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Goleiro e tradutor só se fodem

Alex Castro

por
em às | Esportes, PdH Shots


Dizem que o futebol paulista está passando por uma crise de goleiros. Verdade? Não sei. Só descobri que havia um time de futebol chamado São Paulo ano passado. Estou por fora. Mas uma coisa eu digo e afirmo: goleiro e tradutor só se fodem.

Não sou goleiro mas sou tradutor. O goleiro treina a vida toda, está sempre alerta durante o jogo, pega chute atrás de chute que você, amigo leitor, nem veria passar, e, coincidentemente, você também nem vê o trabalho dele.

Quando o goleiro está fazendo seu trabalho, parece que o universo está pleno e ordeiro, as coisas se encaixam, tudo vai bem. Ou seja, não é ele que sacrificou sua vida pelo esporte; é a bola que naturalmente não passa pela trave, assim como o lápis que soltamos naturalmente cai ao chão.

goleiro e tradutor só se fode

Quando o goleiro, humano que ele é, comete um erro, então o universo vira de cabeça pra baixo, lápis flutuam, unicórnios saem em debandada pela avenida Paulista, a entropia toma conta, é hora de xingar nos bares e bebedores, talvez até queimar a casa do fidaputa incompetente!

Com tradutores, idem idem. Ralamos por meses a fio traduzindo um livro. Inventamos mil soluções engenhosas para problemas espinhosos. Traduzimos o intraduzível. Adaptamos o inadaptável. Frases que não tem equivalente, trocadilhos desafiadores, experiências que não existem no Brasil: para tudo, damos um jeito.

E o errinho bobo que deixamos passar é sempre aquele citado pelo resenhista da Ilustrada, que ainda completa:

“é por isso que só compro meus livros em New York!”

Não sei nada de futebol (o Fred diz que se recusa a me explicar pela quinta vez a regra do impedimento), mas afirmo: todo meu apoio aos goleiros e tradutores do Brasil.


Link YouTube | “Barbosa”, curta de Jorge Furtado sobre o mais perverso vilão da história brasileira.

* * *

Leia também Vai jogar no gol, sobre as agruras dos goleiros, e conheça o excelente blog de tradução da Denise Bottman, Não gosto de plágio.

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // todos os meus textos são rigorosamente ficcionais. // se gostou, me siga no facebook, compre meus livros ou faça uma doação.


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  • Marcos Augusto Nunes

    “Traduzimos o intraduzível. Adaptamos o inadaptável. Frases que não tem
    equivalente, trocadilhos desafiadores, experiências que não existem no
    Brasil: para tudo, damos um jeito.”

    Pô, não exagera.

    Não por culpa dos tradutores. Tem coisa que não tem como mesmo. Resta “criar”, e é nessa mesmo que os tradutores mais se fodem, quando se deparam com o fiodaputa que só compra livro em Nova Iorque, lê no original, conhece os misteriosos sentidos da língua alemã e aproveita para tirar sua casca grossa em cima dum pobre coitado labutador de dicionários.

    Não há de ser nada: estão melhores que os goleiros, que são mais abundantes e são vistos e conhecidos por muito mais gente. Pobre Barbosa, tão, mais tão estigmatizado que terminou sua gloriosa carreira no meu nada glorioso Campo Grande Atlético Clube, em 1962. Que, aliás, não mereceu nem citação no curta Barbosa (acho eu; vi há anos e não tenho tanta precisão nas minhas lembranças, mas sou capaz de jurar que não – sem rever o filme na tela do cumputador, anátema!)

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Belezura de texto despretensioso, Alex.

    Assistindo o documentário sobre o Barbosa. Puta achado.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000479062089 Fernanda Pamplona

    Tradutora/revisora aqui. And I know what you mean.

  • http://www.facebook.com/daniel.zandonadi Daniel Zandonadi

    “em New York” foi foda…

    Solidário a você — sou também tradutor — e a todos os goleiros do mundo.

    Abraços!

  • http://shotsarge.blogspot.com Marcio Sarge

    Boa analogia, mas o goleiro tem seus momentos de glória e o tradutor?

    • http://www.facebook.com/vagner.abreu Vagner Alexandre Abreu

      quando o texto traduzido repercute tanto quanto o original, deve ser uma excelente gratificação.

  • M.D.

     Há algum tempo o meu objetivo ao analisar traduções é justamente o contrário: ver as boas soluções, roubá-las, aplicar o raciocínio que levou a elas. 

  • http://www.facebook.com/naninha Ariana Mendonca

    Hahaha, que isso, Alex, até eu, que quase nada sei de futebol, entendi a regra do empedimento… Imagino o desafio de traduzir, morei um ano nos EUA e vira e mexe me pego com expressões americanas na cabeça que eu tento traduzir e não consigo… 

  • http://www.facebook.com/vagner.abreu Vagner Alexandre Abreu

    É impressão minha ou este texto tem alguma ligação (in)direta com o texto sobre não gostar de futebol?

    E posso expandir a analogia? Certas coisa, quando em ordem, poucos notam. Se estão em desordem, todos reclamam. Vale também ao técnico de informática, ao técnico da TV a Cabo / provedor de internet / empresa de telefonia, ao restaurante, etc… etc…

    Quando tudo está ao nosso desfavor, jogamos a nossa raiva em quem consideramos culpado…

  • FIDEGA

    Goleiro de Handebol é um dos únicos que defende com o rosto também.
    Tiro o chapéu.
    Enquanto que jogadores de linha, quando tomam uma bolada no estômago ou mesmo na cara, já pedem para sair e ficam gemendo feito maricas.
    Eu sou goleiro de futsal e, para mim, é a melhor posição de todas.

    • http://www.facebook.com/people/Rat-Geber/100003597644974 Rat Geber

      Realmente! Dois cascas-grossas vcs! E vcs me deram uma boa ideia… vou começar a torcer pra goleiros de handebol… só pros goleiros! hehehe… 

  • Dbottmann

    hahaha, ótimo, alex! e obrigada pela menção, essa honrou :-)

  • FIDEGA

    Quase chorei com o curta.
    Barbosa é o goleiro mais injustiçado da história.
    Mas ficou conhecido como “o goleiro que tomou o gol da final no Maracanã”… fazer o que né.

  • http://www.tradutorprofissional.com/ Danilo Nogueira

    É que a Folha contratou o “Professor Horrendo” para resenhista. Se não conhece a figura, pergunta pro tio Gúgol. 

    Mas eu se como você se sente, porque sou tradutor também.

  • Thiago

    Mas o tradutor pode, se cometer um equivoco, se achar que pode arrumar, pedir para a editora que em uma segunda edição se arrume. O goleiro nem isso. 

    Tem razão quando diz que os erros são mais identificável. Nunca elogiam os acertos dos tradutores, mas quando há um erro, apontam. Eu costumo fazer isso formalmente, escrevendo para a editora se percebo um erro de grafia e etc. Mas a intensão, nesse caso, é ajudar a melhorar a obra traduzida por algo que pode ter passado despercebido.

  • http://www.facebook.com/marcelorraposo Marcelo Raposo

    Eu ri com a frase: ”
    Verdade? Não sei. Só descobri que havia um time de futebol chamado São Paulo ano passado. ” rsrs.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=1203720236 Rafaella C. S. Barros

    Gostei. Sou tradutora e revisora, mas ampliando um pouco o leque, acho que isso é meio que cultural. Quando se traduz bem, o silêncio. Quando se erra, as reclamações. Para qualquer profissão. Somos treinados para apontar o erro, porque isso nos fortalece enquanto enfraquece quem é criticado. Mal sabe que quem critica, além de estar ajudando alguém a se fortalecer emocional e profissionalmente, ainda perde o respeito de várias pessoas ao fazê-lo. Claro que não estou aqui incluindo as excelentes críticas construtivas. Essas, quando ocorrem – no tom de voz correto, da maneira correta – você pede por mais. Eu nunca conheci ninguém que realmente não quisesse saber mais do assunto que estuda, que não quisesse melhorar.
    Compartilharei o artigo tão bem articulado. =)

  • Gustavo Esquive

    Esse curta do Barbosa é das coisas mais lindas já produzidas pelo cinema nacional; a parte em que é mencionada a história de quando ele trabalhava numa loja e a mãe chama o garotinho e diz que aquele homem fez um país inteiro chorar é de cortar o coração. Lembro-me de uma entrevista do Barbosa pro Esporte Espetacular – quando o EE ainda era bom, daí dá pra ver quanto tempo faz – que ele fala pro Regis Rosing que “a pena máxima para homicídio no Brasil era de 30 anos, e ele ainda era considerado culpado por um gol que tomou há mais de 40 anos”, ou algo semelhante a isso. Considero-o como o esportista brasileiro mais injustiçado da história.

  • Marcelo Barbon

    Uma vez, um dos livros que traduzi saiu numa resenha no Estadão. Quase 300 páginas feitas na urgência porque a autora ia pra Flip. Das milhares de páginas o resenhista e professor universitário encontrou uma que estava claramente errada (reconheço) e outra que podia estar melhor. Bom, essas duas palavras foram o parágrafo final da reseha.

    O mesmo especialista resenhou outro livro que eu traduzi, uma coleção de contos do século XIX, extremamente complicada, cheio de palavras antigas, com citações de filosofia, teatro, mitologia. Algo que deu muito trabalho e muito prazer em fazer. Como não encontrou nenhum erro aparente, ele… não falou nada da tradução.

    Resultado: somos muito piores que os goleiros que possuem alguns momentos de glória. Tradutor só é lembrado quando erra.

  • M.D.

    Uma coisa que sempre percebo é como nas Saraivas da vida a parte de Literatura Estrangeira é muito maior que a de Literatura Nacional. Sempre foi assim, ao menos no meu tempo de vida (37 anos). Os escritores em geral são pessoas que apreciam a leitura desde a infância. Ora, está claro que raríssimos leitores na infância e adolescência têm inglês (ou outra língua estrangeira) suficiente para ler originais. Sendo assim, os tradutores são os maiores formadores de repertório linguístico dos futuros escritores (e  redatores como outros tradutores e jornalistas). Não é pouca coisa. Um tradutor de primeira linha como o Paulo Henriques Britto, com 100 livros traduzidos em extensa carreira, considerando a tiragem de 3000 livros, tem sua gota de influência na língua portuguesa escrita. E por quantos anos essa montoeira de livros ainda circulará em sebos, bibliotecas e coleções particulares? Sempre lembro daquele verso do Drummond “aprendi novas palavras e tornei outras mais belas”. Pois bem, os bons tradutores vivem aprendendo novas palavras e as tornam mais belas por ofício.

  • http://twitter.com/rafaelcgo Rafael Oliveira

    Tirando um pouco o foco da tradução e trazendo uma crítica ao texto de Alex quando ele fala de futebol:
    “… pega chute atrás de chute que você, amigo leitor, nem veria passar, e, coincidentemente, você também nem vê o trabalho dele.”

    Nitidamente uma frase de quem não gosta de assistir futebol.

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