Papo de Homem

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Fabio Rodrigues, 29, designer de moda


Publicado por Gustavo Gitti em 12.11.2009 às 08:11 em Entrevistas

Continuando com nossa série de entrevistas com profissionais fora da clássica tríade “médico-advogado-engenheiro”, conversamos longamente com Fabio Rodrigues, um designer de moda bastante requisitado e que foge ao estereótipo “Todo estilista é veado”.

O cara já rodou a Europa com tudo pago, trabalhou em uma das maiores empresas da indústria têxtil brasileira, passou dias inteiros ao lado de modelos…

Hoje, além de seu trabalho como consultor, toca guitarra em uma banda de rock, rascunha um ou outro sumiê e pode ser encontrado em retiros de meditação.

Fabio é casado e pai há alguns meses.

fabio

Qual sua história? Quais suas origens? O que fazia antes de ser designer de moda?

Sou catarinense nascido em Florianópolis e morando em Joinville há vários anos. Estudei em escolas públicas até o segundo grau técnico, onde me formei em eletrotécnica – área em que trabalhei por 2 anos, nos meus primeiros empregos.

Desde que me lembro, sempre gostei muito de desenhar. Mas, por algum motivo, sempre vi isso como sendo algo como um passa-tempo apenas. Não entendia que o desenho pudesse virar profissão, de fato, tanto que comecei minha vida profissional em outra área, completamente diferente. Um dos motivos, provavelmente, é que o mercado não mostrava uma demanda clara pra esse tipo de atividade na região.

Estamos antes do “advento” do design, por volta de 1996, 1997. Até então falava-se de desenho e desenhistas – em vez de design e designers – e que atuavam de forma um pouco obscura.

Algo decisivo pra mim foi ter conhecido uma pessoa que já trabalhava com desenho e propaganda há muitos anos em Joinville, o Norberto C. Niebuhr, que, em 1994, abriu uma escola de desenho na cidade: a já lendária Partenon Art&Cia. Estudei com ele por três ou quatro anos. O Niebuhr tornou-se um amigo muito querido, um professor e mestre não só em desenho, mas para a vida.

Enfim, além dos trabalhinhos “freela” que já começavam a aparecer, meu primeiro trabalho como desenhista, de verdade, foi como professor de desenho nessa mesma escola onde estudei.

Ingressei na faculdade de design em 2000, sendo que eu já tinha uma experiência considerável em técnica e estética aplicada ao desenho. Foi nessa época também que migrei de profissão completamente.

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Sumiê, a arte que proíbe retoques (Sem nome | Fabio Rodrigues | 2007)

Como descobriu que era isso que queria fazer e como chegou onde está?

Como falei, sempre me interessei muito por desenho. Acho que foi um pouco natural ter encontrado alguma forma de atuar nessa área. Eu ainda me vejo assim, de certa forma, mais um desenhista trabalhando com design e moda do que um designer ou estilista, propriamente.

Comecei a trabalhar com moda um pouco acidentalmente, sem procurar por isso. Aconteceu de surgir uma oportunidade numa empresa da área têxtil, onde precisavam de alguém com habilidade em desenho pra desenvolver estamparia para as linhas bebê e infantil. Em alguns meses, lá estava eu: indo trabalhar com um Opala 75, ouvindo Black Sabbath, e desenhando roupinhas pra bebezinhos.

Daí fui migrando de empresa em empresa, de marca em marca, de linha em linha, em vista das oportunidades melhores. Um passo importante pra esse desenvolvimento foi ter ingressado numa das maiores têxteis do Brasil, onde trabalhei por quatro anos em algumas marcas muito bem reconhecidas.

O que você faz atualmente? Qual sua especialidade? No que você é realmente bom?

Nos 10 anos que estou trabalhando na área, tive oportunidade de me envolver com quase todas as etapas do processo de desenvolvimento de moda.

Não só as etapas mais “glamourosas”, a coisa de criatividade, estética, tendências, etc, mas também todo o trabalho de backstage que existe aí (que, na verdade, representa uns 90% do trabalho), que não é visto nos desfiles ou editoriais: questões produtivas, calendários, cronogramas, históricos, projeções e análise de vendas, formas de venda e representação, manutenção e promoção de marca, marketing, edição de desfiles, direção de fotografia para editoriais e catálogos, pesquisa de campo, planejamento de coleções, processos de estamparia, bordados, lavanderias…

Essa experiência me deu uma visão bem ampla da atividade, o que me permite, hoje, trabalhar de forma mais autônoma, atendendo as empresas em formato de consultoria em pesquisa e acompanhamento de desenvolvimento, processamento e venda de suas coleções.

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Conte um pouco do seu cotidiano.

Às vezes passo a semana na frente do computador, desenhando, às vezes em estamparias acompanhando as prototipagens, às vezes conversando e trabalhando com costureiras e modelistas. Outras vezes a conversa é com representantes, diretores das fábricas, lojistas, vendedores, compradores.

É comum também ter épocas em que viajo bastante, pra fazer estas mesmas coisas ou para trabalhos de pesquisa de mercado ou de tendências.

Mas esse não é necessariamente o padrão de atuação de um designer de moda. Existem muitas formas diferentes de trabalhar com isso. Dos designers pop stars até os anônimos – que são imensa maioria, claro – cada um tem uma forma bem própria forma de trabalhar.

Uma história ou uma cena que fez todo o esforço valer a pena.

Não lembro de nada tão novelesco assim, mas uma das coisas que me marcaram bastante foi a primeira vez que caminhei pela Champs-Élysées, em Paris (aquela avenida que tem o Arco do Triunfo numa ponta e o Louvre na outra). Ali devo ter me dado conta de que rodava a Europa com tudo pago, andando pelas ruas o dia inteiro, e que isso era o meu trabalho.

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O que acontece nessa profissão que ninguém imagina?

As pessoas geralmente não tem uma noção clara de que a parte do nosso trabalho que é vista nas vitrines, em desfiles, catálogos e editoriais é, normalmente, resultado de muito trabalho, e que esse trabalho é, em geral, bem chato.

Sem falar das horas extras e cronogramas curtos, que não são exceção nessa área – são regra. Além disso, se o trabalho é feito com equipes maiores e em marcas grandes, é bem comum haver desentendimentos entre as pessoas, joguinhos de interesse e coisas desse tipo, que podem tornar o dia a dia mais desgastante do que o necessário.

E, claro, há o velho mito de que “Todo estilista é veado”. Nem todos. Conheci um ou dois que não eram. ;-)

Quais os erros de outros que deixam você com vergonha da profissão?

Em moda, a máxima “Sede não é nada, imagem é tudo” é levada bem a sério por muita gente, em todos os sentidos possíveis. Eventualmente isso faz as pessoas fazerem coisas que não me deixam orgulhoso da categoria.

Mulher: melhor trabalhar ao lado dela, melhor mantê-la longe ou nenhum dos extremos?

Em moda nem há escolha sobre isso. As mulheres estão ao redor o tempo todo, em todos lugares. Isso tem suas vantagens, claro, mas quem convive com apenas uma mulher sabe que nem tudo são flores.

O negócio é fazer um calendário de TPMs, cruzar os dedos e ir trabalhar.

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Retrato de João Paulo II

O que você diria para quem está querendo se tornar um designer de moda ou estilista?

Além de fazer um calendário de TPMs e cruzar os dedos, é indispensável ter uma boa noção de estética, saber desenhar, juntar algum conhecimento técnico e montar um bom portifólio.

Depois disso, fazer uma faculdade pode ser bom.

O que você demorou muito tempo pra aprender e agora pode resumir em poucas palavras?

Se seu trabalho for bom e render bons resultados (em termos de venda e fortalecimento de marca, especialmente), você não vai precisar levar muito a sério a regra “Sede não é nada, imagem é tudo”.

Pode parecer bobo, mas saber disso pode significar uma forma de manter as relações saudáveis e ter um estilo de vida mais tranquilo (e barato) trabalhando com moda.

Quais outros conhecimentos, interesses ou práticas que você mantém?

Gosto muito de música, artes e toda a bobagem estética, então estou sempre um pouco envolvido com essas coisas. Toco guitarra e violão numa banda de guitar rock (www.vacine.euro.tm), mas queria mesmo é estar num trio de world jazz.

Estou vinculado a um escritório de design (www.arandudesign.com.br). Gosto de desenhar com penas, pincéis e nanquim, sumiê e caligrafia tibetana. Pratico meditação sob orientação do lama Padma Samten (www.cebb.org.br | www.bodisatva.org.br).

Gosto de ir pra montanha e de remar, eventualmente.

vacine
Ensaio da banda Vacine

Faça uma pergunta que gostaria muito que alguém que te perguntasse. E responda.

Você quer fazer uma pergunta pra si mesmo e respondê-la?
Não. ;-)

O Fabio na web…

Para falar com o Fabio, além de usar os comentários aqui, você pode encontrá-lo no Facebook e no Twitter (@iodris).

* Conhece algum profissional perfeito para essa séries de entrevistas? Massagista, coveiro, dublador, ator pornô, vendedor de cachorro quente, garçom, diplomata, pirata, mergulhador… Envie sua indicação para gitti arroba papodehomem.com.br

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Gustavo Gitti é baterista sem bateria, meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro. É autor do Não2Não1 e coordena a Cabana PapodeHomem.

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20 comentários ↓


  • #1 - Dr Health em 12.11.09 at 8:24 am
  • Posso ficar lendo esses textos não… Minha profissão é chata pra caceta, comparativamente!


  • #2 - Tweets that mention Fabio Rodrigues, 29, designer de moda | Papo de Homem – Lifestyle Magazine -- Topsy.com em 12.11.09 at 8:36 am
  • [...] This post was mentioned on Twitter by Barbearia Clube and Gustavo Gitti, Odair Moreira. Odair Moreira said: Fabio Rodrigues, 29, designer de moda: Continuando com nossa série de entrevistas com profissionais fora da clá.. http://bit.ly/3Q0SVJ [...]


  • #3 - luiz faraoni em 12.11.09 at 9:12 am
  • Pode cre, massa velho, sou desenhista de moda também.

    “Conheci 1 ou 2 que não eram veados” hehehehe Chorei de rir…

    Báh, isso me lembra uma história engraçada; um dia eu cortando o cabelo e num ponto da conversa o cara me perguntou o q eu fazia, disse q era estilista, numa surpresa respondeu familiarizado: Bah velho, ENTÃO VC SABE O QUE PASSO NO FUTEBOL!!! hahaha… A galera pesa, tira sarro, mas se não é por isso é por qualquer outra coisa!

    Simplesmente falo que não tenho do que reclamar do meu trabalho, afinal no meu setor de 25 pessoas 22 são mulheres(lindas)… Todos invejam!!! Mas tamo ae velho, pra mostrar que se faz moda sem frescura!!!


  • #4 - Daniel S. em 12.11.09 at 9:19 am
  • Design é uma profissão bem bacana viu.
    Interessante a entrevista, gostei.

    Abs


  • #5 - Luciana em 12.11.09 at 10:32 am
  • Gustavo Gitti
    Como jornalista, tenho que parabenizá-lo pela escolha do entrevistado.

    O personagem escolhido é uma figura, ele tem uma profissão onde a maioria é gay, tem uma aparência de integrante de banda de rock (o que ele também faz) e ainda pratica meditação. O Fabio Rodrigues é uma mistura, que para os olhos de um preconceituoso ou um rotulador de esterótipos, pode causar muita estranheza.

    A minha parte preferida desta postagem foi “ouvindo Black Sabbath, e desenhando roupinhas pra bebezinhos”… hehehehehe


  • #6 - Juan em 12.11.09 at 11:04 am
  • Muito boa essa entrevista…Quebrando os paradigmas de que “Design” em geral é coisa de Veado!!

    Abraços!!


  • #7 - Juan em 12.11.09 at 11:06 am
  • Corrigindo…PARADIGMAS*** hehe

    Parabéns pela entrevista!


  • #8 - Luiz Hombre em 12.11.09 at 11:47 am
  • me amarrei no sumiê!

    e trabalhinho irado o do cara hein!
    andar por paris com tudo pago… pff que palha!
    kkkkkkkk

    sou mais ficar enfurnado num escritório 8 horas por dia! (mimimimimimimi)

    ashushau

    abraço


  • #9 - Gustavo Alencastro em 12.11.09 at 2:53 pm
  • Juro que achei q fosse o Max Cavalera quando olhei a primeira vez.

    Cara seu trabalho é muito interessante, com certeza jamais eu iria “acertar” a ramo em que vc atua.

    A série de entrevistas está ótima, espero que continue assim.

    “Back to the primitive, fuck all your politics, we got our life to live , the way we want to be …

    Soulfly


  • #10 - OsmarJr em 12.11.09 at 4:19 pm
  • “Ali devo ter me dado conta de que rodava a Europa com tudo pago, andando pelas ruas o dia inteiro, e que isso era o meu trabalho.”

    E eu aqui me matando de estudar pra ver se um dia consigo ir pra lá pagando.


  • #11 - Beto Souza em 13.11.09 at 1:00 pm
  • Eu comecei a rir quando recebi o post por email…Pq eu sou super parecido com esse cara.

    Sou hetero e também sou designer de moda.
    Trabalho em um escritório, que desenvolve os desenhos pra algumas lojas do brasil (maioria magazines).
    Comecei na área, bem por acaso.
    Antes trabalhei como professor de informatica, mecanico, e até marceneiro…auahuahaua

    Eu tbm desenho peças pra bebezinhos, ouvindo rock…Na sala é só eu e meu colega, que também é hetero.

    Muito bacana saber que não “sou sozinho no mondo” huahauha

    Mas meu desenho, é exclusivo do corel
    ;/
    Na mão nao desenho bem não…Curto bastante meu trabalho, mas…não pretendo seguir com ele por muito tempo.

    Parabens pela entrevista.

    P.S: Acompanho sempre o blog, mas raramente comento.


  • #12 - Hugo em 14.11.09 at 5:46 am
  • Falando nisso, faz tempo que não vemos um artigo de moda por aqui!

    É um assunto que gera muito preconceito, realmente! Mas um dos modos mais fáceis de chamar a atenção de qualquer mulher é vestir-se bem.

    Os poucos artigos da Dra. Fashion foram muito interessantes. Ao menos podiam arrumar um(a) subistituto(a).


  • #13 - Sá_ RJ em 14.11.09 at 12:09 pm
  • “…mas uma das coisas que me marcaram bastante foi a primeira vez que caminhei pela Champs-Élysées, em Paris (aquela avenida que tem o Arco do Triunfo numa ponta e o Louvre na outra). Ali devo ter me dado conta de que rodava a Europa com tudo pago, andando pelas ruas o dia inteiro, e que isso era o meu trabalho.”

    Putz, que privilégio…


  • #14 - Duda Itajahy em 14.11.09 at 4:16 pm
  • Acho o site muito legal mas só um comentário: veado é um animal. Se querem usar algum adjetivo pejorativo, sejam mais corajosos e escrevam logo VIADO. Vamos deixar de besteira.

    Parabéns pelo conteúdo do site.


  • #15 - Felipe em 18.11.09 at 12:13 am
  • Acho que design de moda é um nome muito pretensioso, seria mais preciso se fosse design de vestuário!


  • #16 - Maestro Billy, 38, produtor musical e DJ | Papo de Homem – Lifestyle Magazine em 18.11.09 at 3:18 pm
  • [...] que sonha ser massagista de modelos, um cartunista malvado, um professor de dança de salão e um designer de moda heterossexual, entrevistamos um dos criadores do programa Pânico, na Jovem Pan, o DJ do Caldeirão do Huck: [...]


  • #17 - Renan Di Carlo em 19.11.09 at 2:03 am
  • É, sou estudante de design, mas de design de produto. Vou trabalhar projetando celulares, computadores, carros, geladeiras, locomotivas, navios… Confesso que sempre achei design de moda coisa de boiola, mas taí a prova de que não é bem assim.
    Bacana o texto!


  • #18 - Diogo Couto em 25.11.09 at 4:37 pm
  • Sua profissão é chata Health?PORRA, ser médico é meu sonho!É por causa desse sonho que eu vou encarar um vestibular ano que vem!


  • #19 - Alexandre - Vacine em 07.12.09 at 5:14 pm
  • fala Fabio…. muito show a entrevista e também fiquei aliviado q vc não é veado… rsss abraços


  • #20 - Wesley em 01.02.10 at 12:50 am
  • Boa entrevista…

    “a primeira vez que caminhei pela Champs-Élysées, em Paris (aquela avenida que tem o Arco do Triunfo numa ponta e o Louvre na outra). Ali devo ter me dado conta de que rodava a Europa com tudo pago, andando pelas ruas o dia inteiro, e que isso era o meu trabalho”:

    Meu objetivo.

    Salve Fabião! Keep Walking…


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