Futebol, orgulho metropolitano
Sou da Grande São Paulo. Mais precisamente, de São Bernardo do Campo.
Morar na região metropolitana de uma grande cidade (no meu caso, a maior do Brasil) é algo que gera algumas inquietações. A mais recorrente, a da falta de identidade que isso pode trazer. Nós não somos da capital, mas também não somos do interior.
O que se complica quando falamos com gente de outros estados – estes insistem em achar que tudo que não é capital é roça. A minha cidade ganhou notoriedade por ser onde mora o presidente da República, mas mesmo assim vez ou outra há quem não saiba que São Bernardo está plenamente colada a São Paulo.
E a situação não se aplica somente a São Paulo, que fique bem claro: uma amiga minha, de Cachoeirinha (RS), já se cansou de explicar aos não-gaúchos que sua cidade não é um vilarejo afastado habitado por alemães que mal falam o português, e sim um município vizinho de Porto Alegre com população superior a 100 mil habitantes. Eu mesmo já dei mancada parecida, ao supor que Ibirité seria um simpático povoado no interior de Minas – quando na verdade a cidade tem mais de 150 mil habitantes e está na região metropolitana de Belo Horizonte.
Não é capital, não é roça e tem bem mais do que uma pracinha.
Acontece que o mundo da bola está se encarregando de dar um novo destino a essas cidades. “Nunca na história desse país”, como diria o mais famoso dos bernardenses (ainda que nascido em Pernambuco), equipes das regiões metropolitanas tiveram tanto sucesso.
A mais famosa, claro, é o São Caetano.
Apesar de estar em baixa desde 2006, quando caiu para a Série B nacional e de lá não saiu mais, a saga do Azulão é certamente um dos elementos mais emblemáticos do futebol nos anos 2000. Senão, vejamos: vice-campeão nacional em 2000, saindo das profundezas do Módulo Amarelo da João Havelange, derrotando Flu no Maracanã, Palmeiras no Parque Antarctica e Grêmio no Olímpico; vice brasileiro também no ano seguinte; e em 2002, uma decisão de Libertadores, feito que gigantes como Corinthians, Botafogo e Atlético-MG até hoje não alcançaram. Em 2004, o título estadual, que serviu para materalizar com uma taça essa boa trajetória.
Quando parecia que a elite brasileira se veria livre da Grande São Paulo, eis que a Série B de 2008 vê dois – isso, dois – times ficando entre os quatro melhores e se garantindo na primeira divisão do melhor futebol do mundo. Santo André x Barueri, jogo que até poucos anos era tradicional nas divisões inferiores do Paulista, valerá tanto quanto um Gre-Nal ou Fla-Flu na Série A de 2009. Quem comemora são os palmeirenses, santistas, são-paulinos e corintianos que poderão ver seus times em ação em mais um estádio perto de suas casas. As cidades de Santo André e Barueri, somadas, têm pouco menos de 1 milhão de habitantes, vale o registro.
Vai se acostumando a reconhecer essas camisas novas. Santo André e Barueri.
Do Rio de Janeiro, quem brilha é o Duque de Caxias, que ficou em quarto lugar na Série C e jogará a segundona no ano que vem. O passo é importante: já faz um bom tempo que nenhum time do Rio, excluídos os quatro grandes, disputa outra divisão do Campeonato Brasileiro que não a terceira.
Além desses citados, o futebol das regiões metropolitanas tem outros expoentes como Desportiva e Serra, respectivamente das capixabas Cariacica e Serra; Nova Iguaçu, de propriedade do tetracampeão Zinho, que fez alguns bons trabalhos no estadual do Rio e, quem diria, já contou com Edmundo entre seus jogadores; e talvez o maior de todos os times de região metropolitana, o Villa Nova, de Nova Lima (MG), cinco vezes campeão mineiro.
Sei que a maioria dos amantes do futebol torceu o nariz quando confirmados os acessos de Santo André e Barueri. As justificativas para o descontentamento, em geral, são duas: que são times sem torcida (a lembrança dos estádios vazios do São Caetano assusta) e que são fomentados por prefeituras, que deveriam dar uma destinação melhor ao dinheiro dos contribuintes.
Não chego a discordar desses argumentos, mas mesmo assim celebro o acesso desses clubes, justamente por serem vetores de um orgulho municipal que as pessoas das regiões metropolitanas não estão acostumadas a ter.
Olavo Soares, 27 anos, é jornalista, santista e morador de São Bernardo - com muito orgulho dessas duas últimas qualidades, da primeira nem tanto. É mais um dos integrantes da equipe do Futepoca, o melhor blog de esportes de 2007.
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