira, traição e sacanagem das grandes nações.

    Osama era aliado americano mas ficou puto da vida quando depois de usarem ele, mentiram, descumpriram acordos e ainda sacanearam ele. Se até sua mulher se vinda, imagina um povo inteiro.

    Puta texto, excelente. Continuem assim. E podem deixar aquele papo de férias de buceta e experimentar pau para outra área. Acho que o PDH está retomando os trilhos.

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      Muito legal Ricardo. Obrigado pelo comentário….

  • http://www.facebook.com/joao.r.dealmeida João Renato de Almeida

    Cara muito bom e esclarecedor seu texto… para quem procura entender o conflito e não apenas julgar algumas das partes envolvidas. Tu dialogaste amplamente os valores de um equilíbrio não passifico porem mais justo.

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      A intolerância sempre foi um tema recorrente em meus estudos João, é bastante delicado, mas ao fim das contas o equilíbrio parece a melhor das alternativas. Valeu pelo comentário.

  • Breno Tiki

    É interessante citar que até o conceito do que é sionismo muda conforme o movimento cresce,

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      É verdade Breno, ao passo que cresce e cresceu o conflito cresce também a complexidade daquele se entende em suas determinações.

      • Breno Tiki

        imagino o judeu do Sex XIX idealizando seus kibbutz utópicos e o que se faz como Estado consolidado

  • Santiago Queiroz

    Texto sensacional e extremamente pertinente.
    Não aguento mais ouvir e ver a ignorância de tantos por um problema global.
    Até mesmo uma professora da minha faculdade federal, dizendo, “mas também, fica difícil entender esse negócio de homem-bomba”, enquanto tratavamos da questão.

    É foda.

    Parabéns, Valdir. Parabéns mesmo…
    Fiquei com vontade de ler o livro…

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      Embora seja um tema tão antigo e recorrente muitas pessoas se limitam à mídia sensacionalista e limitada para compreender a questão e infelizmente, muitos professores se enquadram nisso. Infelizmente mesmo! Valeu pelo comentário.

  • Anderson Carvalho

    Gostei muito do seu texto, mas devo esclarecer aqui uma coisa que não ficou bem clara, ou pelo menos não foi explicado, o real motivo da escolha da Palestina para a criação de Israel.
    Durante os encontros dos sionista a grande maioria dos Judeus que compuseram esse movimento rejeitaram com veemência outro local, como por exemplo Uganda e Argentina…” Isso só soube agora lendo seu texto ” para a criação do Estado Judeu, por um motivo bem simples… A ligação ancestral do povo Judeu com essa terra. Para ficar mais fácil de entender é só ler o Velho Testamento, na Bíblia. Da da criação do homem, do chamado a Abraão, a narrativa da época de Isaac e a saga Jacó até a saída para o Egito, onde foram escravizados, e depois o retorno, guiados por Moisés, tudo isso foi na Palestina.
    Onde também era constante a presença Árabe, por isso é primordial que se entenda que a escolha da fundação do Estado Judeu na Palestina, não é puro acaso… Como também a presença Árabe na região, o que para nós é até simples de entender, infelizmente não é simples para os dois povos que vivem naquela região…

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      Anderson, este está muito longe de ser o “real” motivo. No primeiro tópico, em que coloco 3 argumentos distintos, está subentendido que existem raízes históricas do povo israelense na região. (1. Assimilação da comunidade judaica aos povos locais;2. O movimento nacionalista seria o único meio de preservar a fé judaica). O objetivo do texto foi então caminhar por outras águas e buscar desvendar quais seriam “os outros motivos”, além desta razão mais óbvia ligada a origem do povo de Israel. Mas você tem razão, a Palestina é inquestionavelmente um lugar sagrado para a comunidade e de fundamental importância para a compreensão de sua existência.

      • Anderson Carvalho

        Valdir, no texto vc faz um perfeito relato, desde o surgimento do movimento sionista na Europa, passando pelas duas guerras mundiais, pelo surgimento do movimento nacionalista Árabe, pelo drama vivido pelos refugiados judeus e finalmente culmina na resolução da ONU e na guerra de 1948.

        E devo te dizer que quando vc escreveu o trecho de ” humanizar o inimigo ” percebi uma coerência e uma sensibilidade nata em vc. Mas devo descordar, quando vc escreve que ” este está longe de ser o real motivo”

        A minha intenção foi de trazer para o leitor, o porque da escolha da Palestina… E quando vc escreve no seu comentário que ” além desta razão mais óbvia ” Vc está concordando comigo, que esse foi o motivo real, da escolha da Palestina para a criação do Estado de Israel.

        E te explico mais… Em todos os lugares do mundo, daquela época, onde haviam comunidades judaicas ao final do jantar anual da Páscoa, o sêder, os judeus se desejavam ” No próximo ano em Jerusalém ” nos casamentos judaicos o noivo recitava … ” Se eu esquecer de Ti, Jerusalém, que minha destra perca sua destreza ” e inúmeros exemplos desse motivo real do qual escrevi.

        O movimento sionista tinha ramificações por todo o mundo, o que muitos desconhecem, é que as grandes comunidades judaicas, em países do norte da África ( Marrocos, Argélia, Líbia e Tunísia ) e países como Iêmen, Irãn e até o Iraque estavam conectados com o movimento, tanto que depois da criação do Estado de Israel houve uma ” aliá ” ou seja, um retorno em massa, dessas comunidades para a terra dos seus ancestrais.

        Então deixo aqui a minha pequena contribuição ao seu magnífico texto, e conte comigo como leitor assíduo, grande abraço !!!

      • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

        Anderson, sua colocação é bastante clara e também compartilho dela, porém, as relações políticas, neste caso, assumem um papel fundamental na determinação do território, embora, exista sim o precedente religioso, histórico-social, a shoá judaica que os leva direto a este “porto seguro”. Nada como o lar para nos sentirmos seguros e confortáveis, não há dúvida. Mas trata-se de uma observação mais subjetiva, e isto entre os próprios judeus, veja que a maior parte da comunidade, seja na Europa ou nos Estados Unidos, sempre se posicionou veementemente contra a criação do Estado Israel, uma grande estratégia foi posta em prática pelos sionistas para convencer e levar uma parte dos judeus para lá, ainda hoje há mais judeus vivendo fora do que dentro de Israel. Os judeus americanos durante décadas mudaram seu posicionamento, por influência e razões puramente políticas, não religiosas. O argumento que defendo reside na ideia de que, vamos colocar assim, além da razão que você aponta, a qual afirmo novamente que não é falsa, existe também um abismo de interesses que moldaram este processo. Agradeço muito seus comentários pela contribuição que trouxeram ao texto. Muito bacana. Uma pergunta, você tem ascendência judaica? Grande abraço.

      • Anderson Carvalho

        Valdir, enfim acertamos os nossos ponteiros !!! Vc já leu o livro do Michael B. Oren ( Guerra dos seis dias ) ele relata, além da narrativa da guerra, mas em paralelo, ele descreve sobre todo o aspecto politico da implantação do Estado de Israel.
        E agora ficou bem mais claro que escrevemos algo assim, em paralelo, vc na linha da visão política, que assumiu um papel fundamental na determinação do território, e eu no aspecto religioso, como expliquei pra vc , que comunidades judaicas que tinham ligação com o movimento sionista, não aceitariam outro lugar que não fosse a Palestina.
        Eles venceram todo o poder, dos que eram contra, e hoje vivemos no Estado de Israel, com um simples desejo, que sejamos aceito, por quem não nos aceita e a partir daí, viver em paz …
        E sobre a sua pergunta, sim sou judeu e vivo há 6 anos aqui em Israel, de onde sou leitor assíduo do papodehomem. Abraços.

      • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

        Puxa cara, fantástico! Tenho um enorme desejo de conhecer Israel, que bacana termos você por aqui. Como está a situação nesse atual momento? Se puder e não for muito abusivo, fale um pouco pra nós sobre sua experiência em Israel e sobretudo de como você vê a relação com os palestinos, a partir do seu olhar estando dentro “do olho do furacão”. E também passe um contato seu, e-mail algo assim, podemos manter contato. Obrigado Anderson.

      • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

        Ah! O livro ainda não li (Guerra dos seis dias), mas certamente vou adquiri-lo. Valeu!

  • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

    Que beleza ver um texto desse naipe por aqui.

    Obrigado, Valdir!

    Gostei muito disso:

    “Produzindo esse texto, vejo que acima de qualquer coisa, é necessário “humanizar o inimigo”, buscar brutalmente uma rejeição – não do outro –, mas da figura do inimigo”

  • http://www.facebook.com/xaviermarcelo Marcelo Xavier

    Parabéns pelo texto.
    Detesto ouvir críticas superficiais ao radicalismo e terrorismo da Palestina, quando é sabido que os primeiros atos terroristas foram praticados pelos sionistas. Isso não se comenta mais.
    Um dos povos admiro muito, mas ele não vê problemas em chegar e tomar um território a força. Principalmente depois de vencer guerras.
    O fato é que judeus já viviam pacificamente alí. O movimento sionista e a quebra do tratado inglês provocou uma imigração exacerbada, violenta poderosa. Hoje há um país ocupado , um povo incapaz de revidar, políticos provocantes e uma imprensa completamente tendenciosa.

  • Marcos Felipe

    Muito bom o texto, obrigado! Pontos de vista, informações diferentes, novas leituras, mt bom mesmo… O artigo também é bom pra introduzir o tema, sobre o qual muita gente ouve falar mas não sabe bem do que se trata.

    Eu gosto muito de ler sobre o conflito Árabe-Israel no projeto da Wikipédia em Inglês. É só começar na página principal e ir segundo os links. Parece simples mas o projeto é enorme, dá pra se perder nos detalhes das operações, equipamentos, politica, etc…. Há também muitos vídeos sobre o assunto, tanto no youtube quanto em sites de notícias. Eu comecei a aprender sobre esse conflito através da internet e o projeto Wikipédia sobre o tema é muito bem feito, bem editado, boas fontes.. Se alguém se interessar, aí vai:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Arab%E2%80%93Israeli_conflict

    • http://www.facebook.com/valdir.pimenta Valdir Pimenta

      Legal Marcos. O assunto é bastante complexo mesmo, como você disse, acabamos quase que nos perdendo entre tantas fontes. Obrigado…

  • João Lima

    Excelente texto! Fica patente a raiz da violência na região: o pouco caso com que a questão foi tratada pela comunidade internacional na época. Se ao invés do estado de Israel tivessem sido criados os dois estados (como previa a resolução da ONU) e a ONU garantisse a preservação das fronteiras, hoje a região estaria pacificada.
    O problema é que criaram apenas um estado, que está aproveitando que o restante do território é “terra de ninguém” para subjugá-lo à força. Não vejo solução para o conflito que não passe forçosamente, pela coexistência de dois estados para esses dois povos.

    • Chongo

      Criação de um unico estado esse é que foi o grande erro das Nações unidas, isto é ou é Estado Judeu ou é terra de ninguem. agora como se pode solucionar numa altura em que paises como irao, Siria, movimentos como hamas, hezbollah etc querem ver o estado Judeu fora do Mapa e colonos judeus nem querem ouvir falar de um estado palestino? o problema ja foi identificado e a solucao qual é, Homens?

  • http://twitter.com/SonadoAlaikor Sonado

    “A terra das duas promessas” é certamente uma leitura que ainda careço e devo fazer.

  • jborneo

    baita texto!!!
    muito bom ver o Papo de Homem voltando a suas origens de bons textos, sem preconceitos, diferente de alguns textos lidos ultimamente por aqui.
    Parabens

  • Ricardo Tavares

    Por favor, Por favor, mais artigos como esse…!!!! Tinha desistido de ler o “papo de homem” de tanto texto bobo metido a cult…

    Parabéns ao cara que escreveu ae… Valdir Pimenta

    abçs

  • Augusto

    Boa noite Valdir!
    Que o texto está exelente todo mundo já falou, mas eu gostaria de comentar o diálogo mantido com o Anderson Carvalho que me chamou a atenção pelo repeito mútuo sendo mantido no campo das idéias. Cada um acrescentando ao outro. Um verdadeiro exemplo do mais alto nível.
    Parabéns aos dois.

  • Belle Biajoni

    lindo texto.

  • Rafaela Pimentel

    Valdir, vc tem algum livro para recomendar sobre o assunto? Estou me formando em relacoes internacionais e minha monografia sera sobre conflito territorial entre palestina e israel, e isso me seria mto util.

  • Rafaela Pimentel

    Valdir, voce poderia me indicar algum livro sobre o assunto? estou fazendo minha monografia sobre o conflito territorial entre palestina e israel, e a sua indicação seria mto util. Agradeço desde ja. Abraços, Rafa

Papo de homem recomenda

Assine o Papo de homem

Curta o PdH no Facebook
  • 5586 artigos
  • 665121 comentários
  • leitores online