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Escrever, um musical solitário

Rodolfo Viana

por
em às | PdH Shots


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Durante a faculdade, tropecei na seguinte frase do jornalista, escritor e professor Felipe Pena:

“Eu escrevo porque não sei fazer música. Se soubesse ler partituras e articular notas harmônicas, não me arriscaria nessas linhas tortas e analfabetas.”

É uma reflexão de Pena sobre o jornalismo literário, gênero onde ocorre a pororoca da precisão jornalística com as técnica da literatura. Mais adiante, Pena dá um conselho mínimo:

“Não perca tempo com a literatura. Muito menos com o jornalismo. Preocupe-se apenas com a melodia.

Este conselho, por mais simplório que soe, é a base de toda boa literatura. (Parece contraditório pedir ao escritor que se desapegue da literatura para ocupar-se da melodia, mas são coisas complementares, e não opostas. Fica a lição: toda boa literatura é boa devido à melodia.)

Isso faz do processo de escrita um musical solitário.


Link YouTube | Bach foi o ghost-writer deste texto de Mstislav Rostropovich, o maior violoncelista do século XX (que começou a estar morto em 2007)

Quando você se depara com uma escrita que lhe atiça os sentimentos, que lhe arranca lágrimas ou inspira sorrisos, cuja história fica adejando sua mente por uma vida inteira, é porque você foi encantado pela melodia do texto, por sua musicalidade, pelos tons e semitons de cada frase.

Há quem escreva linhas em bemol.

Há quem se dedique a parágrafos sustenidos.

Isso fica cada vez mais claro para mim. Eu comecei há pouco a colecionar (e compartilhar numa fan page no Facebook) parágrafos de livros que gosto. O primeiro trecho que lá publiquei é de Alejandro Zambra, escritor chileno que acaba de chegar ao Brasil com a novela Bonsai:

“Ambos tinham quinze anos quando começaram a sair, mas quando Emilia completou dezesseis, e dezessete, o lerdo continuou tendo quinze. E assim por diante: Emilia completou dezoito, e dezenove, e vinte e quatro, e ele quinze; vinte e sete, vinte e oito, e ele quinze, até os trinta anos dela, pois Emilia não continuou fazendo anos depois dos trinta, e não porque a partir de então tivesse decidido ir diminuindo a idade, mas porque poucos dias depois de completar trinta anos Emilia morreu, e então não fez mais aniversário porque começou a estar morta.”

Emilia não fez mais aniversário porque “começou a estar morta”.

Havia tempos que eu não lia algo novo (ou seja, literatura feita recentemente) e tão forte como o trecho “começou a estar morta”. Isso me faz pensar na morte que, tendo um começo, terá do outro lado um fim. E um meio.

Isso daria uma ópera, não?

Leia mais reflexões sobre a arte da escrita:

Rodolfo Viana

É jornalista. Torce para o Marília Atlético Clube. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]


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  • Erivelton Lima

    Muito bom , Grande tema!

    Me fez recordar de boas leituras e tentando associar com suas respectivas melodias, alguns contos de Bukowski com certeza seriam um puro heavy metal do bons.

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    lindo texto.

    belo vídeo.

  • Cassio Ruggeri Cons

    Verdadeiríssimo. Palavras bonitas não entretêm, o que atiça os sentimentos, como vc mesmo disse, é o ritmo que as palavras dão a uma história. É a melodia.
    Belíssimo.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100001612135013 Tiago Oliveira

    Penso que escrever é questão de sentir: É canalizar tudo aquilo que não se sabe dizer, ou definir, através dos dedos (Seja Lápis, carvão ou teclado)… Talvez haja o minimo de “pensar” na coisa. Você apenas sente (A melodia?) e a deixa escorrer para o papel… No fim o texto parece vivo.

  • Marcela Lima

    “Começou a estar morta” realmente, é uma expressão nova que dá muito em que pensar! Adorei o texto, o tema, e é claro, a música!

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Legal o texto. Eu acho que para quem tenta escrever como amador sempre há um interesse em saber como aqueles que fizeram da escrita um ofício pensam na obra.

  • Marcos Augusto Nunes

    Lembro da conversa wagneriana da “obra de arte total”. Música, literatura, pintura, escultura, arquitetura, tudo tem seus alcances e seus limites. A obra de arte total é a soma impossível de todas as manifestações humanas, quer artísticas ou não. Algo inapreensível em um movimento musical ou numa frase brilhante, numa mancha de tinta ou na Pietá de Michelangelo. Malogro, frustração, impotência. A gente tem que se acostumar com isso, como também com começar a morrer desde o primeiro instante de vida.

  • http://www.agoramesmo.wordpress.com/ Nardele Gomes

    Putz. Bingo.

  • http://twitter.com/BrisaFeliz Fernanda Magalhães

    “Isso faz do processo de escrita um musical solitário”

    Sim, sim!

    A escolha do vídeo foi de muito bom gosto.

  • http://twitter.com/isabellaianelli Isabella Ianelli

    Uau!

    É isso.

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