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Empresas legais que salvam os nossos cachorros e depois morrem

Alex Castro

por
em às | Artigos e ensaios, Relatos


Participei da maior migração forçada da história. Dois milhões de pessoas tendo que abandonar suas casas ao mesmo tempo, graças à maior tragédia ambiental dos Estados Unidos e uma das maiores do mundo. Durante toda essa provação, com tanta coisa que eu deveria ter na cabeça, só conseguia pensar no meu cachorrinho.

A Continental Airlines voou mais de catorze missões de resgate de animais durante o Katrina. A empresa emprestou os aviões e pagou os custos, os funcionários voluntariaram seu tempo. Catorze aviões lotados de cães e gatos saíram de Nova Orleans — estima-se que o furacão Katrina matou cerca de 600 mil animais de estimação.

Mais tarde, a empresa transportou de graça os animais que tivessem sido separados dos donos. O meu Oliver, resgatado por um fotógrafo sino-americano e levado para Washington, foi enviado gratuitamente para mim em São Francisco, onde fui parar depois de rodar meio país. A Continental praticamente não fez propaganda disso. Eu só ouvi falar porque fui especificamente beneficiado.

Aí está o Oliver, todo feliz de estar sendo resgatado após 9 dias trancado sozinho em casa

Falem com qualquer criador, e a resposta é unânime: a Continental era, longe, a melhor empresa para transportar animais. Viajei com o Oliver duas vezes por ano durante seis anos, e a boa vontade e o cuidado dos funcionários da Continental nunca parou de me impressionar.

Finalmente, na última viagem do Oliver, quando retornei definitivamente para o Brasil, aconteceu um chabu seríssimo que quase inviabilizou toda a minha volta. Vinte minutos no telefone com a representante da Continental “para assuntos caninos” resolveram o irresolvível que nenhuma outra companhia quis resolver. E o Oliver ainda passou um fim de semana no pet-center da Continental em Houston antes de sua vinda definitiva para casa.

Agora, a Continental e a United se fundiram e, apesar da Continental ser consistentemente melhor avaliada que a United em tudo, decidiu-se que seria o nome da Continental a desaparecer. Em breve, provavelmente, a cultura interna da Continental vai se diluir dentro da nova United e restará somente uma megaempresa aérea, sem rosto e sem liquidez, como tantas.

Semana passada, a Continental fez seu último voo e eu fiquei triste, mesmo sabendo que é uma empresa fria, que não é uma pessoa, que ninguém deve carinho a empresas, blá blá blá.

Mas a gente passa a vida inteira lidando com empresas, como funcionário ou fornecedor, cliente ou consultor, e não dá pra negar que elas têm culturas, têm personalidades, têm climas. Existem empresas onde os funcionários claramente se sentem cuidados e felizes de estar lá, e outras onde todos parecem não só sofrer, como dispostos a passar esse sofrimento aos clientes e fornecedores. Em dez anos de consultorias de internet, a melhor empresa para a qual prestei serviços foi a Casa & Vídeo, que também não teve um destino dos melhores, enquanto a pior e mais escrota (que obviamente não vou nomear) só faz crescer. O mundo corporativo não é justo.

Mas, hoje, agora, o Oliver acabou de espreguiçar muito gostoso aqui na minha cama e, sabe?, que se foda, fico triste sim pela Continental.

Vocês podem dizer que ela continua viva dentro da United, assim como podem dizer que eu continuarei vivo dentro dos vermes que roerem minhas frias carnes, mas aquilo que fazia da Continental uma entidade com cultura própria se acabou. Que ela descanse em paz no céu das empresas felizes.

* * *

A história completa do Katrina e do resgate do Oliver está contada no meu livro Liberal Libertário Libertino, à venda aqui pelo PapodeHomem.

Oliver.

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // todos os meus textos são rigorosamente ficcionais. // se gostou, me siga no facebook, compre meus livros ou faça uma doação. // não leio comentários dos meus textos. para falar comigo, mande um email.


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  • http://www.facebook.com/marcelorraposo Marcelo Raposo

    O objetivo de uma empresa é ter lucro.
    Muitas se desviam desse objetivo e acabam quebrando.

    É triste, mas não podemos esperar que as empresas ‘boazinhas’ continuem desse modo por muito tempo, ou elas se direcionam ao lucro ou quebram.
    Aí é questão de unir o útil ao agradável. Quer ser bonzinho? Tente arranjar maneiras para que isso tenha um retorno lucrativo. A Continental poderia ter  divulgado amplamente essa boa ação e, com certeza, cairia nas graças do público.

  • Marcos Augusto Nunes

    Nas Asas da Panair, me lembrei disso na hora. Ok, a canção se chama Conversando no Bar e, na verdade, alude a outras saudades e outras liberdades perdidas após o golpe de 64 e a perseguição deste à Panair, que resultou na sua extinção, mas é isso: empresas, mesmo não sendo gente, associam-se a experiências e passam a contar com nossa simpatia, ganhando o corpo das pessoas simpáticas que elas empregam por vezes, embora as diretorias, invisíveis, permaneçam no limbo dos sonhos de lucratividade.

  • pierre dechery

    Poderia explicar porque a Casa&Vídeo não “teve um destindo dos melhores”? Aqui no Rio ela continua bombando, com lojas em shoppings e bairros. Há alguns anos atrás ela ameaçou fechar devido a uns problemas, mas isso parece que já foi superado…

    • http://www.alexcastro.com.br Alex Castro

      a empresa meio que quebrou, todo mundo meio que foi preso, foi meio que feio…

  • rosa

    Pois eu acho que não é assim, não. Empresas boazinhas tem clientes fiéis, como eu e o Alex, que sempre fazem questão de fazer a propaganda do bem.  O Alex tem a Continental, eu tenho as minhas, algumas desaparecidas também, mas a fusão NÃO foi porque a Continental não era “money-oriented”. Na verdade a United é maior e comprou uma empresa que dá lucro, mas é menor, para poder se beneficiar justamente do menor tamanho com o mesmo lucro. Ambev também fez isso e quero que alguém me convença de que a Antartica e a Bhrama não davam lucro.
    Isso é ruim porque a empresa menor perde “calor humano” (eu sei que não existe isso numa empresa, mas vcs entendem o que eu estou dizendo, né?). É triste mesmo. O mundo vai ficando cada vez mais corporativista e a gente cada vez menor no mundo…

  • Victor

    “Semana passada, a Continental fez seu último vôo
    e eu fiquei triste, mesmo sabendo que é uma empresa fria, que não é uma
    pessoa, que ninguém deve carinho a empresas, blá blá blá.”… como dono do classe média sofre precisava justificar esse sofrimento né hahahaha

  • Rodrigosmc_

    Tem que ter calma, a United pode manter os funcionários e pelo menos na área dos animais de estimação pode até melhorar

  • http://twitter.com/vidadeleticia Letícia Fernández

    Oliver, esse lindo que me despreza! <3

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