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em às | Crônicas e contos, Humor
Aposto que Luis Fernando Veríssimo já previa esta discussão quando escreveu a crônica “Homem que é homem” (o famoso HQEH) no livro As mentiras que os homens contam.
Discutir o que é coisa de macho e o que não é coisa de macho pode parecer meio que coisa de mocinha, né? Afinal, o saco-roxo que se preza não fica de análises e estudos sobre a vida de outro saco-roxo, certo?
Errado.
Se você acompanha esse site metido a valentão vai perceber que basicamente tudo o que faz por aqui é analisar e estudar a vida de outros, seja através de opiniões, dicas, no estilo com que transmitimos informações ou na pura macheza com que tratamos nossas pautas. Absorve o que enxerga na vida alheia e adapta o que lhe parece bom e ruim. O saco-roxo é bem mais saco-roxo quando descobre o discernimento.
Mal chegamos à viril conclusão e já partimos em genuíno auxílio aos camaradas que se encolhem nas salas escuras de cinema, que ficam nulos num canto qualquer do sofá ou se afundam na cama em busca de um paliativo esconderijo. Travaremos agora uma batalha sangrenta de ideias pelo direito – e digo mais: pelo dever – das lágrimas de macho ao final de um filme.

Ed Harris, na série "Crying Men", de Sam Taylor-Wood.
Porque, e espero que concordem comigo novamente, pra enfrentar a catarse de ver um ótimo filme sem ter qualquer tipo de reação, tem de ter mesmo a alma vendida e fechada pelo tinhoso. Já pra aqueles que sabem das delícias de se deixar ser atingido pelas propostas que saltam da tela, chorar é um ato de liberdade e de (por que não?) demonstração de gigantes colhões.
Claro que não estou aqui colocando em xeque a empolgação de cada um para com a sétima arte. Quem não chora também mama. É que estampar no rosto aquelas gotas tão sentimentais costuma ser visto como um ato afrescalhado, dito como fraqueza ou até então assimilado como coisa de mulherzinha. Mas se enganam os mais céticos.
Há todo um ritual envolvendo o choro másculo. Ocorre quase como que um ato solidário às personagens que tanto sofrem em seus arcos de herói ou em suas tragédias herdadas lá dos gregos. Não choramos (nós, os praticantes do choro másculo de macho homem) simplesmente por chorar; nos impomos decentemente, arqueando o tórax como um macho dominante, enrijecendo os músculos dos braços como que preparados para qualquer embate e, como com varão, apontamos para a tela e grunhimos palavrões:
“Porra. O cara ama a mina lá, porra. Porra, o cara só quer…(lágrimas)…o cara…(lágrimas)…porra!”

Benicio Del Toro, na série "Crying Men", de Sam Taylor-Wood.
E se a delicinha que te acompanha não se mostrar tão solícita para com o desfecho melodramático, compartilhe sua sentimentalidade com todo o seu status de mulo:
“Caralho… a filha dele… (L)… o cara queria… (L)… porra, o cara lutou, meo. O cara… (L) …porra!”
Não se dê por vencido, amigo lenhador! Chorar é parte da tua maldição como latino, como bom brasileiro que abraça forte, bebe cachaça, ouve música brega debaixo de um ventilador de teto e coça o saco no meio da rua.
Orgulhe-se desse sangue quente que nessa veia corre e aja como um macho de respeito, como um macho dono da verdade. Chore.

Laurence Fishburne, na série "Crying Men", de Sam Taylor-Wood.
Jader Pires é editor do Papo de Homem. Publicitário por opção, jornalista por apego e escritor por maldição. Prometeu um dia que, se ganhasse na loteria, doaria cem reais para caridade (e não há cristo que o faça pensar o contrário). No Twitter, atende pela brilhante alcunha de @jaderpires.
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