Criamos uma seção com o melhor do PdH. Vai lá ver e deixa nos seus favoritos. →
​​​​​

Expedição Rio Negro, rumo ao coração da Amazônia

Guilherme Nascimento Valadares

por
em às | Aventuras e celebrações, Frentes, Hotmail, Mecenas


Em novembro de 2010, embarquei rumo a Manaus para participar do TEDx Amazônia, cujo tema foi qualidade de vida para todas as espécies do planeta.

Entre os palestrantes estavam um construtor de oásis, um ativista do meio ambiente que seria assassinado brutalmente meses depois, um pesquisador florestal, um investigador forense, o Lama Padma Samten, um capturador de sons, um viajante falando sobre merda, um designer inventor, um surfista em busca de recorde impensáveis e até mesmo um palhaço. Não me lembro de todos, apenas da sensação de muito a se fazer no mundo e mais pessoas incríveis soltas por aí do que se imagina. Foram dois dias fervilhantes, sobrecarga sem igual de novas ideias.

Ao fim, a maior parte dos 400 participantes voltou pra casa. Eu e Felipe ficamos, nosso destino era outro. Junto a outros poucos, formamos um grupo que, liderado pela Aoka, viajaria quatro dias Rio Negro adentro.

Narro aqui os principais trechos da expedição. Antes de começar, dê o play abaixo.

***

Nossa embarcação e casa, o Jessé Silva I.

Esse aí já subiu o Rio e voltou inúmeras vezes

Ali descobrimos o prazer de dormir em redes, embalados pelos sons da floresta e do rio. Na primeira noite, os borrachudos se apresentaram. O incauto que vos fala foi brindado com 70 picadas (contei cada uma) ao puxar uma soneca à tarde, acordando somente em plena madrugada. Dormir somente com repelente até as narinas e/ou mosquiteiro.

Os remanescentes do dia lendo antes de dormir...

***

A primeira caminhada. Duas horas em calor sufocante, em busca da fauna e flora locais. Parecia duro, mas foi apenas uma maneira de nos preparar para os próximos dias.

Nosso guia era experiente, já tendo conduzido expedições do canal Discovery pela Amazônia

***

Visita a uma das inúmeras vilas ribeirinhas. População sobrevive com parco comércio e agricultura de subsistência, basicamente. Pouco depois da foto desabou uma belíssima tempestade.

Representante da vila nos contando mais sobre o modo de viver local

À noite saímos na voadeira em busca de jacarés do papo amarelo. Conseguimos avistar três deles após quase duas horas. O capitão insano pulou na água e tentou pegar um filhote com as mãos. É uma prática considerada não-suicida de lazer por lá.

***

Ao longo do Rio Negro, há pequenos paraísos particulares. Nessa praia encontramos uma cobra, uma arraia de água doce morta e aproveitamos para pegar a voadeira e sair para pescar piranhas enquanto escutávamos boas histórias do capitão do barco.

À noite, improvisamos um lual na beira da praia com direito a música ao vivo, drinks e uma peixada salivante – não, não comemos as piranhas.

***

- Pular para um mergulho aqui é perigoso? (estávamos na parte mais funda do rio)

- Não muito. Tem umas piranhas, arraias, jacaré e baiacus, mais ou menos como em qualquer outro lugar do rio…

Enfrentando medos, e jacarés

Após o salto, passamos por uma pequena ilha e escutamos um barulho de máquina. Chegamos mais perto, eram motosserras. Ali não pegava celular para denunciarmos. E se a denúncia fosse feita, seria quase impossível explicar a ilha exata onde o desmatamento estava sendo feito. Alguém sugeriu empurrar as canoas dos criminosos no rio, já que eles estavam no meio da mata. Era uma possibilidade, mas com o risco de sermos recebidos por balas.

No final das contas, voltamos para nossa embarcação nos sentindo impotentes e frustrados com a realidade.

***

Esse foi o dia mais harcore, disparado. Caminhada na selva durante toda a tarde e início da noite. Calor infernal, usando botas e calça pra nos proteger dos insetos, aranhas e cobras. O destino era uma cachoeira deliciosa, ao menos isso.

Ao final do dia, montamos acampamento pra passar a noite na mata. As picadas dos borrachudos estavam inflamadas a essa altura e como eu estava completamente suado, a ânsia de me coçar era terrível. Para amenizar a situação, nosso guia preparou frango e peixe assado, em uma grelha feita na hora com galhos e folhas de bananeira.

Seu Manuel, xerife local da mata, caminha *descalço*! Uma mistura de Frodo com McGyver.

***

No último braço da aventura, escalamos uma árvore de 35 metros. Pelas fotos não parece tanto, mas o cagaço ao chegar lá no alto é impressionante. Mal conseguir sacar minha câmera do bolso.

Exaustos após o feito anterior, visitamos uma tribo indígena reclusa. Realizaram para nós duas danças rituais hipnotizantes – uma para invocar a fertilidade e outra usada em preparação a batalhas.

Na última noite, uma tempestade de relâmpagos e chuva leve tomou conta da noite. Em meio ao breu absoluto, cada novo e silencioso relâmpago nos permitia vislumbrar o rio e a mata. Nenhum trovão, apenas luz, chuva e o silêncio. Fui dormir às 3am somente. Espetáculo inesquecível.

***

O retorno a Manaus foi silencioso, não teria como passar por cada detalhe da viagem sem escrever um livro. A combinação das palestras do TEDx com a experiência visceral dentro da mata foi única. Até hoje uma das jornadas mais intensas de toda minha vida. A expedição ao Rio Negro é uma recomendação a qualquer pessoa interessada em conhecer mais sobre si mesmo, a selva e o quão vasto é nosso mundo. Por fim, deixo grande abraço ao time da Aoka, que estruturam todo o roteiro com enorme zelo.

E vocês, quais jornadas e aventuras têm feito?

Mecenas: Hotmail


YouTube

O blogueiro Nick Ellis do Digital Drops foi convidado a testar o Hotmail e encarou um desafio: colocar o Rio Amazonas inteiro dentro do SkyDrive, que está com cada vez mais espaço. Como você pode ver no vídeo, ele foi bem equipado.

Mecenas PdH: Você leu um texto apoiado por uma empresa. Conheça nossa política de transparência e conteúdo livre de amarras.
Guilherme Nascimento Valadares

Focado em comunidades digitais, conteúdo e desenvolvimento humano há bom tempo. Na interseção desses três pilares, surgiram o PdH, o Escribas e O LUGAR (ex-Cabana). Formado em Comunicação, atuei alguns anos como estrategista digital.


Outros artigos escritos por

Somos entusiastas do embate saudável

O texto acima não representa a opinião do PapodeHomem. Somos um espaço plural, aberto a visões contraditórias. Conheça nossa visão e a essência do que fazemos. Você pode comentar abaixo ou ainda nos enviar um artigo para publicação.


EXPLODA SEU EMAIL

Enviamos um único email por dia, com nossos textos. Cuidado, ele é radioativo.


TEXTOS RELACIONADOS

Queremos uma discussão de alto nível, sem frescuras e bem humorada. Portanto, leia nossa porra de Política de Comentários.


  • http://www.facebook.com/thi.cmartins Thiago Martins

    Cara, ultimamente eu estou pensando seriamente em fazer uma viagem dessas.
    Falta só tempo e grana hahahahah

    A um tempo atrás, se viessem falar sobre viagens assim, eu ficaria meio de cara fechada.. gostava mais do movimento da cidade, mas ultimamente estou vendo as coisas com outros olhos.
    As coisas mais simples são as mais belas e prazerosas!

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Passar a noite em pleno Rio Negro, dormindo na rede, apreciando uma tempestade silenciosa de relâmpagos sob o som suave da água e dos botos. Sim, dos botos.

      Cara, não tem preço…

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Realmente parece ser uma experiência interessante!

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Já fez algum tipo de expedição, Leonardo?

      • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

        Até hoje não, mas dá uma certa vontade de fazer depois de ver as fotos.

  • http://tenholaminhasduvidas.blogspot.com/ Marcelle Gália

    Nasci numa vila militar por essas bandas (Tabatinga, fronteira com a Colômbia e o Peru) e desde 1995 não piso por lá. É absolutamente outra realidade. Os índios (Ticunas) passam de porta em porta vendendo redes e artesanatos em geral (ah, como é gostoso dormir em rede…). O calor é de lascar, chove ao final de todo dia e os mosquitos não perdoam. 
    Comi de tudo nessa época: rabo de jacaré, cérebro de macaco, rã frita (eu era inocente, me empurravam essas coisas). Hoje me dá embrulho no estômago só de lembrar. Da comida, só sinto saudade dos bombons de cupuaçu. 
    Ainda quero voltar, por diversão, não moradia. Falta uma companhia com espírito aventureiro.

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Seu comentário me lembrou imediatamente dessa cena clássica de Indiana Jones, Marcelle:

      http://www.youtube.com/watch?v=PYeWA5zY8Wo

      • http://tenholaminhasduvidas.blogspot.com/ Marcelle Gália

        AHAHAHAHA boa!

  • http://www.twitter.com/lucinda_mateus Lucinda Mateus

    Que sensações que o texto me passou heim GNV, deu uma puta vontade de experimentar…largar os luxos da vida e das viagens comuns e embarcar (literalmente) numa experiência como a sua… clap clap pra vc e para o Fe, pela coragem e pelos relatos..

  • Artur

    acho que em um lugar desses eu me mataria 

    desculpa mas sem caminha quente , comida boa , internet tv e prostitutas eu não vivo

    • http://tenholaminhasduvidas.blogspot.com/ Marcelle Gália

      difícil viver sem prostitutas ou sem a vovó? 

    • http://about.me/albertobrandao Alberto Brandão

      Conte mais sobre como é ser um adulto mimado?

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        Pensei parecido, Brandão.

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        Pensei parecido, Brandão.

      • Artur

        Posso lhe garantir sem ironia que é a mesma coisa de não ser

  • Sheila Benjamin

    borrachudos não, carapanãs.  :) 

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      carapanãs. taí, adicionado ao vocabulário, Sheila.

    • http://www.facebook.com/people/Reysi-Pegorini/1398276764 Reysi Pegorini

      Eu iria fazer essa ressalva,…Aqui no Amazonas, nós chamamos de carapanãs, aliás não precisa chamá-los eles encontram o caminho sozinhos (piadinha que meu mateiro sempre faz comigo).

  • http://www.facebook.com/people/Reysi-Pegorini/1398276764 Reysi Pegorini

    Guilherme, o que você sentiu quando chegou no Rio Negro e viu aquela imensidão?, eu chorei, hahaha é surreal. Conheço o cerrado, o pantanal, Amazônia Meridional, conheci lugares lindos, mas o Negro sempre me emociona. Bem eu sou suspeita pra falar, to adorando essa série de textos. Minha próxima expedição será depois de amanhã, ficarei durante 30 dias em uma Reserva Biológica, que tem como seu rio principal o Uatumã, que é um afluente do Amazonas, é um rio de água preta como o Negro e depois dessa ficarei 15 dias na Reserva Mamirauá, estudando um pouco da biologia dos jacarés, que são o grupo alvo estudado por lá. Inclusive uma ressalva no texto, se não me engano jacaré de papo amarelo não tem distribuição na Amazônia Central, apenas nordeste,sudeste e sul do país, talvez seja o jacaré tinga que vocês tenham encontrado que é do mesmo gênero,pode confundir um pouco. Um livro muito legal, que eu recomendo, é Quando o Amazonas Corria para o Pacífico - Evaristo Eduardo de Miranda, conta a história de milhões de anos atrás quando não existia os Andes e o Rio Amazonas corria pra lá, depois como foi sua ocupação, uso da terra, a chegada dos portugueses, e outros fatos. É um livro da área ecológica mas super fácil de ler, linguagem simples, e pra quem tem interesse de conhecer a história da Amazônia deveria começar por ele. Ótimo texto Guilherme,parabéns ao Pdh e ao hotmail =)

  • http://www.facebook.com/vitordoisab Vítor Moreira Barreto

    Guilherme, ótimo relato! Deu para perceber como deve ter sido essa experiência. Gostei especialmente de como você conseguiu aliar a viagem à reflexão e introspecção:
    “A expedição ao Rio Negro é uma recomendação a qualquer pessoa interessada em conhecer mais sobre si mesmo, a selva e o quão vasto é nosso mundo.”

    • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

      Esse é o meu desafio ao escrever relatos: tentar transmitir as sensações da viagem. Objetivo atingido, ao que parece.

  • http://www.queropensar.com.br/ Cleyton Bruno

    Guilherme, inveja cara. MUITA inveja!

    Senti aqui o incômodo das picadas, o medo de altura e a indignação com o desmatamento. É incrível como as emoções passam através das palavras.

  • Vitortorga

    Eu estava lá… sentado no barco perscrutando o horizonte… a imensidão negra da floresta murava e murmurava vida sobre o sólido dourado prata do rio Tapajós, sugando os restos de luz daquele céu fugidio… e compreendi a beleza de que tudo estava, acontecia, vivia e morria ali, e de novo… mas eu não pudia ver, não havia tempo para saber, para presenciar todos os mistérios… aquilo não visto…  nesse dia, desejei como nunca ser eterno… Uma onda de inferioridade abateu-se. Rachou o casco e me fez afundar. Outra onda, mais forte, de vergonha, ralhou-me para um lado e para o outro, sem chance nenhuma de reação. No final, só restava um olhar vazio, inerte diante daquele turbilhão de caos etéreo, mutável e inexorável. Quanta paz. Quanta prepotência. O que nós fizemos? Tudo será perdoado?

  • Helena Sena

    Olá Guilherme, li esse artigo e achei muito interessante, que aventura nheim amigo? muito bacana o seu site, curti também seu facebook, parabéns à todos vocês, muito sucesso!…abraços

  • Pingback: América do Sul: 100 destinos | PapodeHomem

Papo de homem recomenda

Assine o Papo de homem

Curta o PdH no Facebook
  • 4412 artigos
  • 595656 comentários
  • leitores online

Lifestyle Magazine