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em às | Crônicas e contos, Mente e atitude
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Vocês conhecem o “Grande Arturo Bandini”? Ele é o protagonista do livro Pergunte ao Pó, clássico escrito pelo ítalo-americano John Fante.
Neste clássico da cultura ‘beat’, Arturo Bandini é um escritor de 20 anos que passa o tempo faminto por sucesso, vida e comida em um hotel barato de Los Angeles. Cheio de entusiasmo juvenil por ter uma história publicada, sofre o duro golpe da realidade na pobreza. Ele encontra, então, uma garçonete local, Camilla Lopez, e entra em uma relação de amor e ódio com ela que, aos poucos, o faz descer aos domínios da loucura.
Bandini era um perdedor nato, dos mais perdedores que você poderia conhecer por aí. Na época pós depressão de 29, o escritor derrotado vangloriava seu talento aos quatro ventos, por ter publicado o conto “O cachorrinho riu” em uma revista de ficção da época. Bandini não tinha dinheiro, não tinha fama, não tinha o respeito de ninguém e se achava o máximo dos máximos por espezinhar a pobre garçonete mexicana num bar perto do hotel onde ele morava. A cada frustração, Bandini não hesitava em se apegar ao recente passado, dizendo para si mesmo como quem conta as glórias a milhões súditos sedentos por grandes feitos de seus reis que era o grande escritor de “O cachorrinho riu”. Declamava, dentro de sua cabeça, as passagens mais exultantes de seu conto.
O pobre Bandini não tinha nada para se orgulhar. Não que não o tivesse de fato, mas não queria ter. Tudo era lixo e todos eram lixo. Só o que existia de bom nesse mundo, para o jovem Arturo Bandini, era ele mesmo e o seu “O cachorrinho riu”. Bandini foi o maior de todos os perdedores.
Passemos da ficção da década de 30 para os dias de hoje, na nossa realidade.
Woddy Allen é cineasta, roteirista,escritor, ator e músico de jazz. Fez dezenas de filmes, a maioria com incrível sucesso. Ganhou 5 estatuetas do Oscar, uma por melhor filme, uma por melhor diretor (ambos com o filme Annie Hall) e mais três como roteirista (Annie Hall, Ana e as Suas Irmãs e Meia-noite em Paris). Foi indicado outras 19 vezes. Woody nunca foi a uma cerimônia sequer do Oscar.
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Em entrevista à agênciaFrance Presse, Allen disse que nunca ficou satisfeito com os filmes que dirigiu.
“Quando você faz um filme é como um chef que trabalha em um prato. Depois de passar o dia na cozinha cortando, picando e adicionando molhos, você não quer mais comê-lo. Isso é o que sinto em relação a um filme (…) É por isso que eu sou eternamente grato ao público por amar alguns, apesar do meu próprio desapontamento. Para mim, sempre está longe de ser a obra-prima que eu tinha certeza que ia realizar.”
Dando uma olhada rápida nisso tudo, fica fácil soar como que o artista é chato demais, que gosta de ficar contrariando a própria arte em nome da vaidade de artista, de uma elevação de si próprio, mesmo em detrimento de sua própria obra. Parece coisa de gente esnobe.
Johnny Depp não é o que podemos chamar de “exemplo de celebridade”. Um dos atores mais bem pagos do cinema, uma das estrelas de Hollywood com mais fãs e carisma, Depp é uma pessoa reclusa, evitando entrevistas, sempre aparecendo de modo apático em eventos e tapetes vermelhos, sempre com aquele ar blasé de quem não liga pra nada e nem pra ninguém. Depp já afirmou que não vê nenhum de seus filmes, que nunca se vê na tela grande. Para ele, depois que as filmagens acabam, o que acontece com os filmes não é mais da sua conta.
“Fico o mais longe possível depois que as gravações estão concluídas. Se puder, prefiro me manter no mais profundo estado de ignorância a respeito do que está acontecendo”.
Se a gente não parar muito pra pensar, fica bem tentador dizer que Johnny Depp é um ator inseguro, um papa-granas que não liga para a sétima arte, que não quer saber da indústria que o deixou milionário. “Ele cospe no prato que come” você pensa. “A mulherada paga pau para um homem tão inseguro assim? Como elas são inocentes, bobas”, a gente imagina logo de cara.
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Woody Allen e Johnny Depp são pessoas que não olham para trás. São essas pessoas que acabam gerando revolta em outras que acham que precisam deixar sua marca no mundo, seu legado a longo prazo. Allen e Depp não pensam como Aquiles, não querem a eternidade. São homens, pessoas que querem seguir em frente, olhar adiante, pensar no depois, não no que foi, não no “naquele tempo”.
Nennhum demérito mora nas atitudes dos saudosistas, daqueles que relembram os bons tempos, que matam uma taça de vinho vendo o vídeo do próprio casamento. Só que essa vida não é para esses dois. São, eles, humanos que constroem para os outros, não para o próprio deleite. Falando nisso, o tesão deles está justamente no durante, no fazer. Não no apresentar. São pessoas desapegadas a posteridade.
Che Guevara, depois de se sagrar vitorioso na Revolução Cubana e se tornar presidente do Banco Nacional e Ministro da Indústria da ilha socialista, abandonou seus altos cargos para seguir em uma guerrilha no Congo, contra o tal “imperialismo”. certo ou não, o que importa aqui é o abandonar a vitória, o sabor das alturas para uma nova empreitada. O sonho de um amigo do Gustavo Gitti, em conversa que tive com ele ontem de manhã, era justamente abrir uma empresa e, quando ela estivesse bem resolvida e no ápice de sua boa produção, fechar tudo e começar um novo negócio em outra cidade, fazer um novo sucesso de acordo com as necessidades específicas do novo local. E assim por diante, sempre começando de novo e se desapegando dos feitos passados.
Errados estão aqueles que pensam que o grande Arturo Bandini era um derrotado. Ele se agarrava, num momento de desespero, no que tinha de bom. Arturo era um bom homem. Errados também estão os que pensam que Woody Allen e Johnny Depp são arrogantes, pedantes, presunçosos. São apenas homens que olham pra frente.
O que ficou lá atrás, para eles, está na nuca, não no horizonte.
Jader Pires é editor do Papo de Homem. Publicitário por opção, jornalista por apego e escritor por maldição. Prometeu um dia que, se ganhasse na loteria, doaria cem reais para caridade (e não há cristo que o faça pensar o contrário). No Twitter, atende pela brilhante alcunha de @jaderpires.
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