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em às | Entrevistas e perfis
Continuando com nossa série de entrevistas com profissionais fora da clássica tríade “médico-advogado-engenheiro”, conversamos longamente com Fabio Rodrigues, um designer de moda bastante requisitado e que foge ao estereótipo “Todo estilista é veado”.
O cara já rodou a Europa com tudo pago, trabalhou em uma das maiores empresas da indústria têxtil brasileira, passou dias inteiros ao lado de modelos…
Hoje, além de seu trabalho como consultor, toca guitarra em uma banda de rock, rascunha um ou outro sumiê e pode ser encontrado em retiros de meditação.
Fabio é casado e pai há alguns meses.

Sou catarinense nascido em Florianópolis e morando em Joinville há vários anos. Estudei em escolas públicas até o segundo grau técnico, onde me formei em eletrotécnica – área em que trabalhei por 2 anos, nos meus primeiros empregos.
Desde que me lembro, sempre gostei muito de desenhar. Mas, por algum motivo, sempre vi isso como sendo algo como um passa-tempo apenas. Não entendia que o desenho pudesse virar profissão, de fato, tanto que comecei minha vida profissional em outra área, completamente diferente. Um dos motivos, provavelmente, é que o mercado não mostrava uma demanda clara pra esse tipo de atividade na região.
Estamos antes do “advento” do design, por volta de 1996, 1997. Até então falava-se de desenho e desenhistas – em vez de design e designers – e que atuavam de forma um pouco obscura.
Algo decisivo pra mim foi ter conhecido uma pessoa que já trabalhava com desenho e propaganda há muitos anos em Joinville, o Norberto C. Niebuhr, que, em 1994, abriu uma escola de desenho na cidade: a já lendária Partenon Art&Cia. Estudei com ele por três ou quatro anos. O Niebuhr tornou-se um amigo muito querido, um professor e mestre não só em desenho, mas para a vida.
Enfim, além dos trabalhinhos “freela” que já começavam a aparecer, meu primeiro trabalho como desenhista, de verdade, foi como professor de desenho nessa mesma escola onde estudei.
Ingressei na faculdade de design em 2000, sendo que eu já tinha uma experiência considerável em técnica e estética aplicada ao desenho. Foi nessa época também que migrei de profissão completamente.

Sumiê, a arte que proíbe retoques (Sem nome | Fabio Rodrigues | 2007)
Como falei, sempre me interessei muito por desenho. Acho que foi um pouco natural ter encontrado alguma forma de atuar nessa área. Eu ainda me vejo assim, de certa forma, mais um desenhista trabalhando com design e moda do que um designer ou estilista, propriamente.
Comecei a trabalhar com moda um pouco acidentalmente, sem procurar por isso. Aconteceu de surgir uma oportunidade numa empresa da área têxtil, onde precisavam de alguém com habilidade em desenho pra desenvolver estamparia para as linhas bebê e infantil. Em alguns meses, lá estava eu: indo trabalhar com um Opala 75, ouvindo Black Sabbath, e desenhando roupinhas pra bebezinhos.
Daí fui migrando de empresa em empresa, de marca em marca, de linha em linha, em vista das oportunidades melhores. Um passo importante pra esse desenvolvimento foi ter ingressado numa das maiores têxteis do Brasil, onde trabalhei por quatro anos em algumas marcas muito bem reconhecidas.
Nos 10 anos que estou trabalhando na área, tive oportunidade de me envolver com quase todas as etapas do processo de desenvolvimento de moda.
Não só as etapas mais “glamourosas”, a coisa de criatividade, estética, tendências, etc, mas também todo o trabalho de backstage que existe aí (que, na verdade, representa uns 90% do trabalho), que não é visto nos desfiles ou editoriais: questões produtivas, calendários, cronogramas, históricos, projeções e análise de vendas, formas de venda e representação, manutenção e promoção de marca, marketing, edição de desfiles, direção de fotografia para editoriais e catálogos, pesquisa de campo, planejamento de coleções, processos de estamparia, bordados, lavanderias…
Essa experiência me deu uma visão bem ampla da atividade, o que me permite, hoje, trabalhar de forma mais autônoma, atendendo as empresas em formato de consultoria em pesquisa e acompanhamento de desenvolvimento, processamento e venda de suas coleções.

Às vezes passo a semana na frente do computador, desenhando, às vezes em estamparias acompanhando as prototipagens, às vezes conversando e trabalhando com costureiras e modelistas. Outras vezes a conversa é com representantes, diretores das fábricas, lojistas, vendedores, compradores.
É comum também ter épocas em que viajo bastante, pra fazer estas mesmas coisas ou para trabalhos de pesquisa de mercado ou de tendências.
Mas esse não é necessariamente o padrão de atuação de um designer de moda. Existem muitas formas diferentes de trabalhar com isso. Dos designers pop stars até os anônimos – que são imensa maioria, claro – cada um tem uma forma bem própria forma de trabalhar.
Não lembro de nada tão novelesco assim, mas uma das coisas que me marcaram bastante foi a primeira vez que caminhei pela Champs-Élysées, em Paris (aquela avenida que tem o Arco do Triunfo numa ponta e o Louvre na outra). Ali devo ter me dado conta de que rodava a Europa com tudo pago, andando pelas ruas o dia inteiro, e que isso era o meu trabalho.

As pessoas geralmente não tem uma noção clara de que a parte do nosso trabalho que é vista nas vitrines, em desfiles, catálogos e editoriais é, normalmente, resultado de muito trabalho, e que esse trabalho é, em geral, bem chato.
Sem falar das horas extras e cronogramas curtos, que não são exceção nessa área – são regra. Além disso, se o trabalho é feito com equipes maiores e em marcas grandes, é bem comum haver desentendimentos entre as pessoas, joguinhos de interesse e coisas desse tipo, que podem tornar o dia a dia mais desgastante do que o necessário.
E, claro, há o velho mito de que “Todo estilista é veado”. Nem todos. Conheci um ou dois que não eram. ;-)
Em moda, a máxima “Sede não é nada, imagem é tudo” é levada bem a sério por muita gente, em todos os sentidos possíveis. Eventualmente isso faz as pessoas fazerem coisas que não me deixam orgulhoso da categoria.
Em moda nem há escolha sobre isso. As mulheres estão ao redor o tempo todo, em todos lugares. Isso tem suas vantagens, claro, mas quem convive com apenas uma mulher sabe que nem tudo são flores.
O negócio é fazer um calendário de TPMs, cruzar os dedos e ir trabalhar.

Retrato de João Paulo II
Além de fazer um calendário de TPMs e cruzar os dedos, é indispensável ter uma boa noção de estética, saber desenhar, juntar algum conhecimento técnico e montar um bom portifólio.
Depois disso, fazer uma faculdade pode ser bom.
Se seu trabalho for bom e render bons resultados (em termos de venda e fortalecimento de marca, especialmente), você não vai precisar levar muito a sério a regra “Sede não é nada, imagem é tudo”.
Pode parecer bobo, mas saber disso pode significar uma forma de manter as relações saudáveis e ter um estilo de vida mais tranquilo (e barato) trabalhando com moda.
Gosto muito de música, artes e toda a bobagem estética, então estou sempre um pouco envolvido com essas coisas. Toco guitarra e violão numa banda de guitar rock (www.vacine.euro.tm), mas queria mesmo é estar num trio de world jazz.
Estou vinculado a um escritório de design (www.arandudesign.com.br). Gosto de desenhar com penas, pincéis e nanquim, sumiê e caligrafia tibetana. Pratico meditação sob orientação do lama Padma Samten (www.cebb.org.br | www.bodisatva.org.br).
Gosto de ir pra montanha e de remar, eventualmente.

Ensaio da banda Vacine
Você quer fazer uma pergunta pra si mesmo e respondê-la?
Não. ;-)
Para falar com o Fabio, além de usar os comentários aqui, você pode encontrá-lo no Facebook e no Twitter (@iodris).
* Conhece algum profissional perfeito para essa séries de entrevistas? Massagista, coveiro, dublador, ator pornô, vendedor de cachorro quente, garçom, diplomata, pirata, mergulhador… Envie sua indicação para gitti arroba papodehomem.com.br
Quase professor de TaKeTiNa, baterista sem bateria, meditante que não medita, ex-bolsista de dança de salão, ex-estudante de filosofia e ex-solteiro. É editor do PapodeHomem, autor do Não2Não1, colunista da revista Vida Simples e caseiro da Cabana PdH. No Twitter: @gustavogitti.
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