‘Impotência’ futebolística existe?
Eu não sei até que ponto o futebol pode ser considerado uma necessidade vital para quem gosta do assunto.
Conheço muita gente que trocaria a casa, o dinheiro, a mãe e a mulher para continuar torcendo fanaticamente pelo seu time. Tem aqueles que não conseguem ir acampar ou ficar em um lugar isolado se não tiver pelo menos um radinho de pilha para acompanhar as últimas notícias futebolísticas.
Muitos chegam ao extremo de tatuar o símbolo do clube ou frases de amor a ele no próprio corpo. É o tal “bando de loucos” – e engana-se quem pensa que essa designação se encaixa apenas nos partidários do clube do Parque São Jorge. Fanáticos, no Brasil, toda torcida tem.
Vício adolescente
Reconheço que já fui extremamente “viciado” em futebol, principalmente na pré-adolescência, período em que as mulheres e a bebida ainda não tinham desviado minhas atenções. Logo em seguida, porém, veio a primeira “broxada” futebolística. Quando comecei a fazer faculdade, a trabalhar muito e morar em condições precárias, a falta de tempo e de oportunidades fez com que eu parasse de jogar futebol com frequência e me afastasse consideravelmente do cotidiano de times e campeonatos.
Chopp dia sim, futebol dia não… *
Além dessa correria de viver em uma cidade, trabalhar em outra e estudar num campus longínquo, à beira de uma rodovia, as festas, mulheres e bares daqueles meus vinte e poucos anos diminuíram de vez o apetite pela bola. Foi nessa época, também, que vivi muitos anos sem televisão ou rádio (o que, hoje, considero uma dádiva) e meu time também não estava ganhando nada. Logo, fiquei um tanto quanto afastado.
Doença crônica!
Mas a doença é crônica e, pouco depois, mesmo morando a 3.100 quilômetros de São Paulo, voltei a acompanhar meu Tricolor e ficar ligado no noticiário. Essa paixão ressuscitada ganhou maior impulso quando me mudei para a capital paulista e conheci outros “doentes”, santistas, palmeirenses, corintianos, atleticanos etc. Tanto interesse nos levou, por exemplo, a criar o blogue Futepoca (Futebol, Política e Cachaça), pois o papo e as provocações de boteco já não eram suficientes.
Coincidentemente, foi um período em que meu time voltou a ganhar títulos com regularidade anual, o que completou o caldo para eu me tornar “dependente” do futebol mais uma vez. Só que a ligação diária e maciça, depois de alguns anos, cobrou seu preço. Saturou. Penso que o próprio fanatismo violento e muitas vezes sem noção das torcidas paulistanas me fizeram refletir sobre o exagero e (a falta de) sentido disso tudo.
‘Não vi o jogo’
De um ano para cá, noto que meu interesse por futebol foi decrescendo até mesmo de forma inconsciente. Começou com a progressiva falta de vontade de assistir jogos. Por incrível que pareça, até as partidas decisivas da Libertadores de 2008, com o Adriano Manguaça no ataque, não conseguiram me sensibilizar. Virou motivo de chacota, entre os companheiros e leitores do Futepoca, o fato de eu sempre escrever “não vi o jogo, mais uma vez”. Estava apenas sendo sincero, apesar da “heresia”.
Todo domingo ou quarta-feira eu preferia passear com a família, ir ao cinema e – lógico – ao bar do que ir ao estádio ou me postar em frente à televisão. E isso foi se acentuando a ponto de eu passar mais de dois meses sem assistir a um jogo sequer. Na sequência, me desinteressei completamente de ler ou acompanhar a imprensa esportiva.
Tédio e aborrecimento
Já não me importava o mínimo em saber quem ia jogar com quem, com qual escalação ou juiz. Se fulano se contundiu, se estava recuperado ou tinha sido negociado. Quem estava à frente na tabela, com quantos pontos, faltando quantas rodadas. De repente, não mais que de repente, essas informações que antes foram tão cruciais e necessárias no meu cotidiano passaram a ser puro tédio, chatice e aborrecimento.
E notem que meu time estava arrancando de forma espetacular para, numa série invicta de 18 partidas, arrebatar o hexacampeonato nacional e o terceiro título seguido bem na última rodada. Não assisti nem me interessei por nenhum dos dez últimos jogos do Brasileirão, nem liguei o rádio, nem comprei jornal. Também não comemorei o título.
Jogo, que jogo, caraio? *
Outros interesses…
Só que passei a achar isso muito, muito estranho. Como assim, “desistir” do futebol? Logo eu, que sempre gastei horas falando sobre o tema, que assisti centenas de jogos por anos a fio, que acompanhei o noticiário todo santo dia, que sei detalhes inúteis de tempos esquecidos. Como acontece uma coisa dessas? Será que “impotência” futebolística existe?
Não sei. Só o que posso dizer é que, mais uma vez, meu interesse pelas mulheres e botecos aumentou consideravelmente e, nessa disputa, o futebol foi jogado para escanteio. Mas, como ele sempre me surpreende (afinal, para usar um chavão, é uma “caixinha de surpresas”), tenho certeza de que me reconquistará.
Pois que venham novos ídolos, jogaços, lances de gênio, esquadrões espetaculares e títulos. Acredito nesse conjunto de fatores como o grande “viagra” para todo torcedor desanimado – e o combustível eterno de polêmicas, teses, teorias e papos intermináveis pelos bares desse nosso Brasil. Saúde!
Marcos Palhares é do Futepoca, que está concorrendo ao prêmio de melhor blog esportivo no Ibest.
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